A Crise de 25 de Novembro de 1975 foi uma intentona militar levada a cabo por sectores das Forças Armadas Portuguesas, nomeadamente unidades alinhadas com a esquerda radical, cujo resultado levaria ao fim do Processo Revolucionário em Curso (PREC) e a um processo de estabilização da democracia representativa em Portugal.

No dia 12 de novembro de 1975, houve uma manifestação reivindicativa que contou com dezenas de milhares de trabalhadores e que cercou o Palácio de São Bento durante dois dias. Com a recusa do Ministério do Trabalho em atendê-los, a manifestação radicalizou-se, e mobilizou-se contra o VI Governo Provisório, que suspendeu funções dia 20.

Na madrugada do dia 25, Vasco Lourenço é declarado comandante da Região Militar de Lisboa (RML) pelo Conselho da Revolução (CR). Houve movimentações dos paraquedistas da Base Escola, que ocuparam rapidamente várias bases aéreas, assim como o Estado-Maior da Força Aérea, do Regimento de Artilharia de Lisboa (RALIS), que, pouco depois, montou um aparato militar em várias zonas, e das tropas da Escola Prática de Administração Militar (EPAM), que ocuparam os estúdios da Rádio e Televisão de Portugal e tomaram controlo das portagens da autoestrada do Norte. Por volta das sete da manhã, os paraquedistas ocuparam o comando da 1.ª Região Aérea e prenderam o seu comandante. Aqui, é dado o alerta à Presidência da República que "o 'golpe' está na rua". Ainda não é possível delinear com precisão o perfil dos diferentes grupos nas movimentações. O Grupo dos Nove deslocou-se até Belém, e o Presidente Costa Gomes, que teve um papel inconteste nas horas seguintes, assumiu a liderança. As medidas providenciais levaram à desmobilização popular, numa altura em que a população começava a cercar os vários pontos militares, o que poderia levar à distribuição de armas. Otelo Saraiva de Carvalho, anteriormente desaparecido, regressou a Belém, onde também teve um papel determinante. Costa Gomes decretou o estado de sítio na RML às 16h30. Houve no resto do dia tentativas dos sublevados de tentar reverter a situação, desfavorável para si, e ofensivas dos moderados.

Dia 26, o CR decidiu dissolver o COPCON, e ordenou a presença de todos os seus comandantes no Palácio de Belém. Ao longo deste dia, os sublevados continuaram a perder posições, e a situação começou a normalizar-se. Das dezenas de oficiais já encarcerados em Custoias, juntaram-se a esses os do COPCON, cercado no dia 27. Um dia depois, já se falou de "vitória", embora não se soubesse de quem.

Segundo a historiadora Maria Inácia Rezola, "[…] continua a ser um dos episódios mais polémicos e, em alguns aspetos, nebulosos do Processo Revolucionário Português". Há um consenso na historiografia portuguesa de que as movimentações militares foram provocadas pela saída dos paraquedistas, e de que, também conforme os seus protagonistas, os acontecimentos não se baseavam apenas numa simples reivindicação corporativa. Contudo, não há consenso se houve, ou não, uma tentativa de golpe de Estado, e quais foram os responsáveis. Também há falta de consenso em várias outras questões, que têm como causa a falta de resposta à questão de quem ordenou a saída dos paraquedistas: por exemplo, se foi uma tentativa de golpe de Estado ou uma ação provocada para clarificar a situação político-militar; quantos planos militares existiam; como explicar o comportamento de Otelo Saraiva de Carvalho e dos pertencentes ao Conselho da Revolução, o comportamento do Partido Comunista Português (PCP), e do Presidente da República incumbente — Francisco Costa Gomes.

Antecedentes Em continuação do clima socio-político do Verão Quente, a sociedade e os blocos políticos continuam em conflito tumultuoso.

Movimentações à Direita De maio a novembro de 1975, os 292 atentados terroristas de direita pelo MDLP ou similares incluem assaltos a sedes, atentados bombistas, incêndios, atentados a tiro, espancamentos e apedrejamentos. Os alvos são primordialmente ativistas, sindicalistas e políticos de Esquerda, sedes de partido (PCP, UDP, etc), organizações cívicas (Cooperativa Árvore, Sede da Associação SAAL, etc) ou até mesmo uma embaixada (Cuba). As suas atividades prolongar-se-ão até 1979, totalizando 566 ações violentas e levarão a pelo menos nove mortos.

Sob a égide do movimento Maria da Fonte, vários líderes da rede, como Paradela de Abreu, Rui Castro Lopo, major Canto e Castro e alguns civis retornados reúnem em Chaves em Setembro 1975. Discutem a possibilidade de um golpe popular em Outubro para legitimar uma ação militar em Lisboa antes de 11 de Novembro de 1975, data da independência de Angola.

Frank Carlucci, embaixador norte-americano, visita a região ao Norte do Mondego entre 3 e 6 de Novembro de 1975, encontrando-se com:

líderes religiosos como o arcebispo de Braga e os bispos do Porto, Viseu e Vila Real; três governadores civis e cinco presidentes de câmara; retornados portugueses de Angola.

Fato maior é a deslocação das sedes de PS, PSD e CDS para o Porto nos dias que antecedem o 25 de Novembro, sob proteção do brigadeiro Pires Veloso, comandante da Região Militar do Norte, cognome Vice-rei do Norte. Mário Soares terá pedido ajuda aos aliados ocidentais e a invasão de tropas espanholas terá estado em cima da mesa. O então Presidente da República Costa Gomes nunca compreendeu esta movimentação do PS, designando-a uma fraqueza baseada em rumores fantasistas, refugiando-se à sombra do MDLP. Melo Antunes dirá ao Independente em 1998 que Soares e o PS “aliaram-se ao que de pior havia nas Forças Armadas”, aliando-se ao ELP e MDLP.

No pressuposto de Lisboa ser deixada aos "revolucionários", o Governo e a Assembleia Constituinte seriam transferidos para o Porto e as barras de ouro do Banco de Portugal vieram para o Porto numa acção autorizada pelo vice-governador Emílio Rui Vilar, e executada clandestinamente., p. 131.

Movimentações à Esquerda As ocupações de terras apoiadas pela esquerda expandem-se particularmente a sul e nos latifúndios chegando a um milhão de hectares (aproximadamente um quarto da superfície agrícola), de forma a constituir cooperativas de produção.

No dia 12 de novembro de 1975, houve uma manifestação de dezenas de milhares de trabalhadores da construção civil que cercou o local de reunião da Assembleia Constituinte — o Palácio de São Bento — durante dois dias. No início, tinha como objetivo primário as reivindicações laborais dos trabalhadores desse setor; contudo, devido à rejeição do Ministro do Trabalho João Pedro Tomaz Rosa em atender os trabalhadores, a manifestação radicalizou-se, tornando-se numa concentração contra o VI Governo Provisório. Foram cercados por cerca de cem mil trabalhadores, incluindo o primeiro-ministro Pinheiro de Azevedo e, se não fossem os helicópteros, o Governo, refém, não teria recebido nada do exterior. Os trabalhadores colocaram-se todos juntos nas escadas do palácio com faixas e bandeiras vermelhas, e gritaram slogans. Mais tarde, o primeiro-ministro requisitou resgate, a si e aos seus ministros, aos Comandos, que recusaram. Depois, requisitou um helicóptero para resgatar certas pessoas; pedido que, ao ser ouvido pela Polícia Militar, esta alertou os trabalhadores, que o impediram de aterrar. Depois de 36 horas, todas as exigências dos trabalhadores da construção civil foram aceitadas pelo primeiro-ministro, em efeito a partir de dia 27 de novembro.

O VI Governo suspendeu funções a 20 de novembro. Pinheiro de Azevedo numa entrevista famosa, disse estar "cansado de ser sequestrado", e que, ao adicionar a outras causas, suspendeu o governo devido às manifestações, sendo "tantas que já nem se lembra bem quais". Pinheiro de Azevedo disse que o Estado já tinha sido desestabilizado, e, visivelmente irritado, à pergunta de uma jornalista sobre a situação militar, falou que "[a] situação, tanto quanto sei, é a mesma: primeiro, plenários [reuniões democráticas dos soldados] são realizados e depois são dadas ordens [ao Governo]!". A paralisia foi total, e o governo declarou efetivamente que não iria fazer nada "político", e anunciou que "estamos em greve, todos estão em greve, o governo também está em greve", agindo unicamente a título administrativo até à resolução do conflito de poder. O governo ameaçou exilar-se no Porto, respaldados por agricultores e camponeses no Norte que ameaçavam cortar o fornecimento de alimentos à "comuna vermelha de Lisboa". O cerco físico aos edifícios governamentais, e da Assembleia Constituinte, simbolizaram o enfraquecimento do Estado e do poder político, num "confronto clássico de poder — os que se encontravam no topo 'já não podiam continuar como antes' e os que se encontravam abaixo 'já não queriam ficar abaixo'". A ocupação do Palácio de São Bento foi gravada por no filme "Cenas da luta de classes em Portugal".

Cinco dias depois, com o país e o governo suspenso, desenrolou-se a movimentação militar que iniciou o processo de estabilização de uma democracia representativa em Portugal, liderado por figuras como Ramalho Eanes.

Movimentação militar

25 de novembro O Conselho da Revolução (CR) lançou um comunicado, na madrugada do dia 25, no culminar de uma discussão extensa e acalorada, onde declarou Vasco Lourenço comandante da Região Militar de Lisboa (RML) no lugar do Otelo Saraiva de Carvalho. Após o fim da reunião, Otello deslocou-se até ao Comando Operacional do Continente (COPCON), onde estavam reunidos alguns oficiais. Segundo Otelo, "[s]abia que estava aquela malta toda em polvorosa à minha espera, e vou lá dizer-lhes qual tinha sido a sentença final. Quando acabo de explicar que, de facto, prescindi do lugar de comandante da Região Militar de Lisboa, […] o Costa Martins, da Força Aérea, que estranhamente lá apareceu, é o primeiro a tomar a palavra para dizer alto e bom som que os paraquedistas não aceitam essa situação e que vão ocupar as bases aéreas e o Comando da Região Aérea". Após sair do COPCON, Otelo ficou incomunicável durante as horas conseguintes. Os paraquedistas da Base Escola ocuparam rapidamente a Base Aérea de Tancos, a Base Aérea de Monte Real, e a Base Aérea do Montijo, assim como o Estado-Maior da Força Aérea, almejando a neutralização dos meios aéreos e o controlo das comunicações da Força Aérea. O Regimento de Artilharia de Lisboa (RALIS), pouco após, montou um aparato militar nos acessos à autoestrada do Norte, ao Aeroporto da Portela e na zona de Beirolas, em Loures, que continha armazenado o depósito de material de guerra. As tropas da Escola Prática de Administração Militar (EPAM) ocuparam os estúdios da Rádio e Televisão de Portugal (RTP) e tomaram controlo das portagens da autoestrada do Norte. O Serviço de Deteção e Coordenação da Informação (SDCI), serviço de informação militar, entrou em estado de alerta. Por volta das sete da manhã, os paraquedistas ocuparam o comando da 1.ª Região Aérea, em Monsanto, Lisboa, e prenderam o seu comandante. Aqui, é dado o alerta à Presidência da República que "o 'golpe' está na rua". Ainda não é exequível delinear com precisão o perfil destas movimentações; as ações dos paraquedistas, RALIS e EPAM podiam pertencer a um plano amplo da esquerda revolucionária, ao qual se inseriam outras unidades, como o COPCON e a Polícia Militar (PM).