O Centro de Tropas de Operações Especiais (CTOE) OMTE • OMA é um órgão de base de aprontamento de forças do Exército Português, que tem a missão de formar militares na área das operações especiais e aprontar a Força de Operações Especiais (FOE). Também designados por Rangers de Lamego, encontram-se aquartelados no município de Lamego, ocupando os quarteis da Cruz Alta (no centro da cidade de Lamego) e de Penude (na povoação de Penude). Depende hierarquicamente da Brigada de Reação Rápida (BrigRR). Desde a sua criação original em 1960 e até 2006, designou-se Centro de Instrução de Operações Especiais (CIOE).SILVA, António José dos Santos, CIOE - da Guerra do Ultramar aos dias de hoje, Lisboa: Nova Arrancada, 2002

Constituindo uma unidade do tipo "regimento", competem-lhe as atribuições genéricas das unidades base do Exército. No âmbito destas, o CTOE tem as atribuições específicas de organizar, treinar e manter a FOE, de ministrar cursos e estágios de formação e atualização na área das operações especiais e de participar em estudos técnicos, no que diz respeito à organização, doutrina, material e emprego da FOE.PORTUGAL, Ministério da Defesa Nacional, "Decreto Regulamentar n.º 11/2015, de 31 de julho - Aprova a orgânica do Exército", Diário da República nº 148/2015, Série I, Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2015

Constituindo o encargo operacional do CTOE, a Força de Operações Especiais é a unidade, da estrutura operacional do Exército Português, que utiliza técnicas e modos de emprego não convencionais para o cumprimento de operações especiais.MACHADO, Miguel, "Em Lamego com as operações especiais do Exército", Operacional - defesa, forças armadas e de segurança, 2018

História Origem O atual Centro de Tropas de Operações Especiais surgiu da perceção por parte do Governo e das chefias militares portuguesas, no final da década de 1950, de dificuldades graves que previsivelmente iriam surgir nas províncias ultramarinas de Portugal, decorrentes da situação internacional que se vivia. Até então, o contexto da Guerra Fria apontava para entrada de Portugal, como membro da OTAN, num previsível conflito na Europa contra o Pacto de Varsóvia, não se prevendo ameaças imediatas à África Portuguesa. Como tal, a reorganização militar que havia sido implementada nas províncias ultramarinas, no início da década de 1950, previa que as forças locais - sobretudo de Angola e Moçambique - se estruturassem para reforçar as forças portuguesas na Europa, sendo equipadas e treinadas para a guerra convencional e sendo concentradas nos principais centros urbanos, em unidades de escalão "batalhão" e "regimento".SOUSA, César Dias de, Centro de Instrução de Operações Especiais (CIOE) - A escola prática da contraguerrilha portuguesa em África, Coimbra: Universidade de Coimbra

No final da década de 1950, as Forças Armadas Portuguesas tinham já consciência de que iriam enfrentar conflitos de tipo não convencional nas províncias ultramarinas, reorientando o seu foco da Europa para ali. Surge então a ideia da criação de um centro de preparação para a guerra não convencional e - face à experiência militar francesa na Guerra da Argélia que decorria desde 1954 - decide-se adotar a doutrina e o modelo francês de guerra anti-subversiva e de luta contraguerrilha. A 22 de abril de 1959, o então ministro do Exército, Almeida Fernandes emite uma diretiva para a criação de um centro de instrução destinado à preparação de "unidades terrestres que, pela sua organização, apetrechamento e preparação, possam ser empregadas, sem perda de tempo, na execução das operações do tipo especial, previsíveis: operações de segurança interna, de contrassubversão e de contraguerrilha". A diretiva determina ainda o envio de um grupo de oficiais ao território francês da Argélia para estagiar nas unidades militares francesas envolvidas no combate à guerrilha da FLN. De observar que, já em 1956, uma missão militar portuguesa estivera na Escola de Guerra Psicológica e Subversiva, na Argélia, seguindo depois para Paris, onde os seus membros frequentaram o curso de guerra psicológica da Escola Superior de Guerra.

Inicialmente, previa-se que o novo centro de preparação se designasse "Centro de Instrução das Tropas de Assalto" e fosse instalado no Batalhão de Caçadores n.º 5 (BC5) em Lisboa. Contudo, entendeu-se que o centro ficaria melhor instalado numa região que reunisse condições geográficas, demográficas e climáticas mais adequadas ao novo tipo de instrução que se pretendia incrementar, colocando-se as hipóteses da Covilhã, Lagos, Guarda e Lamego, acabando por ser escolhida esta última localidade. O BC5 assumiria contudo a missão de mobilização, organização e preparação inicial das unidades terrestres de operações especiais, que depois receberiam a instrução complementar especial em Lamego.

Através do Decreto-lei n.º 42926, 16 de abril de 1960, é então criado o Centro de Instrução de Operações Especiais (CIOE) com a missão de instruir os quadros do Exército em operações especiais, de realizar estágios de subunidades para atuarem em operações especiais e de realizar estudos para melhorar a eficiência das Forças Armadas em operações especiais. O CIOE fica aquartelado nas instalações do então Regimento de Infantaria n.º 9, dos quais se assume como herdeiro das respetivas tradições.

Companhias de caçadores especiais thumb|right|300px|Caçadores especiais em progressão na mata cerrada do Norte de Angola, 1961. Em paralelo à criação do CIOE, são também criadas as companhias de caçadores especiais (CCE), que constituem as unidades terrestres, para serem empregues em operações do tipo especial, previstas pela diretiva de 22 de abril de 1959. Estas unidades são inicialmente levantadas pelo BC5, sendo depois enviadas para o CIOE onde recebem a instrução complementar em operações especiais. As primeiras quatro companhias chegam a Lamego a 27 de abril de 1960, ficando a sua instrução terminada a 6 de junho, altura em que juram bandeira, envergando pela, primeira vez no Exército Português, uniformes camuflados e recebendo boinas castanhas, que passarão a ser o seu símbolo. A cor da boina remetia ao uniforme castanho usado pelos caçadores portugueses na Guerra Peninsular. Regressando ao BC5, estas companhias embarcam logo a 10 de junho para Angola (CCE n.ºs 61, 62 e 63) e Moçambique (CCE n.º 64). As CCE 61, 62 e 63 (já como 1ª, 2ª e 3ª CCE do Regimento de Infantaria de Luanda), juntamente com uma companhia de polícia militar, são as únicas unidades metropolitanas presentes em Angola, quando a Guerra do Ultramar ali se inicia a 16 de março de 1961. Em 1961, seriam apressadamente instruídas mais quatro CCE no CIOE, sendo as mesmas logo enviadas para a Guiné Portuguesa (CCE n.º 74), Angola (CCE n.º 78) e Moçambique (CCE n.ºs 79 e 80). As CCE 79 e 80 são levantadas pelo Batalhão de Caçadores n.º 10 (BC10) de Chaves, que também passa a ser assim uma unidade mobilizadora deste tipo de companhias. Os regimentos de Infantaria n.º 10 de Aveiro, de Infantaria n.º 11 de Setúbal e de Infantaria n.º 14 de Viseu viriam também a mobilizar algumas CCE. As CCE 74, 78, 79 e 80 serão as últimas a serem integralmente instruídas no CIOE. Doravante, só os quadros de cada companhia (oficiais e sargentos) se deslocarão ao CIOE para receberem a instrução em operações especiais, regressando depois às unidades de origem, nas quais se encarregavam eles próprios de instruir o restante pessoal das respetivas companhias. Até 1962, são formadas 34 companhias de caçadores especiais, enviadas para as operações em Angola e também, preventivamente, para a Guiné (onde o conflito armado se viria a iniciar em 1963), Macau e Moçambique (onde o conflito armado se viria a iniciar em 1964). O alastramento da luta de guerrilha, aliado à aversão tradicional das chefias do Exército Português pela existência tropas especiais, levou contudo à interrupção da criação de novas CCE. Pretendia-se alargar a preparação dada às CCE a todas as unidades de caçadores (infantaria ligeira) enviadas para o Ultramar. Contudo, esta abordagem cedo se revelou inviável, ficando o Exército sem unidades especialmente preparadas para a luta antiguerrilha. Esta lacuna só viria a ser preenchida com a criação das unidades de comandos, algumas das quais serão instruídas no CIOE a partir de 1966.MOREIRA, Luís, A adaptação das Forças Armadas para a Guerra do Ultramar (1961-74), Lisboa: Instituto de Altos Estudos Militares, 2001

Criação do curso "Ranger" Terminada a Guerra da Argélia em 1962, a Guerra do Vietname era agora vista pelos militares portugueses como o novo modelo de luta contraguerrilha, aliado às condições do terreno, vegetação e populações daquele território, que eram bastante mais afins das encontradas nos teatros de operações de Angola, Guiné e Moçambique. A experiência do envolvimento do Exército dos EUA naquele conflito era vertida num curso de liderança e tática de pequenas unidades que se destinassem a ser empenhadas em combate próximo e direto com o inimigo, conhecido como "Escola Ranger". Foi então decidido enviar o capitão Rodolfo Bacelar Begonha para frequentar o curso "Ranger" nos EUA, sendo seguido, posteriormente, por outros oficiais do Exército Português. Após o regresso a Portugal, o capitão Bacelar Begonha é encarregue de organizar um curso semelhante no CIOE. O referido curso inicia-se a 29 de abril de 1963, sendo oficialmente denominado "curso de instrutores e monitores de operações especiais", mas ficando coloquialmente conhecido como "Ranger", termo pelo qual começam também a ser conhecidos os militares de operações especiais.

Já não tendo o encargo de instruir companhias de caçadores especiais, a principal missão do CIOE passa a ser a de ministrar o curso de operações especiais, como especialidade complementar, a aspirantes a oficiais e a cabos milicianos, promovidos, respetivamente a alferes e a sargentos após o curso. A partir de 1968, o curso passa a ser dado como especialidade base a instruendos dos cursos de oficiais e sargentos milicianos. Os graduados deste curso são depois distribuídos pelas várias unidades enviadas para o Ultramar, normalmente um oficial e um sargento por cada companhia de caçadores. Não integrando assim unidades especializadas, os oficiais e sargentos de operações especiais atuam como conselheiros, coadjuvando os comandantes de unidade na área operacional. Por vezes, são-lhes atribuídas missões específicas pelos comandantes de unidade, nomeadamente a de organizarem grupos de combate eventuais, constituídos com pessoal especialmente selecionado, para emprego em ações de maior risco e criticidade. Alguns contudo acabam por enquadrar os vários tipos de unidades militares e paramilitares especiais que foram sendo constituídas nos diversos teatros de operações, incluindo as milícias especiais, os caçadores nativos, as Tropas Especiais e os Grupos Especiais. Além do curso de operações especiais, o CIOE é também encarregue de realizar estágios a oficiais e sargentos destinados aos pelotões de reconhecimento e informação dos batalhões de caçadores, bem como ministrar cursos de contra-insurreição aos comandantes e oficiais de operações de batalhão e de agrupamento.

Companhias de comandos