A Parábola do Mordomo Infiel (também chamada de Parábola do Mordomo Injusto ou Parábola do Administrador InfielNa Bíblia de Jerusalém.) é uma parábola de Jesus que aparece em apenas um dos evangelhos canônicos. De acordo com , um mordomo que está prestes a ser demitido grangeia favor com devedores do seu senhor, perdoando algumas de suas dívidas.
Narrativa bíblica
Interpretação A parábola tem causado desentendimento, uma vez que Jesus parece estar elogiando o comportamento desonesto.Daryl Koehn, "Integrity as a Business Asset", Journal of Business Ethics, (2005) 58: 125–136 Esta questão é abordada, por vezes, ao sugerindo-se que o gerente estaria abrindo mão de uma comissão devida a ele, como é sustentado por J. DuncamQuee explica que, ao cancelar suas comissões, os débitos dos devedores de seu senhor diminuíram. Essa ação, sem dúvida, resultaria em bondade no futuro, da parte desses credores para com o mordomo infiel. Nesse caso, o homem rico não foi enganado mais uma vez, por essas ações finais daquele que fora demitido. Os credores continuam devendo o que deviam ao senhor; o ex-mordomo, abrindo mão de suas comissões que lhe eram devidas, contempla agora um futuro menos trevoso, mais promissor. Se entendermos a parábola dessa maneira, tornar-se-á muito mais fácil entender a razão por que Jesus viu na ação do mordomo infiel um exemplo a ser imitado por seus discípulos. Esses, à semelhança do mordomo infiel, deveriam reconhecer a vantagem de abrir mão de um pouco agora, para que um dia, no futuro, se possa ganhar muito mais.J. Duncan M. Derrett ("Fresh Light on St Luke xvi:I. The Parable of theUnjust Steward" [Nova Luz Sobre Lucas 16: A Parábola do Mordomo Infiel], NTS 7 , p. 198-219), e pela Bíblia de JerusalémA Bíblia de Jerusalém comenta essa Parábola por meio de uma nota de rodapé a , na qual observa que: na época existia um costume segundo o qual o administrador tinha o direito de conceder empréstimos com os bens de seu senhor e de se apropriar dos juros; os juros eram cobrados exigindo-se uma quantia maior do que a entregue; portanto, a redução feita não teria resultado em perdas para o senhor, pois a quantia recebida seria igual àquela que foi entregue, mas somente em perdas para o próprio administrador que estaria renunciando aos juros.. Porém, essa explicação "não é plausível", segundo Joel B. GreenJoel B. Green, The Gospel of Luke, Eerdmans, 1997, ISBN 0802823157, pp. 590-595.. No entanto, embora o comandante tenha "uma certa admiração" na espertezaJohn Phillips, Exploring the Gospel of Luke: An expository commentary, Kregel Publications, 2005, ISBN 0825433770, pp. 216-217. do mordomo, Jesus chama o gerente de "desonesto". Contudo, poucos comentaristas bíblicos se utilizam destes artifícios, pois o "mestre" é geralmente uma metáfora para Deus e ficaria sim uma impressão de que, na parábola, a conduta do mordomo contaria com a aprovação divina (do "mestre").
O gerente da parábola é, provavelmente, um escravo ou liberto atuando como agente de seu mestre em assuntos de negócios. Como representante de seu mestre, os acordos que assina com os devedores são, portanto, obrigatórios.
A parábola compartilha o tema com outras passagens onde "Jesus aconselha a alienação de bens (e da hospitalidade) em nome dos pobres com o entendimento de que, ainda que as riquezas desapareçam, o tesouro eterno terá sido garantido". Quando a morte chega, "o poder que temos de fazer o bem com o nosso dinheiro desaparece, por isso devemos fazer o bem com ele quando vivos" para que os amigos que fizemos na terra estejam esperando por nós no céu. Esta interpretação foi também defendida por escritores da igreja primitiva, como Astério de Amasia:
O reformador inglês William Tyndale teve o cuidado de enfatizar a consistência dessa parábola com a doutrina da justificação pela fé, escrevendo um livro sobre a parábola chamado "A Parábola do Mordomo Infiel" (1528)William Tyndale, The Parable of the Wicked Mammon (1528), also printed in The Works of the English reformers: William Tyndale and John Frith, Volume 1 (1831), pp. 83–161. com base numa exposição de Martinho LuteroMike Pincombe and Cathy Shrank, The Oxford Handbook of Tudor Literature, Oxford University Press, 2009, ISBN 0199205884, p. 109.. Tyndale viu "boas obras" como o resultado da fé e também apontou que o mordomo não foi elogiado por Jesus por sua conduta, mas foi apenas utilizado como um exemplo de sabedoria e diligência, de modo que "nós, com justiça, devamos ser tão diligentes para prover às nossas almas como ele foi, com injustiça, ao prover para o seu corpo".
O teólogo anglicano J.C. Ryle, escrevendo em 1859, rejeitou uma série de interpretações alegóricas da parábola e deu uma interpretação semelhante à de Tyndale:
A Bíblia do Peregrino, que denomina essa Parábola como "Parábola do administrador", tece comentários por meio de uma nota de rodapéAlém disso a Bíblia do Peregrino faz comentários específicos a:
, no qual observa que: Ben Sirac apresenta a mendicância como uma situação particularmente deplorável em Eclesiástico 40:28-30; , nos quais observa que:
os discípulos de Jesus são chamados de cidadãos (filhos) da luz em e ; deve-se ter iniciativa e engenho na administração dos bens recebidos; talento e engenhosidade também são dons de Deus que devem ser bem administrados;
, nos quais observa que:
cf. Tobias 12:9 A esmola expia os pecados; a palavra dinheiro em grego correspondia ao nome do deus Mamon., na qual observa que: o fato da parábola intrigar o leitor é saudável; rejeita a interpretação que sutenta que o percentual perdoado pertenceria ao administrador; os bens foram confiados a nós por Deus para administrarmos; para que nossas injustiças sejam perdoadas, podemos fazer o bem a outros mais necessitados (cf. ); a prudência cristã é paradoxal, pois parece insensata aos olhos do mundo.
A Tradução Ecumênica da Bíblia, que denomina essa Parábola como "Parábola do gerente astuto", tece comentários por meio de uma nota de rodapé,Além disso a Tradução Ecumênica da Bíblia faz comentários específicos a:
, no qual observa que: o termo "gerente", também pode ser traduzido como intendente, empregado em ; , no qual observa que: em algumas outras passagens de parábolas também há pequenos monologos, tais como: , , , , , e ; , no qual observa que: o termo jarra (de azeite) é uma tradução da unidade de medida denominada bat que corresponderia a algo entre 21 e 45 litros; , no qual observa que: o termo saco (de trigo) é uma tradução da unidade de medida denominada kor que equivale a dez bats, ou seja, a algo entre 210 e 450 litros; , nos quais observa que:
a tradução literal para a expressão "gerente desonesto" seria "gerente da injustiça"; o termo "habilidade" é empregado no Antigo Testamento também para referir-se à "habilidade desonesta", como em ; a expressão "os que pertencem a esse mundo" corresponde a uma expressão cuja tradução literal seria: "os filhos deste mundo", e designa aqueles que só conhecem o mundo presente e só agem para ele; a expressão "com os seus semelhantes" corresponde a uma expressão cuja tradução literal seria: "com os de sua geração" (ou "em suas gerações"), que seria um hebraísmo que também foi encontrado nos textos de Qumran que também poderia ser traduzido como: "na categoria deles"; a expressão "os que pertencem à luz" corresponde a uma expressão cuja tradução literal seria: "os filhos da luz", que em Qumran são os membros da comunidade que se opõe aos "filhos das trevas";
, nos quais observa que:
o termo "Dinheiro" (escrito naquele versículo em letra maiúscula) é uma tradução de Mamon que designa o "Dinheiro" personificado como uma potência que escraviza o mundo; a expressão "uma vez desaparecido este", que se refere ao "Dinheiro", em alguns manuscritos é substituída por: "uma vez que tiverdes desaparecido", que se refere ao destinatário da mensagem; a expressão "esses amigos", incluída antes de "vos acolham" não está no texto original, tendo sido incluída para dar maior clareza a luz da interpretação do tradutor, mas há quem sustentem que o sujeito dessa frase seria o próprio Deus, pois nas línguas semíticas o plural impessoal as vezes é utilizado para se referir ao próprio Deus; a expressão "moradas eternas" corresponde a uma expressão cuja tradução literal seria: "tendas eternas", e não é encontrada para designar o lugar da salvação nem no Antigo Testamento, nem na literatura judaica, nem no Novo Testamento, e deve ter ser inspirado na "Festa das Tendas" (Tabernáculo), que seria uma prefiguração da era da salvação (cf. ); esse versículo deve ser interpretado à luz do versículo 4, e é um convite a acumular tesouros no céu (cf. , e ) por meio da esmola (tema importante para Lucas, cf. , , , , , , , , , , ). na qual observa que: essa parábola costuma trazer dificuldades de interpretação, pois Jesus parece enaltecer o exemplo de um espertalhão; trata-se de situação que traz perplexidade semelhante àquela que se vem a partir da leitura de , na qual a atitude de Deus é comparada com a atitude de um juiz sem justiça, ou da leitura de , na qual Jesus convida os discípulos a terem atitudes semelhantes às das serpentes; o gerente serve de exemplo em decorrência de sua habilidade; por meio dessa parábola, Jesus convida os discípulos a serem tão hábeis no serviço do Reino de Deus quanto os espertalhões desse mundo em seus negócios escusos.
Ver também
Harmonia evangélica Ministério de Jesus
Categoria:Parábolas de Jesus Categoria:Evangelho de Lucas