A ocratoxina A (OTA) é uma micotoxina produzida por algumas espécies de fungos filamentosos pertencentes ao género Aspergillus e Penicillium e é, entre todas as ocratoxinas, a mais tóxica e a mais relevante.Khoury, A.; Atoui, A. (2010). Ochratoxin A: General Overview and Actual Molecular Status. Toxins 2: 461-493 A sua importância deve-se às suas propriedades carcinogénicas, nefrotóxicas, teratogénicas, imunotóxicas e neurotóxicas. A ocratoxina A está associada à nefropatia em humanos e tem sido sugerida uma relação entre a exposição a esta toxina e a Nefropatia Endémica dos Balcãs, uma doença progressiva caracterizada por redução da função renal e frequentemente fatal.Pfohl-Leszkowicz, A.; Manderville, R. (2007). Ochratoxin A: An overview on toxicity and carcinogenicity in animals and humans. Molecular Nutrition & Food Research 51: 61-99
Estrutura É constituída por uma di-hidroisocumarina ligada pelo grupo 7-carboxilo a uma molécula de L-β-fenilalanina, através de uma ligação amida. O seu nome químico é (R)-N-((5-cloro-3,4-di-hidro-8-hidroxi-3-metil-1-oxo-1H-2-benzopirano-7-il)carbonil)-L-fenilalanina.
Exposição humana Sendo os cereais a principal fonte de alimentação no mundo, não é de estranhar que estes sejam considerados a maior fonte de propagação de ocratoxina A. Estima-se que a contaminação dos cereais por uma ou mais micotoxinas se situe entre os 25 e 40%. Esta contaminação pode decorrer quer na plantação, quer durante o armazenamento.
A principal via de exposição humana à ocratoxina A é a via directa, que ocorre através do consumo de alimentos contaminados como os cereais, mas também frutos secos, vinhos, café e outros. Por outro lado, pode também ocorrer por via indirecta, através do consumo de produtos animais contendo resíduos da micotoxina resultantes da sua alimentação com produtos contaminados. A transmissão pelo ar também pode ocorrer, embora muito raramente e em condições particulares.
Toxicocinética Existem poucos dados sobre a toxicocinética em seres humanos. Estudos em animais sugerem que o principal local de absorção da ocratoxina A é o duodeno e o jejuno. A absorção passiva é altamente favorecida pela alta afinidade de ligação às proteínas plasmáticas, sendo que 99% da ocratoxina A encontra-se ligada a proteínas séricas, principalmente à albumina.E. Petzinger; K. Ziegler (2000). Ochratoxin A from a toxicological perspective. Pharmacology & Therapeutics 23: 91-98 A OTA tem rápida absorção mas lenta eliminação. É excretada pelos túbulos renais recorrendo a proteínas orgânicas aniónicas, mas pode ser reabsorvida nos túbulos renais atrasando a sua eliminação e aumentando o risco de acumulação nos tecidos.
A principal via metabólica da OTA é a hidrólise num composto não tóxico, OTα, formado pela quebra das ligações peptídicas, que ocorre principalmente a nível intestinal por acção enzimática da microflora local.
Manifestações de toxicidade A nefrotoxicidade é o efeito mais notório da OTA, manifesto em todos os mamíferos não ruminantes. Esta micotoxina está associada à nefropatia em humanos e tem sido sugerida uma relação entre a exposição a esta toxina e a Nefropatia Endémica dos Balcãs (BEN), uma doença progressiva caracterizada por redução da função renal e frequentemente fatal. A BEN manifesta-se como uma fibrose renal progressiva,Schaaf, G. et al. (2002). The role of oxidative stress in the ochratoxin A-mediated toxicity in proximal tubular cells. Biochimica et Biophysica Acta 1588: 149-158 não tratável e fatal, caracterizada por urémia, anemia, proteinúria, depósitos renais, redução do poder renal de concentração da urina, cefaleias, anorexia e fadiga.Barceloux, D. (2008). Medical Toxicology of Natural Substances. United States of America: Wiley. pp: 343-347 A presença da micotoxina é responsável por degeneração tubular, fibrose intersticial e pela diminuição da função renal, uma vez que afecta múltiplos sítios no nefrónio, sendo que uma exposição crónica induz danos dos túbulos proximais.Gagliano, N. et al. (2005). Ochratoxin A–Induced Renal Cortex Fibrosis and Epithelial-to-Mesenchymal Transition: Molecular Mechanisms of Ochratoxin A-Injury and Potential Effects of Red Wine. Molecular Medicine 11: 30-38 Contudo, também é capaz de exercer outros efeitos nefastos, tais como hepatotóxicos, neurotóxicos, teratogénicos e imunotóxicos em diferentes espécies de animais.Bennett, J.; Klich, M. (2003). Mycotoxins. Clinical Microbiology Reviews 16(3): 504-505
Mecanismos de Toxicidade thumb|280px|right|Semelhança estrutural da OTA com a fenilalanina permite a inibição da síntese do complexo fenilalanina-tRNA e, consequentemente, impede a elongação péptica. A semelhança estrutural com a fenilalanina (aminoácido) explica a sua acção na inibição da síntese proteica, possivelmente por inibição da elongação péptica e, consequentemente, prejudica indirectamente a actividade de diversas enzimas celulares.Schilter, B. et al. (2005). Ochratoxin A: Potencial epigenetic mechanisms of toxicity and carcinogenicity. Food Additives and Contaminants, Supplement 1: 88-93 A inibição da enzima responsável pela formação do complexo fenilalanina-tRNA (fenilalanina-tRNA sintetase) provoca a interrupção da reacção de aminoacilação e, consequentemente, a síntese proteica cessa após a transcrição.
Existem diversos estudos que sugerem o envolvimento de stress oxidativo na toxicidade da OTA. A OTA é responsável pela quelatação dos iões Fe3+ presentes no CP450, facilitando a sua redução na presença do sistema NADPH-citocromo P450 reductase. Desta forma, aumenta a produção de iões Fe2+ que, na presença de oxigénio, formam radicais livres.Omar, R. et al. (1990). Mechanism of ochratoxin A stimulated lipid peroxidation. Biochemical Pharmacology 40: 1183–1191 A produção de radicais de oxigénio está envolvida no dano de macromoléculas, incluindo peroxidação lipídica e lesão do DNA, a qual pode levar a posterior mutação e cancro.
A OTA ainda tem sido associada a fenómenos de inibição da respiração mitocondrial, a alteração da homeostasia do cálcio e a formação de aductos de DNA.
Controle e Prevenção A ocratoxina A é estável e geralmente resistente ao calor e ao processamento, pelo que o controle de ocratoxina A baseia-se no controle do crescimento dos fungos produtores de toxinas. Algumas medidas específicas incluem a redução do teor de humidade do grão na pré-colheita e fases de colheita; manutenção das boas condições do solo e nutrição de plantas; prevenção de contaminações por fungos durante o plantio.Code of Practice For The Prevention and Redution of Mycotoxin Contamination in Cereals, ALINORM 03/12A, 108-115
Para os consumidores são aconselhados a seguir o conselho geral da dieta de uma alimentação saudável, consumindo uma grande variedade de cereais e ter uma dieta equilibrada e variada. Aconselha-se a procura de conhecimento das condições dos produtos alimentares antes da compra e não comprar ou consumir alimentos onde a presença de fungos seja visível.
Ver também Micotoxina Ocratoxina
Ligações externas Informação mais detalhada sobre a Ocratoxina A
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