A Campanha da Fraternidade de 2011 foi um evento organizado pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), com o tema Fraternidade e a vida no planeta, e que teve como lema um versículo da Epístola de Paulo aos Romanos: A criação geme em dores de parto (Rm 8,22). A exemplo das campanhas anteriores, o evento teve início na quarta-feira de cinzas e se estendeu por todo o período da quaresma.

Objetivo geral O objetivo geral dessa campanha foi contribuir para a conscientização das comunidades cristãs e pessoas de boa vontade sobre a gravidade do aquecimento global e das mudanças climáticas, e motivá-las a participar dos debates e ações que visam a enfrentar o problema e preservar as condições de vida no planeta.

Objetivos específicos Para atingir o objetivo geral, o texto da CNBB propôs os seguintes objetivos específicos:Texto base da Campanha da Fraternidade de 2011, versão de trabalho para utilização nas comunidades "Viabilizar meios para a formação em relação ao aquecimento global, identificar as responsabilidades e implicações éticas"; "Promover a discussão sobre os problemas ambientais com foco no aquecimento global"; "Mostrar a gravidade e a urgência dos problemas ambientais provocados pelo aquecimento global e articular a realidade local e regional com o contexto nacional e planetário"; "Trocar experiências e propor caminhos para a superação dos problemas ambientais relacionados ao aquecimento global".

Estratégias Para alcançar estes objetivos, foram propostas as seguintes estratégias:

Mobilizar pessoas, comunidades, igrejas, religiões e sociedade para assumirem o protagonismo na construção de alternativas para a superação de problemas socioambientais decorrentes do aquecimento global. Propor atitudes, comportamentos e práticas fundamentados em valores que tenham a vida como referência no relacionamento com o meio ambiente. Denunciar situações e apontar responsabilidades no que diz respeito aos problemas ambientais decorrentes do aquecimento global.

O Texto base O texto base da Campanha da Fraternidade segue o método Ver-Julgar-Agir, que parte do olhar sobre a realidade (Ver), seguido do confronto com os textos bíblicos para emitir um juízo ético sobre esta mesma realidade (Julgar) e finalmente apresenta pistas para sua transformação (Agir). Assim, o problema do aquecimento global e das mudanças climáticas é abordado no texto.

Ver: a análise da realidade O aquecimento global thumb|250px|Uma representação esquemática das trocas de energia entre o espaço sideral, a atmosfera e a superfície da Terra. A capacidade da atmosfera terrestre para captar e reciclar energia emitida pela superfície do planeta é a característica do efeito de estufa.

A visão dos problemas associados ao aquecimento global e às mudanças climáticas baseia-se nos estudos do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC). Segundo estes estudos, observa-se a variação da temperatura média da terra desde 1750, ano que coincide com a implantação da sociedade industrial em vários países. Nesta data acelera-se o processo de industrialização, que inicialmente utilizava a combustão do carvão como fonte de energia, seguida pelo petróleo. O Painel relaciona o aumento da temperatura da terra ao aumento da emissão de gases do efeito estufa devido à industrialização e outras fontes como derrubadas e queimadas. Estes estudos apontam a queima de combustíveis fósseis como maior responsável pela emissão dn.e dióxido de carbono e de metano e a utilização de fertilizantes na agricultura como causa das emissões de óxido nitroso. A partir destas constatações o texto afirma que "a temperatura futura do planeta vai depender do nosso modo de produzir, consumir, enfim do modo de nos relacionar com a Terra" (n.21).

Os efeitos do aquecimento do planeta são observados na redução das geleiras e coberturas de neve das montanhas, no aquecimento dos oceanos, com consequente aumento do nível do mar. O aquecimento dos oceanos tem efeito direto sobre o clima do planeta, cuja alteração se faz sentir em secas mais longas e intensas em áreas maiores; nas chuvas mais intensas, provocando graves enchentes.Se a emissão de gases do efeito estufa for mantida nos atuais níveis, os estudos indicam a elevação da superfície do mar, ocupando áreas de território e provocando migrações, além de mudanças climáticas globais com tempestades, furacões, enchentes intensas e secas prolongadas.

A ação do homem O texto aponta as mudanças nas atividades humanas que alteraram a vida no planeta. Nos últimos três séculos a população mundial aumentou dez vezes e quadruplicou no século XX. Embora com distribuição desigual, a população de gado, responsável por emissões de gás metano atinge uma população de 1,4 bilhão de reses.

No século XX, a urbanização aumentou dez vezes e quase metade da população mundial vive em cidades ou megacidades. A produção industrial cresceu 40 vezes, com aumento no consumo de energia em 16 vezes (n.26). O consumo de água chega a 800 m3 per capita ao ano. Setenta por cento deste consumo é consumido na irrigação agrícola, vinte por cento, pela indústria e 10% pelo consumo domiciliar. Metade da superfície do planeta já foi atingida pelas ações humanas.

A emissão de gases do efeito estufa thumb|300px|Influência de cada gás estufa no agravamento do efeito estufa.

A emissão de dióxido de carbono (CO2) cresce 5 bilhões de toneladas por ano devido à queima de conbustíveis fósseis. O dióxido de enxofre (SO2),também provinda da queima de combustíveis fósseis chega a 200 milhões do toneladas por ano. Em combinação com o dióxido de azoto (NO2), este gás provoca a chuva ácida. Os processos de fertilização e o uso de defensivos agrícolas são os principais responsáveis pela emissão de óxido nitroso (N2O), que é o gás que causa mais danos à camada de ozônio. Sessenta por cento da emissão de gás metano (CH4) é provocada por atividades humanas, como cultivo agrícola, a pecuária e lagos artificiais de grandes hidrelétricas. Já o CFC não é mais produzido, mas os efeitos de emissões acumuladas durarão um século.

Segundo o texto, é urgente a redução desta emissão. Segundo o IPCC, seria necessária a redução de 50% até 2030, mas no caso do óxido nitroso, a redução deveria ser da ordem de 70 a 80%.

A matriz energética como emissora de gases do efeito estufa

O texto da CNBB cita a discussão das matrizes energéticas utilizadas no processo de industrialização como tema central para a discussão do aquecimento global. Estas fontes são divididas em fontes energéticas renováveis e não renováveis. As fontes não renováveis são aquelas encontradas na natureza em quantidades limitadas. Uma vez esgotadas suas reservas, não é possível sua regeneração rápida. É o caso dos combustíveis fósseis e urânio. São consideradas energias sujas, pois sua utilização gera a liberação de poluentes danosas ao meio ambiente e sociedade. Já as fontes de energia renováveis são consumidas no próprio local de geração: energia solar, energia eólica, energia hídrica, energia oceânica, energia geotérmica e biomassa. São consideradas não-poluentes, à exceção da biomassa.

No contexto de mudanças climáticas provocadas pelo aquecimento global, a discussão das fontes energéticas torna-se crucial. A industrialização foi alavancada pelas energias não-renováveis, gerando grandes quantidade de gases estufa. Assim, a relação entre a matriz energética atual e a necessidade de redução de emissão de gases poluentes gera um impasse, uma vez que o crescimento da demanda energética chocam-se contra a recomendação do IPCC para redução das emissões. Portanto, diante destes objetivos, a matriz energética atual é inviável. O texto afirma:"O grande problema é que o mercadi gerenciador e a indústria que opera na produção destas energias não pretendem perder esta fonte de lucro. Assim, se os governos não tomarem iniciativas firmes e liderarem esta mudança de paradigma, a situação tende a agravar-se".O caso do Brasil

No caso do Brasil, 24% das emissões de gases do efeito estufa são emitidas pela queima de combustíveis fósseis e 76% do uso da terra, incluídos desmatamentos e queimadas. A matriz energética é considerada limpa, proveniente de hidrelétricas, etanol e biomassa. Entretanto, recentes decisões governamentais possui, segundo a CNBB, um cunho neodesenvolvimentista através do Plano de Aceleração do Crescimento, buscando o desenvolvimento a qualquer custo, sem preocupações ambientais. Assim, na Amazônia brasileira há diversos projetos de construção de novas hidrelétricas: Usina Hidrelétrica de Jirau, Usina Hidrelétrica de Santo Antônio, Usina Hidrelétrica de Belo Monte e Usina Hidrelétrica São Luiz do Tapajós e outras Pequenas Centrais Hidrelétricas, além de planos de novas usinas atômicas. O governo ignora o potencial para expansão da energia solar e eólica. O texto cita ainda o Pré-Sal como caro, poluente e passível da ocorrência de desastres ambientais como o do Golfo do México. A transformação do etanol em commodity ignora a pressão por mais terra para sua produção, em detrimento da produção de alimentos.

O desmatamento e as queimadas são responsáveis por 50% da emissão de gases do efeito estufa no Brasil. O texto da CNBB cita o trabalho de FERNSIDE,FERNSIDE, P.M.: Consequências do desmatamento na Amazônia. Scientific American, Edição Especial n. 39. que critica a diretriz de combate ao desmatamento na Amazônia exposta no Plano Nacional sobre Mudanças do Clima, pois segundo este autor, os planos de implantação das obras de infraestrutura, somada à legalização de terras antes ilegais apontam para o crescimento do desmatamento. Este plano não aponta metas de desmatamento, mas objetivos voluntários, o que leva a uma flexibilização dos compromissos assumidos na Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima. O plano prevê ainda desmatamento zero ilegal a partir de 2017. Entretanto, há o desmate legal de cerca de 5000 ha/ano, segundo o próprio PNMC. O estudo aponta que há brechas legais para desmatamento de 80% das áreas legais da Amazônia.

O modelo agrícola praticado pelo Brasil considera o agronegócio como estratégico para a economia. O texto ressalta que este modelo foi desenhado para os grandes produtores, que possuem capital e tecnologia, produzindo segundo um modelo industrial ou especializado em monoculturas, que utiliza pouca mão de obra e alija os pequenos produtores, que acabam migrando do campo para as cidades. Além disto, o agronegócio é responsabilizado pelo desmatamento e pela utilização de 70% da água doce disponível no mundo. A utilização em larga escala de fertilizantes gera a contaminação de lagos e rios e criam zonas mortas em áreas litorâneas. Este modelo é orientado à exportação. Deve-se ressaltar que 70% da produção de alimentos para consumo no Brasil provém da agricultura familiar.

As consequências do modelo de desenvolvimento atual

A ideia de que o crescimento da produção deve se dar de modo contínuo e linear é contestada por estudos da ONU, da OCDR, da UNESCO, da FAO e outras organizações. Segundo estes estudos, o atual de padrão de consumo humano já consome um quarto a mais dos bens que o planeta pode disponibilizar. Como este consumo é desigual, o excesso de consumo de 20% da humanidade é apresentado pelo processo de globalização como estilo de vida a ser seguido pelos demais, o que aponta para uma maior superexploração dos recursos naturais. Assim, a manutenção desta escalada de crescimento e consumo globalizados é fomentado por um sistema financeiro que busca estimular a aquisição de bens com vistas apenas ao lucro e, ao pregar a eficiência, descarta empregos e o próprio trabalhador.