refere-se a um desastre nuclear que ocorreu na usina homônima na costa nordeste do Japão, que teve três dos seus seis reatores nucleares derretidos por danos causados nos seus sistemas de resfriamento pelo sismo e tsunâmi de Tohoku, o que resultou em explosões por acumulação de hidrogênio criado pela degradação térmica do revestimento de zircônio dos elementos combustíveis. A primeira explosão ocorreu em 12 de março de 2011 no reator 1 e a segunda aconteceu em 14 de março no reator 3, sendo que ambas destruíram parte dos edifícios de seus respectivos reatores. O reator 4 teve incêndios em seu prédio devido ao vazamento de hidrogênio do reator 3. Logo após o acidente, cerca de 164 mil residentes das áreas circundantes foram deslocados permanente ou temporariamente (voluntariamente ou por ordem de evacuação). Esta resposta resultou em pelo menos 51 mortes, sendo mais atribuídas ao estresse subsequente ou ao medo de riscos radiológicos. O acidente de Fukushima foi classificado como nível 7 na Escala Internacional de Acidentes Nucleares (INES), a classificação mais alta, compartilhando esse status apenas com o desastre nuclear de Chernobyl, ocorrido em 1986 na União Soviética.

Em 5 de julho de 2012, a Comissão de Investigação Independente de Acidentes Nucleares de Fukushima do Japão (NAIIC) constatou que as causas do acidente eram previsíveis e que o operador da usina, a Tokyo Electric Power Company (TEPCO), não cumpriu os requisitos básicos de segurança, como avaliação de risco, preparação para conter danos colaterais e desenvolvimento de planos de evacuação. Em uma reunião em Viena, três meses após o desastre, a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) culpou a negligência do Ministério da Economia, Comércio e Indústria do Japão, dizendo que o ministério enfrentava um conflito de interesses inerente como agência governamental encarregada de regular e promover a indústria de energia nuclear. A TEPCO removeu o restante do combustível nuclear das usinas e concluiu a remoção de 1.535 conjuntos de combustível da piscina de combustível irradiado da Unidade 4, em dezembro de 2014 e 566 conjuntos de combustível da piscina de combustível irradiado da Unidade 3 em fevereiro de 2021. A TEPCO planeja remover todas as varetas de combustível das piscinas de combustível usadas das Unidades 1, 2, 5 e 6 até 2031 e remover os restos de combustível fundido remanescentes das contenções do reator das Unidades 1, 2 e 3 até 2040 ou 2050. Um programa contínuo de limpeza intensiva para descontaminar as áreas afetadas e desmantelar a usina levará de 30 a 40 anos.

A zona de exclusão de Fukushima foi designada em um raio de cerca de 20 quilômetros ao redor da usina devido aos altos níveis de radiação resultantes do desastre nuclear. Dentro dela, as atividades humanas foram proibidas ou severamente limitadas devido aos riscos à saúde causados pela radiação, o que resultou na evacuação de milhares de residentes de comunidades, que foram forçados a abandonar suas casas e pertences. No entanto, há sinais da natureza se recuperando com a vegetação tomando conta das áreas urbanas abandonadas. Ao todo, cerca de 110 mil pessoas foram evacuadas das comunidades ao redor da usina devido ao aumento dos níveis externos de radiação ionizante ambiental causada pela contaminação radioativa do ar dos reatores danificados. Grandes quantidades de água contaminada com isótopos radioativos foram liberadas no Oceano Pacífico durante e após o desastre. Michio Aoyama, professor de geociência de radioisótopos no Instituto de Radioatividade Ambiental, estimou que 18 mil terabecquerel (TBq) de césio-137 radioativo foram liberados no Pacífico durante o acidente e, em 2013, 30 gigabecquerel (GBq) de césio-137 ainda estavam fluindo para o oceano todos os dias. Desde então, o operador da usina construiu novos muros ao longo da costa e criou uma área de 1,5 km de "parede de gelo" de terra congelada para interromper o fluxo de água contaminada. A Tepco usa diariamente 400 toneladas de água para refrigerar os reatores destaivados da usina, que posteriormente se tornam radiotivas e são armazenadas em mais de mil tanques construídos no local, onde passam por um processo de purificação. Em agosto de 2013, verificaram-se vários vazamentos de material radioativo e, ainda, a possibilidade de um grande transbordamento de água contaminada com material radioativo para o Oceano Pacífico.

O acidente nuclear de Fukushima teve várias consequências profundas, abrangendo áreas ambientais, de saúde, sociais e econômicas. O acidente resultou na liberação de substâncias radioativas para o ar e a água, causando contaminação em grande escala. Isso teve impactos ambientais e aumentou as preocupações com a saúde pública. Para evitar exposição à radiação, houve a necessidade de evacuar áreas próximas à usina nuclear. Muitas pessoas foram forçadas a deixar suas casas, e algumas ainda não puderam retornar devido à contaminação persistente. Embora não tenha havido um aumento sensível nas taxas de câncer diretamente atribuíveis ao acidente, houve preocupações sobre a exposição à radiação e seus efeitos a longo prazo na saúde. O estresse psicológico relacionado à evacuação e incerteza sobre o futuro também impactou a saúde mental das pessoas afetadas. O Japão reavaliou sua política energética e reduziu temporariamente sua dependência de energia nuclear. O país aumentou seus investimentos em fontes de energia renovável e buscou maneiras de melhorar a eficiência energética. As investigações apontaram falhas na segurança e na supervisão, nomeadamente falhas na avaliação de riscos e no planejamento de evacuação. A controvérsia envolve o descarte de águas residuais tratadas antes usadas para resfriar o reator, resultando em numerosos protestos em países vizinhos.

Contexto

Política energética japonesa (1950-2011)

O Japão começou a investir em energia nuclear nas décadas de 1950 e 1960 como parte de sua estratégia para diversificar sua matriz energética e reduzir a dependência de fontes de energia importadas. O país enfrentava limitações em recursos naturais convencionais, como carvão e petróleo, e procurava alternativas para garantir sua segurança energética.

O desenvolvimento da energia nuclear no Japão acelerou-se nos anos 1960, com a construção das primeiras usinas nucleares. A Usina Nuclear de Tokai, concluída em 1966, foi a primeira a entrar em operação comercial no Japão. Posteriormente, a nação expandiu significativamente seu programa nuclear, construindo diversas usinas em todo o país. A década de 1970 viu um aumento notável no número de reatores nucleares em operação no Japão, impulsionado pelo rápido crescimento econômico e pela demanda crescente por eletricidade. No entanto, o país também enfrentou desafios, incluindo preocupações com segurança e resistência da opinião pública.

A tragédia de Fukushima em 2011, com o acidente na Usina Nuclear de Fukushima Daiichi após um terremoto e tsunami, teve um impacto permanente na política energética japonesa. O país reduziu temporariamente sua dependência de energia nuclear e reavaliou suas opções de energia, considerando uma maior diversificação, incluindo fontes renováveis. Em anos mais recentes, o Japão tem trabalhado para retomar o uso da energia nuclear, mas o processo tem sido gradual, e a discussão em torno da segurança e aceitação pública continua a ser um ponto importante no desenvolvimento futuro da energia nuclear no país.

Operadora

A Tokyo Electric Power Company, Inc. (TEPCO) é uma empresa de energia elétrica, de capital aberto, sediada em Tóquio, Japão. Fundada em 1951, como uma empresa de energia elétrica no Japão. A formação da TEPCO foi parte de um processo de reestruturação do setor elétrico japonês após a Segunda Guerra Mundial, que visava consolidar várias empresas de energia elétrica regionais em empresas maiores e mais eficientes. Antes da formação da TEPCO, a região metropolitana de Tóquio era atendida por várias empresas de energia elétrica menores e dispersas.Martin, Alex, "When it comes to mighty TEPCO, pride goes before the fall", Japan Times, 17 May 2011, p. 3. A consolidação dessas empresas em uma única entidade, a TEPCO, permitiu uma gestão mais eficiente dos recursos e uma expansão mais coordenada da infraestrutura de energia elétrica na região.

A TEPCO é uma das maiores empresas de serviços públicos do mundo e desempenha um papel fundamental no fornecimento de eletricidade para a região metropolitana de Tóquio e outras partes do Japão. A TEPCO opera uma ampla gama de instalações de geração de energia, incluindo usinas nucleares, usinas termelétricas a carvão e a gás, e usinas hidrelétricas. Antes do desastre de Fukushima em 2011, a empresa era uma das maiores operadoras de energia nuclear do mundo, com várias usinas nucleares em operação, incluindo a Usina Nuclear de Fukushima Daiichi, onde ocorreu o desastre.

Após o desastre nuclear, a TEPCO enfrentou uma série de desafios, incluindo críticas públicas, ações judiciais, pressões regulatórias e demandas por compensação das vítimas do desastre. A empresa foi forçada a assumir a responsabilidade pelos danos causados pelo acidente e a implementar medidas para mitigar os riscos associados à sua operação. Desde então, a TEPCO tem se empenhado em melhorar seus padrões de segurança, reforçar seus protocolos de resposta a emergências e diversificar suas fontes de energia para reduzir sua dependência da energia nuclear. A empresa também tem trabalhado para descomissionar as unidades danificadas na Usina Nuclear de Fukushima Daiichi e para lidar com os desafios associados ao gerenciamento de resíduos radioativos e descontaminação da área afetada pelo desastre.

Após sua fundação, a TEPCO assumiu a responsabilidade pelo fornecimento de eletricidade para a região de Tóquio e áreas circundantes, tornando-se uma das maiores empresas de serviços públicos do Japão. Ao longo dos anos, a empresa expandiu suas operações, construindo e operando uma variedade de instalações de geração de energia, incluindo usinas nucleares, usinas termelétricas a carvão e a gás, e usinas hidrelétricas. Apesar dos desafios enfrentados, a TEPCO continua desempenhando um papel importante no fornecimento de eletricidade para o Japão e se diz comprometida em reconstruir a confiança do público e garantir a segurança e a estabilidade de suas operações.

Usina e materiais

miniaturadaimagem|Vista aérea da Central Nuclear de Fukushima Daiichi, na província de Fukushima (Japão). Palco do desastre de 2011 e epicentro da maior crise nuclear do século 21. miniaturadaimagem|Diagrama representando a planta da Central Nuclear de Fukushima Daiichi. Em evidencia, as unidades 1, 2, 3 e 4 (esquerda) e 5 e 6 (direita). Observe o muro de contenção e quebra mar logo a frente: as ondas do tsunami de 2011 ultrapassarm essa barreira.

A Usina Nuclear de Fukushima Daiichi, onde ocorreu o acidente em 2011, era uma usina nuclear de água fervente (BWR - Boiling Water Reactor). Essa é uma das duas principais categorias de reatores nucleares utilizados comercialmente, sendo a outra a de reatores de água pressurizada (PWR - Pressurized Water Reactor). Em um reator BWR, a água é utilizada como refrigerante e moderador. A água que circula pelo núcleo do reator é aquecida até o ponto de fervura, produzindo vapor que é direcionado para girar as turbinas conectadas a geradores elétricos. Essa é a forma como a energia é gerada em uma usina nuclear desse tipo. Os reatores da Usina Nuclear de Fukushima Daiichi eram da tecnologia BWR-3 e BWR-4, projetados pela General Electric.