A Escola de Química (EQ) é uma unidade acadêmica da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), vinculada ao Centro de Tecnologia e sediada na Cidade Universitária, no Rio de Janeiro. Sua criação formal ocorreu em 28 de julho de 1933, quando o Decreto nº 23.016 instituiu a Escola Nacional de Química (ENQ), a partir do Curso de Química Industrial que funcionava anteriormente na Escola Superior de Agricultura e Medicina Veterinária (ESAMV).
A instituição tem origem no ensino profissional de química industrial implantado no início do século XX e, ao longo de sua trajetória, esteve associada à formação de profissionais e pesquisadores para a indústria química, petroquímica, de petróleo, de alimentos e de bioprocessos. Entre seus egressos e antigos docentes encontram-se pesquisadores que participaram da criação da COPPE, do Instituto de Macromoléculas Professora Eloisa Mano e do Cenpes, além de cientistas com atuação em áreas como química de produtos naturais, eletroquímica, bioquímica e biocombustíveis. Entre eles está Otto Richard Gottlieb, químico industrial formado pela Escola Nacional de Química, que se destacou internacionalmente por suas pesquisas em química de produtos naturais e foi indicado ao Prêmio Nobel de Química em 1999.
A Escola de Química não deve ser confundida com o Instituto de Química da UFRJ (IQ), unidade distinta. O Instituto de Química foi criado com vocação inicial para pesquisa e pós-graduação e, no contexto da Reforma Universitária, recebeu docentes, laboratórios e atribuições de ensino básico de química provenientes de diferentes unidades, entre elas a própria Escola de Química.
História
Antecedentes: ESAMV e o ensino de química industrial thumb|esquerda|Panorama da Escola de Química no Centro de Tecnologia da UFRJ.
Nas primeiras décadas do século XX, o ensino superior de química no Brasil era ministrado sobretudo como formação básica ou complementar em cursos como medicina, engenharia e farmácia. A industrialização e as dificuldades de importação durante a Primeira Guerra Mundial contribuíram para ampliar o debate sobre a formação de profissionais especializados para a indústria química.
A Escola Superior de Agricultura e Medicina Veterinária (ESAMV) havia sido criada pelo Decreto nº 8.319, de 20 de outubro de 1910, e entrou em funcionamento nos anos seguintes. A instituição passou por diferentes sedes — entre elas Deodoro, Pinheiral e Niterói — antes de se instalar na Praia Vermelha em 1927.
Em 1920, a ESAMV passou a ministrar o Curso de Química Industrial Agrícola, destinado à formação de profissionais para atividades químicas ligadas às indústrias agrícolas e conexas. O curso foi ampliado durante a década de 1920 e, em 1930, passou a denominar-se Curso de Química Industrial.
A ESAMV também está na origem institucional da atual Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ). Em 1934, os ramos de agronomia e veterinária foram desmembrados em Escola Nacional de Agronomia e Escola Nacional de Veterinária; posteriormente, ambas passaram a integrar a Universidade Rural e suas sucessoras institucionais, culminando na UFRRJ. O ramo de química industrial, por sua vez, havia adquirido trajetória independente em 1933 com a criação da Escola Nacional de Química.
Nesse processo teve papel destacado José de Freitas Machado, professor catedrático de Química Inorgânica e Analítica da ESAMV, que participou da organização do ensino de química industrial e se tornaria o primeiro diretor da Escola Nacional de Química.
Criação da Escola Nacional de Química
Em 28 de julho de 1933, o Decreto nº 23.016 criou a Escola Nacional de Química, subordinada à Diretoria Geral de Produção Mineral do então Ministério da Agricultura, Indústria e Comércio, e transferiu para a nova instituição o Curso de Química Industrial anteriormente ligado à ESAMV.
A organização da Escola foi baseada em projeto elaborado por Freitas Machado. O currículo possuía doze disciplinas distribuídas em quatro anos e incluía, entre outros conteúdos, físico-química, operações industriais, tecnologias orgânica e inorgânica, microbiologia e tecnologia das fermentações.
Em 1934, a ENQ foi transferida para a esfera do Ministério da Educação e Saúde. Em 1937, passou a integrar a Universidade do Brasil, criada pela Lei nº 452. A primeira turma que cursou integralmente sua formação já sob a estrutura da Escola Nacional de Química concluiu o curso em 1937; os estudantes diplomados nos primeiros anos da ENQ haviam ingressado ainda na estrutura anterior da ESAMV.
Criação do curso de Engenharia Química
A partir de 1944, estudantes e professores da ENQ organizaram uma campanha pela criação de um curso de Engenharia Química que incorporasse conteúdos de engenharia à formação química e respondesse às novas demandas da industrialização brasileira. Uma proposta curricular foi aprovada pelo Conselho Universitário da Universidade do Brasil em 1946; o novo regimento da Escola, aprovado em 1951, passou a prever formalmente a diplomação em Engenharia Química.
O curso começou a funcionar em 1952, paralelamente ao de Química Industrial. Em 1953 formou-se a primeira turma de engenheiros químicos da ENQ. Segundo estudo histórico publicado na revista Química Nova, foram diplomados naquele ano 37 engenheiros químicos e 11 químicos industriais.
Nas décadas de 1950 e 1960, os currículos foram progressivamente adaptados ao crescimento da indústria de processos, do setor de petróleo e da petroquímica brasileira.
Alberto Luiz Coimbra e as origens da COPPE thumb|direita|Busto de Alberto Luiz Galvão Coimbra, egresso e professor da Escola Nacional de Química e fundador da COPPE.
Entre os egressos da Escola esteve Alberto Luiz Galvão Coimbra, formado em Química Industrial pela Escola Nacional de Química e posteriormente também em Engenharia Química. Coimbra tornou-se professor da ENQ e defendeu a implantação no Brasil de programas de pós-graduação em engenharia inspirados em experiências internacionais.
Em 1961, Coimbra apresentou na Escola Nacional de Química o documento Oportunidade para instalação de um curso de pós-graduação de Engenharia Química no Brasil. Em março de 1963, abriu, no Instituto de Química da Universidade do Brasil, o curso de mestrado em Engenharia Química que constituiu o embrião da futura COPPE.
Em 1965, a estrutura administrativa dos programas de pós-graduação em engenharia foi reunida na Coordenação dos Programas de Pós-Graduação de Engenharia. A COPPE atribui sua criação à iniciativa de Coimbra, que coordenou a expansão do modelo para outras áreas da engenharia.
Reforma Universitária e transferência para a Cidade Universitária
Em novembro de 1965, quando a Universidade do Brasil passou a denominar-se Universidade Federal do Rio de Janeiro, a Escola Nacional de Química adotou o nome atual, Escola de Química, e passou a integrar o Centro de Tecnologia.
A Reforma Universitária de 1968–1970 alterou significativamente a divisão de responsabilidades acadêmicas dentro da UFRJ. As antigas cadeiras de ensino básico e fundamental foram desligadas da Escola de Química e incorporadas a institutos do Centro de Ciências Matemáticas e da Natureza. Diversos professores e laboratórios da área de química foram transferidos para o Instituto de Química, que passou a concentrar parte relevante do ensino básico de química e atividades próprias de pesquisa e pós-graduação.
A Escola transferiu suas atividades para a Cidade Universitária, na Ilha do Fundão, entre 1973 e 1974. Em 1973, diante da demanda por engenheiros químicos associada à ampliação do parque industrial e à implantação de polos petroquímicos, o curso de Química Industrial foi desativado e a Escola passou temporariamente a oferecer apenas Engenharia Química.
Diversificação a partir da década de 1980
Na década de 1980, o currículo de Engenharia Química incorporou componentes como estágio, engenharia do meio ambiente, projeto final de curso, gestão tecnológica e disciplinas voltadas a setores industriais específicos, entre eles petroquímica e química fina.
As atividades de pós-graduação da Escola consolidaram-se inicialmente em Tecnologia de Processos Bioquímicos. Em 1988 foi criado o doutorado nessa área. Em 1992, com a ampliação do corpo docente e das linhas de pesquisa, o programa foi reorganizado para abranger as diferentes áreas de atuação da unidade, formando a base do atual Programa de Pós-Graduação em Engenharia de Processos Químicos e Bioquímicos.
Em 1996, o curso de Química Industrial foi reativado. Em 2001, a Escola de Química e a Escola Politécnica criaram conjuntamente o Programa de Pós-Graduação em Engenharia Ambiental (PEA).
Em 2004, a Escola iniciou os cursos de graduação em Engenharia de Bioprocessos e Engenharia de Alimentos. Em agosto de 2010, foram implantadas turmas noturnas de Engenharia Química e Química Industrial.
Graduação
A Escola de Química oferece quatro cursos de graduação:
Engenharia de Alimentos; Engenharia de Bioprocessos; Engenharia Química; Química Industrial.
Engenharia Química e Química Industrial possuem ofertas em turnos integral e noturno.
Pós-graduação
A Escola de Química mantém ou participa de quatro programas de pós-graduação divulgados atualmente pela unidade:
Programa de Pós-Graduação em Engenharia de Processos Químicos e Bioquímicos (EPQB), com mestrado acadêmico e doutorado; Mestrado Profissional em Tecnologia de Processos Sustentáveis (TPS); Programa de Pós-Graduação em Engenharia Ambiental (PEA); Programa de Pós-Graduação em Engenharia de Sistemas Biológicos (PPGESB).
Engenharia de Processos Químicos e Bioquímicos (EPQB)
O Programa de Pós-Graduação em Engenharia de Processos Químicos e Bioquímicos (EPQB) oferece mestrado acadêmico e doutorado e reúne pesquisas experimentais, teóricas e computacionais relacionadas ao desenvolvimento, aperfeiçoamento e avaliação de processos e produtos.
Suas origens remontam às iniciativas de pós-graduação em Tecnologia de Processos Químicos e Tecnologia de Processos Bioquímicos desenvolvidas na Escola desde a década de 1960. O doutorado em Processos Bioquímicos foi criado em 1988; em 1992, o programa foi ampliado para incorporar as diferentes áreas de atuação da Escola.
Na Avaliação Quadrienal 2025 da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), divulgada em 2026, o programa — código 31001017037P9, na área de Engenharias II — recebeu conceito 7 para o conjunto mestrado/doutorado, a nota máxima atribuída na avaliação. A Plataforma Sucupira registra o programa em funcionamento e o conceito 7 para seus cursos.
Tecnologia de Processos Sustentáveis
O Mestrado Profissional em Tecnologia de Processos Sustentáveis (TPS) é voltado à formação profissional e à aplicação de conhecimentos em processos produtivos e tecnológicos.
Estrutura acadêmica e pesquisa
A Escola de Química organiza-se em quatro departamentos:
Departamento de Engenharia Bioquímica (DEB); Departamento de Engenharia Química (DEQ); Departamento de Processos Inorgânicos (DPI); Departamento de Processos Orgânicos (DPO).
A unidade mantém laboratórios voltados ao ensino, à pesquisa e à extensão, com atividades em escalas de bancada e piloto e em áreas relacionadas a processos químicos, bioprocessos, materiais, alimentos, energia e meio ambiente.
Relações com a indústria, o petróleo e a inovação thumb|direita|Cenpes, centro de pesquisa da Petrobras situado na Cidade Universitária e denominado em homenagem ao egresso e professor da ENQ Leopoldo Américo Miguez de Mello.
A trajetória da Escola esteve ligada às transformações da indústria química brasileira. Nas décadas de 1950 e 1960, a expansão do refino de petróleo, da Petrobras e da petroquímica levou a mudanças curriculares e ao aumento da procura por engenheiros químicos. Nas décadas seguintes, a Escola ampliou sua atuação para química fina, bioprocessos, alimentos, biocombustíveis e temas ambientais.