A história do Sistema Brasileiro de Televisão (SBT) compreende a formação dessa rede de televisão brasileira desde a sua concepção até a atualidade. A sua criação remete a uma concorrência feita pelo governo federal, que leiloou as concessões das extintas redes Tupi e Excelsior em diversas cidades brasileiras, formando com elas duas redes, na qual o Grupo Silvio Santos venceu a licitação para uma dessas redes. A partir disso, o Sistema Brasileiro de Televisão foi fundado pelo empresário e animador de televisão Silvio Santos no dia 19 de agosto de 1981, quando entrou no ar pelo canal 4 de São Paulo. Logo depois, os canais 5 de Porto Alegre e Belém seriam inaugurados em 26 de agosto e 2 de setembro, respectivamente.

Antecedentes

Concessão da TVS 490px|thumb|Logotipos da TVS. Boa parte de sua programação visual foi integralmente baseada na WPIX, estação nova-iorquina, na época independente, de filmes e séries. O logotipo de 1979 é o mesmo da WBAL-TV. Na década de 1970, foi aberta a concorrência dos canais 9 de São Paulo e do Rio de Janeiro, respectivamente das TVs Excelsior e Continental. Silvio Santos se interessou, mas não conseguiu nenhuma. Na mesma época, 50% das ações da TV Record foram colocadas à venda e Silvio Santos as comprou. Ainda em busca de uma concessão própria, Silvio Santos foi capa e reportagem da Veja de maio de 1975, a revista destacou que "nas colunas especializadas em TV de alguns jornais avolumam-se os apelos de artistas e jornalistas para que a nova emissora seja entregue a Sílvio Santos. Ele teria, sobre a grande maioria dos empresários do ramo, uma vantagem que os artistas consideram fundamental: a de pagar em dia e corretamente seus funcionários". Silvio Santos se mostrava otimista em relação a concessão: "A minha televisão será diferente de todas as que existem. Não dependerá de Ibope". Em outubro de 1975, Silvio Santos venceu a concorrência para o Canal 11, do Rio de Janeiro, aberta pelo presidente do Brasil Ernesto Geisel e em 22 de dezembro de 1975, o então Ministro das Comunicações, Euclides Quandt de Oliveira, concedeu o Canal 11 do Rio de Janeiro para Silvio Santos.

Segundo Silvio, na época em que alugava horários em rádios e TVs, conseguiu crescer e que isso "chamou a atenção do público e do governo", até ganhar sua primeira concessão de TV, em 1976, no Rio de Janeiro. Apesar de artistas e jornalistas terem declarado apoio à concessão da TVS para Silvio Santos, não foi todo mundo que achou correta a decisão da concessão dada pelo governo à Silvio Santos. Em entrevista à mesma revista Veja de 11 de agosto de 1976 (página 4), José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, então superintendente da Rede Globo, afirmou: "Em vez de estimular a programação alternativa das minorias, concedeu-se um canal ao empresário Sílvio Santos, homem que por interesses comerciais que nada têm a ver com televisão corteja ostensivamente as camadas mais populares. Pela luta de Sílvio Santos, fica-se até feliz, mas pela grande luta da televisão brasileira é decepcionante, pois não estamos precisando de mais emissoras dirigidas à massa.". Boni completou: "Nem o Silvio Santos acreditou no seu canal - assinou contrato com a Tupi. Quem vai acreditar?".

A declaração de Boni, "nem o Silvio Santos acreditou no seu canal...", teve uma explicação: quando saiu da Globo, Silvio Santos assinou com a TV Tupi para exibir seu programa dominical em rede nacional. Provavelmente, segundo Boni, o correto seria Silvio transmitir o programa apenas pela TVS.

Nasce a TVS Em 14 de maio de 1976, às 21 horas, com programação contínua das 6 da tarde até a meia-noite, entrou no ar o canal Studio Silvio Santos Cinema e Televisão Ltda., ou simplesmente, TVS. O animador investiu 60 milhões de cruzeiros na nova emissora. A TVS do Rio de Janeiro era o embrião de uma futura rede de televisão nacional de Silvio Santos. A emissora nasceu, em grande parte, devido aos esforços de Manuel de Nóbrega, um dos grandes amigos de Silvio Santos, que, mesmo doente, usou todo o seu carisma para ajudar o apresentador. Uma das primeiras atrações da TVS era uma edição do programa de perguntas e respostas Silvio Santos Diferente.

A programação tinha os programas Bacará 76 com Ronald Golias e Um Instante Maestro com Flávio Cavalcanti e o Horóscopo com Zora Yonara, além de flashs jornalísticos, seriados como Hazel, a Empregada Maluca, O Homem da Cadeira de Rodas, Os Recém-Casados e Joe Forrester, desenhos animados e exibia um mesmo filme três sessões seguidas na chamada Sessão Corrida, o que permitiria a Silvio Santos checar os horários que mais atraíam o público. Nessa mesma época, o Programa Silvio Santos entrou no ar com quatorze horas de programação semanal ao vivo. Posteriormente, a partir de 1980, a emissora exibiu atrações como um programa com Carlos Imperial, Bozo e Sessão Premiada. A assessoria de imprensa do Grupo Silvio Santos na época destacou o investimento de US$2,5 milhões da primeira compra de equipamentos e de sua chegada ao Brasil e a então utilização da torre da antiga TV Continental, comprada por Silvio Santos em um leilão da massa falida da emissora. Embora a concessão fosse no Rio de Janeiro, os estúdios da TVS ficavam em São Paulo, na Vila Guilherme, com quatro mil metros quadrados, e outro, um auditório batizado de Teatro Manuel de Nóbrega, no bairro da Pompéia. Em 1978, um incêndio atingiu o estúdio na Pompéia, tendo o prejuízo sido calculado em Cr$ 25 milhões. Em 1979, através do Decreto 83.094/79, o presidente da República João Batista Figueiredo outorgou ao Grupo Sílvio Santos a concessão para a instalação e exploração comercial do Canal 3 de Televisão de Nova Friburgo, Rio de Janeiro, hoje conhecido como SBT Interior RJ.

Em relação a audiência, a TVS ocupava o segundo lugar no Rio de Janeiro em 1979 e em determinados horários estava superando até a TV Globo. Em São Paulo, a TV Record, também de Silvio Santos com Paulo Machado de Carvalho estava em segundo lugar há mais de seis meses. A Record e a TVS produziam, semanalmente, 76 horas de programas brasileiros, contra 74 horas da TV Globo e 52 horas da Rede Bandeirantes.

Em 1980, numa entrevista, Silvio Santos respondeu as então críticas que o acusavam de ser o "rei dos programas enlatados" devido ao conteúdo de programas de fora do país transmitidos pela TVS, respondendo: "Dizem que eu só uso enlatados, mas ninguém ainda se deu ao trabalho de pegar a minha programação semanal e a das outras emissoras de televisão, para um confronto na ponta do lápis. E isso o Governo fez. Quando apresentei a licitação e entrei na concorrência, demonstrei ao Governo que em meu estúdio de produção, situado na Via Anhanguera (com mais de 30 mil metros quadrados de área construída), mais meu estúdio de gravação no Carandiru, mais minha equipe da Record, e mais meu estúdio do Rio, estava fazendo 76 horas de produção ao vivo, semanais, contra 72 da Globo (na época), que agora está fazendo menos, e contra 56 da Bandeirantes. Então esse negócio de dizer "que o Sílvio só faz enlatado, ou melhor, só apresenta enlatado" é porque ninguém ainda se deu ao trabalho de começar a contar".

Concessões do SBT Em 14 de julho de 1980, o governo brasileiro da ditadura militar cassou, por corrupção financeira e dívidas com a previdência social, a concessão de todos os canais da Rede Tupi, pertencente aos Diários Associados. Em 18 de julho, os transmissores da TV Tupi São Paulo, foram lacrados, decretando o fim da emissora. Em 23 de julho, o governo federal anunciou a abertura da concorrência para duas novas redes de televisão que surgiram das sete concessões da Tupi e duas da Rede Excelsior, extinta em 1970. Em 9 de novembro de 1980, numa matéria paga no Jornal do Brasil, o Grupo Silvio Santos esclareceu a razão de pleitear uma das redes em licitação entre os nove que disputam uma das duas redes colocadas em licitação pelo Governo Federal, através do Ministério das Comunicações, junto com o Grupo Paulo Machado de Carvalho, com quem dividia as ações da TV Record, uma vez que os Grupos "já têm estações de TV no Rio e São Paulo". A matéria disse que o Grupo Silvio Santos na época tinha apenas uma estação no Rio de Janeiro, a TVS, Canal 11, e 50% da TV Record - Canal 7, de São Paulo, associado ao Grupo Paulo Machado de Carvalho, e que o Grupo Silvio Santos estava "construindo no km 16 da Via Anhanguera, o maior Centro de Produções da América Latina, numa área própria de 250 mil metros quadrados, tendo reservado para um complexo de vários prédios entre estúdios, central técnica, auditório, etc. - cerca de 30 mil metros quadrados. Custo programado para o investimento em 24 meses: $ 1.00 ou $2.00 por ano".

A nota prosseguiu citando o interesse dos dois grupos em expandir sua rede, "Implantando e expandindo a sua cobertura no segundo mercado publicitário do país (o interior do Estado de São Paulo), levando a imagem da Record, obra em pleno desenvolvimento, Silvio Santos e Paulo Machado de Carvalho estão investindo Cr$ 400.000.000,00 ou 6,6 milhões de dólares". Na época, ao instalar em tempo recorde de 90 dias a TVS, a emissora consolidou o segundo lugar no mercado há mais de um ano, enquanto em São Paulo a associação dos grupos contribuiu para o erguimento da TV Record, depois de anos de dificuldades com suas finanças, que passou a ser a segunda colocada em São Paulo, e da Rádio Record. A AM passou a liderança no mercado paulista e a FM Record estava na 8.ª colocada. O Programa Silvio Santos transmitido por convênios e contratos em 18 Estados, era "líder absoluto em audiência em todas as praças, onde é transmitido. Domingo é o único dia da semana, há anos, em que a emissora líder não pode, com honestidade, se anunciar como "campeã de audiência". Só Silvio Santos - há anos - logra esta façanha. Serão estas as únicas credenciais do Grupo? Não. Vamos adiante".

Meses antes, Silvio Santos explicou o crescimento dos grupos, "Milagre não é, posso garantir ... Nós atribuímos esses índices de audiência ao perfeito entrosamento entre o Grupo Silvio Santos e o Grupo Paulo Machado de Carvalho. Nosso pessoal, o pessoal do TVS, entende de televisão. O pessoal do Machado de Carvalho entende de televisão. Então, somamos nossas experiências, trocamos ideias, levamos as questões para a mesa dos debates e, nesse clima de total entrosamento, resolvemos tudo a respeito do programação, administração e planejamento comercial. E esse espírito de equipe que nos levou a essas invejáveis posições de audiência, em tão pouco tempo".

Participaram da concorrência pelas concessões os grupos Abril, Silvio Santos, Bloch, Capital, Visão, Sistema Brasileiro de Comunicação, Jornal do Brasil, Rede Rondon de Comunicação Ltda. e Rede Piratininga. A decisão final dos escolhidos era esperada para no máximo dezembro de 1980, mas ela só veio em 19 de março de 1981, em coletiva realizada pelo Ministro das Comunicações, Haroldo Corrêa de Mattos. Foram anunciados vencedores o Sistema Brasileiro de Televisão, encabeçado por Silvio Santos e Paulo Machado de Carvalho, no edital 35/80 e a Rede Manchete de Adolpho Bloch, no edital 34/80. O Grupo Bloch decidiu adiar o lançamento da futura emissora para poder preparar o projeto da nova rede. Em 19 de agosto de 1981, em Brasília, Silvio Santos e Adolpho Bloch assinaram os contratos definitivos das concessões, com a presença de quatro ministros do governo Figueiredo: o das Comunicações, Haroldo Corrêa de Mattos; do Trabalho, Murilo Macedo; da Previdência, Jair Soares; e da Fazenda, Ernane Galvêas. Silvio Santos contou que passou no "teste" do governo militar e que, em 1981, o então presidente João Batista Figueiredo "achou" que ele "teria condições pessoais e profissionais para assumir o controle de uma rede".