thumb|A Faculdade de Direito do Recife foi onde nasceu e floresceu o movimento filosófico conhecido como a Escola do Recife, nos anos de 1860 e 1880, cujo líder era o sergipano Tobias Barreto. História da Filosofia no Brasil refere-se à tradição do pensamento filosófico realizada por brasileiros dentro ou fora do Brasil. As atividades de reflexão filosófica foram trazidas pelos padres jesuítas na segunda metade do século XVI com as atividades da colonização europeia das Américas, e se estende até os dias atuais com o processo de profissionalização universitária.
Um dos pioneiros em utilizar a expressão "filosofia no Brasil" foi Sílvio Romero, em sua obra historiográfica A filosofia no Brasil (1878). É possível separar em três grandes momentos o desenvolvimento da história da filosofia no Brasil. A primeira metodologia de estudo de filosofia no Brasil foi marcada pela utilização do método da Ratio Studiorum introduzido pelos jesuítas no século XVI. No século XIX, foi marcado pela predominância do método ensaístico, com uma filosofia sem referência à tradição, pois era formada por eruditos provenientes de diversas áreas do conhecimento. Por fim, o último modo moderno de se estudar filosofia teve seu princípio no século XX, marcado pela profissionalização e especialização dos estudos universitários. Em 1908 surge a primeira faculdade de filosofia do Brasil, a Faculdade de São Bento. No entanto, seu marco foi na década de 1940 com a missão francesa na Universidade de São Paulo, introduzido por Martial Gueroult e Victor Goldschmidt. Contudo, o estudo da história da filosofia baseado apenas em comentários ocasionou pouca produtividade filosófica no país, como é atestado por Roberto Gomes no livro "A Crítica da Razão Tupiniquim" (1977).
Um dos primeiros compiladores contemporâneos da filosofia no Brasil foi João Cruz Costa (1904-1978), autor de Contribuição à História das Ideias no Brasil (1949), que é citado por Leopoldo Zea Aguilar (1912-2004) em seu Pensamiento Latinoamericano (1965, segunda edição de Dos etapas del pensamiento en hispanoamérica, de 1949). Costa utiliza o método historiográfico citado acima, o qual se baseia na perspectiva do papel das ideias na condução da história política e econômica, em disputa com uma perspectiva dialética que identifica a conjuntura socioeconômica como o berço no qual são acalentadas as ideias, críticas ou ideologias. Em muitos casos, a história da filosofia no Brasil tem sido um registro ou coleção de temas e conteúdos elaborados por pensadores que atuaram neste espaço geográfico. Há uma certa hegemonia do primeiro grupo nos estudos do pensamento brasileiro, o que pode ser notado por meio de visita ao blogue "Textos de Filosofia Brasileira", alimentado pelo professor doutor Luiz Alberto Cerqueira (Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro). Diferentemente, a concepção de Cruz Costa é de o Brasil ser um país de contrastes, que precisa ser compreendido em meio a esses dilemas. Da mesma forma também precisa ser entendida a produção de ideias, até mesmo as ideias filosóficas.COSTA, João Cruz. . Contribuição à História das ideias no Brasil. 2. ed. Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira, 1956.
Muitos autores compreendem, por pensamento filosófico no Brasil, um duplo projeto: a construção de linhas de interpretação do pensamento filosófico à luz das circunstâncias da realidade brasileira e a construção de linhas de pensamento filosófico oriundas da brasilidade ou pertinentes à brasilidade ou correspondentes à nacionalidade brasileira dos autores.Ver, p.ex., verbete filosofia no Brasil in MARCONDES, D. e JAPIASSÚ, H. Pequeno dicionário de filosofia. RJ: Zahar, 1996. pp.100-102. João Cruz Costa já anunciara que a investigação filosófica do "tema nacional" era algo nebuloso. Por um lado, a produção de conhecimento filosófico se dá em diálogo com a produção do conhecimento científico e a vida econômica, política, social e cultural de cada sociedade, em seu espaço e tempo determinados. Por outro lado, Cruz Costa aponta que o enfrentamento cultural que foi a chegada dos europeus às Américas implicou um elemento novo no processo de modernização pelo qual passava a Europa e gerou, simultaneamente, uma relação mimética com a cultura europeia.Ver "A filosofia e a evolução histórica nacional" publicado em COSTA, J.C. A filosofia no Brasil - ensaios. Porto Alegre: Globo, 1945.
Antônio Paim, um dos principais pesquisadores do pensamento brasileiro, classifica nossos pensadores segundo a estrutura apresentada a seguir:PAIM, Antônio. O estudo do pensamento filosófico brasileiro. 1a. ed. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1979. período colonial, período imperial e período republicano. Como se nota, essa periodização respeita a clássica divisão historiográfica da história nacional. Procura-se, por meio dela, agrupar pensadores por meio dos períodos históricos, sem necessariamente relacioná-los à conjuntura social, econômica, política e cultural na qual produzem suas obras. Por exemplo, não há, na obra de Paim, discussões sobre o papel do aristotelismo no pensamento colonial e suas conexões, ou inexistência delas, com a economia escravagista. Parece, por conseguinte, necessário avançar por uma perspectiva historiográfica que faça tais conexões.
A história da filosofia no Brasil Período Pré-Cabralino Os indígenas que habitavam o Brasil antes da chegada dos europeus possuíam todo um conjunto de cosmovisões que deve ser incluído na história da filosofia no Brasil. Porém, por terem sido povos ágrafos, esse conhecimento chegou até nós somente sob a forma dos relatos escritos dos observadores europeus, o que pode ter gerado muitas distorções e equívocos de interpretação. Sendo assim, tal campo de estudos ainda aguarda pesquisas etnológicas mais aprofundadas.MATTAR, J. Introdução à Filosofia. São Paulo. Pearson Prentice Hall. 2010. p. 299.
Período Colonial Século XVI
O processo de colonização das Américas causou profundas mudanças nas perspectivas filosóficas na Europa, que vivia seu momento final do renascimento. O fulcro da questão era sobre os povos nativos do continente, os índios, que se encontravam numa organização sociocultural completamente diferente da dos povos europeus. O grande centro cultural e filosófico da época estava na Espanha, com os padres da escolástica tardia da conhecida escola de Salamanca. Em Portugal, o importante centro formador será Coimbra. esquerda|thumb|Pórtico do Colégio de São Gregório Um enorme debate aconteceu nos países ibéricos, conhecido como o debate de Valladolid, ocorrido no Colégio de São Gregório em 1550 e 1551. O debate foi entre Juan Ginés de Sepúlveda e Bartolomé de las Casas. O continente americano encontrava-se, então, varrido pelos conflitos gerado pelos conquistadores hispânicos, como os avanços de Hernán Cortés sob o Império Asteca. Isso gerou diversas atrocidades, saques e escravização dos nativos americanos. A discussão girou em torno do conceito de guerra justa que poderia ser empreendida contra os nativos americanos. A raiz dessa discussão encontrava-se em São Tomás de Aquino.
Juan Ginés de Sepúlveda defendia a conquista dos espanhóis e a escravização dos povos indígenas. Sepúlveda seguia uma perspectiva aristotélica, tendo, por subsídio, o livro I da Política, onde se advoga que certos povos nasceram para ser dominados e escravizados. "A fim de erradicar os crimes que ofendem a natureza", os índios deveriam ser punidos e, portanto, reduzi-los à escravidão ou servidão estava de acordo com a teologia católica e a lei natural.Ginés de Sepúlveda, Juan (trad. Marcelino Menéndez y Pelayo e Manuel Garcia-Pelayo) (1941). TRATADO sobre las Justas Causas de la Guerra contra Los Indios . México, DF: Fondo de Cultura Económica. p. 155.
Em contraponto, Bartolomé de las Casas advogava que os povos latino-americanos tinham alma, eram homens livres na ordem natural e merecia o mesmo tratamento que outros, de acordo com a teologia católica.Crow, John A. The Epic of Latin America, 4th ed. University of California Press, Berkeley: 1992. Essa defesa valeu, para Casas, o título de protector dos índios. Dessa forma, foi consolidado o sistema de encomienda organizado pelas Leis Novas em 1542. Tal sistema visava a evitar a escravização indígena, bem como a levar, aos índios, a fé católica e os princípios da civilização ocidental. A bula papal Sublimus Dei, do Papa Paulo III, escrita em 1537, teve influência sobre esse debate, pois demonstrava a posição contrária da Igreja em relação à escravização indígena.
Nos Ensaios de Michel de Montaigne, escritos em 1580, o autor se coloca em contraponto à colonização e à guerra justa empreendida contra os povos nativos, refletindo que essa conquista da América refletia um lado bárbaro e selvagem por parte da civilização ocidental e cristã. O processo de colonização das Américas repercutiu na literatura da filosofia humanística em outros países. Forneceu base para os escritos de Erasmo de Roterdão sobre o Elogio da Loucura de 1511; e Utopia, escrito em 1516 por Tomás Morus. Muito desse debate será importante para formulação do direito internacional, tendo, como principais expoentes, o escolástico de Salamanca Francisco de Vitória e o holandês Hugo Grócio. thumb|"Evangelho nas Selvas" (1893), pintura de Benedito Calixto que retrata o padre Anchieta
Os jesuítas terão o objetivo de levar a salvação das almas aos nativos americanos. Eles chegaram na frota de Tomé de Sousa em 1549. Em 1553, fundam o Colégio dos Jesuítas na Bahia, onde se ensinava filosofia. Eram liderados pelo padre Manuel da Nóbrega, e contavam com nomes importantes: Leonardo Nunes, Vicente Pires e João de Azpilcueta Navarro. Em 1553, chega ao país o padre José de Anchieta. Através deles que surgem os principais escritos sobre o Brasil que marca a literatura do quinhentismo. A filosofia passou a ser lecionada como apoio para a formação do clero, que passou a seguir o plano de estudos do Ratio Studiorum escrito em 1599. Esse livro, que ditava os métodos de estudos, foi inspirado na escolástica tardia e foi adotado pelos padres jesuítas. Os padres também fariam preciosos relatos sobre os eventos históricos da vida da colônia, sendo um dos precursores da historiografia brasileira Frei Vicente do Salvador com o livro Historia do Brazil (1627).
thumb|esquerda|Colégio dos Jesuítas na Bahia, fundado em 1553 Os jesuítas condenavam práticas de vida dos nativos como a antropofagia e a poligamia e tinham, por meta, adaptar a moral da civilização cristã aos índios. Para esse processo de assimilação cultural, uma maiores contribuições intelectuais foi a sistematização da língua tupi. Todos esses elementos demonstravam a finalidade dos jesuítas de fazer, dos tupis, uma nova elite das nações cristãs. Essa iniciativa era uma importante estratégia organizada no Concílio de Trento para conter os avanços realizados na Europa pela Reforma Protestante. Até o século XVIII, os jesuítas irão somar um número de 670 espalhados ao longo do país, em conventos, missões e aldeias.SANTOS, Fabrício Lyrio (2008), "A expulsão dos jesuítas da Bahia: aspectos econômicos", Revista Brasileira de História (São Paulo) 28 (55): 171–95.