A Batalha de Salamanca ocorreu a 22 de Julho de 1812, durante a Guerra Peninsular. Opôs o Exército Anglo-Português sob o comando do Duque de Wellington, reforçado com algumas forças espanholas, ao chamado Exército de Portugal, francês, comandado pelo marechal Marmont. Esta batalha foi uma das mais importantes vitórias de Wellington e, definitivamente, afastou os Franceses de Portugal.
Antecedentes Um dos exércitos franceses na Península Ibérica era designado Exército de Portugal e estava sob o comando do marechal Marmont desde que Massena fora chamado a França, após a derrota sofrida na Batalha de Fontes de Onor. Marmont tinha sucedido a Ney no comando do VI CE,Deve ler-se 6º Corpo de Exército durante a retirada de Massena na fase final da terceira invasão francesa de Portugal. Quando Massena deixou o comando daquele exército, Marmont foi nomeado para o substituir no comando da força cuja missão era ainda a de invadir Portugal.
Devido aos preparativos para a Campanha da Rússia (Junho a Dezembro de 1812), Napoleão retirou da Península Ibérica muitas unidades militares. Por esta razão, tanto o Exército de Portugal, de Marmont, como o Exército do Sul, de Soult, encontravam-se com um efectivo inferior ao normal e viram-se obrigados a reduzir a sua actividade. Este facto não passou despercebido às guerrilhas espanholas que aumentaram a sua acção sobre os mensageiros, patrulhas e colunas de abastecimento. No início de Junho, a actividade das forças espanholas foi mais intensa a fim de impedir que os comandantes franceses tivessem capacidade de bloquear a rota do exército anglo-luso.Rawson, p. 199.
No início do ano de 1812, Wellington tinha conseguido capturar Ciudad Rodrigo e Badajoz e, desta forma, ficou a dominar os eixos de invasão que lhe permitiam avançar em Espanha. Wellington planeou atravessar a fronteira em Fontes de Onor, no eixo de invasão a Norte, e avançar sobre Salamanca. Tratava-se de uma operação arriscada pois seria necessário progredir num terreno que oferecia poucos recursos, dependendo assim de uma longa linha de comunicações. No dia 13 de Junho, o exército anglo-luso começou a movimentar-se em direcção a Ciudad Rodrigo e, a partir daí, ao longo do Rio Águeda.Chandler, p. 396.
O campo de batalha A cidade de Salamanca situava-se, naquela época, exclusivamente na margem norte do rio Tormes. Este podia ser atravessado pela ponte romana ainda hoje existente em Salamanca ou por alguns vaus a jusante ou a montante da cidade.
thumb|esquerda|300px|Vista do campo de batalha. Para sul da cidade (e do rio) o terreno é aberto, ondulado mas sem obstáculos de importância. As colinas existentes têm encostas suaves excepto duas que se destacam: o Arapil Grande e o Arapil Pequeno (Arapil Chico em Espanhol), também conhecidos localmente como Hermanitos.Fletcher, p. 41. O seu perfil é facilmente identificado à distância. O Arapil Grande tem cerca de 360 metros de comprimento e o seu cume é estreito e plano. Os extremos são rochosos e não permitem o acesso ao terreno mais elevado. Este só pode ser atingido através das encostas mais largas que, apesar de apresentarem uma forte inclinação, permitem o acesso ao topo. O Arapil Pequeno fica cerca de 800 metros a norte do Arapil Grande. É uma colina mais baixa e de encostas mais suaves.
Aproximadamente a 1.600 metros para oeste do Arapil Pequeno encontra-se a povoação de Arapiles. Para norte da povoação, o terreno é mais elevado e forma uma colina conhecida como Teso de San Miguel e que se estende num arco para nordeste. Para sul da povoação existe uma linha de alturas que se estende no sentido Este-Oeste durante cerca de 3 km e é chamada Monte de Azán. No extremo oeste desta linha de alturas existe uma elevação chamada Pico de Azán. Um pouco a sul fica a povoação de Miranda de Azán.
Para sul do Monte de Azán o terreno é mais irregular e arborizado. Entre o Arapil Grande e a vila Alba de Tormes estende-se uma floresta de carvalhos. O extremo desta floresta próximo do Arapil Grande assenta numa elevação chamada El Sierro.
Duas estradas conduzem de Salamanca a Ciudad Rodrigo. Uma passa perto dos Arapiles e atravessa Aldea Tejada. A outra, mais a norte, segue junto ao Tormes. Ambas constituíam as linhas de comunicações de Wellington.
As forças em presença Para o conhecimento pormenorizado das forças em presença consultar o Composição das forças militares em Salamanca durante a Guerra Peninsular em 15 de julho de 1812.
thumb|150px|Retrato de Wellington pintado por Francisco de Goya.
As forças anglo-lusas O exército anglo-luso encontrava-se sob o comando do Tenente-general Sir Arthur Wellesley. Tratava-se de um exército britânico onde tinham sido integradas algumas unidades portuguesas. Era formado por militares britânicos, de todos os postos, e militares portuguesesOman, pp. 595 a 599. Para esta operação, Wellington convocou todas as unidades de infantaria do exército anglo-luso, com excepção da sua 2ª Divisão, sob comando do General Rowland Hill, da Divisão de Infantaria Portuguesa, sob o comando do Major-general Sir John Hamilton, e da 8ª Brigada portuguesa, sob comando de José Joaquim Champalimaud de Março a Junho e de Manley Power a partir de 11 de Julho.Centeno, pp. 122 e 123. Estas forças encontravam-se na Estremadura sob o comando do General Hill.
thumb|esquerda|150px|Retrato do Marechal Auguste Marmont por Jean-Baptiste Paulin Guérin.
As forças espanholas Os Espanhóis apoiaram Wellington com dois tipos de forças. Por um lado, as guerrilhas que criaram situações de insegurança para as forças de ocupação francesas, impedindo-as de libertar mais efectivos para o exército de campanha. Por outro lado as forças regulares, numa representação quase simbólica, reduzidas a uma divisão de infantaria com um efectivo total de homens, sob comando do General Carlos de España:Oman, p. 599.
As forças francesas Marmont dispunha, para colocar no campo de batalha, de oito divisões de infantaria ( homens) e duas de cavalaria ( homens) apoiados por 78 bocas de fogo de artilharia.Oman, p. 603. O Exército de Portugal dispunha de mais forças mas tinha uma área de responsabilidade muito grande e um número significativo de unidades encontravam-se em guarnições, isto é, desempenhavam o papel de força de ocupação e não de exército de campanha. As guarnições de Astorga, Valladolid, Salamanca, León, Palencia, etc., absorviam mais de 6 mil homens das forças de Marmont. Retirar estas forças significava perder o controlo das vias de comunicação e de depósitos de abastecimentos. Além disso, não estava autorizado a utilizá-las livremente. Por exemplo, uma divisão de Marmont, com cerca de 6 mil homens, não podia sair das Astúrias sem autorização de Napoleão. Estes condicionamentos reduziam muito os efectivos disponíveis para enfrentar uma ofensiva de Wellington.Glover, p. 191.
A batalha Acções complementares Wellington sabia que o exército de Marmont podia ser reforçado. Existiam planos para apoio entre o Exército de Portugal e o Exército do Sul. Também teria de ser considerada a possibilidade de forças de outros exércitos franceses em Espanha virem em apoio de Marmont. Para prevenir estas possibilidades, foi planeado um conjunto de operações que obrigassem ao empenhamento dos outros exércitos e, desta forma, impedissem o envio de socorros a Marmont.
Foi neste âmbito que o General Silveira, que se encontrava em Trás-os-Montes, recebeu ordem para avançar com quatro regimentos de milícias daquela província a fim de montar uma operação de bloqueio a Zamora. Ali encontrava-se uma guarnição francesa que cobria o flanco de Marmont e que, assim, ficava impedida de se juntar ao grosso do exército.Oman, A History of the Peninsular War, p. 339. Tão importante como a operação desencadeada por Silveira, foram as acções da guerrilha espanhola que se fez sentir mais intensamente nesta época. Também o General Rowland Hill, comandante das forças anglo-lusas no Sul, em Maio desse mesmo ano, lançou uma operação bem sucedida para destruir a ponte que, em Almaraz, permitia a travessia do Rio Tejo. Com esta acção foi muito dificultada a possibilidade de forças do Exército do Sul, de Soult, serem enviadas para apoiar Marmont,Oman, A History of the Peninsular War, p. 311.
A marcha até Salamanca O exército anglo-luso atravessou o Rio Águeda no dia 13 de Junho, na região de Ciudad Rodrigo, e iniciou a sua marcha para Salamanca. O seu exército estava dividido em três colunas, sob o comando do General Picton (que foi evacuado no dia 28 de Junho, devido a ferimentos antigos, e substituído por Pakenham), do Marechal Beresford e do General Graham (evacuado no dia 6 de Julho devido ao agravamento de uma doença na vista).
No dia 13 à noite acamparam entre Sancti Spíritus e Tenebrón. No dia 14 avançaram até San Muñoz e, no dia seguinte chegaram a Matilla de los Caños, cerca de 20 km mais à frente. No dia 16 de manhã, a cavalaria que seguia à frente da coluna do centro estabeleceu contacto com forças de cavalaria francesa, já a cerca de 10 km de Salamanca. As tropas francesas retiraram para a margem direita (norte) do Rio Tormes. Foi na noite do dia 16 que o exército anglo-luso descansou à vista de Salamanca.<ref>Oman, A History of the Peninsular War, pp. 353 e 354.</ref>
Ocupação de Salamanca No dia 17 de Junho, as tropas da 6ª Divisão do exército de Wellington entraram em Salamanca onde encontraram uma guarnição francesa com cerca de 800 homens e 36 bocas de fogo de artilharia, instalada em três conventos que tinham sido fortificados. À volta destes conventos foram destruídas várias áreas edificadas a fim de dificultar a aproximação das forças inimigas. A missão desta guarnição era retardar o avanço das tropas de Wellington e, na realidade, quando estas quiseram aproximar-se dos conventos fortificados tiveram de construir sistemas de trincheiras, tal como se fazia num cerco prolongado. O primeiro ataque foi lançado no dia 23 de Junho e fracassou com pesadas baixas. Durante alguns dias as tropas atacantes tiveram de esperar pelo abastecimento de munições vindo de Almeida, que chegou no dia 26. No dia seguinte, o forte de San Caetano foi conquistado, o que levou os outros fortes a renderem-se.Rawson, pp. 199 e 200. Salamanca ficava em poder de Wellington que podia agora dirigir a sua atenção exclusivamente para o exército de Marmont.
Os primeiros confrontos entre os dois exércitos Ao chegar a Salamanca, o exército anglo-luso (com excepção da 6ª Divisão) atravessou o rio Tormes, nos vaus a jusante e a montante da cidade, e foi posicionado numa linha de alturas de San Cristóbal,No Googlemaps procurar com a expressão «San Cristóbal de la Cuesta» a Nordeste de Salamanca, uma posição defensiva onde Wellington pretendia aguardar o ataque de Marmont. A cavalaria montou posições avançadas e o resto do exército instalou os bivaques na linha de alturas.
thumb|esquerda|300px|Esquemas das principais acções desenvolvidas a NE de Salamanca, entre os exércitos de Wellington e de Marmont, de 21 a 27 de Junho de 1812.