thumb|right| Protesto reivindicando o sufrágio universal em Estocolmo, Suécia. Atualmente, uma das características geralmente relacionadas ao conceito de democracia é o reconhecimento do voto universal de ambos os gêneros A história da democracia refere-se a um conjunto de processos históricos cuja origem é tradicionalmente localizada na Atenas clássica e por meio dos quais foram forjados discursos e práticas políticas de cunho democrático. Democracia, por sua vez, é um conceito de difícil definição, fundamentado na noção de uma comunidade política na qual todas as pessoas possuem o direito de participar dos processos políticos e de debater ou decidir políticas igualmente e, na acepção moderna, na qual certos direitos são universalizados a partir dos princípios de liberdade de expressão e dignidade humana. O conceito de democracia, embora estreitamente vinculado à ideia de lei e ao constitucionalismo, não se resume à igualdade jurídica, e também depende do acesso democrático (isto é, igual para todos) a espaços e benefícios sociais diversos, sobretudo do ponto de vista das esquerdas.<ref name=
O termo democracia é de origem grega (δημοκρατία, dēmokratía) e quer dizer "poder do povo". Na Grécia Antiga, o termo foi muitas vezes empregado de forma depreciativa, uma vez que a maior parte dos intelectuais gregos, entre eles Platão e Aristóteles, era contrária a um governo de iniciativa popular.
Pré-história
Antropólogos costumam afirmar que formas de protodemocracia remontam à época na qual os humanos se organizavam em pequenos bandos de caçadores-coletores que antecedem o estabelecimento de sociedades agrárias e sedentárias, sendo que ainda existem alguns pequenos grupos humanos remanescentes que ainda vivem nesse estado civilizacional nos dias atuais. Trata-se de grupos que, geralmente, agregam entre 50 e 100 indivíduos, muitas vezes ligados por laços familiares. Em tais grupos, as decisões são tomadas por consenso ou por maioria - muitas vezes, sem a designação de um chefe.Olson, M. (1993). Dictatorship, Democracy, and Development. American Political Science Review, 87(03), 567-576.
Esses tipos de comunidades são comumente identificados como tribalismo ou democracia primitiva. Nesse sentido, uma democracia primitiva geralmente toma forma em pequenas comunidades ou aldeias quando ocorrem discussões face a face entre os integrantes de uma aldeia, conselho ou com um líder que tem o apoio dos anciãos da aldeia ou outras formas cooperativas de governo.political system, em inglês, acesso em 20/08/2022.
Isso se torna mais complexo em uma escala maior, como quando a vila e a cidade são examinadas mais amplamente como comunidades políticas. Todas as outras formas de governo – incluindo a monarquia, tirania, aristocracia e oligarquia – floresceram em centros mais urbanos, geralmente aqueles com populações concentradas.democracy, em inglês, acesso em 20/08/2022.
Antiguidade
Fenícia
Segundo o relato das Aventuras de Unamón, um comerciante egípcio que viajou, por volta de 1100 a.C., para a cidade fenícia de Biblos para comprar madeira (cedro-do-líbano). Entretanto, depois de carregar sua madeira, um grupo de piratas tomou o seu navio de carga.
Depois disso, Unamón fez uma reclamação e o príncipe fenício de Biblos foi chamado para resolver o problema e convocou seu mw-d'wt, uma antiga palavra semítica que significa assembleia, para tomar uma decisão.
Esse relato revela que naquela cidade, algumas ações eram feitas a partir de deliberações feitas em assembleias.Robinson, E. W. (2003). "Ancient Greek Democracy: Readings and Sources". Blackwell Publishing.
Mesopotâmia
Segundo Thorkild Jacobsen, no início da civilização sumeriana, reis como Gilgamés não detinham o poder autocrático que os governantes mesopotâmicos posteriores exerceram. Em vez disso, as principais cidades-estados funcionava com conselhos de anciãos e "jovens" (provavelmente homens livres portando armas) que possuíam a autoridade política final e tinham que ser consultados em todas as questões importantes, como a guerra.Jacobsen, T. (Julho 1943). "Primitive Democracy in Ancient Mesopotamia". "Journal of Near Eastern Studies"Isakhan, B. (2007). Engaging "Primitive Democracy," Mideast Roots of Collective Governance. Middle East Policy, 14(3), 97–117
Subcontinente indiano
Entre os séculos VI a.C. e IV d.C. existiram algumas tribos do Subcontinente Indiano que adotaram instituições democráticas, tais como: os Xáquias, os Koliyas, os Mallas e os Licchavis.Robinson, E. W. (1997). "The First Democracies: Early Popular Government Outside Athens". Franz Steiner Verlag.
Esparta
Esparta se diferenciava das outras cidades-estados gregas por rejeitar a riqueza privada como um diferenciador social primário, sendo, portanto, um tipo peculiar de oligarquiaCartledge, P. (2003). "Spartan reflections". University of California Press. e alguns estudiosos reconhecem a existência de aspectos democráticos na sociedade espartana.Dunn, J. (1994). "Democracy: the unfinished journey 508 BC – 1993 AD". Oxford University Press.PLUTARCH, PLATO AND SPARTA, em inglês, acesso em 21/08/2022.The Spartan Government, em inglês, acesso em 21/08/2022.SPARTA RECONSIDERED, em inglês, acesso em 21/08/2022. Uma das características pecuriares da da sociedade espartana era a Agogê, um sistema de educação pública obrigatório para os jovens cidadãos do sexo masculino.Agoge, the Spartan Education Program, em inglês, acesso em 21/08/2022.
Democracia Ateniense
Considerada a matriz da democracia moderna, a democracia ateniense vigorou por muitos anos após a instauração de sua forma primitiva com as reformas de Sólon por volta dos anos 590 a.C. Embora a democracia possa ser definida como "o governo do povo, pelo povo e para o povo", é importante lembrar que o significado de "governo" e "povo" na Atenas Antiga difere daquele das democracias contemporâneas. Enquanto a democracia contemporânea em geral considera o governo um corpo formado por representantes eleitos, e o "povo" (geralmente) como um conjunto de cidadãos próprios de uma nação, homens e mulheres, acima dos 18 anos, os atenienses consideravam o "governo" como sendo a assembleia (eclésia) que tomava decisões diretamente (sem intermédio de representantes) e o "povo" (geralmente) como os homens atenienses maiores de 18 anos.
Tradicionalmente, a trajetória política da democracia ateniense é remontada a Sólon. Segundo os autores gregos, Sólon era um reformador que teria ampliado o poder da Assembléia popular da cidade, além de ter criado a Bulé, um conselho formado por quinhentos homens atenienses escolhidos por sorteio. Clístenes, um reformador que foi descrito pelos autores clássicos como o “pai” da democracia ateniense, outorgou um poder ainda maior ao corpo de cidadãos atenienses, isto é, os homens atenienses (de pai e mãe atenienses) maiores de trinta anos. No seu auge, a democracia ateniense consistia, basicamente, na soberania da assembléia popular, na qual todos os cidadãos tinham direitos iguais de voto e fala, a despeito de suas condições econômicas ou de sua instrução. A assembléia ateniense decidia virtualmente tudo na democracia ateniense. Os maiores oficiais do estado, os estrategos, eram eleitos para permanecer no cargo por apenas um ano, e não havia possibilidade de reeleição. Quase todos os outros cargos públicos da pólis eram preenchidos por cidadãos escolhidos por sorteio, de forma que todos os atenienses eram obrigados a participar da vida política da cidade. Com efeito, os gregos acreditavam que o método de escolha pela sorte era essencialmente democrático, enquanto as eleições baseavam-se num princípio aristocrático: a escolha dos “melhores”.
O conselho dos quinhentos era uma instituição política responsável por administrar eventos públicos e organizar as reuniões da assembléia popular. Esse conselho também era formado por cidadãos escolhidos aleatoriamente de acordo com um sistema estabelecido pelo próprio Sólon. Os cargos eram rotativos e os membros do conselho duravam apenas um ano no cargo. Outra célebre instituição política da democracia ateniense era o conjunto dos júris populares (δικαστήρια). Não havia nada que se assemelhasse a um juiz na democracia ateniense. Os casos de ofensa, sacrilégio, “inconstitucionalidade” e outros crimes eram julgados por um júri escolhido à sorte dentre um grupo de cidadãos que se candidatava para esse serviço. Os litigantes realizavam sua defesa ou acusação sem auxílio de “advogados” e aguardavam uma decisão peremptória dos jurados.
Os gregos foram o primeiro povo a pensar formalmente a democracia como um regime político, mas há evidências da existência de práticas democráticas em outras sociedades mais antigas. De qualquer forma, como disse o historiador Moses I. Finley,
A democracia ateniense era direta, e nisso se diferencia de nossas democracias modernas. Segundo o historiador Morgens Herman Hansen “Nos estados modernos, temos a tendência de associar o poder executivo e o governo ao Estado, ao invés de associá-lo ao povo; mas, em uma pólis democrática, particularmente em Atenas, os órgãos do governo coincidiam amplamente com o corpo de cidadãos.” Sabemos, contudo, que a democracia ateniense marginalizava vários habitantes da pólis, como escravos e mulheres. Com efeito, pode-se dizer que de um total de 430 000 habitantes atenienses (contando mulheres e metecos), apenas 60 000 gozavam do benefício da cidadania.
Imagens da democracia ateniense
Na antiguidade, a democracia foi interpretada de forma pejorativa, mas também como uma das maiores conquistas culturais dos gregos. A esse respeito, Tucídides relata em sua História da Guerra do Peloponeso que Péricles teria dito, em um discurso, o seguinte:
Para Ésquines, por exemplo, a democracia era como uma articulação de igualdade e liberdade que, por sua vez, promovia a felicidade dos cidadãos. Uma visão diferente é apresentada por Platão, que considerava a democracia uma espécie de anarquia da opinião, na qual a perspectiva dos ignorantes e mal instruídos se sobrepunha à opinião dos mais sábios. Aristóteles, por sua vez, considerava que um princípio democrático deveria existir na constituição de um bom governo, mas apenas se regulado por um princípio aristocrático. É interessante notar que Aristóteles defende que a democracia pode vir a ser mais vantajosa para a constituição de uma pólis em determinadas circunstâncias, embora a princípio a classifique como degenerescência de outra forma ideal de governo.
República Romana
thumb|right| Busto de Cícero, político e orador romano. Cícero dizia que o poder da República residia no povo, e a autoridade no Senado. "Potestas in populo, auctoritas in senatu" (De Legibus,3,12)
O sistema republicano romano foi herdeiro do pensamento político grego e, em muitos sentidos, pode ser considerado um sistema político misto, contendo elementos democráticos e oligárquicos. Foi graças ao pensamento político romano que o pensamento democrático ateniense foi preservado. Grosso modo, os romanos interpretavam a república como um sistema no qual a "autoridade" residia no senado (instituição formada por romanos de alta dignidade, na sua maioria ex-magistrados), enquanto o "poder" residia no povo, na plebe.
Tradicionalmente, a República Romana foi interpretada como um governo centralizado pela figura do Senado. No entanto, estudiosos como Fergus Millar criticaram essas interpretações convencionais, enfatizando o poder das assembléias populares na república. Atualmente, há um intenso debate historiográfico a respeito do real poder dos senadores e a respeito da atuação das assembleias populares no período republicano.