Tarzanide é um termo criado pelo francês Francis Lacassin, usado para descrever personagens de histórias em quadrinhos inspiradas em Tarzan. Um tarzanide assemelha-se ao Tarzan em sua desenvoltura física, dentro de uma linha de ação que inclui a vida aventuresca na selva, o dom de compreender e ser compreendido pelos animais, o contacto com civilizações perdidas, a coragem aliada à habilidade em lidar com a natureza. A criação de tais personagens pode ter sido propiciada pelo sucesso que Tarzan alcançara desde o seu surgimento na literatura, em 1912, culminando com o lançamento de tiras diárias em quadrinhos, em 1929, as quais abriram caminho para um gênero que aliava a sedução do ambiente desconhecido, a necessidade das características arquetípicas do herói e a popularidade do acesso.
Os tarzanides seguem a mesma linha de ação de Tarzan, porém englobando heróis diversificados, femininos ou masculinos, adaptados a aventuras ambientadas em um conjunto de elementos que perfazem o estereótipo da selva no imaginário popular, o que inclui, além das selvas africanas, a selva amazônica e até estranhas selvas em regiões polares.
Etimologia e características O termo "tarzanide" foi cunhado pelo crítico literário francês Francis Lacassin, autor de três livros sobre o Homem-Macaco: Tarzan: mythe triomphant, mythe humilié (1963), "Tarzan" ou le Chevalier crispé (1971) e La Legendé de Tarzan (2000). Tal qual Tarzan, um tarzanide é geralmente considerado "o rei da floresta" ou "o rei da selva". Pode falar com os animais e até mesmo lidera-los e é respeitado pela maioria das tribos vizinhas e frequentemente encontra civilizações perdidas. A grafia "Tarzanidi" também é aplicável, assim como a variante em português "Tarzânico".GOIDA, p. 24
Essas narrativas, no entanto, apresentam influência neocolonialista, com personagens negros frequentemente colocados em papéis secundários e representados de forma estilizada.
Enquanto os termos "tarzanide" e "tarzanidi" são adotados para personagens originados em publicações de Banda desenhada franco-belga e italianas, para publicações norte-americanas o termo Tarzanesque é bastante utilizado. Segundo o dicionário online The Free Dictionary, Tarzanesque é um vocábulo usado para ironizar homens fortes e habilidosos.
Histórico Primeiras manifestações thumb|Capa de Ka-Zar Magazine nº 1, outubro de 1936 thumb|200px|Embora Sheena (acima) não tenha sido a primeira "garota das selvas", trouxe no visual - um biquíni de pele de leopardo - uma característica inédita que seria bastante replicada.|esquerda
O sucesso das tiras de Tarzan surgidas em 1928, impulsionou a criação de diversos "reis" e "garotas das Selvas" (também chamadas de "mulheres das selvas", "tarzanas"). Algumas dessas manifestações eram independentes - em 1931, o escritor Jerry Siegel, que eventualmente se tornaria um dos criadores de Superman, mas à época ainda estava no ensino médio, criou uma paródia de Tarzan para o jornal estudantil The Torch do Glenville High School - enquanto outras eram elaboradas com fins profissionais. Em 1933, os filipinos Francisco Reyes (desenhista) e Pedrito Reyes (roteirista), criam uma das primeiras cópias de Tarzan, Kulafu.Patajo-Legasto (2008) Philippine Studies: Have We Gone Beyond St. Louis? UP Press Em 1934, Alex Raymond criou as tiras Flash Gordon e Jim das Selvas para concorrerem, respectivamente, com Buck Rogers e Tarzan. Jim, entretanto, não era um "Rei das Selvas", mas um caçador que vivia aventuras em selvas asiáticas. No começo da série, teve o personagem Zobi, the jungle boy.
Em 1936, a Timely Comics (atual Marvel Comics) publicou a primeira edição da revista pulp "Ka-Zar", estrelada pelo personagem título, um jovem chamado David Rand que fora criado no Congo Belga ao lado do leão Zar. William L. Chester, lança o personagem Kioga da série de livros, o personagem vive suas aventuras no Estreito de Bering, em 1938, Kioga ganhou o seriado Hawk of the Wilderness, interpretado por Herman Brix,Mattos, A. C. Gomes de. A Outra Face de Hollywood: Filme B. [S.l.]: Rio de Janeiro: Rocco. ISBN 85-325-1496-0 que também havia interpretado Tarzan em um seriado lançado em 1935 Em New Comics #5 (junho de 1936), foi lançado o personagem Sandor de Homer Fleming, que vivia aventuras no Nordeste da Índia.
thumb|left|Kaanga na capa de John Celardo para a revista Jungle Comics #99 da editora Fiction House, Março de 1948
Em 1938, Will Eisner e Jerry Iger lançaram Sheena, a Rainha das Selvas, uma das mais conhecidas "garotas da selva". Apesar de bastante conhecida, a personagem não fora a primeira a se enquadrar nesse arquétipo: em 1904 havia surgido "Rima" uma personagem do livro Green Mansions: A Romance of the Tropical Forest, escrito por W. H. Hudson - oito anos antes do próprio Tarzan. miniaturadaimagem|Ki-Gor em Jungle Stories da editora Fiction House, 1939
Sheena apresentava traços inéditos: foi a primeira "garota das selvas" a usar um biquíni de pele de leopardo, que logo se tornaria um clichê, e foi também a primeira heróina a ganhar uma revista própria, publicada pela Fiction House entre 1942 e 1953 - Rima só teria sua primeira versão em quadrinhos em 1952, no número 90 da revista Classics Illustrated, desenhada por Alex Blum e uma série regular em1974, pela DC Comics, e chegou a participar de três episódios do desenho animado Superamigos.
Em 1939, Ka-Zar faz sua estreia nos quadrinhos, publicado na revista Marvel Comics # 1, primeira publicação do gênero da editora, a primeira escrita por Ben Thompson, foi adaptada do conto "King of Fang and Claw" de Bob Byrd, publicada inicialmente na revista pulp do herói, além do Congo Belga, Ka-Zar viveria aventuras em Somalilândia (uma região da Somália), Etiópia, Quênia, Inglaterra e Estados Unidos e enfrentava os mais vários vilões: caçadores, contrabandistas, fascistas, nazistas entre outros. Em 1941, o herói participou de uma história do andróide Tocha Humana, Ka-Zar foi publicado pela editora até 1942. thumb|200px|Revista em quadrinhos Nyoka the Jungle Girl #6 (Abril de 1946), Fawcett Comics, a personagem criado para um seriado da Republic Pictures em 1941. Em 1940, a Fiction House começou a publicar as histórias de "Kaanga, o rei das selvas" - que no Brasil foi publicado pela EBAL, editora que publicava Tarzan e Sheena, com o nome de "Kionga". Além de Kaanga e Sheena, a Fiction House já havia publicado na revista pulp Jungle Stories, o personagem "Ki-Gor". Também pela Fiction House foram publicados "Camilla, Queen of the Lost Empire" e "Tabu, the Jungle Wizard".
Em 1941, a produtora Republic Pictures lançou o seriado Jungle Girl, sobre a jovem Nyoka Meredith (Frances Gifford), criada pelo pai na Africa pelo pai, o estúdio usou um título de um romance de Edgar Rice Burroughs, porém, a história e a personagem foram criadas pelo estúdio, no ano seguinte, lançou um novo seriado, Perils of Nyoka, desta vez, Nyoka teve o sobrenome mudado para Gordon e foi interpretada Kay Aldridge, no mesmo ano, ganhou histórias em quadrinhos publicadas pela Fawcett Comics.Denis Gifford. The international book of comics. [S.l.]: Crescent Books, 1984. 102 p. 9780517439272 Em 1944, Linda Stirling estrela um outro seriado do estúdio, The Tiger Woman, dessa vez, ambientado na América do Sul.
O haitiano André LeBlanc cria a garota das selvas brasileira Morena Flor, publicada em tiras diárias e na revista do Capitão Atlas, uma espécie de caçador brasileiro similar a Jim das Selvas criado para um programa de rádio. LeBlanc foi assistente de Sy Barry em outro herói das selvas: O Fantasma, criado por Lee Falk.
Em 1949, o ator Steve Reeves estrelou o episódio piloto da série de TV Kimbar of the Jungle, contudo, o projeto não aprovado.
Ná década de 1950, dois artistas que desenharam heróis tarzanides da Fiction House, trabalhariam nas tiras de Tarzan: John Celardo (que ilustrou histórias protagonizadas por Kaanga) e Bob Lubbers (que ilustrou histórias de Camilla).
Tarzanides negros
Em 1947, incomodado com a retratação dos negros nas histórias em quadrinhos (principalmente em histórias de heróis ambientadas na África), o jornalista afro-americano Orrin C. Evans elaborou a revista All-Negro Comics, produzida e direcionada ao público negro (algo parecido com os chamados race films entre as décadas de 1910 e 1950 e o cinema blaxploitation na década de 1970), nessa revista o irmão de Orrin, George J. Evans Jr. criou o herói Lion Man, um cientista afro-americano a serviço da ONU, que ao ser enviado para a Costa do Ouro na África, se depara com um mina de urânio, temendo que a mina caísse em mãos erradas, ele resolve protegê-la e se torna uma espécia de Tarzanide negro, apesar dos esforços a revista durou apenas uma edição. Essa não foi a primeira tentativa de um Tarzanide negro, o também afro-americano Matt Baker, criou em 1945, Voodah, para a terceira edição da revista Crown Comics da Editora Golfing/McCombs, na capa da quinta edição Voodah aparece como um caucasiano (embora ainda fosse negro nas páginas internas), na edição seguinte Voodah passou a ser branco também nas páginas internas.
Tarzanides indianos esquerda|miniaturadaimagem|237x237px|Wambi Jungle Boy #18 (1952) miniaturadaimagem|Sabu em The Jungle Book (1942) miniaturadaimagem|Buster Bronw #36 (julho de 1954)
A Fiction House lançou alguns personagens de origem indiana: Wambi, Jungle Boy, lançado em Jungle Comics #1 (janeiro de 1940), cocriado por Henry Kiefer, Wambi vivia em uma selva que mistura elementos das selvas africanas e indianas, além da revista Jungle Comics, Wambi foi publicado em revista própria, Taj of the Elephants, uma personagem feminina de criação anônima lançada em Jungle Comics #57 (1944) e Jan of the Jungle, cocriado por Enrico Bagnoli e lançado em Rangers Comics #42 (agosto de 1948). Em Buster Brown Comics #11 (1948), foi lançado o personagem Ghanga, mas tarde grafado como Gunga. O ator indiano-americano Sabu Dastagir interpretou dois personagens criados por Rudyard Kipling: Toomai em Elephant Boy (1937) e Mowgli em Jungle Book (1942), ele virou um personagem de quadrinhos inspirado nesses papéis: Sabu, Elephant Boy, publicado em Red Circle Comics #4 (abril de 1945) e uma revista própria em duas edições com histórias ilustradas por Wally Wood e publicada pela Fox Feature Syndicate. Em 1946, nas páginas da revista francesa Fillette, surge a heróina Durga Râni, escrita por René Thévenin e ilustrada por René Pellos. Em 1953, a ediora argentina Códex lança sua própria versão de Sabú em Suplemento de Pimpinela, escrita por Leonardo Wadel, com desenhos de Carlos Roume.
Na década de 1950
Em 1950, surgiu Akim na revista italiana Albo Gioello, uma revista em formato talão de cheque, criação do roteirista Roberto Renzi e do desenhista Augusto Pedrazza, Akim não viva aventuras apenas nas selvas, também combatia criminosos comuns no chamado "mundo civilizado", para isso até usava roupas comuns utilizadas nas grandes metrópoles, o personagem foi publicado até 1991.Pedro Cleto (de 10 de Fevereiro de 2010). Jornal de Notícias.
Em 1952, Frank Frazetta criou Thun'da, King of Congo para a Magazine Enterprises, o personagem chegou a ter um seriado, King of the Congo no mesmo ano estrelado por Buster Crabbe(ator que já havia interpretado Tarzan no seriado Tarzan the Fearless de 1933). Thun'da (cujo verdadeiro nome é Robert Drum) é um aviador da Força Aérea Americana que se perde no Congo, nos quadrinhos Drum enfrentava dinossauros e seres pré-históricos, porém por cortes de orçamentos, esse elementos não estiveram presentes no seriado, Na década de 60, Frazetta ilustrou capas de versões de bolso dos contos de Tarzan publicados pela Ace Books. thumb|Tor de Joe Kubert em exposição.