A morte de Clara Nunes por choque anafilático desencadeado por halotano ocorreu no dia 2 de abril de 1983, na Clínica São Vicente, no Rio de Janeiro, aos 40 anos da cantora e compositora mineira. Gainesville Sun. 4 de abril de 1983. Reproduzido no Google News Archive. Página visitada em 11 de março de 2011."Datas" (13 de abril de 1983). Veja, p. 104. Disponível no Acervo Digital Veja. Página visitada em 13 de março de 2011. Antes de morrer, ela permaneceu 28 dias em coma com morte cerebral imediata, após sofrer anafilaxia durante cirurgia para retirada de varizes das pernas em 5 de março daquele ano.Donizeti Costa (Diário de S. Paulo). "Biografia traz à tona fatos marcantes da vida de Clara Nunes, morta em 1983". O Globo. 9 de outubro de 2011. Página visitada em 20 de março de 2011. Uma das cantoras mais populares do Brasil à época, (2 de outubro de 2007). Diário do Nordeste. Página visitada em 20 de março de 2011. houve muitas especulações sobre a razão de ter entrado em coma. O trabalho dos médicos que a atenderam e seu relacionamento com o marido, o compositor Paulo César Pinheiro, foram minuciosamente analisados pela imprensa e pelos fãs. Uma investigação conduzida pelo Conselho Regional de Medicina da Bahia, a pedido do Conselho Regional de Medicina do Rio de Janeiro — impossibilitado por estar sob intervenção do Conselho Federal de Medicina — chegaria à conclusão de que Clara não fora vítima de erro médico. A causa mortis apresentada no atestado de óbito da cantora foi "hipersensibilidade ao halotano", gás administrado durante a cirurgia como anestésico.
Antecedentes da cirurgia "Acho que a cantora precisa de duas coisas: ter uma bonita voz e uma ótima aparência. Quanto ao caso de ter pernas bonitas, isso é secundário, mas pesa também na balança, é claro." — Clara Nunes, para a Revista do Rádio, edição n° 1.039, 16 de agosto de 1969.Fernandes (2007), p. 277. Desde 1979, quando se submeteu a uma histerectomia (devido a um mioma que proliferava em seu útero),Fernandes (2007), p. 219. Clara Nunes começou a fazer tratamento de escleroterapia, que consiste na aplicação, por injeção, de medicamentos diretamente no interior das varizes. Com o decorrer do tempo, o calibre das veias do paciente diminuiu e, consequentemente, os vasos se fecham. O angiologista Antonio Vieira de Mello, renomado médico da área, foi escolhido por Clara para realizar o tratamento por indicação do ginecologista dela, o Dr. Cézar Seminário. Ela desejava tratar algumas veias varicosas salientes que a incomodavam do ponto de vista estético. Atribuía dores que sentia nas pernas às varizes, o que era considerado um exagero por pessoas mais próximas a ela.Fernandes (2007), p. 253.
Melhorar o visual das pernas acabaria se tornando uma obsessão para Clara, que sempre fora muito vaidosa. Sua preocupação com as pernas ganhou relevância no seu cotidiano a partir do surgimento de varizes mais grossas, que só seriam possíveis de tratar através de uma intervenção cirúrgica. Um episódio emblemático ocorreu em junho de 1982. Após se apresentar no Festival Horizonte Latino Americano de Arte, em Berlim Ocidental, a cantora telefonou para a amiga Bibi Ferreira do quarto de hotel em que estava hospedada para lhe revelar sua preocupação com as varizes. Clara teria dito à amiga que estava dançando na frente do palco quando reparou que todos olhavam para suas pernas, na altura das canelas. Ela disse que havia visto uma "veia estranha, feia mesmo" e comunicou à amiga sobre a decisão de fazer uma cirurgia de remoção de varizes após retornar ao Brasil. Bibi tentou convencê-la de que a preocupação era bobagem, mas disse que ela deveria fazer a cirurgia se estivesse realmente incomodada, já que a anestesia provavelmente seria local ou peridural.
Cirurgia Clara marcou a cirurgia para 5 de março de 1983, após conseguir uma brecha em sua intensa agenda de compromissos profissionais.Fernandes (2007), p. 254. O Dr. Antonio Vieira de Mello chefiaria a equipe cirúrgica. A cantora pediu sigilo total do médico, a fim de evitar alardes na imprensa. A data escolhida para a cirurgia sucedia o carnaval (comemorado em 15 de fevereiro naquele ano), quando Clara desfilou pela última vez na escola de samba da Portela e no bloco carnavalesco Clube do Samba, que ela ajudara a fundar em janeiro de 1979.Fernandes (2007), p. 215. Cerca de quinze dias antes da cirurgia para remoção de varizes, a cantora se submeteu a uma outra pequena intervenção na clínica oftalmológica do doutor Marcos Wajnberg para retirada de um calázio (aumento da glândula sebácea da pálpebra em decorrência de inflamação).Fernandes (2007), p. 254-255. De acordo com Wajnberg, "nesse caso, a intervenção cirúrgica não foi estética, mas por necessidade. O calázio é prejudicial e tem de ser retirado".Fernandes (2007), p. 255.
No dia marcado para a cirurgia, Clara se levantou cedo, tomou seu habitual banho matutino, e se arrumou para sair rumo à Clínica São Vicente, na Gávea. Seu marido, o compositor Paulo César Pinheiro, se ofereceu para levá-la até a clínica, mas a cantora recusou. Iria dirigindo, acompanhada da amiga de infância Vilarinda Marçal de Faria (conhecida como Lalita), a quem Clara havia pedido que viesse de Paraopeba, sua cidade natal, para ajudá-la nos dias seguintes à operação. De acordo com Paulo César, que só ficou sabendo da cirurgia no final de fevereiro, a esposa decidiu não tomar anestesia peridural porque tinha medo de ficar paralítica caso ocorresse algum erro médico.
Clara chegou à clínica às 07:50 da manhã e foi direto para seu quarto.Fernandes (2007), p. 257. Os funcionários da clínica reconheceram-na e começaram a comentar sobre sua presença no local, o que deixou a cantora visivelmente irritada. Quando o anestesista Américo Salgueiro Autran Filho chegou ao quarto, Clara informou-lhe que havia optado pela anestesia geral, decisão que havia feito desde que optara pela realização da cirurgia. Os médicos tentaram fazê-la desistir da ideia, explicando-lhe as vantagens da peridural, e que a anestesia geral, em caso de pequenas cirurgias, poderia ocasionar complicações, mas Clara foi categórica em sua resposta: "Se for para tomar a outra eu vou embora". Eles acabaram acatando a exigência da cantora. Às 10:30, Clara se dirigiu para a sala de cirurgia e o procedimento começou a ser realizado quinze minutos mais tarde.
Após Américo aplicar a anestesia em Clara, o Dr. Antonio começou a operá-la. A cantora havia sido anestesiada à base de uma mistura de halotano, protóxido de azoto e oxigênio.Fernandes (2007), p. 258. A operação ocorria normalmente. A perna direita já havia sido operada, e a esquerda estava sendo suturada quando o Dr. Antonio percebeu que o sangue de Clara estava muito escuro, e jorrando em grande quantidade. O médico se assustou e pediu que o anestesista aferisse a pressão arterial da cantora (à época feita com aparelho manual). A pressão estava em grande queda, o que significava que a cantora estava com falta de ar, sofrendo uma parada cardíaca. O Dr. Antonio mandou fechar a saída do anestésico e aumentar para 100% a entrada de oxigênio no tubo traqueal. A ressuscitação manual já começara a ser realizada, mas foi interrompida devido à fibrilação do coração. A cantora foi reanimada com um desfibrilador, mas não respondia voluntariamente aos estímulos, indicativo de que havia entrado em coma.
Clara havia tido uma forte reação alérgica a algum dos componentes utilizados no anestésico, ou seja, uma anafilaxia, o que provocou a dilatação generalizada de todos os capilares sanguíneos de seu corpo. Seu cérebro não suportou tamanha pressão e um enorme edema se formou, causando sua morte cerebral imediata. Àquela altura, os médicos ainda não sabiam precisar a extensão do problema. O tomógrafo da Clínica São Vicente estava quebrado e, naquela época, só havia outro em toda a cidade do Rio de Janeiro, na Santa Casa de Misericórdia. Às 3:40 da tarde, Clara foi encaminhada para o Centro de Tratamento Intensivo (CTI) da clínica.
Período em coma e repercussão "Eu fui olhando para o rosto de cada um deles e percebi algo estranho no anestesista, que estava pálido, com os lábios secos. Eu pensei: 'foi esse cara quem fez a merda'. Ele era o único que estava transtornado." — Paulo César Pinheiro, para o livro Clara Nunes: Guerreira da Utopia, p. 258. A partir do momento em que Clara foi encaminhada para o CTI, a principal preocupação dos médicos era informar Paulo César Pinheiro sobre o estado de sua esposa que, se sobrevivesse, teria sequelas gravíssimas, devido à falta de oxigenação no cérebro. O compositor passou a acompanhar de perto o quadro médico de Clara, assim como a família dela, que saiu de Minas Gerais para cuidar dela. Paulo César decidiu não ver a esposa, pois queria que a última imagem que tivesse de Clara fosse dela saindo de casa na manhã do dia 5 de março. A pedido dele, que tinha esperança de que a situação fosse revertida, o caso foi mantido sob sigilo, mas acabou vazando para a imprensa dois dias depois.
Assim que a informação sobre o estado de saúde da cantora foi publicada, a Rua Engenheiro Alfredo Dutra, onde o casal morava, se transformou num verdadeiro quartel-general de repórteres, assim como a própria Clínica São Vicente.Fernandes (2007), p. 259. A essa altura, já havia sido divulgado que Clara havia sofrido um choque anafilático devido a uma cirurgia, mas várias versões sobre o que teria motivado o procedimento cirúrgico da cantora começaram a circular: inseminação artificial, aborto (hipóteses impossíveis devido à histerectomia realizada em segredo por Clara em 1979), tentativa de suicídio, surra do marido. Também foi propagado que o choque anafilático fora provocado pela enorme quantidade de uísque que a cantora teria ingerido na noite anterior à cirurgia e que ela seria usuária de drogas.
No ano anterior, ao presenciar de perto a enorme repercussão causada pela morte de Elis Regina, Clara teria ficado horrorizada ao ponto de pedir ao marido, ao voltar do velório da colega, que não deixasse que transformassem a morte dela em um "circo".Fernandes (2007), p. 241. No entanto, Paulo César Pinheiro pouco pôde fazer para atender ao pedido da esposa. Dezenas de fãs e artistas aportaram na Clínica São Vicente, que seria palco de crises histéricas e orações. Rosemary, Elizeth Cardoso, Dori Caymmi, Grande Otelo, João Nogueira, Dona Zica, Mauro Duarte, Fafá de Belém,"Mistério inútil" (16 de março de 1983). Veja, p. 33. Disponível no Acervo Digital Veja. Página visitada em 13 de março de 2011. Paulinho da Viola, Luiz Ayrão, Roberto Ribeiro, Alcione, Elza Soares, Beth Carvalho, Chico Buarque, Marieta Severo e Baby Consuelo estão entre os artistas que foram até à clínica.
thumb|150px|Baby Consuelo causou agitação ao tentar entrar no CTI com o curandeiro Thomaz Green Morton.
Baby Consuelo protagonizou um dos momentos mais tensos dos 28 dias em que Clara esteve em coma, ao tentar entrar no CTI com Thomaz Green Morton, um curandeiro que havia convencido vários artistas de que seus "poderes paranormais" curavam doenças graves. Entretanto, ela foi barrada por Maria Gonçalves Pereira, irmã mais velha da cantora, que acompanhava-a dia e noite ao lado de Branca, sua outra irmã. No período em que Clara ficou em coma, apareceram todos os tipos de curandeiros. Paulo César Pinheiro barraria a entrada da maioria deles, motivo pelo qual foi chamado de "perturbado mental" por algumas publicações.Fernandes (2007), p. 260. Também era ameaçado pelos fãs da cantora por seus supostos casos extraconjugais, boato este que ganhava força. Um dos poucos benzedeiros que ele deixou entrar no CTI foi Lourival de Freitas, o "bruxo das Laranjeiras", que havia curado o alcoolismo de Tom Jobim e de Chico Buarque através do tratamento com ervas oriundas da Amazônia. Outro a entrar no CTI foi um acupunturista chinês chamado "Mister Wu", que tentou reanimar a cantora através de uma técnica da acupuntura chamada moxabustão.