A literatura persa () abrange dois milénios e meio de criação literária, apesar de muito do material pré-islâmico se ter perdido. As suas fontes são a região em que se situa o actual Irão bem como outras áreas da Ásia Central onde a língua persa é ou foi usada. Por exemplo, Molana, um dos mais amados poetas persas, nascido em Bactro (actual Afeganistão), escreveu em persa e viveu em Icônio, então capital dos Seljúcidas. Os gasnévidas conquistaram extensos territórios na Ásia Central e do Sul e adoptaram o Persa como sua língua da corte. Por essa razão há literatura persa em língua persa originária do Irão, Afeganistão e outras partes da Ásia Central. Nem toda esta literatura foi escrita em Persa, uma vez que alguns consideram as obras escritas por persas noutras línguas, como o ou o , como fazendo parte da literatura persa.

thumb|200px|Ilustração do "Jardim das rosas" de Jami, 1553. A imagem junta poesia e miniatura, como é habitual na maioria das obras literárias persas

Descrita como uma das grandes literaturas da humanidade,Arthur John Arberry, The Legacy of Persia, Publicado por Clarendon Press, 1953, ISBN 019821905, p. 200. a literatura persa tem as suas raízes nas obras sobreviventes escritas em Persa Médio e Persa Antigo, o último desde (a data da inscrição Aqueménida mais antiga, a Inscrição de Beistum). No entanto, a maior parte da literatura persa é a do período após a conquista islâmica do Irão, em cerca de Após a subida o poder dos Abássidas no ano 750, os persas tornaram-se os escribas e burocratas do Império Islâmico e, cada vez mais, os seus escritores e poetas. A literatura em Persa Moderno surgiu e floresceu nas regiões de Coração e da Transoxiana, por razões políticas - as primeiras dinastias iranianas, como os Taíridas e os Samânidas, tinham o centro do seu poder no Coração.Frye, R.N., "Darī", The Encyclopaedia of Islam, Brill Publications, Versão em CD.

Os persas escreveram tanto em Persa como em Árabe, predominando o Persa mais tardiamente. Poetas persas como Ferdusi, Saadi, Hafez, Attar, Rumi e Omar Caiame são mundialmente conhecidos e influenciaram a literatura em vários países.

Literatura persa clássica Literatura persa pré-islâmica

Sobreviveram muito poucas obras do período Aqueménida, em parte devido à destruição da biblioteca de Persépolis.Encyclopedia of Library and ... - Google BooksA maior parte do que ficou consiste nas inscrições reais dos reis Aqueménidas, em particular de (522-) e do seu filho . Muitos documentos Zoroastrianos foram destruídos aquando da Conquista Islâmica do Irão no . Os Parsis que fugiram para a Índia, no entanto, levaram com eles alguns dos livros do cánone Zoroástrico, incluindo partes da Avestá e antigos comentários (Zenda) a esta. Algumas das obras sobre Geografia e viagens da época Sassânida também sobreviveram, apesar de em traduções para Árabe. Nenhum texto de crítica literária do Irão pré-islâmico sobreviveu. Contudo, alguns ensaios em Persa Médio, tal como o "Ayin-e name nebextan" (Livro dos Princípios de Escrita) e o "Bab-e edteda 'I-ye" (Calila e Dimna), foram considerados como crítica literária (Zarrinkoub, 1959).Abdolhossein Zarrinkoub, Naqde adabi, Teerão 1959 págs:374-379.

Alguns investigadores citaram o Xo'ubiyye declarando que os iranianos pré-islâmicos tinham livros sobre a eloquência, como o "Karvand". Não restam traços desses livros. Há indícios de que alguns de entre a elite iraniana estavam familiarizados com a retórica e a crítica literária gregas (Zarrinkoub, 1947).

Literatura medieval e pré-moderna thumb|Uma cena do Épica dos Reis descrevendo o valor de

Apesar de inicialmente obscurecido pelo Árabe durante o Califado Omíada e o princípio do Califado Abássida, o Persa Moderno em breve se tornaria de novo uma língua literária da Ásia Central. O renascimento da língua na sua forma moderna é normalmente atribuído à geração de Ferdusi, Unsuri, Daquiqui, Rudaki, que usaram o nacionalismo pré-islâmico como forma de reviver a língua e os costumes do Irão Antigo.

Em particular diz Ferdusi no seu Épica dos Reis:

بسی رنج بردم در این سال سی عجم زنده کردم بدین پارسی

“Durante trinta anos, aguentei muita dor e luta, acordei os Ajam com a sua verdadeira identidade, Parsi”.

Poesia

Tão forte é a aptidão persa para versificar expressões do dia-a-dia que se pode encontrar poesia em quase todas as obras clássicas, seja de literatura persa, ciência ou metafísica. Em suma, a capacidade de escrever em verso era um pré-requisito para qualquer erudito. Por exemplo, quase metade dos escritos médicos de Avicena estão em verso.

As obras da primeira era da poesia persa pós-islâmica são caracterizadas por um forte patrocínio da corte; uma extravagância de panegíricos, e o que é conhecido como سبک فاخر "de estilo exaltado". A tradição de patrocínio real talvez tenha começado durante a era Sassânida e continuou através das cortes Abássida e Samânida até todas as grandes dinastias persas. A cássida era talvez a forma mais famosa de panegírico usada, apesar de as quadras tal como as do Ruba’iyyat de Omar Caiame também serem muito populares.

O estilo coraçane, cujos seguidores são maioritariamente associados com a região do Coração, caracteriza-se pela sua dicção rígida, tom digno, e uma linguagem relativamente erudita. Os principais representantes deste lirismo são Asjadi, Farrukhi Sistani, Unsuri, e Manucheri. Mestres do panegírico como Rudaki são conhecidos pelo seu amor à natureza, abundando nos seus versos descrições evocativas.

Através destas cortes e do mecenato emergiu o estilo poético do épico, sendo o seu mais alto representante o Épica dos Reis de Ferdusi. Ao glorificarem o passado iraniano em versos heroicos e elevados, ele e outros notáveis como Daqiqi e Asadi Tusi deram aos iranianos uma fonte de orgulho e inspiração que ajudou a preservar um sentimento de identidade dos povos iranianos ao longo das épocas. Ferdusi estabeleceu um modelo seguido por muitos poemas mais tarde.

O marca a ascensão da poesia lírica com o consequente desenvolvimento do ghazal como forma de verso, tal como o crescimento da poesia mística e Sufi. Este estilo é normalmente chamado o "Estilo Araqi" (as províncias ocidentais do Irão eram conhecidas como o Araq-e Ajam, ou Iraque Persa) e é conhecido pelas suas qualidades líricas e emocionais, métrica rica, e pela simplicidade da sua linguagem. A poesia romântica emocional não era, contudo, nova, como mostram as obras de Vis-o Ramin, de Assad Gorgani e de Iusof o Zuleikha de Am'aq Bokharai. Poetas como Sana'i e Attar (que ostensivelmente inspirou Rumi), Khaqani Xirvani, Anvari, e Nezami, foram escritores de ghazals altamente respeitados. Contudo, a elite desta escola foram Rumi, Sadi, e Hafez Xirazi.

A respeito da tradição da poesia de amor persa durante a era Safávida, o historiador persa Ehsan Yarxater nota: "Em regra, o amado não é uma mulher, mas um jovem homem". Nos primeiros séculos do Islão, os raides na Ásia Central produziram muitos jovens escravos. Estes eram também comprados e recebidos como presentes. Fazia-se os escravos servir como pajens na corte ou nas casas dos ricos, ou como soldados e guarda-costas. Homens jovens, escravos ou não, também serviam vinho nos banquetes e recepções, e os mais dotados podiam tocar música e manter uma conversa cultivada. Era o amor para com os jovens pajens, soldados, ou noviços de profissões e ofícios que era o objecto das introduções líricas a panegíricos desde o princípio da poesia persa e do ghazal."Yar-Shater, Ehsan. 1986. Persian Poetry in the Timurid and Safavid Periods, Cambridge History of Iran. Cambridge: Cambridge University Press, p.973-974. 1986

No género didáctico, pode mencionar-se o Hadiqat ul-Haqiqah (Jardim da Verdade) de Sanai, tal como o Makhzan ul-Asrar (Tesouro dos Segredos) de Nezami. Algumas das obras de Attar também pertencem a este género, tal como as principais obras de Rumi, apesar de alguns as classificarem como de tipo lírico devido às suas qualidades místicas e emocionais. Além disso, alguns tendem a agrupar, neste estilo, as obras de Nácer Cosroes. Contudo, as obras-primas deste género literário são o Bustan e o Gulistão de Saadi de Xiraz.

Após o , o estilo indiano de poesia persa (por vezes também chamado estilo Isfahani ou Safávida), dominou. Este estilo tem raízes na era Timúrida e produziu autores como Amir Khasrow Dehlavi, e Bhai Nand Lal Goya.The Tribune, Chandigarh, Índia - Punjabe

Ensaios

Os ensaios mais importantes desta época são o Chahar Maqaleh de Nizami Arudhi Samarcandi, tal como a compilação de eventos de Zahiriddin Nasr Muhammad Aufi, Jawami ul-Hikayat. A famosa obra de ibne Usmeguir , o Qabus Name (Um espelho para príncipes), é um trabalho muito estimado. Também muito valorizado é o Siyasatname de Nizame Almulque, um famoso vizir persa. O Kalile va Dimneh, traduzido de contos populares indianos, também pode ser mencionado nesta categoria. No contexto dos estudos literários persas é visto como uma colecção de adágios e não se considera ser folclórico.

Biografias, hagiografias e história

Entre as obras históricas e biográficas mais importantes da literatura persa clássica pode referir-se o Tarikh-i Beyhaqi de Abdolfazl Beyhaghi, o Lubab ul-Alhab de Zairidim Nácer Maomé Aufi (que é considerado por muitos especialistas como uma fonte cronológica fiável), tal como o Tarikh-i Jahangushay-i Juvani de Ata Maleque Juveini, que se refere à história do Irão dos períodos Mongol e Ilcânida. O Tadkhirat al-Awliya (Biografias de Santos) de Attar é também um relato fiel dos místicos Sufi, que é referenciado por muitos autores sequentes e considerado uma obra significativa na hagiografia mística.

Crítica literária

A obra mais antiga da crítica literária persa de após a conquista islâmica é o Muqaddameye Xahnameye Abu Mansuri, que foi escrito no período Samanida.Iraj Parsinejad, A History of Literary Criticism in Iran, 1866-1951, (Ibex Publishers, Inc., 2003), 14. A obra diz respeito aos mitos e lendas da Épica dos Reis e é considerado o mais antigo exemplo de prosa persa. Mostra também a tentativa dos autores de avaliar criticamente os trabalhos literários.

Contos persas thumb|Calila e Dimna - Cópia de manuscrito persa de 1429, de Herate, representa o chacal tentando iludir o leão

As "Mil e uma Noites" () é uma colecção de contos populares medievais que conta a história de Xerazade, uma rainha Sassânida que tem de contar uma série de estórias ao seu malevolente marido, o rei Xariar, para atrasar a sua execução. As estórias são contadas ao longo do período de mil e uma noites, e todas as noites a rainha termina a estória com uma situação de suspense, obrigando assim o rei a mantê-la viva mais um dia. As estórias foram criadas através de vários séculos e por muitas pessoas de terras diferentes.

O núcleo da coleção é formado por um livro pálavi da era Sassânida chamado Hazar Afsanah Abdol Hossein Saeedian, "Land and People of Iran" p. 447("Mil mitos", ), uma colecção de contos populares antigos persas e indianos.

Durante o reinado do califa abássida Harune Arraxide no , Bagdade tinha-se tornado uma importante cidade cosmopolita. Encontravam-se em Bagdade mercadores do Irão, China, Índia, África e Europa. Pensa-se que durante esta época foram coligidas oralmente durante muitos anos muitas das estórias que tinham sido originalmente contos populares, e depois compiladas num único livro. O compilador e tradutor para Árabe foi reputadamente o contador de estórias do Abu Abedalá Maomé Algaxigar. A estória envolvente de Xeherazade parece ter sido adicionada no .

Dicionários

Ali-Akbar Dehkhoda enumerou 200 obras lexicográficas persas no seu monumental Dicionário Dehkhoda, sendo os primeiros, o Farang-i Avim (فرهنگ اویم) e o Farang-i Menakhtay (فرهنگ مناختای), do fim da era Sassânida. Os léxicos de Persa mais usados durante a Idade Média foram os de Abu Háfece Soguedi e de Assadi Tuci, escritos em 1092.