Quarto de Despejo: Diário de uma Favelada, mais conhecido como Quarto de Despejo, é um livro autobiográfico da escritora Carolina Maria de Jesus, publicado pela primeira vez em agosto de 1960, pela livraria e editora Francisco Alves.
No livro, a autora relata sua vivência na favela do Canindé, onde morava com seus três filhos, os quais sustentava sozinha trabalhando como catadora de materiais recicláveis, predominantemente papéis.
A favela era designada por De Jesus como o "quarto de despejo" da cidade, um lugar onde se escondia a população pobre, miserável e sem condição de uma vida digna.
Antecedentes De Jesus nasceu em Sacramento, no estado de Minas Gerais em 14 de março de 1914, mudando-se para a cidade de São Paulo em 1947. Desde criança já se interessava pela leitura, tendo mais tarde iniciado a escrita de seus diários. A autora teve apenas dois anos de estudo, realizados na primeira escola espírita do Brasil, o Colégio Allan Kardec, fundado por Eurípedes Barsanulfo em sua cidade natal.
Em 1958, o jornalista Audálio Dantas visitou a favela do Canindé para uma reportagem do jornal Folha da Noite, local onde vivia De Jesus, relatando ter se encantado com a autora, que, "apesar de ser uma mulher extremamente pobre e simples, demonstrava uma grande lucidez crítica".
A primeira matéria jornalística de Dantas com excertos do livro, foi uma reportagem de página inteira do jornal Folha da Noite, em 9 de maio de 1958, intitulada "O drama da favela escrito por uma favelada: Carolina Maria de Jesus faz um retrato sem retoque do mundo sórdido em que vive", na qual se destaca a singularidade de Carolina enquanto escritora moradora da favela.
Posteriormente, o jornalista publicou uma matéria na revista O Cruzeiro, da qual era editor-chefe, com o título "Retrato da favela no diário de Carolina: a fome fabrica uma escritora". Os dois textos são anteriores à publicação do livro e contribuíram para tornar sua autora, uma figura conhecida do grande público.
Os registros começam com a seguinte nota:
E terminam com:
Publicação O livro é publicado em agosto de 1960, pela editora da Livraria Francisco Alves. Com uma tiragem inicial de dez mil exemplares que se esgotou em apenas uma semana e já foi traduzido para mais de treze idiomas desde o seu lançamento.
A publicação, é uma edição feita por Dantas e pela equipe de editoração da Livraria Francisco Alves, que recebeu 20 cadernos escritos por De Jesus. Dantas fez a seleção dos trechos dos diários a serem publicados e o prefácio do livro, além de ser o responsável pela estratégia de divulgação da obra na imprensa.
Reedições Em 2020, é publicada nova edição de Quarto de Despejo pela Editora Ática em comemoração de sessenta anos da primeira edição. O livro conta com acréscimo de novas notas em relação a edição de 2014 e com textos críticos selecionados de 1962 a 2020, entre os quais de autoria de: Alberto Moravia, Carlos Vogt e Fernanda Miranda.
Enredo O livro reproduz os diários da autora, onde narra o seu dia a dia numa comunidade pobre da cidade de São Paulo, a antiga Favela do Canindé.
No diário, que descreve suas vivências no período de 1955 a 1960, e as angústias dos habitantes da favela, sobretudo a rotina da fome, repetida diariamente. De Jesus se sustentava recolhendo papel nas ruas. Quando não conseguia papel, ela e seus filhos não comiam.
Crítica Grandes autores brasileiros escreveram sobre a obra, tais como Rachel de Queiroz, Sérgio Milliet, Helena Silveira, entre outros. Porém, de acordo com Dantas, alguns questionaram a veracidade dos textos argumentando que "só podia ser obra de um espertalhão, um golpe publicitário". Dantas então cita o poeta Manuel Bandeira, que "em lúcido artigo, colocou as coisas no devido lugar":
Por fim, Dantas conclui com:
Temas e análises Para retratar sua realidade, a autora se utilizou de uma linguagem objetiva e marcada pela oralidade, ao mesmo tempo culta e inculta, oscilando entre um registro popular e o discurso literário. Seu texto é considerado um dos marcos da escrita feminina no Brasil.
A obra foi inicialmente considerada como "literatura documentária de contestação" pelo jornalismo de denúncia, que oferece meios de reportar a situação social vivida pelas camadas tradicionalmente sem meios de expressão. Na atualidade, a obra se insere no contexto das narrativas femininas que tiveram início na década de 1970, dentro da "literatura das vozes subalternas".
Na década de 1990, acadêmicos interessados nas vozes excluídas periféricas das décadas de 1950 e 1960 resgataram a obra de Carolina Maria de Jesus no contexto universitário. Quarto de Despejo foi objeto de várias teses e dissertações defendidas nas principais universidades brasileiras, como se pode constatar em buscas na Biblioteca Digital de Teses e Dissertações do Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia e na Biblioteca Digital de Teses e Dissertações da Universidade de São Paulo (USP).
Contexto social Na década de 1950, o país tinha cerca de 52 milhões de brasileiros, sendo que 36% dessa população era urbana e metade dela com 15 anos ou mais era analfabeta. Um levantamento de 1957 contabilizava 141 favelas só em São Paulo, com pouco mais de 8 mil domicílios e cerca de 50 mil favelados. Entre 1955 e 1960, a inflação no Brasil subia a uma média de 23% ao ano, segundo o IGP-DI da Fundação Getúlio Vargas.
A segunda metade da década de 1950 foi marcada pela modernização industrial, que resultou num processo inflacionário e no aumento da desigualdade social. O processo de industrialização na década de 1950, que levou ao início da favelização nos grandes centros urbanos, trouxe um novo fenômeno: a fome urbana. O jornal Folha da Manhã, em uma reportagem de 1952, descrevia as recém surgidas favelas como "um ambiente de miséria, desconforto e fome".
Impacto social e cultural A favela do Canindé existiu na cidade de São Paulo entre os anos de 1948 e 1961 e era situada em terreno público, às margens de um rio Tietê ainda não canalizado. A favela foi criada em 1948 pela própria Prefeitura de São Paulo, que concedeu a área para o assentamento de 99 famílias desalojadas da ocupação de um terreno particular. Segundo pesquisa de Marta Godinho, em 1955 a favela já possuía 96 barracos, divididos entre 108 famílias, num total de 463 pessoas. Em 1961, com a repercussão da publicação da autora, que era moradora do local, a favela foi extinta para construção da Marginal Tietê e seus ex-moradores foram transferidos para habitações em bairros distantes do centro.
A partir de 2017, a Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), a Universidade Estadual de Maringá (UEM), a Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG) e a Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) adotaram o livro em suas leituras obrigatórias para o vestibular.
Adaptações Teatro O livro foi adaptação para o teatro por Edy Lima, com direção de Amir Haddad em 1961. A atriz Ruth de Souza atuou como De Jesus.
Televisão No ano de 1983, um episódio da série Caso Verdade, programa da Rede Globo, foi adaptado por Cleston Teixeira e dirigido por Atílio Riccó, onde De Jesus foi novamente interpretada pela atriz Ruth de Souza.
Quadrinhos Em 2024, foi lançada a graphic novel Quarto de Despejo, escrita por Triscila Oliveira, ilustrações de Preta Ilustra, com arte-final de Hely de Brito e Emanuelly Araujo. No ano seguinte, a publicação ganhou o Troféu HQ Mix de melhor adaptação para os quadrinhos e o Prêmio Angelo Agostini de melhor roteirista.
Obras derivadas Música Em 1961, De Jesus gravou o álbum "Quarto de Despejo: Carolina Maria de Jesus Cantando Suas Composições";
Quarto de Despejo, também foi um samba, composto por B. Lobo.
Documentário Em 1971, a televisão alemã produziu o documentário Despertar de um Sonho, dirigido por Christa Gottmann-Elter, com De Jesus como protagonista. Somente em 2014 foi exibido no Brasil pelo Instituto Moreira Salles (IMS).
Livro Eu te Arrespondo Carolina, livro de autoria de Herculano Neves.
Ver também Autorretratística Literatura confessional
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