thumb|300px|direita|Teseu promete casar-se com Ariadne, mas em vez disso desposa a irmã dela, Fedra. Da mesma forma, João Diogo Galvão promete casar-se com Mariana, mas desposa sua irmã Malvina. (Niccolò Bambini: Ariadne e Teseu) thumb|300px|direita|Antíope era esposa de Teseu e mãe de Hipólito; Ana Jacinta era esposa de João Diogo Galvão e mãe de Gaspar. (estátua em Erétria, autor desconhecido: Teseu e Antíope) thumb|300px|direita|Fedra apaixona-se pelo enteado Hipólito; desprezada, acusa-o de traição e provoca sua morte. Malvina apaixona-se pelo enteado Gaspar; desprezada, acusa-o de ter assassinado o próprio pai; antes disso, já havia provocado a ruína de outro amante, Januário. (afresco em Pompeia, autor desconhecido: Hipólito e Fedra) thumb|300px|direita|Hipólito dedicou-se à deusa da caça, Ártemis e afastou-se das mulheres; Gaspar dedica-se à memória da mãe e da irmã, afastando-se das mulheres. (cópia romana de um original de Leocares: Diana de Versalhes) thumb|300px|direita|O minotauro era filho ilegítimo de Pasífae, esposa do rei Minos, e foi encerrado por este em um labirinto. Donguinho é filho ilegítimo de Dona Vicentina; por sua loucura e luxúria excessiva, ficava preso no quarto por ordem de Dom João Quebedo, marido de Vicentina. (Auguste Rodin: O minotauro) Os sinos da agonia é um romance do escritor brasileiro Autran Dourado, publicado em 1974. Apesar de história se passar na Vila Rica do final do século XVIII, não se trata de um romance histórico. A obra ganhou o Prêmio Paula Britto, do Conselho Estadual de Cultura do Rio de Janeiro.
O romance é uma recriação do mito de Fedra e Hipólito, e utiliza como referências as tragédias Hipólito, de Eurípides, e Fedra, de Racine. A estrutura incorpora elementos da tragédia grega, sobretudo a ausência do narrador e a presença do coro, além das técnicas usuais do autor, como a narrativa em blocos, o fluxo de consciência, a repetição, o monólogo interior, flashbacks e flashforwards. A obra suscita reflexões a respeito da verdade, do destino, do tempo, do ser, da linguagem, da memória e do ato de narrar. Pode-se, portanto, classificá-la também como um meta-romance. Outros livros utilizados como referência foram o Triunfo Eucarístico - Exemplar da Cristandade Lusitana, de Simão Ferreira Machado (1734), o Áureo Trono Episcopal, de Francisco Ribeiro da Silva (1749) e o Diccionario da Lingua Portugueza, de Antonio Moraes e Silva (1813).
A personagem Malvina Dias Bueno personifica Fedra, enquanto Hipólito é personificado por Januário e Gaspar, rivais no amor de Malvina. Esses rivais são, em grande medida, o oposto um do outro, e por isso se completam. Outros personagens têm paralelo no mito grego: João Diogo Galvão personifica Teseu, sua esposa Ana Jacinta, personifica Antíope. Donguinho, irmão de Malvina, personifica o minotauro. Mesmo os escravos Isidoro e Inácia têm seus correspondentes na tragédia de Racine: Teramene e Enone, respectivamente. Algumas relações entre os personagens do romance não são idênticas, no entanto, às dos personagens do mito; as associações são, portanto, apenas aproximadas.
O autor indica, através de referências ao medo da Derrama e às novas tendências estéticas do Arcadismo, além da ausência a referências à Inconfidência Mineira, que a história se passa mais provavelmente entre os anos de 1787 e 1789.
Estilo e técnicas narrativas
A retirada do narrador se efetiva, em primeiro lugar, por meio da narrativa em blocos: o livro está dividido em quatro partes, chamadas jornadas. A primeira jornada apresenta os eventos sob o ponto de vista de Januário; a segunda apresenta os eventos sob o ponto de vista de Malvina; a terceira, de Gaspar; essas três jornadas iniciais situam o leitor na história e e desvelam o caráter desses personagens principais, bem, como dos personagens secundários; na quarta jornada, retomam-se em rápida sequência os pontos de vista de Malvina, de Gaspar e, finalmente, de Januário, atingindo-se a conclusão da história.
O autor utiliza a técnica da falsa terceira pessoa: apesar de a narração se dar sempre na terceira pessoa; o narrador não é onisciente. O narrador nem mesmo chega a organizar os eventos numa ordem inteligível; os fatos nunca são apresentados de maneira totalmente objetiva, mas unicamente a partir da visão pessoal do personagem, de sua consciência, dos seus sentimentos; os personagens falam e o leitor deve por si só unir os fatos e reconstruir a trama. Em certo ponto do livro, insere-se um coro similar ao que aparece nas tragédias clássicas, aprofundando ainda mais o afastamento do narrador. Esse coro, formado pelo povo da cidade que comenta os acontecimentos, evoca o adivinho cego Tirésias, o corifeu, e lhe pede que esclareça os mistérios da história.
A presença de forças invencíveis a que os personagens não conseguem resistir não é uma característica apenas da tragédia clássica, mas também do Barroco, que está sempre presente na obra de Autran Dourado. Sinos da agonia é um livro muito barroco. Sinos da agonia é um livro que tem toda a consciência do personagem principal. É um livro em que eu adoto toda a história de Minas com uma forma particular, minha, como me apropriasse do contexto ali. [...] Eu sou um leitor bastante assíduo dos livros de história de Minas. Então, eu tinha sempre uma preocupação em dois aspectos da arte barroca. Mas eu ...toda a técnica de Guimarães Rosa, por exemplo, eu não me aproximo dela, é uma obra bastante pessoal. [...] Porque eu preciso sempre de um extrato barroco. Mas o barroco literário meu, que eu uso em meus livros é um barroco deformado por mim. E não o barroco estilo de época. Eu conheço uma coisa...Meu genro providenciou para mim. Eu estava muito interessado no tema da música barroca, que é bastante diferente do teatro grego. Diferente, mas o conhecimento da ópera, o conhecimento veio do barroco. É um conhecimento mais moderno, do barroco como estilo de época. [...] Como curiosidade, sobre os Sinos da agonia... Havia durante a colonização uma coisa que dizia o seguinte: Se matou uma pessoa... Morte em efígie. Apanha, pega um boneco, ou coisa que o valha, coloca em praça pública. Esse aqui é fulano de tal. [...] Um detalhe, esse livro foi um livro muito combatido por alguns autores.
A obra também é notável pela profunda análise psicológica, uma marca registrada do autor, aplicada não só aos personagens principais, mas também a alguns secundários, como os escravos Isidoro e Inácia.
Está presente também uma característica comum a outras obras de Autran Dourado: o contraste de personalidade entre os personagens principais, neste caso Januário e Gaspar.
Por tratar-se de romance de época, Autran Dourado, sempre preocupado com a exatidão das palavras empregadas, foi obrigado a pesquisar o vocabulário e as expressões coloquiais empregados, bem como a indumentária, o mobiliário, a política, a religião e a atividade econômica da época. Tudo isso justifica o fato de Os sinos da agonia ser o romance que o autor levou mais tempo para concluir: três anos. Eu para escrever esse livro... Eu gosto muito, sou muito leitor de dicionário. Só agora que com o computador eu não preciso estar no dicionário, é uma das formas de expressão. [...] eu usei até uma das extravagâncias desse livro. Foi escrever esse livro só com o auxílio do Moraes, Dicionário do Moraes, de 1813. [...] Foi então o que demorou mais tempo. E é o maior. [...] Sinos da Agonia foram três anos escrevendo. Boa parte em Petrópolis. Nessa época eu passava o mês lá.
Enredo
A capitania de Minas Gerais, no final do século XVIII, já se encontra em decadência econômica. O ouro de aluvião escasseia e os impostos são muito pesados. O governo ameaça continuamente com a Derrama: a cobrança dos valores em atraso. Muitos aventureiros fracassam, poucos têm sucesso. Um desses últimos é João Diogo Galvão, que possui também vastas extensões de terra no sertão do couro (o Vale do Jequitinhonha).
Após ficar viúvo, João Diogo Galvão vai a Taubaté, berço dos bandeirantes, procurar uma nova esposa entre a aristocracia local. O patriarca da decadente família Dias Bueno, arruinada após vários insucessos na busca do ouro nas Minas Gerais, concorda em dar a mão de sua filha, após verificar que a situação econômica de João Diogo é muito sólida, ao contrário da da maioria dos pretendentes. Inicialmente, é a mais velha, Mariana, que vai casar-se, mas Malvina, a mais jovem, seduz o velho, por cobiçar sua grande fortuna. João Diogo decide, então, que desposará Malvina; Mariana é obrigada a retirar-se para um convento.
O filho de João Diogo, Gaspar, pessoa sensível e reservada, havia decidido não se casar, após a morte da mãe e da irmã. Ele não vê com bons olhos o casamento do pai com uma jovem de pouco mais de vinte anos de idade. Ao saber das negociações, retira-se para o sertão, percorrendo sem descanso as várias propriedades do pai. Quando retorna e conhece Malvina, os dois se apaixonam. Gaspar não revela seus sentimentos a ninguém; Malvina procura a princípio seduzi-lo, e acredita não ter sucesso. Algum tempo depois, frustrada, entrega-se a Januário, filho bastardo de um outro fazendeiro local.
Januário, filho de branco com índia, é em muitos aspectos o oposto de Gaspar, e é esse contraste que a princípio atrai Malvina. Com o tempo, porém, descobre que não está satisfeita. Passa a tramar o assassinato do marido, e convence Januário a executar o crime. Introduz o amante uma noite no quarto de João Diogo, armando-o com um punhal na última hora e sem avisá-lo de que o velho dormia com uma pistola ao lado. João Diogo, já desconfiado há algum tempo do comportamento da esposa, está apenas fingindo dormir. Ele e Januário lutam, e este assassina o outro a facadas. Malvina facilita a fuga de Januário, mas a criada estava instruída para delatá-lo à polícia logo em seguida. Malvina, que havia presenteado uma caixa de jóias a Januário para que este preparasse um refúgio onde iria encontrá-lo em alguns dias, declara ao Capitão-General que ela havia sido roubada pelo assassino do marido.
O Capitão-General aproveita a situação para acusar Januário não apenas de assassinato e roubo, mas também de conspiração. Acredita que uma execução aterrorizará os habitantes da cidade e neutralizará as reclamações contra a Derrama próxima. Após algum tempo buscando o acusado e não o encontrando, decide executá-lo em efígie, ou seja: sua morte seria decretada, seus bens confiscados, seu enforcamento seria encenado em praça pública com auxílio de um boneco de palha, e a partir daí ele passaria a não mais existir oficialmente; qualquer pessoa poderia, por exemplo, matá-lo sem que isso fosse considerado crime.
Com o caminho livre, Malvina se declara a Gaspar que, apesar de também apaixonado, a repudia, mudando-se para outra casa. Malvina, depois de enviar várias cartas e não obter resposta, decide suicidar-se, depois de escrever uma carta ao Capitão-General acusando o enteado de cumplicidade no assassinato do próprio pai.
Enquanto isso, Januário, refugiado nas montanhas, chega à conclusão que havia sido usado pela amante. Analisando sua situação, recusa-se a continuar fugindo e volta à cidade para ser morto pelas forças policiais.
Personagens