A Batalha de Guaxenduba foi um confronto militar ocorrido em 19 de novembro de 1614, próximo de onde hoje se localiza a cidade de Icatu, no estado do Maranhão, no Brasil. Envolveu forças portuguesas, potiguaras e tabajaras, de um lado, e francesas e tupinambás, de outro. A batalha foi um importante passo dado pelos portugueses para a expulsão definitiva dos franceses do Maranhão, a qual viria a ocorrer no ano seguinte. A expulsão dos franceses possibilitou que grande parte da Amazônia passasse para domínio português e, posteriormente, brasileiro.

Antecedentes

Amazônia e a Capitania do Maranhão A Amazônia era conhecida pelos espanhóis desde 1501, quando a região foi percorrida por Vicente Yáñez Pinzón. O Rio Amazonas foi navegado pela primeira vez em 1541 por Francisco de Orellana, numa viagem que partiu de Quito e chegou ao mar. No século XVI, vários exploradores espanhóis obtiveram concessões para investigar a região, mas as expedições eram perigosas e pouco lucrativas, o que afastou o interesse dos castelhanos. À época das capitanias hereditárias, denominava-se "Maranhão" a região inexplorada que se situava no limite entre o Estado do Brasil e o Vice-Reino do Peru. As tentativas dos portugueses de ocupar a Capitania do Maranhão no século XVI fracassaram; assim, a região amazônica permaneceu esquecida pelos lusitanos, sendo frequentemente explorada por piratas estrangeiros.

No final do século XVI, os portugueses, estabelecidos em Pernambuco, começaram a expandir sua presença em direção ao norte, buscando vencer tribos indígenas resistentes e expulsar os corsários franceses de suas feitorias nas regiões próximas. No período da União Ibérica, a Coroa castelhana também temia que a Holanda, a Irlanda, a Inglaterra e alguns Estados alemães formassem uma aliança de países protestantes para tomar o norte de Pernambuco, o que impulsionou tentativas de ocupação portuguesa de regiões a norte e oeste desse núcleo de colonização.

França Equinocial

thumb|150px|Elevação de uma cruz para a bênção da Ilha do Maranhão, durante a fundação da França Equinocial

Desde o início do século XVI, os franceses se estabeleceram em diversos pontos da costa brasileira, buscando principalmente contrabandear o pau-brasil. Em 1556, tentaram consolidar uma colônia no Rio de Janeiro, a França Antártica, sendo expulsos em 1567. Em 1594, no Maranhão, os franceses instalam uma feitoria com o apoio dos indígenas locais, e em 1612, novamente estabelecem uma colônia no território reivindicado por Portugal: em 8 de setembro desse ano, foi fundada a povoação de Saint Louis e iniciada a construção do Forte de São Luís do Maranhão, onde hoje existe o Palácio dos Leões.

Em 1613, numa viagem de reconhecimento por mar, o militar português Martim Soares Moreno descobriu a existência dessa povoação francesa. Através de relatos de indígenas, soube que não se tratava de uma feitoria, mas de uma colônia organizada e com recursos consideráveis.ÉVREUX, 2007, p. 35-36 Tentou retornar a Pernambuco, mas com o movimento contrário da Corrente das Guianas, sua embarcação foi levada às Antilhas, de onde ele partiu para a Europa.

Jornada Milagrosa

Com o objetivo de fazer o reconhecimento da Capitania do Maranhão, o governador-geral do Brasil, Gaspar de Souza, enviou tropas de Pernambuco para consolidar o domínio sobre a região, em duas forças separadas. A primeira, comandada pelo capitão-mor Jerônimo de Albuquerque, partiu de Recife em 22 de junho de 1614, por via terrestre, e era composta por cerca de 90 soldados. Albuquerque chegou ao Rio Grande, onde deveria recrutar guerreiros indígenas e aguardar a chegada da segunda força portuguesa, a principal, comandada pelo sargento-mor Diogo de Campos Moreno. Em 24 de julho, Gaspar de Souza recebeu da Europa uma correspondência de Martim Soares, na qual ele relatava que havia chegado ao Maranhão e alertava que lá havia muitos franceses e que estes haviam conquistado a amizade dos índios. O contingente de Diogo de Campos partiu de Recife por mar, em 23 de agosto de 1614, e era formado por cerca de 300 portugueses em 8 embarcações. A expedição foi intitulada "milagrosa" devido às limitações de recursos presentes: escassez de mantimentos, ausência de médicos, e embarcações pequenas e em mau estado.MORENO, 2011, p. 38-43

Jerônimo de Albuquerque esperava recrutar até 500 guerreiros no Rio Grande, mas conseguiu reunir apenas 234 homens, acompanhados de 300 mulheres e crianças. Diogo de Campos chegou em 28 de agosto e reuniu-se com Jerônimo de Albuquerque. Este pretendeu prosseguir com seus índios e alguns soldados por terra, pois julgava que as embarcações tinham pouco armamento e seriam perdidas num possível combate contra corsários;MORENO, 2011, p. 45 porém, de última hora, decidiu embarcar seu contingente na flotilha, e todo o efetivo seguiu por marMORENO, 2011, p. 46 até as proximidades do Forte de Nossa Senhora do Amparo, onde Albuquerque e seus indígenas desceram à terra por não estarem acostumados ao mal-estar das viagens marítimas. A maior parte dos índios que embarcaram no Rio Grande abandonaram a viagem e permaneceram no Ceará, exceto 50 guerreiros; em compensação, o grupo recebeu reforços de aldeias do Ceará, passando a ter 220 indígenas ao todo.MORENO, 2011, p. 47-49 Todo o contingente embarcou em 29 de setembro de 1614; em seguida chegaram à Baía das Tartarugas. Jerônimo de Albuquerque tentou conseguir apoio dos índios da Serra da Ibiapaba, mas isso lhe foi negado pelo chefe Jurupariaçu ("Diabo Grande"),MORENO, 2011, p. 50-52 que era aliado dos franceses, além de ser filho de um francês e uma índia.ÉVREUX, 2007, p. 144

Em 12 de outubro, o contingente de 300 portugueses e 200 flecheiros indígenas voltou a embarcar, chegando à foz do Rio Periá no dia seguinte, levado por ventos fortes.MORENO, 2011, p. 53-55 Começaram a fazer o reconhecimento da região e a buscar um local adequado para fortificar. Em 26 de outubro, após passarem por entre canais estreitos, bancos de areia e parcéis, chegaram a uma área chamada de Guaxindubá pelos indígenas, na margem direita da Baía de São José. Ali, na praia de Guaxenduba, sob a orientação do engenheiro Francisco Frias de Mesquita, foi construída uma fortificação de madeira e entulho, de formato hexagonal, à qual foi dado o nome de Forte de Santa Maria,MORENO, 2011, p. 59-61 a cerca de 20 km da atual sede do município de Icatu, diante das posições francesas no Forte de São José de Itapari.DOCUMENTOS..., p. 110

Uma vez estabelecidos, os portugueses passam a trabalhar na construção e vigilância do forte e no reconhecimento da região. Num primeiro contato com os portugueses, alguns indígenas da Ilha disseram que a mesma estava cheia de franceses, outros, que eles haviam ido embora. Em 30 de outubro, um grupo de indígenas da Ilha matou quatro índias e um índio que acompanhavam os portugueses, fazendo-os desconfiar daqueles nativos e acreditar que haviam sido enviados pelos franceses para reconhecer seus navios. Nos dias do final de outubro, os portugueses no forte de Santa Maria observavam o movimento de embarcações francesas na Baía de São José, contra as quais tiveram alguns confrontos rápidos.MORENO, 2011, p. 62-63

Primeiro ataque francês Em 10 de novembro de 1614, após um desentendimento com Diogo de Campos, Jerônimo de Albuquerque ordenou que as tripulações dos navios que estavam ancorados ou encalhados no estuário ficassem vigilantes; um indígena da Ilha havia informado os portugueses de que, naquela noite, os franceses tentariam tomar suas embarcações. Na madrugada de 11 de novembro, os franceses, guiados por Louis de Pézieux, Monsieur du Prat e Isaac de Rasilly, aproximaram-se dos navios silenciosamente. Quando perceberam o ataque, os marinheiros tocaram as trombetas e alertaram os soldados do forte, que dispararam a artilharia sem cessar, entretanto, não gerando nenhum efeito nos franceses. Os marinheiros abandonaram e deixaram livres as embarcações, das quais três foram capturadas pelos franceses: uma caravela, um patacho e um barco que estavam mais afastados da terra.MORENO, 2011, p. 66-67

A batalha

Início do confronto Na manhã de 19 de novembro de 1614, os soldados portugueses notaram que, na praia em frente ao forte de Santa Maria, o mar estava repleto de embarcações a vela e a remo se aproximando da costa, com franceses e seus aliados indígenas desembarcando. Para atacá-los, Diogo de Campos dirigiu-se à praia com alguns soldados portugueses. Foi iniciada uma troca de tiros e nesse primeiro contato, foram mortos um soldado português e dois franceses; percebendo que o número de inimigos era muito maior, o sargento-mor retornou ao forte.

Os franceses dispunham de 200 soldados, muitos dos quais eram fidalgos, em duas tropas separadas, levando coletes de aço, espadas e mosquetes de grande qualidade. Contavam com 50 canoas e 2000 índios, tanto da Ilha quanto de Tapuitapera (atualmente Alcântara). Daniel de la Touche, senhor de la Ravardière, comandante dos franceses, estava no mar com mais 200 homens liderados por Isaac de Razilly, e 100 flecheiros indígenas; essa segunda força deveria desembarcar a seguir, para fechar o cerco aos portugueses. Segundo relatos de prisioneiros franceses, esse outro contingente era composto de 100 soldados, que deviam guardar os navios até que o forte português fosse tomado.

Trincheiras Diante do forte de Santa Maria havia um outeiro a uma distância igual a um tiro de falcão, limitado a norte pelo mar e ao sul pelo rio do qual os portugueses retiravam água. Os franceses, junto a seus aliados indígenas, desembarcaram ao pé desse morro na preamar (maré alta) e no topo, construíram uma cerca de varas de madeira, que foi guarnecida por franceses e cerca de 400 índios. Abaixo dela, construíram outra cerca, além de 7 trincheiras com pedras grandes, que eram defendidas pelos demais franceses e indígenas. Dessa maneira, fortificaram todo o espaço entre a maré e o topo do outeiro, de modo que as canoas que chegavam ficavam parcialmente ocultas. Por um caminho secreto, Jerônimo de Albuquerque circundou o morro com 75 soldados e 80 flecheiros, enquanto Diogo de Campos mobilizou outro grupo e se preparou para atacar os franceses e indígenas no desembarque.MORENO, 2011, p. 72 Em terra, saltou de uma canoa com um trombeta (mensageiro), que levava o brasão de armas reais da França e uma carta em francês escrita por Ravardière, a qual dizia que os portugueses deviam se render em 4 horas ou seriam massacrados. Diogo de Campos percebeu que a carta era uma tentativa de obter informações sobre o estado das tropas portuguesas e ganhar tempo, uma vez que as posições francesas ainda não estavam consolidadas.MORENO, 2011, p. 73-74

Diogo de Campos avançou com seu grupo contra as trincheiras, e comunicou a Jerônimo de Albuquerque que fizesse o mesmo. O contingente do sargento-mor tomou a primeira trincheira, e como os índios que a defendiam com os franceses eram uma grande multidão, os portugueses não perdiam um tiro. Os franceses em terra (comandados por Louis de Pézieux) inicialmente insistiram na luta, mas percebendo que os portugueses haviam tomado a trincheira dos índios, começaram uma retirada em direção aos seus navios. Nesse momento, o contingente de Jerônimo de Albuquerque saiu do mato e avançou sobre eles; Monsieur du Prat, comandante de uma das companhias, escapou do combate, enquanto os demais decidiram permanecer lutando junto a Pézieux, que foi morto no confronto. Apesar dos pedidos dos portugueses para que se rendessem, os franceses resistiram, sustentando um combate intenso.MORENO, 2011, p. 75-76DOCUMENTOS..., p. 112