Caio César (; –, nascido Caio Vipsânio Agripa (), foi um general romano da gente Júlia eleito cônsul em 1 d.C. juntamente com Lúcio Emílio Paulo. É famoso por ter sido neto do imperador Augusto, filho de Marco Vipsânio Agripa, braço direito do imperador, e Júlia, a Velha, sua única filha. Caio e seu irmão mais novo, Lúcio César, foram criados pelo avô como filhos adotivos e co-herdeiros do Império Romano. Por conta disto, Caio César teve uma carreira política acelerada: com autorização do Senado Romano, Caio César foi eleito cônsul sem antes ocupar os cargos de questor e pretor, posições obrigatórias para senadores ordinários como parte do cursus honorum.
Em 1 a.C., Caio recebeu o comando das províncias orientais e, durante seu mandato, firmou um tratado de paz com em uma ilha do Eufrates. Logo depois, foi eleito cônsul. Em agosto de 2 d.C., Lúcio César faleceu em Massília, na Gália Narbonense e, aproximadamente dezoito meses depois, Caio morreu na Lícia. Apesar de casado com uma prima em segundo grau, Lívila, antes de sua morte, os dois não tiveram filhos. Depois da morte de Caio e Lúcio, Augusto adotou seu enteado e seu último neto sobrevivente, Tibério e Agripa Póstumo respectivamente.
Primeiros anos Caio Vipsânio Agripa nasceu em Roma em 20 a.C., filho de Marco Vipsânio Agripa e Júlia, a Velha. Através de sua mãe era parte da dinastia júlio-claudiana e parente de todos os imperadores júlio-claudianos. Pelo lado da mãe, era o neto mais velho do imperador Augusto. Era também cunhado de Tibério através de sua meio-irmã Vipsânia Agripina e concunhado de Cláudio através de sua irmã Agripina, a Velha, casada com Germânico. O último imperador da dinastia, Nero, era seu sobrinho-neto e neto de Germânico.
Em 17 a.C., seu irmão Lúcio César nasceu. Imediatamente depois, Augusto adotou os dois e nomeou-os seus herdeiros.Dião Cássio, História Romana, LIV.18.1 Com o pai adotivo, os dois passaram a ser instruídos nos assuntos administrativos do Império ainda muito jovens e, como cônsules eleitos, os dois foram enviados às províncias para aprender. Augusto ensinou Caio e Lúcio a ler, nadar e outros elementos fundamentais da educação clássica, esforçando-se especialmente em ensiná-los a imitar sua letra.Suetônio, Vidas dos Doze Césares, Vida de Augusto 64 No verão seguinte à adoção, Augusto patrocinou a realização da quinta edição dos Jogos Seculares, ligando os jogos à adoção no anúncio de uma nova era de paz — a Pax Augusta.
Naquele mesmo ano, sua família partiu para a província da Síria porque Agripa havia recebido o comando das províncias orientais com poder proconsular (imperium maius). Quato anos depois, em 13 a.C., Caio participou — com seus imrãos Lúcio e Póstumo e outros jovens patrícios romanos — dos Jogos Troianos que comemoraram a inauguração do Teatro de Marcelo em Roma.
Ainda no mesmo ano, Agripa retornou a Roma e foi imediatamente enviado à Panônia para sufocar uma revolta. Ele chegou lá no inverno seguinte, já em 12 a.C., quando os panônios já haviam se rendido. Agripa seguiu então para a Campânia, na Itália, onde ficou doente e morreu logo depois.Dião Cássio, História Romana, LIV.28.1-2 A morte de seu pai fez com que o assunto da sucessão imperial viesse novamente à tona e os áureos e denários cunhados em 13 e 12 a.C. deixaram claro os planos dinásticos de Augusto para Caio e Lúcio. Com a morte de Agripa, seu braço direito e amigo de longa data, Augusto não deixou dúvidas de que desejava que os dois assumissem o império caso algo lhe acontecesse.
Para aprender sobre assuntos militares, Caio acompanhou Tibério, um dos grandes generais de Augusto e seu enteado através de Lívia, em sua campanha na Germânia. No ano anterior, o irmão de Tibério, Druso, havia morrido no caminho de volta de uma campanha além da fronteira do Reno e Tibério recebeu o comando da campanha na região, onde ficou até 7 a.C. Tibério marchou com seu exército para a região entre o Reno e o Elba e encontrou pouca resistência, com exceção dos sicambros, um povo que ele chegou perto de exterminar. Os que não foram mortos foram transportados para a margem romana do Reno onde podiam ser vigiados com mais facilidade.
Carreira thumb|direita|Busto de Caio César já adulto Em 6 a.C., Caio foi eleito cônsul designado pela Assembleia das centúrias com a intenção de que ele assumisse o consulado já aos vinte anos de idade. No ano seguinte, Augusto o nomeou pontífice e concedeu-lhe o direito de assistir reuniões do Senado Romano, espetáculos e banquetes entre senadores.Dião Cássio, História Romana, LV.9 O apoio romano ao jovem príncipe rapidamente se espalhou por toda a Itália: estátuas e inscrições homenageando Caio César foram inauguradas em todos os distritos para comemorar a sua nomeação como cônsul na idade sem precedentes de quatorze anos.;
No ano seguinte (5 a.C.), ao atingir a idade militar, Caio César assumiu a toga viril e foi introduzido por Augusto no Senado, que o declarou "princeps iuventutis" ("líder da juventude") e "sevir turmae" ("comandante de uma turma de cavalaria"). Como ele já havia sido cônsul designado, Caio ganhou voz no Senado. Lúcio César, três anos mais jovem, recebeu as mesmas honrarias quando atingiu a mesma idade.
Sucessão herodiana Depois da morte do rei Herodes, o Grande, do reino herodiano na Judeia, em dezembro de 5 a.C., seus filhos Antipas e Arquelau foram a Roma com suas próprias versões do testamento do pai para pedir a ajuda dos romanos contra o irmão. Augusto, como de praxe, não quis assumir a responsabilidade sozinho sobre o caso e mandou reunir um conselho de senadores, inclusive Caio César. O conselho decidiu ratificar o testamento de Arquelau, que incluía uma grande herança para Augusto e sua esposa Lívia.Flávio Josefo, Antiguidades Judaicas XVII.9.5
As cidades da Judeia se revoltaram depois que o procurador Sabino marchou com seu exército pela Palestina para assegurar o controle das dezenas de milhões de sestércios prometidos ao imperador.Flávio Josefo, Antiguidades Judaicas XVII.10.2-10 O governador romano da Síria, Públio Quintílio Varo, foi forçado a levar as legiões sírias para a região para restaurar a ordem.
Em paralelo, conquistou a Armênia com a ajuda de um grupo político nacionalista local e expulsou Tigranes IV, o rei instalado por Roma.Veleio Patérculo, Compêndio da História Romana II.100 O historiador Guglielmo Ferrero sugere que o plano de Fraates era usar a Armênia como peça de troca na negociação para soltar seus filhos, que eram mantidos como reféns pelos romanos. A supremacia romana na região dependia do controle da Armênia, contudo, antes de poder lidar com os partas, os romanos precisavam liberar as legiões da Síria, que estavam presas na Palestina.
O Reino Herodiano foi dividido entre os filhos de Herodes, o Grande, formando a Tetrarquia. Metade ficou com Arquelau e a outra metade foi dividida entre seus irmãos, Antipas e Filipe, um movimento que restaurou a estabilidade na região, liberando as legiões sírias, e também impediu que a Judeia se tornasse poderosa demais. Com o problema judaico resolvido, Augusto enviou seus exércitos para a Armênia para re-estabelecer o status do reino como protetorado romano e para mostrar às potências adversárias na região que Roma exercia seu domínio sobre todas as terras até o Eufrates.
Comando na Ásia Partida Por causa de sua idade já avançada, Augusto não pôde viajar ao oriente pessoalmente. Ele tinha poucas pessoas de sua confiança à disposição, mas acreditou que Caio César poderia resolver seus assuntos no oriente. A escolha de Caio foi acertada por que ele representava pessoalmente a família imperial e todas as ordens, promessas ou ameaças que ele fizesse eram tão válidas quanto as feitas pelo próprio imperador. Apesar disto, Caio tinha apenas dezoito anos e era jovem demais para conduzir sozinho as questões oficiais do império. thumb|upright=1.3|esquerda|Reino da Armênia por volta de 50 d.C., logo depois da passagem de Caio César pela região. Antes de partir para o oriente, Caio e Lúcio receberam o poder de consagrar edifícios e eles o fizeram comandando a realização de jogos para celebrar a dedicação do Templo de Marte Vingador em 1 de agosto de 2 a.C. O irmão mais jovem dos dois, Póstumo, participou dos jogos juntamente com toda a juventude patrícia de Roma. Duzentos e sessenta leões foram mortos no Circo Máximo, lutas de gladiadores foram realizadas, uma batalha naval entre "persas" e "atenienses" foi simulada e 36 crocodilos foram mortos no Circo Flamínio.
Neste ínterim, os amigos de Augusto esperavam que ele esquecesse a ideia de enviar Caio César para o oriente, mas, dados os graves problemas enfrentados no oriente, ele persistiu no plano e enviou Caio para a Síria no começo de 1 a.C. O imperador deu a Caio poderes proconsulares e fez com que ele se casasse com Lívila, a filha de Druso, o Velho, e Antônia Menor.
Contudo, ciente da juventude e inexperiência de Caio, o imperador enviou outros para atuarem como conselheiros. Entre eles estavam Marco Lólio, na função de "adiutor" ("ajudante"),Suetônio, Vidas dos Doze Césares, Vida de Tibério 12 Públio Sulpício Quirino, como "rector" ("guia"),Tácito, Anais III.48 o futuro historiador Veleio Patérculo,Veleio Patérculo, Compêndio da História Romana II.101 Lúcio Domício Enobarbo (avô de Nero),Suetônio, Vidas dos Doze Césares, Vida de Nero 5 o rei Juba II da Numídia e o futuro prefeito pretoriano Sejano.Tácito, Anais IV.1
No caminho para a Síria, Caio visitou Tibério, que estava num exílio auto-imposto em Rodes. Segundo Suetônio, Tibério foi friamente recebido na ilha de Samos, alienado no encontro pelo comportamento de Lólio e seus centuriões. Segundo Suetônio, Tibério escreveu ao imperador pedindo que Lólio fosse substituído e a animosidade entre os dois continuou mesmo depois que a corte de Caio chegou à Ásia. Lólio fez o que pôde para envenenar a opinião do jovem César contra Tibério sabendo que ele já não nutria nenhuma afeição pelo homem que havia contribuído, direta ou indiretamente, para a ruína de sua mãe. Lólio teria inclusive se oferecido para decapitar Tibério se Caio assim o desejasse.Suetônio, Vidas dos Doze Césares, Vida de Tibério 13 Suetônio afirma que foi por causa desta crescente influência de Lólio que compeliu Tibério a escrever para Augusto pedindo que ele fosse reconvocado a Roma.
Consulado No ano seguinte (1 d.C.), em 1 de janeiro, Caio César assumiu seu consulado in absentia com seu cunhado Lúcio Emílio Paulo como determinado pela decisão em 6 a.C. de nomeá-lo cônsul designado. Caio, com vinte anos de idade, chegou à Ásia e estava provavelmente em Antioquia quando seu consulado começou, organizando um exército para a invasão da Armênia e começando a negociação com Fraates V na esperança de conseguir um acordo. O imperador não queria uma guerra e o rei parta parecia disposto a um acordo. As negociações provavelmente foram facilitadas pela presença do exército de Caio na Síria, uma ameaça ao Império Parta. O jovem Caio César recebeu embaixadas de todas as partes do Império. No mesmo ano monumentos foram inaugurados homenageando Caio e Lúcio como filhos de Marte ou como encarnações dele. thumb|upright=1.3|direita|Maison Carrée, um templo construído em homenagem a Caio e Lúcio em Nemauso (moderna Nîmes, na França) depois da morte dos dois. Sua inexperiência significava que Caio era frequentemente forçado a confiar em seus conselheiros, especialmente Lólio, que se aproveitava da influência para, segundo os relatos, chantagear cidades, indivíduos e príncipes soberanos em troca de dinheiro. Depois que Caio começou as negociações com Fraates, Lólio aproveitou para ofereceu-lhe certas concessões em troca de um pagamento.