Guerra e Paz é um díptico mural do pintor brasileiro Candido Portinari, criado entre 1952 e 1956 e oferecido pelo governo brasileiro à Organização das Nações Unidas (ONU) em 1957. Os dois painéis ocupam paredes opostas no saguão dos delegados do Edifício da Assembleia Geral, na sede da ONU, em Nova York. Cada composição tem cerca de 14 metros de altura por 10 metros de largura.
Nas paredes do saguão, a passagem de um painel ao outro acompanha duas condições humanas opostas. O azul de Guerra envolve mães com crianças mortas, grupos ajoelhados, cadáveres velados, feras e os Quatro Cavaleiros do Apocalipse. A violência não tem país, data ou campo de batalha. Não há soldados, armas ou cenas de vitória. Há corpos tomados pelo medo e pelo luto. Em Paz, amarelos luminosos cobrem o trabalho no campo, a colheita, a música, a dança e as brincadeiras infantis. A paz é pintada como alimento, abrigo e convivência. Retirantes, trabalhadores rurais e crianças de Brodowski dão à mensagem internacional dos murais um vocabulário formado na experiência brasileira. Os delegados encontram Guerra ao entrar no edifício e Paz ao sair. A disposição coloca o sofrimento antes das sessões da Assembleia e a possibilidade da paz ao final do percurso.
A obra nasceu de cerca de 180 estudos preparatórios elaborados ao longo de quatro anos. Portinari executou os painéis definitivos em nove meses, mesmo depois de receber advertências médicas sobre a intoxicação causada pelos pigmentos. Ele chamou o conjunto de "trabalho da minha vida". Antes do envio a Nova York, os murais foram expostos no Theatro Municipal do Rio de Janeiro. Foi a única ocasião em que Portinari os viu completamente montados. O artista não compareceu à inauguração na ONU devido à sua ligação com o Partido Comunista Brasileiro. Na cerimônia de 1957, o secretário-geral Dag Hammarskjöld chamou o díptico de "a maior obra monumental oferecida às Nações Unidas".
O acesso aos painéis ficou restrito por décadas ao saguão usado pelas delegações. A retirada das obras durante a reforma da sede da ONU permitiu sua restauração e exposição pública no Brasil e em Paris entre 2010 e 2014. Centenas de milhares de pessoas passaram pelas mostras antes da reinstalação em Nova York. Na segunda cerimônia da apresentação pública dos murais, em 2015, o secretário-geral Ban Ki-moon chamou os murais de "um chamado à ação". Reinstalados no mesmo saguão, Guerra permanece diante de quem entra e Paz diante de quem sai.
Encomenda e produção
thumb|Os painéis na sede das Nações Unidas
A encomenda de Guerra e Paz teve origem no início da década de 1950, quando o governo brasileiro decidiu oferecer uma obra de arte de grandes proporções às Nações Unidas. Portinari iniciou os estudos para os painéis em 1952 e concluiu as obras em 1956. O tema foi escolhido em consonância com o propósito fundador das Nações Unidas após a Segunda Guerra Mundial e com o compromisso da organização de prevenir guerras e promover a paz.
Em 1952, enquanto concluía uma encomenda do Banco da Bahia que retratava a chegada da família real portuguesa à Bahia, Portinari iniciou seus estudos para Guerra e Paz. Os murais definitivos foram pintados a óleo sobre madeira compensada naval ao longo de nove meses. Portinari contou com a colaboração dos pintores Enrico Bianco e Maria Luiza Leão.
Antes de os painéis serem enviados para Nova York, o presidente Juscelino Kubitschek inaugurou uma exposição das obras no Theatro Municipal do Rio de Janeiro em 1956. Foi a primeira e única vez que Portinari viu os dois murais completamente montados. Na abertura, Kubitschek entregou ao artista a medalha de ouro do Conselho Internacional de Belas-Artes, que o havia eleito o melhor pintor de 1955. Portinari também recebeu o Prêmio Guggenheim do Brasil em 1956.
Na abertura, Juscelino Kubitschek entregou a Portinari a medalha de ouro do International Fine Arts Council e declarou:
O artista produziu aproximadamente 180 estudos preparatórios ao longo de quatro anos e, em seguida, pintou os painéis definitivos em nove meses. A obra foi produzida durante a última década da vida do artista, quando ele sofria os efeitos da intoxicação provocada pelos pigmentos que utilizava. O Projeto Portinari descreve os murais como sua contribuição mais universal.
A decisão de Portinari de pintar os painéis apesar das advertências médicas tornou-se parte da história da obra. Durante a elaboração dos estudos preparatórios, os médicos o haviam aconselhado a não pintar, devido ao risco de uma nova intoxicação pelas tintas, mas o artista prosseguiu com a encomenda.
Composição e iconografia
Estrutura do díptico
Os dois murais foram concebidos como partes complementares de um único discurso visual, mas se opõem na organização cromática e no efeito expressivo. Em Guerra, predominam azuis frios e escuros, associados à melancolia e ao sofrimento; em Paz, o amarelo e outros tons quentes e luminosos prevalecem sobre os azuis remanescentes. Há ainda uma diferença compositiva: embora ambos tenham estrutura vertical, Paz se organiza em faixas horizontais. Para o crítico Israel Pedrosa, a oposição entre a "sinfonia em azul" de Guerra e os tons dourados de Paz estabelece um contraponto tonal entre o cataclismo e a vida comunitária.
Guerra
Em vez de representar uma batalha determinada, Guerra elimina armas identificáveis, soldados e episódios militares específicos e concentra-se nas consequências da violência para a população civil. As figuras aparecem em grupos: ajoelhadas, encurvadas, com os braços erguidos ou com as mãos no rosto. Esse arranjo representa uma humanidade que “chora junto”; o sofrimento, portanto, não é apresentado como experiência isolada de um herói ou de uma vítima individual, mas como luto coletivo, no qual subsiste a solidariedade entre os atingidos. A ausência de referências a um conflito particular também amplia o alcance da cena: Portinari não identifica guerra alguma, como se todas se equivalessem na produção de horror e desumanização.
Entre os grupos de enlutados encontram-se cadáveres velados e mulheres que sustentam crianças mortas, motivo que Mariani e outros intérpretes aproximam da Pietà. A historiadora da arte Annateresa Fabris relaciona a formulação expressiva dessas figuras tanto ao impacto de Guernica quanto à série Retirantes, na qual Portinari já havia tratado a morte infantil e o deslocamento. No díptico da ONU, porém, as mães deixam de pertencer apenas ao drama social brasileiro e passam a figurar uma dor de alcance universal. A ameaça que produz esse sofrimento é condensada, no canto inferior direito, nos Quatro Cavaleiros do Apocalipse, dispostos acima de feras e reiterados como sombras em outras partes da composição. A cavalgada é associada às ideias de conquista, guerra, fome e morte; as figuras animais, por sua vez, prolongam visualmente a noção de violência predatória sem converter o mural em narrativa literal de um campo de batalha.
Paz
Paz responde a esse universo por meio de cenas da vida cotidiana. A composição reúne trabalho rural e colheita, festas, música, dança e brincadeiras infantis. Há crianças em gangorras, dando cambalhotas, dançando e cantando em coro; essas ações foram concebidas para transmitir a “doçura da paz”. A iconografia do painel é resumida na tríade "trabalho, festa e brinquedo" e relaciona as cenas de colheita, os coros e os jogos à memória da vida no interior. Já a comunhão no trabalho produtivo, a ciranda e os folguedos infantis convertem a paz em experiência coletiva, e não apenas em ausência de combate. Assim, motivos recorrentes na obra de Portinari — o trabalhador rural, a infância de Brodowski e a cultura popular — são reorganizados como imagens de convivência, confiança e renovação.
Relação com Guernica
Portinari viu Guernica, de Pablo Picasso, nos Estados Unidos em 1942. Nas obras posteriores, desarticulou as figuras e reduziu os corpos aos gestos e formas necessários para comunicar dor e medo. Portinari empregou esses recursos na série Retirantes e voltou a utilizá-los em Guerra, nas mães com crianças mortas, nos grupos de enlutados e nos corpos dobrados pelo sofrimento. Mário de Andrade chamou essa aproximação de assimilação de uma "solução plástica", sem incorporação cega.
Guernica nasceu como resposta ao bombardeio da cidade basca em 1937. Guerra não fixa um conflito, território ou momento. Também elimina armas reconhecíveis, soldados e chefes militares. A escala de azuis do painel se completa diante dos amarelos de Paz. O segundo mural dá espaço ao trabalho rural, à colheita, à música e às brincadeiras infantis. O díptico combina recursos formais assimilados de Picasso com personagens e temas que Portinari já pintava no Brasil.
Instalação nas Nações Unidas
Os murais foram oferecidos às Nações Unidas pelo governo brasileiro em 1957 e instalados nas paredes leste e oeste do saguão dos delegados, no térreo do Edifício da Assembleia Geral.
Portinari não compareceu à inauguração devido à sua ligação com o Partido Comunista, e o Brasil foi representado na cerimônia pelo embaixador Ciro de Freitas Vale.
Durante décadas, os murais permaneceram em um espaço utilizado principalmente por delegados, diplomatas, chefes de Estado e outras autoridades que entravam na Assembleia Geral. Sua localização conferia-lhes uma posição simbólica central na ONU, mas nem sempre permitia fácil acesso ao público em geral.
Remoção, restauração e exposições
Remoção e retorno ao Brasil
Após mais de cinco décadas no Edifício da Assembleia Geral, os painéis apresentavam efeitos da exposição e das condições ambientais. Em 2010, a reforma da sede das Nações Unidas exigiu sua retirada. Os murais foram desmontados e enviados ao Brasil para restauração e exposição.
Os painéis chegaram ao Brasil em dezembro de 2010 e foram exibidos durante doze dias no Theatro Municipal do Rio de Janeiro. Mais de 44 mil pessoas visitaram a exposição.
Restauração
A restauração ocorreu durante quatro meses em um ateliê aberto ao público no Palácio Gustavo Capanema, então sede do Ministério da Cultura. Mais de seis mil pessoas acompanharam o trabalho no local.
O Projeto Guerra e Paz, organizado pelo Projeto Portinari com parceiros institucionais, coordenou os trabalhos no Brasil. A equipe realizou exames científicos, limpeza, conservação e documentação dos painéis. A limpeza retirou a poeira acumulada e tornou as cores novamente visíveis. A documentação reuniu informações sobre os materiais, a técnica e o estado físico das obras antes de seu retorno às Nações Unidas.
Exposições itinerantes
thumb|Os painéis durante uma exposição
Em fevereiro de 2012, os murais restaurados e quase cem estudos preparatórios foram expostos no Memorial da América Latina, em São Paulo. A exposição permaneceu aberta durante noventa dias e recebeu cerca de 200 mil visitantes.
Entre outubro de 2012 e janeiro de 2013, a Universidade de Fortaleza apresentou cerca de cinquenta estudos preparatórios originais.
Em outubro de 2013, os murais foram expostos no reaberto Cine Theatro Brasil, em Belo Horizonte. Mais de 80 mil pessoas visitaram a exposição em quarenta dias. Em maio de 2014, os painéis seguiram para o Salon d'Honneur do Grand Palais, em Paris, onde receberam mais de 35 mil visitantes.
Reinstalação nas Nações Unidas
Os painéis retornaram à sede da ONU e foram reinstalados em dezembro de 2014. Permaneceram cobertos no saguão dos delegados até 8 de setembro de 2015, quando ocorreu a segunda cerimônia de apresentação das obras.
No discurso da cerimônia, Ban Ki-moon chamou os murais de "um chamado à ação" e contrapôs o "terrível custo da guerra" ao "sonho universal da paz".
Interpretação e importância