D. João Coutinho (c. 1480 - Abril de 1549), 2.° Conde de Redondo. Capitão de Arzila.
Genealogia D. João Coutinho era filho de D. Vasco Coutinho, também capitão de Arzila, e de D. Catarina da Silva, irmã de D. João de Meneses outro capitão de Arzila. Era irmão de D. Bernardo Coutinho, alcaide-mor de Santarém, D. Margarida Coutinho (que casou com o 2° Senhor de Lavre e Estepe, D. João Mascarenhas, capitão de ginetes, D. Maria da Silva, e de D. Isabel de Castro.
Casou com Dona Isabel Henriques, filha do 1° Senhor de Lavre e Estepa, D. Fernão Martins Mascarenhas, irmã do 6° vice-rei da Índia, D. Pedro Mascarenhas e de D. Manuel Mascarenhas que depois também foi capitão de Arzila.
Teve 3 filhos:D. Francisco Coutinho, 3º conde de Redondo, Capitão de Arzila e 8°vice-rei da Índia, D. Álvaro Coutinho, comendador de Almourol, e D. Isabel Henriques.
Carácter O rei de Fez, Fez Mulei Mafamede, quando veio ao cerco de 1516, disse "que se espantava sair de homem tão áspero (D. Vasco) filho tão contrário à aspereza do conde de Borba<ref>Bernardo Rodrigues: Anais de Arzila, crónica inédita do século XVI Tomo I (1508 - 1525). Academia das sciências de Lisboa. Coimbra - Imprensa da Universidade-1915, p. 169</ref>"
Sem deixar de sêr firme no exercício do poder, diz dele Bernardo Rodrigues: "em trinta anos (aliás 20), que foi capitão de Arzila, nunca saíu homem espancado de sua mão, nem injuriado de sua bôcaAnais de Arzila, tomo I, p. 94"
Cita o mesmo Bernardo Rodrigues estas palavras do conde que reflete sua personalidade: Sendo capitão de Tânger, D.Álvaro de Abranches teve em 1532 desavença com D. Vasco Coutinho, parente de D. João e fronteiro naquela cidade. D. Álvaro quiz explicar ao conde as razões do conflito, a seu modo, e encontrou-se com ele. Ouvidas as explicações o conde respondeu-lhe: «Senhor D. Álvaro, a culpa está às vezes mais nos capitães que em quem os serve. Meu pai o conde de Borba, foi capitão de Arzila trinta anos e deu muitos mouros, ginetes, capuzes, capelares ; também teve valia com os reis, que por êle deitaram hábitos e fizeram mercês a muitos homens e, contudo, não havia quem dêle dissesse bem e lhe desejavam tirar a besta. Eu tenho tudo ao contrário, que não valho, nem posso dar uma capa velha, nem el-rei por mim fez mercê a nenhuma pessoa, ainda que lho bem mereço, e não há homem em Arzila, nem em Tânger, que não venda e ponha seus filhos por mim em cativeiro ; e isto bem, que já que lhe não posso dar o que merecem, dou-lhes palavras, que são dizer bem deles, e do que o faço uma vez sempre mais o faço e não digo mal. Esta obrigação tendes vós e essa deveis a quem dizeis uma vez bemAnais de Arzila, crónica inédita do século XVI Tomo II, p. 248»
Fama É este o conde de Redondo referido em dois passos do Clérigo da Beira, de Gil Vicente. Também Camões lhe dedicou um soneto:
«Era tanta sua conversação, nobreza, umanidade, que todos desejávão viver e estar debaixo de sua governança e mando». «Muitas poucas vezes temos visto, nem ouvido, ser homem bom e capitão bom, senão neste valeroso capitão».«Foi o mais eicelente capitão de nosos tempos, asi pera os seus como pera os imigosAnais de Arzila, tomo I, p. 111-112».
Bernardo Rodrigues fala do "mar oceano" dos seus feitos.
Quando foi a Portugal em 1523, passando de Almada a Lisboa, o Tejo "encheu-se de barcos e estes de fidalgos que o foram ver e acompanharam até desembarcar no Terreiro do Paço. De Cádiz a Sevilha foi festejado como príncipe poderoso". Mais tarde, em 1535, na tomada da cidade de Tunes, o imperador Carlos V, numa fase do ataque, tendo junto de si o nosso infante D. Luís, disse para êle:«Quem nos dera aqui o vosso conde do Redondo com suas duzentas lanças, para ser capitão e mandar estes ginetesDavid LopesHistória de Arzila Durante o domínio português (1471-1550 e 1577-1589, Coimbra - Imprensa da Universidade-1924-1925. p. 165-166»
"Industrioso nas cousas da guerra" e da paz No cerco de 1516 inventou "certa carreta e certo barco armado que muito bom serviço prestaram nele"
Criou "uma bolsa para ajudar os moradores de Arzila que perdessem os seus cavalos a comprar outros (...) cada homem de cavalo dava por ano um tostão o o conde dez cruzados ; mas o fundo principal eram 20.000 reais que dava cada ano el-rei, a seu pedido."
criou um serviço de escutas ou espias do campo.
"sabia poupar a vida dos moradores. Dizia que mais queria não têr vitória que arriscar um só morador".
Quando o rei de Fez, com suas forças muito numerosas, vinha a Arzila, "não tinha a loucura de querer "pendencia com ele. Dizia com ironia, que a el-rei se devia ter acatamento quando honrava os nossos com sua real presença."História de Arzila, p. 169-170
Marrocos
Capitania interina D. João Coutinho foi capitão interino de Arzila em 1501, porque seu pai têve que ir a Portugal, mas logo deixou seu tio D. João de Meneses substitui-lo, por sêr muito novo.
Voltou mais tarde, em 1502, para Portugal, onde casou.
Segundo cerco de Arzila (1509) Depois do cerco de Arzila de 1508 (cf. D. Vasco Coutinho), em que a vila esteve quase a caír, D. João foi outra vez para Marrocos. Diz Bernardo Rodrigues:
"E dos primeiros que com o conde fôrão foi D. João Coutinho, seu filho, que depois foi o afamado conde de Redondo, de quem os caminhos e barcas andão cheias dos seus grandes feitos, e ditos, que em Portugal estava ao tempo que os mouros em Arzila entrarão, casado com Dona Isabel Anríquez, filha do capitão de jinetes, Dom Fernão Martinz Mazcarenhas [D. Fernão Martins Mascarenhas, 1º senhor de Lavre e Estepa].Anais de Arzila, tomo I p. 27"
Pouco tempo depois, D. João de Meneses primo de D. João Coutinho, foi atacado por um leão na Ribeira de Bugano. Chegou então D. João, "com a voz alta e à mão tinente deu com a lança d'alto uma mortal ferida ao lião, dizendo primeiro «Alarga vilão !» mas não ficou sem a paga, porque o feroz e real lião (...) lhe lançou a mão em uma perna e abrindo-lh'a até baixo". Chegarem entnao os outros homens e a fera fugiu. D. João de Meneses morreu pouco depois, e D. João Coutinho, curado por "mestre diogo, por ser o milhor cerujão de seu tempo"vindo de Tânger, sobreviveu, mas "todavia, ficou eivado da perna, pola muita carne que dela faltouAnais de Arzila t. I p. 404-405".
O ano seguinte, de 1509, a vila é cercada pelo rei de Fez Mulei Mafamede. Pouco antes tinha chegado a mulher de D. João, e no primeiro dia do cerco chegou a caravela "carregada de fato e frasca dele e de sua mulher ":
"Neste primeiro dia chegou uma caravela d'Alcacer do Sal, carregada de frasca e fato de Dom João Coutinho, (...). Dona Isabel [sua mulher] já era em Arzila, que avia ido por terra, e a frasca e fato com outras muitas joias e peças ricas, que sua mãe Dona Violante Anriquez lhe mandava, tudo ia em aquela caravela com algumas pessoas do serviço de sua casa ; e entrando no arrecife, vendo a praia cheia de mouros e muitos que se deitavam a nado ao navio, o mestre, deitando duas ancoras, se meteo na barca com os marinheiros e mais gente que trazia, e se foi à porta da Ribeira, ficando o navio (...) sem gente. Os mouros vendo o navio desemparado de gente, cortando-lhe as amarras, dérão com ele à costa (...). De modo que muito bem o podião ver das janelas do conde e do muro tirar da caravela todo o fato e frasca, que avião dado em casamento ao condeAnais de Arzila, tomo I p. 34-35".
Primeira capitania Voltou a ser capitão interino de Arzila em 1513. Seu pai voltando definitivamente para Portugal, D. João sucede-lhe na capitania de Arzila, em Janeiro de 1514:
"Tanto que o Conde de Borba, Dom Vasco Coutinho, foi embarcado e partio pera Portugal, leixando todavia a condessa sua molher [D. Catarina da Silva] e suas filhas e Dom Bernardo seu filho em Arzila, com muita alegria e contentamento de toda a vila foi recebido e obedecido Dom João Coutinho, seu filho, por capitão ". Os alcaides vizinhos mandam-no cumprimentar.
Amame e Ruço Rodado Pouco tempo depois, em 22 de Fevereiro de 1514, desbaratou os alcaides cide Hamete Laroz de Alcácer Quibir, Alharte de Jazem e Amin de Larache no "Porto das Pedras". Foram 44 mouros cativos, "e fôrão mortos neste desbarate passante de dozentos e cincoenta de cavalo (...) Érão os nossos cento e corenta ou cento e corenta e quatro de cavalo ; os mouros afirmão que erão novecentos ou mais"."Tomaram-se noventa e oito cavalos (...) Ouve nestes cavalos muitos e mui estremados jinetes das pessoas dos alcaides".Anais de Arzila, tomo I p. 121-125
Tinha sabido D. João da vinda ao Farrobo (perto de Arzila) de cide Zião Alcocé (ou Alaroce, Alarose, próximo parente do alcaide de Alcácer, Laroz), xeque de Benabiziquer:
Este tinha creado dois "poldros irmãos, os quais saírão muito grandes e fermosos cavalos, e à fama deles Mulei Naçar [irmão del-rei de Fez, e "o mór imigo do nome cristão e o mais cruel homem do noso tempo, mandando o reino e sendo mais temido que el-rei"] l'hos mandou pedir, mas cide Zião se escusou de lh'os dar, dizendo que eles serviam na fronteira dos cristãos, e que neles esperava fazer muita guerra ; e sobre estes recados pasárão alguns dias". Mas ao cabo Cide Zião teve que vir ao Farrobo para provar o que dizia e levando "os dous cavalos, dos quais era um deles Ruço Rodado e outro Amame." Aí Dom João, "saio e pondo a lança em cide Zião o lançou fora da sela muito mal ferido (...) e logo o seu cavalo Ruço Rudado ficou antre os nossos, e asi o fez o Amame, em que um sobrinho seu vinha, que logo foi morto e pasado de muitas lançadas".
Afinal Cide Zião foi morto nessa jornada. Diogo do Soveral, almoxarife d'Arzila comprou esses dois afamados cavalos, e trouxe-os a Portugal, "e o Amame deu a el-rei Dom Manoel, e o Ruço Rodado deu a Dom Nuno Manoel, por naquele tempo ser senhor de Salvaterra, e ele ter certos moios [moios de terra] em Coruche".
Mais tarde encontramos de novo este cavalo em Marrocos, pertencendo a Diogo Botelho: foi morto no cerco de Arzila de 1516 e enterrado junto do baluarte dos frades de S. Francisco de que Diogo Botelho era capitão.Anais de Arzila, tomo I p. 180
Pero de Meneses, Gonçalo Vaz, e Diogo da Silveira, mouriscos Muito concorreram ao governo de D. João os tres "mouriscos" (mouros convertidos ao cristianismo) ao serviço de Arzila, os almocadéns (o almocadém dirige almogavérias, nome que dá Bernardo Rodrigues às "entradas" aos campos e aldeias dos mouros pelos cristãos, e aos campos potugueses pelos mouros ) Pêro de Meneses e Gonçalo Vaz, que já serviam na capitania de D. Vasco, e Diogo da Silveira, que o serviu na sua segunda capitania. Estes apenas são conhecidos por esses nomes por serem os nomes que recebiam de seus padrinhos, uma vez que se tornavam cristãos.
Pêro de Meneses, cujos feitos foram contados por Mestre António, pai de Bernardo Rodrigues nas "Cavalgadas e boas entradas que fez Pero de Meneses, almocadém de Arzila", ou "livro das cousas de Pêro de Meneses", livro que D. João Coutinho recolheu, depois da morte de mestre António, por "seus muitos serviços teve o hábito de Cristo, a-pesar-de mourisco. Era homem sisudo e calado." Morreu no "desastre de D. Manuel de Meneses em 1523".