upright=1.5|thumb|Imagem do Telescópio Espacial James Webb mostrando Urano, seus anéis, e várias de suas luas. upright=1.3|thumb|Comparação de tamanho entre Urano e suas seis maiores luas. Da esquerda para a direita: Puck, Miranda, Ariel, Umbriel, Titânia e Oberon. Urano, o sétimo planeta do Sistema Solar, possui 29 satélites naturais conhecidos. Todos receberam nomes de personagens das obras de William Shakespeare e Alexander Pope. O astrônomo William Herschel descobriu as duas primeiras luas do planeta, Titânia e Oberon, em 1787. As outras luas esféricas foram descobertas em 1851 por William Lassell (Ariel e Umbriel) e em 1948 por Gerard Kuiper (Miranda). As demais luas foram descobertas a partir de 1986, durante o sobrevoo da Voyager 2 por Urano ou através de telescópios terrestres avançados.
Os satélites de Urano são divididos em três grupos: treze satélites internos, cinco grandes satélites e dez satélites irregulares. Os satélites internos são pequenos corpos escuros que possuem propriedades e origem comuns com os anéis do planeta. Os cinco grandes satélites são massivos o suficiente para estarem em equilíbrio hidrostático, e quatro deles mostram sinais de atividade interna como formação de cânions e vulcanismo em suas superfícies. O maior satélite desses cinco, Titânia, tem um diâmetro de 1 578 km e é o oitavo maior satélite no Sistema Solar. Os satélites irregulares de Urano são corpos capturados e têm órbitas elípticas e inclinadas a grandes distâncias do planeta.
Descoberta As duas primeiras luas de Urano conhecidas, Titânia e Oberon, foram descobertas pelo astrônomo alemão-britânico William Herschel em 11 de janeiro de 1787, seis anos após ele ter descoberto o planeta em si. Mais tarde, Herschel acreditou ter observado pelo menos seis luas e até um anel ao redor do planeta (veja abaixo). Por cerca de cinquenta anos, os instrumentos de Herschel eram os únicos com os quais as luas haviam sido vistas. Na década de 1840, instrumentos melhores e uma posição mais favorável de Urano no céu levaram a indicações esporádicas de satélites adicionais no sistema. Eventualmente, as próximas duas luas, Ariel e Umbriel, foram descobertas pelo astrônomo inglês William Lassell em 1851. Nessa época, não havia consenso sobre a designação com números romanos das luas de Urano, e publicações hesitavam entre as designações de Herschel (onde Titânia e Oberon são Urano II e IV) e de William Lassell (onde eles são I e II). Com a confirmação de Ariel e Umbriel, Lassell numerou as luas de I a IV em ordem de distância crescente a Urano, e essas designações foram adotadas permanentemente. Em 1852, o filho de Herschel, John Herschel, nomeou as luas conhecidas na época.
Nenhuma outra descoberta foi feita por quase um século. Em 1948, o astrônomo holandês-americano Gerard Kuiper descobriu a última das cinco grandes luas de Urano, Miranda, em observações feitas no Observatório McDonald. Décadas mais tarde, o sobrevoo por Urano da sonda espacial Voyager 2 em janeiro de 1986 levou à descoberta de dez luas internas. Outro satélite interno, Perdita, foi descoberto em 1999 após estudos das fotografias da Voyager 2.
Urano era o último planeta gasoso sem nenhum satélite irregular conhecido, até 1997 quando astrônomos descobriram Sicorax e Calibã usando telescópios terrestres. Nos anos seguintes, outros sete satélites irregulares foram descobertos por grandes telescópios terrestres, o último sendo Margarida em 2003. Duas outras luas internas, Cupido e Mab, foram descobertas em 2003 usando o Telescópio Espacial Hubble. Nenhum outro satélite foi descoberto até 2023, quando Scott S. Sheppard detectou a lua irregular S/2023 U 1 em observações feitas no Telescópio Magalhães Baade no Chile e no Telescópio Subaru no Havaí.
Descobertas falsas
Depois da descoberta de Titânia e Oberon por William Herschel em 1787, ele acreditou ter descoberto outras quatro luas; duas em 18 de janeiro e 9 de fevereiro de 1790, e mais duas em 28 de fevereiro e 26 de março de 1794. Assim, pelos próximos anos acreditava-se que Urano tinha um sistema de seis satélites, embora as outras quatro luas nunca haviam sido confirmadas por outro astrônomo. Observações feitas por William Lassell em 1851, nas quais ele descobriu Ariel e Umbriel, não encontraram evidência para a existência das quatro luas de Herschel; as características orbitais de Ariel e Umbriel, os quais Herschel poderia ter visto em suas observações, não correspondiam a nenhum dos quatro satélites adicionais que ele tinha descoberto. Os períodos orbitais relatados dos quatro satélites de Herschel eram de 5,89 dias (interior a Titânia), 10,96 dias (entre Titânia e Oberon), 38,08 e 107,69 dias (exterior a Oberon). Foi então concluído que os quatro satélites de Herschel eram falsos, provavelmente se tratando de estrelas fracas que estavam na mesma região do céu que Urano, e o crédito para a descoberta de Ariel e Umbriel foi dado a Lassell.
Nomes
As duas primeiras luas de Urano, Titânia e Oberon, descobertas em 1787, não tinham nome até 1852, um ano depois da descoberta de Ariel e Umbriel. John Herschel, filho do descobridor de Urano, se responsabilizou por nomear as luas. Ao invés de escolher nomes da mitologia grega como era tradição na época, Herschel nomeou as luas a partir de entidades mágicas da literatura inglesa: as fadas Oberon e Titânia de Sonho de uma Noite de Verão, de William Shakespeare, e os silfos Ariel e Umbriel de O Rapto da Madeixa, de Alexander Pope (Ariel também é um espírito em A Tempestade de Shakespeare). A razão mais provável para essa escolha é que Urano, como deus do céu e do ar, seria atendido por espíritos do ar. Não é claro se foi John Herschel quem teve a ideia dos nomes, ou se William Lassell (o descobridor de Ariel e Umbriel) escolheu os nomes e pediu permissão a Herschel para usá-los.
Os outros nomes, com exceção de Puck e Mab, não continuaram com o tema de espíritos do ar. Em 1949, a quinta lua, Miranda, foi nomeada por seu descobridor Gerard Kuiper a partir de um personagem da obra de Shakespeare A Tempestade. Atualmente, a prática oficial adotada pela União Astronômica Internacional é nomear luas a partir de personagens das obras de Shakespeare e do poema O Rapto da Madeixa (embora atualmente apenas Ariel, Umbriel e Belinda receberam nomes de personagens desse poema; todo o resto é das obras de Shakespeare). As luas externas foram inicialmente todas nomeadas a partir de personagens de A Tempestade, mas esse costume acabou com Margarida, que recebeu nome da obra Muito Barulho por Nada. A lua descoberta mais recentemente, S/2023 U 1, ainda não possui um nome permanente, mas eventualmente receberá um nome das obras de Shakespeare, seguindo a tradição.
thumb|A massa relativa das luas de Urano. As cinco luas esféricas variam de Miranda com 0,7% a Titânia com quase 40% da massa total. As luas internas e irregulares correspondem a 0,1%, e são mal visíveis nesta escala
O Rapto da Madeixa (um poema de Alexander Pope): Ariel, Umbriel, Belinda Obras de William Shakespeare: Sonho de uma Noite de Verão: Titânia, Oberon, Puck A Tempestade: Ariel, Miranda, Calibã, Sicorax, Próspero, Setebos, Estefano, Trínculo, Francisco, Ferdinando Rei Lear: Cordélia Hamlet: Ofélia A Megera Domada: Bianca Troilo e Créssida: Créssida Otelo, o Mouro de Veneza: Desdêmona Romeu e Julieta: Julieta, Mab O Mercador de Veneza: Pórcia Como Gostais: Rosalinda Muito Barulho por Nada: Margarida Conto do Inverno: Perdita Tímon de Atenas: Cupido
Alguns asteroides compartilham nomes com luas de Urano: 171 Ophelia, 218 Bianca, 593 Titania, 666 Desdemona, 763 Cupido e 2758 Cordelia.
Características e grupos thumb|Esquema do sistema uraniano de anéis e satélites O sistema de satélites uraniano é o menos massivo entre o dos gigantes gasosos; a massa combinada dos cinco maiores satélite equivale a menos da metade da massa de Tritão (a sétima maior lua do Sistema Solar). O maior dos satélites, Titânia, tem um raio de 788,9 km, menos que a metade do raio da Lua, mas um pouco maior que o de Reia, a segunda maior lua de Saturno, fazendo de Titânia a oitava maior lua no Sistema Solar. Urano é cerca de 10 000 vezes mais massivo que suas luas.
Satélites internos
Urano possui 13 satélites internos conhecidos, com órbitas localizadas dentro da de Miranda. Todas as luas internas estão relacionadas com os anéis de Urano, que provavelmente é o resultado da fragmentação de uma ou várias luas internas. As duas luas mais internas (Cordélia e Ofélia) servem como pastores para o anel ε de Urano, enquanto a pequena lua Mab é uma fonte do anel μ.
Puck, com 162 km de diâmetro, é a maior lua interna de Urano e a única fotografada pela Voyager 2 com algum detalhe. Puck e Mab são os satélites internos mais distantes de Urano. Todas as luas internas são corpos escuros; seu albedo geométrico não passa de 10%. Elas são feitas de água congelada contaminada com um material escuro, provavelmente compostos orgânicos processados por radiação. A lua Créssida é a única com uma medição direta de sua massa e densidade, calculadas a partir de perturbações no anel η de Urano. O valor de densidade encontrado, 0,86 ± 0,16 g/cm3, é inferior ao das grandes luas de Urano, mas é cerca de 50% superior à dos satélites internos de Saturno de tamanho similar, indicando que Créssida, e possivelmente as luas internas de Urano de forma geral, ou têm uma porosidade menor que das luas de Saturno ou têm mais rocha na sua composição.
Nove dos satélites internos—Bianca, Créssida, Desdémona, Julieta, Pórcia, Rosalinda, Cupido, Belinda e Perdita—formam o grupo de satélites Pórcia, um grupo dinâmico de satélites com órbitas e propriedades fotométricas similares. Esses satélites possuem órbitas muito próximas, com uma variação de raio orbital de menos de 20 mil km, o que significa que eles estão constantemente perturbando uns aos outros, gerando um sistema caótico e aparentemente instável. As perturbações podem fazer as órbitas das luas se cruzarem, resultando em colisões. Simulações indicam que em uma escala de tempo de até 10 milhões de anos, Cupido pode colidir com Belinda e Créssida pode colidir com Desdémona.
O baixo tempo de vida de algumas das luas internas significa que elas provavelmente não existem desde a formação do Sistema Solar. É provável que as luas internas de Urano estejam em um processo contínuo de destruição e formação, com novas luas sendo formadas na mesma taxa em que elas são destruídas. Nessa hipótese, o anel ν de Urano, localizado entre as órbitas de Pórcia e Rosalinda, representa os detritos gerados por uma colisão no passado. No futuro, esse anel pode passar por reacreção, formando novos satélites, enquanto futuras colisões gerarão novos anéis.
Satélites grandes
Urano tem cinco satélites principais: Miranda, Ariel, Umbriel, Titânia e Oberon. O diâmetro deles varia de 472 km para Miranda a 1578 km para Titânia. Todos os satélites principais são objetos relativamente escuros: seu albedo geométrico varia entre 30 e 50%, e o albedo de Bond varia entre 10 e 23%. Umbriel é a lua mais escura e Ariel a mais brilhante. A massa das luas grandes varia de 6,7 kg (Miranda) a 3,5 kg (Titânia). Por comparação, a Lua da Terra tem uma massa de 7,5 kg. Acredita-se que as luas principais de Urano se formaram no disco de acreção que existiu em volta de Urano por um tempo após sua formação ou é resultado de um grande impacto sofrido por Urano no início de sua existência.
400px|left|thumb|As cinco maiores luas de Urano comparadas em tamanho e brilho. Da esquerda para a direita (em ordem de distância crescente a Urano): Miranda, Ariel, Umbriel, Titânia e Oberon right|thumb|Concepção artística do caminho do Sol no céu de uma lua grande de Urano (que compartilha a inclinação axial do planeta).