thumb|Ecologia Histórica estuda a interação entre pessoas e diferentes ambientes da Terra Ecologia Histórica é uma linha de pesquisa que foca na interação entre humanos e o meio ambiente em que eles vivem. Ao invés de concentrar em um evento específico, a ecologia histórica visa estudar e compreender essa interação ao longo do espaço e do tempo, a fim de obter uma compreensão completa de seus efeitos acumulativos. Através dessa interação, os seres humanos moldam o meio ambiente e contribuem de maneira contínua com a transformação da paisagem
William Balée, Professor de Antropologia na Universidade de TulaneMcGrath, S. "Ecological Anthropology" Department of Anthropology the University of Alabama Web site. Retrieved 2008-03-20, propôs quatro postulações independentesBalée, W. (2006). "The research program of historical ecology". Annual Review of Anthropology. Vol. 35, pp5.1-5.24., que definiram a ecologia histórica para além de outros programas de pesquisa mais tradicionais. Em suma, as postulações são: Os humanos afetaram quase todos os ambiente da Terra; Os humanos não têm uma propensão inata para diminuir ou aumentar a diversidade biótica e da paisagem; Vários tipos de sociedades impactam suas paisagens de formas diferentes; As interações humanas com a paisagem podem ser compreendidas de forma holística..
Ecologistas históricos estudam a interação entre os seres humanos e o mundo natural e a subsequente resposta humana para as influências ambientais. Humanos também respondem a esses estímulos ambientais com a alteração de suas paisagens, mas mantém sua cultura e práticas. Devido à constante adaptação do homem no ambiente, é incrivelmente difícil, se não impossível, encontrar um ambiente em qualquer lugar do planeta que é intocado. Essas modificações da criação humana são conhecidas como perturbações humanas mediadas, e são estudadas para aprender a história humana na Terra.
A segunda e terceira postulação enfatizam o fato de que humanidade não é homogênea, e, por conta disso, os impactos não serão iguais também. Humanos são conhecidos por aumentar e diminuir a biodiversidade das paisagens ao longo do tempo. A disseminação do fogo, por exemplo, pode também criar nichos para novas espécies em uma paisagem, enquanto um simples desmatamento pode drasticamente diminuir a biodiversidade. Impactos humanos sob a paisagem variam tanto quanto as línguas, sistemas políticos e as sociedades presentes no mundo. Finalmente, pessoas e a paisagem podem ser estudadas holisticamente porque a paisagem incorpora tanto pessoas como o ambiente. Já que os humanos e o ambiente são tão dependentes um do outro, é mais eficiente e acurado estudá-los juntos como uma única entidade. A paisagem é uma evidência visual de interação da cultura e o ambiente. thumb|(D) William Balée, Professor de Antropologia na Universidade de Tulane, com (E) consultor indígena sobre a transformação da paisagem no Brasil
Formação Intelectual thumb|Natureza antrópica: Na Cachoeira Idaho, Idaho, essas cachoeiras substituíram as naturais originais Ecologia histórica é um princípio interdisciplinar; ao mesmo tempo em que utiliza fortemente os conceitos da antropologia ambiental. Pensadores ocidentais sabem que desde o tempo de Platão, a história das mudanças ambientais não pode ser separada da história humana. Muitas ideias tem sido utilizadas para descrever a interação humana com o ambiente, a primeira delas é o conceito de Cadeia dos Seres (Scala naturæ), ou inerente à concepção de natureza. Ou seja, todas as forma de vida estão ordenadas, com a Humanidade como a mais alta categoria, devido ao seu conhecimento e habilidade de modificar a natureza. Isso nos leva à concepção de outra natureza, uma natureza antrópica, que envolve modelação ou modificação humana, em oposição ao modelo inerente à natureza.Glacken, C. (1956). Changing ideas of the habitable world. In W. L. Thomas (Ed.), Man's role in changing the phase of the Earth (pp 73). Chicago: University of Illinois Press.
Interesses em transformações ambientais continuam à crescer durante o século XVIII, XIX e XX, resultando em uma séries de novas abordagens intelectuais. Uma dessas abordagens é o determinismo ambiental, desenvolvido pelo geógrafo Friedrich Ratzel. Essa visão suporta que não é a condição social, mas a condição ambiental que determina a cultura de uma população. Ratzsel também enxergava os humanos como restritos pela natureza, pelo seu comportamento que era limitado e definido pelo ambiente. Posteriormente há o ponto de vista histórico de Franz Boas, que refutou o determinismo ambiental, argumentando que não era a natureza, mas especificidades da história que moldavam a cultura humana. Esta abordagem reconhece que, embora o ambiente possa colocar limitações sobre as sociedades, cada ambiente terá um impacto diferente em cada cultura. A ecologia cultural de Julian Steward é considerada uma fusão do determinismo ambiental e a abordagem histórica de Franz Boas. Steward percebeu que não era nem a natureza e nem a cultura que mais influenciava em uma população, mas sim o modo de subsistência utilizado em um determinado ambiente.
O antropólogo Roy Rappaport introduziu o campo da antropologia ecológica em uma tentativa deliberada de se afastar da ecologia cultural. Estudos em antropologia ecológica estão estruturados, em sua maioria, das ciências naturais, em particular, o conceito de ecossistema do Sistemas de ecologia. Nessa abordagem, também chamada de teoria dos sistemas, diz que os ecossistema são autorreguladores e retornam ao estado de equilíbrio. Essa vê as populações humanas como estáticas e atuando em harmonia com o ambiente.
As revisões do antropólogo Eric Wolf e outros são especialmente pertinentes para o desenvolvimento da ecologia histórica. Essa revisões e críticas relativas à antropologia ambiental contribuiu para que fosse levado em conta as dimensões espaciais e temporais da história e culturas, ao invés de continuar considerando as populações como estáticas. Essas críticas levam ao desenvolvimento da ecologia histórica, revelando a necessidade de considerar a história, cultura e evolução da natureza da paisagem e sociedades. Em suma, ecologia histórica é uma linha de pesquisa desenvolvida para permitir a análise de todos os tipos de sociedades, simples ou complexas, e suas interações com o ambiente no tempo e espaço.
Paisagens na ecologia histórica Na ecologia histórica, a paisagem é definida como uma área de interação entre cultura humana e ambiente não antrópico. A paisagem é perpetuamente alterada, manifestações físicas da históriaBarnes, T. G. (2000). Landscape,ecology and ecosystems management. Retrieved March 15, 2008, from Cooperative Extension Service, University of Kentucky Web site: http://www.ca.uky.edu/agc/pubs/for/for76/for76.htm . Ecologia histórica revisa a noção de ecossistema e o substitui por paisagem. Enquanto um ecossistema é estático e cíclico, uma paisagem é histórica. Enquanto a concepção de visão do ecossistema sempre tenta retorná-lo ao estado de equilíbrio, a concepção de paisagem considera a "transformação de paisagem" como um processo de evolução. Paisagens não retornam ao estado de equilíbrio, mas são um palimpsestos de distúrbios sucessivos ao longo do tempo O uso do termo "paisagem" ao invés de "ecossistema" é a unidade básica de análise que está no cerne da ecologia histórica.
Vários indivíduos e escolas de pensamento repassaram a ideia de paisagem como os ecologistas históricos concebiam. A palavra paisagem no inglês atual (landscape) tem origem nas palavras landskift, landscipe ou landscaef do Inglês arcaico, e esta se refere ao ambiente que já havia sido alterado pelos humanosCalder, W.,1981, Beyond the View - our changing landscapes. Inkata Press, Melbourne. Jackson, J.B., 1986, The vernacular landscape, in Penning-Rowsell, E.C. & D. Lowenthal, Landscape Meanings and Values, Allen & Unwin, London, p 65 - 79. James, P.E., 1934. The terminology of regional description. Annals of Assoc of Am Geog, 2, 78 – 79. Como a etimologia inglesa demonstra, paisagem (landscape) vem sendo concebida como relacionada à cultura humana desde o século V d.C. Geógrafos históricos e culturalistas possuem influências mais recentes. Eles adotaram essa ideia dos arquitetos alemães, jardineiros e pintores de paisagem do século XIX na Europa, Austrália e América do NorteOlwig, K (2002). Landscape, nature, and the body politic. Madison, WI: University of Wisconsin Press..
Paisagens não são somente objetivos físicos, mas também "formas de conhecimento"Burns, Carol. 1991. "On Site: Architectural Preoccupations." Princeton: Princeton Architectural Press.. Paisagens possuem um significado cultural, por exemplo, o solo sagrado funerário em várias culturas. Esse reconhecimento da paisagem como forma de conhecimento é o cerne da discussão da ecologia histórica, cujos estudos das paisagens possuem uma perspectiva antropocêntrica.
A ideia de paisagem cultural é diretamente atribuída ao geógrafo estadunidense Carl Sauer. A teoria desenvolvida por Sauer é uma crítica ao determinismo ambiental, que era muito popular no início do século XX. Seu artigo pioneiro de 1925 "The Morphology of Landscape" (A Morfologia da Paisagem) agora é fundamental em muitas disciplinas e define o domínio paisagístico. Nesse artigo, o termo paisagem é usado no senso geográfico para significar uma sessão selecionada arbitrariamente da realidade; morfologia significa os processos conceituais e metodológicos por alterá-la. Ou seja, para Sauer, independente de onde os humanos fossem viver e impactassem o ambiente, as paisagens obtinham um resultado histórico.Kenzer, M. S. (1985). Milieu and the 'intellectual landscape': Carl O. Sauer's undergraduate heritage. Annals of the Association of American Geographers, 75(2), 258..
A percepção da paisagem na ecologia histórica difere de outras disciplinas , como a ecologia de paisagem. Os ecologistas de paisagem atribuem a destruição da biodiversidade à perturbação humana. Ecologistas históricos reconhecem que nem sempre é dessa maneira. Essas alterações são devido a múltiplos fatores que contribuem para a paisagem em constante mutação. Ecologia da paisagem ainda se concentra em áreas definidas como ecossistemas.Turner, M. G. (2005, August). Landscape ecology in North America: Past, present and future. Ecology, 86 (8), 1967-1974. Retrieved March 20, 2008, from http://jstor.org/ Com isso, o ecossistema perpetuamente retorna para o seu estado de equilíbrio. Em contraste, ecologistas históricos enxergam a paisagem como perpetuamente em mudança. Ecologistas de paisagem acreditam em eventos não cíclicos dos humanos e desastres naturais como influências externas, enquanto que os ecologistas históricos creem nos distúrbios como parte integral da história da paisagem. Essa é a integração de conceito de distúrbio e história que permite à paisagem ser interpretada como um palimpsesto, representando sucessivas camadas de mudança, ao invés de entidades estáticas.