miniaturadaimagem|220x220px|Antiga maquinaria em exposição, em 2010 A Fábrica da Baleia de Porto Pim, também referida como Antiga Fábrica da Baleia do Porto Pim e atualmente em funcionamento como Museu da Fábrica da Baleia de Porto Pim, é um antigo complexo industrial de processamento de cachalote situado na encosta do Monte da Guia, na baía de Porto Pim, freguesia das Angústias, cidade da Horta, na ilha do Faial, nos Açores.
Trata-se de uma antiga instalação industrial ligada à baleação no arquipélago, considerada um elemento relevante para a compreensão das dimensões histórica, económica e social dessa atividade ao longo do século XX.
O imóvel encontra-se classificado como Imóvel de Interesse Público desde 1984.Decreto Regulamentar Regional n.º 13/84/A, publicado no Jornal Oficial n.º 77, de 31 de março de 1984. É propriedade da Região Autónoma dos Açores desde 1980 e, desde 2004, a sua gestão está a cargo do Observatório do Mar dos Açores (OMA), associação de fins técnicos, científicos e culturais constituída em 2002. O conjunto integra o Parque Natural do Faial desde 2010 e a Rede de Museus e Coleções Visitáveis dos Açores.
História
Antecedentes
A indústria ligada à baleação no Faial evoluiu com rapidez de uma atividade de reduzida dimensão para um setor com peso na economia da ilha, onde chegaram a coexistir duas unidades de transformação.Guia do Património Cultural dos Açores: Faial. 2003, pp. 42-43. ISBN 972-96057-1-8.
A mais antiga e a primeira do seu género na ilha foi fundada em finais do século XIX, tendo laborado até princípios do século XX, quando se procedeu à construção de uma unidade melhor adaptada às novas exigências industriais.
Na primeira metade do século XX constituíram-se no Faial várias empresas dedicadas à captura de cetáceos e ao comércio dos seus derivados.
Construção e laboração (1941–1974)
A construção da nova fábrica, promovida pela SIMAL, teve início em 1941, tendo a laboração experimental começado no ano seguinte; a inauguração ocorreu a 30 de agosto de 1942.
A unidade laborava a vapor e recorria a autoclaves, técnica que permitia não apenas um processamento mais rápido da carcaça do cachalote, como o seu aproveitamento integral, destinado sobretudo à produção de óleo e de farinhas para exportação.
Ao longo de cerca de três décadas de atividade, a fábrica processou 1 940 cachalotes, dos quais foram obtidos aproximadamente 44 mil bidões de óleo. A laboração cessou em 1974, no contexto do declínio da indústria baleeira à escala mundial.
Desativação e reconversão
Após o encerramento, o complexo permaneceu cerca de duas décadas sem utilização. Em 1980, foi adquirido pelo Governo Regional dos Açores e classificado como Imóvel de Interesse Público em 1984.
Em 2000, concluídas obras de recuperação, o edifício foi aberto ao público como "Centro do Mar", espaço de vocação cultural e educativa.
Em outubro de 2007, o então Presidente da República Aníbal Cavaco Silva visitou a antiga fábrica e o respetivo centro de interpretação, no âmbito de uma visita oficial aos Açores.
A gestão do espaço passou para o Observatório do Mar dos Açores em 2004 e, em 2010, o conjunto foi integrado no Parque Natural do Faial.
Requalificação (2014–2018)
Em 2014, foi apresentado um projeto de reabilitação do imóvel, com autoria do arquiteto Carlos Garcia e um investimento estimado em cerca de 800 mil euros, que previa a substituição da cobertura e das janelas, a criação de instalações sanitárias próprias, a requalificação da zona da rampa com acesso direto à marginal de Porto Pim, a instalação de um auditório com cerca de 80 lugares e a melhoria das áreas de trabalho do OMA. A empreitada decorreu nos anos seguintes.
Em setembro de 2018, foram inauguradas as obras de requalificação, que incluíram melhorias gerais no edifício e a criação de um auditório denominado "Luís da Rocha Monteiro", em homenagem a este investigador. No piso superior foi instalado o esqueleto de uma fêmea de cachalote, acompanhado de uma exposição dedicada à biologia da espécie processada na fábrica. O museu reabriu ao público em outubro do mesmo ano.
Museu miniaturadaimagem|220x220px|Interior do museu, em 2019
Exposição permanente
Em 2023, a exposição permanente foi renovada sob o título "Da Caça à Conservação", e percorre a evolução da baleação nos Açores desde a fase de influência norte-americana até às atuais preocupações de conservação, com destaque para o cachalote, a espécie processada na fábrica.
O imóvel conserva praticamente toda a maquinaria original, o que permite organizar o percurso de visita pela sequência de processamento do animal: a plataforma exterior de desmanche, a casa das caldeiras produtoras de vapor, o guincho de alagem, os autoclaves de extração de gordura, os autoclaves de ossos e desperdícios, os moinhos, cozedores e prensas de carne, os secadores e, por fim, a moagem e o peneiramento das farinhas. O acervo inclui ainda um conjunto de objetos e documentação associados à atividade baleeira desenvolvida no Faial ao longo do século XX.
No piso superior encontram-se expostos o esqueleto de uma fêmea de cachalote com cerca de 10 metros e um fóssil de cetáceo. Este último, atribuído à espécie extinta Tusciziphius atlanticus e datado de cerca de seis milhões de anos, foi recolhido em outubro de 2017 no Banco Açor pela embarcação de pesca Manuel de Arriaga e identificado pelo paleontólogo João Muchagata Duarte e pelo biólogo Rui Prieto, do Departamento de Oceanografia e Pescas da Universidade dos Açores. Tratou-se do primeiro exemplar da espécie registado no arquipélago, tendo sido colocado em exposição no museu em novembro de 2019.miniaturadaimagem|Esqueleto de uma fêmea de cachalote de 10 metros, em exposição na fábrica, em 2019|220x220px
Núcleo do património subaquático
Em dezembro de 2025, foi inaugurado no edifício um espaço interpretativo dedicado ao património cultural e natural subaquático da região, que reúne materiais e conteúdos resultantes de mais de vinte anos de investigação arqueológica e científica na baía e no porto da Horta. O núcleo aborda a posição da Horta nas rotas de navegação do Atlântico, os naufrágios documentados na baía e o valor ecológico da zona costeira de Porto Pim e do canal Faial-Pico.
O projeto foi coordenado pelo Observatório do Mar dos Açores, com a colaboração do Museu da Horta, que cedeu peças do seu acervo, do CHAM - Centro de Humanidades da Universidade Nova de Lisboa, da Associação de Turismo Sustentável do Faial e da produtora G2C2, responsável pelos conteúdos multimédia. A iniciativa insere-se no projeto europeu ecoRoute, que prevê ainda a criação de um percurso subaquático em Porto Pim e a instalação de sinalética interpretativa com códigos QR.
Atividades e exposições temporárias
O museu dispõe de espaços destinados à realização de conferências e exposições, habitualmente ligadas a temas relacionados com o mar, e desenvolve com regularidade atividades de divulgação científica e de educação ambiental.
Os números de visitantes divulgados variam consoante a fonte e o período de referência: mais de dez mil por ano em 2013, cerca de sete mil por ano em 2022 e cerca de doze mil por ano em 2023.
As efemérides do edifício têm sido assinaladas com programação própria, como a exposição de gravuras de Rogério Silva em 2014, a projeção de um documentário de 1969 filmado no Faial, em 2021, e uma festa popular realizada a 3 de setembro de 2022, no âmbito dos 80 anos da fábrica.
Entre as iniciativas de carácter regular contam-se oficinas de sensibilização para o problema do lixo marinho, como a oficina de máscaras de Carnaval "Deslixa o teu Carnaval", realizada em 2020, e a Eco-Feira de Natal, organizada em conjunto com a associação de proteção animal Ninovan, que chegou à décima edição em 2023.
Em maio de 2026, o Dia Internacional dos Museus foi assinalado com a conversa "Da Caça à Conservação: Como Mudam os Valores de uma Sociedade", que reuniu antigos baleeiros, vigias, investigadores e profissionais da observação de cetáceos. Ainda em 2026, o museu acolheu a exposição de fotografia "10 Anos de Histórias em Fotografia", de Pepe Brix, resultante de uma década de colaboração do autor com a National Geographic Portugal e apresentada no âmbito do projeto HOPE Macaronesia, e a instalação "Laboratório-Sombra", de Susana de Medeiros e Susana Soares Pinto, e desenvolvida a partir de uma residência artística centrada na relação entre arte, natureza, ciência e meio marinho.
Classificação e reconhecimento
Além da classificação como Imóvel de Interesse Público, atribuída em 1984, o museu participou na AR&PA 2023, bienal ibérica do património cultural.
Em 2026, a Fábrica da Baleia integrou o conjunto de candidatos à eleição das novas 7 Maravilhas de Portugal, iniciativa que, nessa edição, recebeu mais de 650 candidaturas, reduzidas por painéis de especialistas e conselhos científicos a 147 finalistas, distribuídos por sete categorias: Castelos, Religião, História, Grandes Obras, Século XX, Século XXI e Turismo, e por regiões. Em maio de 2026, a votação abriu e o resultado nacional estava previsto para 12 de setembro do mesmo ano.
Em agosto de 2026, decorreu a final regional dos Açores, na Marina da Horta, com transmissão em direto pela TVI e apresentação de Pedro Teixeira, reunindo 21 candidatos açorianos, três por cada categoria. A Fábrica da Baleia concorreu na categoria Século XX, a par da Igreja de São José da Ribeira Chã, na Lagoa, e do Império da Caridade, na Praia da Vitória.
Envolvente
O edifício insere-se no conjunto patrimonial e natural do Monte da Guia, que abrange igualmente a Casa Dabney e o Aquário de Porto Pim.
Ver também
Baía da Horta Ilha do Faial Monte da Guia Porto Pim Fortificações da Baía de Porto Pim
Ligações externas
Observatório do Mar dos Açores – entidade gestora Antiga Fábrica da Baleia do Porto Pim – ficha no Sistema de Informação para o Património Arquitetónico/DGPC Fábrica da Baleia de Porto Pim – documento informativo do SIARAM (PDF) Antiga Fábrica da Baleia – Porto Pim – episódio do programa Atlântida, RTP Açores
Referências
Categoria:Património edificado na Horta Categoria:Museus dos Açores Categoria:Imóveis de interesse público nos Açores Categoria:Baleação nos Açores
Categoria:Horta Categoria:Ilha do Faial