A Retirada de Massena foi um episódio da Guerra Peninsular.

Durante a terceira invasão francesa de Portugal, Massena foi detido pelas Linhas de Torres Vedras. Após cinco meses a aguardar reforços que lhe permitissem ultrapassar este obstáculo, decidiu retirar, primeiro em direcção ao vale do Mondego, depois em direcção à fronteira com Espanha. A retirada de Massena teve início no dia 5 de março e terminou dois dias depois da Batalha do Sabugal (3 de abril de 1811). Durante um mês, perseguidos e perseguidores (o exército de Wellington) executaram marchas penosas, passaram grandes privações e envolveram-se em diversos combates. O objectivo desta longa manobra foi alterado por Massena mais do que uma vez e algumas atitudes de insubordinação entre os comandantes franceses levaram a que ele substituísse o Marechal Ney pelo General Loison no comando do VI CE (6.º Corpo de Exército). Por fim, a 5 de Abril, as tropas de Massena encontravam-se todas em Espanha, excepto a guarnição de Almeida - cerca de 1400 homens sob o comando do General Brenier - que só abandonou Portugal no dia 11 de março.

Antecedentes Em julho de 1810, um exército francês sob o comando do Marechal André Massena invadiu Portugal. O seu objectivo, como nas invasões anteriores, era Lisboa. Depois do Combate do Côa, a 24 de julho de 1810, a Divisão Ligeira sob o comando de Robert Craufurd retirou para Oeste daquele rio (Rio Côa). O cerco de Almeida que se seguiu terminou a 28 de agosto com a rendição daquela praça-forte. O exército francês retomou a sua marcha em direcção a Lisboa e, no dia 27 de setembro, travou a Batalha do Buçaco. Apesar da derrota sofrida pelos franceses, Wellington) não pôde impedir que a sua posição fosse contornada e, por isso, retirou rapidamente. A 9 de outubro, as tropas anglo-lusas começavam a entrar nas Linhas de Torres Vedras.

No dia seguinte, o exército francês começou a chagar à frente deste formidável sistema defensivo. Após alguns combates e vários reconhecimentos, Massena concluiu que não dispunha de recursos suficientes para ultrapassar este obstáculo. Também pôde constactar que a sua linha de comunicações com Ciudad Rodrigo tinha sido cortada pelas tropas sob o comando de Nicholas Trant e de Sir Robert Thomas Wilson e pela guarnição de Abrantes sob o comando do Coronel Lobo.BOTELHO, p. 420. Não tinham apenas cortado a linha de comunicações mas também causavam as maiores dificuldades aos grupos de militares que se afastavam para procurar géneros alimentares. Mais a Norte, o Brigadeiro Silveira punha cerco à praça de Almeida.

O isolamento de Massena era de tal forma que o próprio Napoleão só tinha notícias das suas tropas em Portugal através dos jornais britânicos que lhe chegavam às mãos. Os emissários enviados por Massena não conseguiam passar o bloqueio que que estava montado por ordenanças e milícias. Por fim, Massena conseguiu que o General Foy, com uma escolta de 500 Dragões, conseguisse chegar a Almeida e daí até França. Chegou a Paris a 21 de novembro e só conseguiu regressar no princípio de Fevereiro com instruções de Napoleão datadas de 22 de dezembro. Segundo essas instruções, Massena deveria manter as suas posições frente às Linhas de Torres Vedras e aguardar pelo auxílio de Soult através do Alentejo.BOTELHO, p. 460. Soult era então o comandante do Exército da Andaluzia e, quando Foy regressou, encontrava-se empenhado no Primeiro Cerco de Badajoz.

Em novembro de 1810 Massena tinha mudado a sua posição perante as Linhas de Torres. Entre o dia 10 e o dia 15, recorrendo a medidas de decepção (chegaram a colocar nas posições bonecos de palha com uniformes militares para iludir os que vigiavam as suas posiçõesBOTELHO, p. 423.), conseguiram retirar para outra região surpreendendo os seus inimigos. Perante este facto, Wellington fez avançar a 2ª Divisão de Infantaria para Vila Franca e a Divisão Ligeira para Alenquer. Estas tropas descobriram que Massena estava a deslocar as suas unidades para Santarém e Rio Maior. Pelo caminho ficavam […] destroços de viaturas abandonadas, material de guerra de toda a espécie; cadáveres de animais e homens insepultos … soldados moribundos … povoações desertas … agora as suas casas sem portas nem janelas porque todas tinham servido para alimentar as fogueiras … igrejas desmanteladas e com os pavimentos cobertos de excrementos de cavalos […].BOTELHO, p. 424. Este foi o primeiro movimento de retirada de Massena e o espectáculo desolador que os Aliados encontraram foi o primeiro exemplo do rasto de destruição que as tropas francesas iriam deixar no seu percurso em Portugal.

As posições escolhidas por Massena eram fortes e permitiam-lhe resistir mais facilmente a um hipotético ataque de Wellington. Para além disso, a região não se encontrava tão devastada como a anterior e, tendo conseguido lançar pontes sobre o Rio Zêzere, em Constança e Barca de Cortes, conseguiu uma linha de comunicações com Espanha. As novas posições eram, portanto, mais adequadas para aguardar socorros. Distribuiu as suas unidades da seguinte forma: o II CE (Reynier) ficou em Azinhaga e Golegã, o VIII CE (Junot) foi posicionado à direita do II CE, até à região de Rio Maior, e o VI CE ficou mais à retaguarda, na região de Tomar. A cavalaria montava o sistema de segurança à volta deste dispositivo.BOTELHO, p. 426.

Massena esperava os reforços que, pensava, lhe permitiriam retomar a ofensiva e ultrapassar o sistema defensivo das Linhas de Torres. Finalmente, no dia 26 de Dezembro, foi avistada a guarda avançada do IX CE, sob o comando do General Jean-Baptiste Drouet, conde de Erlon. Drouet estava a agir segundo ordens rigorosas de Napoleão para abrir as comunicações com Massena. Deixou a Divisão de Claparéde entre Celorico e Trancoso para manter o contacto com Almeida e seguiu, com a Divisão de Conroux e um destacamento que tinha trazido de Ciudad Rodrigo, para a região de Leiria onde chegaram nos primeiros dias de Janeiro de 1811. A partir desta data e durante cinco semanas, as tropas de Trant e Wilson iriam impedir a utilização da sua linha de comunicações.OMAN, A History of the Peninsular War, pp. 17 a 22 e p. 65

Com a vinda de Drouet a situação de Massena não melhorou. As comunicações continuaram cortadas, havia mais tropas para alimentar e os reforços não eram suficientes para retomar a ofensiva. Escasseavam as forragens para os cavalos e os víveres para as tropas . Todo o território era revistado com a finalidade de encontrar meios de subsistência. Nestas operações, os camponeses provocavam muitas mortes entre as tropas francesas. As represálias, quando surgia a oportunidade, eram cruéis. As doenças também provocavam numerosas baixas e o exército enfraquecia dia a dia. Não chegou o auxílio de Soult mas chegaram notícias do desembarque, em Lisboa, de mais soldados britânicos. Massena decidiu que não podia continuar naquela situação e devia retirar.

Ordens de batalha Os Franceses O exército de Massena dispunha de quatro Corpos de Exército (CE), Reserva de Cavalaria, Reserva de Artilharia, um pequeno corpo de Gendarmerie e dos normais elementos de Engenharia, Estado-Maior e Serviços. Ao todo eram 46.787 homens a 1 de Janeiro de 1811. Para além destes, estavam destacados 2.854 em Ciudad Rodrigo e Almeida e 6.210 homens tinham sido deixados em Salamanca e outros pontos do percurso até Portugal. A estes números há que acrescentar os do IX CE que chegou mais tarde. As suas unidades de manobra (Infantaria e Cavalaria) eramOMAN, A History of the Peninsular War, pp. 608 e 609.: thumb|esquerda|250px|Massena, comandante do exército francês que invadiu Portugal em 1810. II CE, sob o comando do General Jean Louis Ebénézer Reynier, encontrava-se na região de Santarém, dispunha de um efectivo de 12.581 homens e era constituído por: 1ª Divisão de Infantaria, sob o comando do General de Divisão Pierre Hugues Victoire Merle; 2ª Divisão de Infantaria, sob o comando do General de Divisão Étienne Heudelet de Bierre; Brigada de Cavalaria, sob o comando do General de Brigada Pierre Benoît Soult.

VI CE, sob o comando do Marechal Michel Ney, encontrava-se na região de Tomar, dispunha de um efectivo de 18.326 homens e era constituído por: 1ª Divisão de Infantaria, sob o comando do General de Divisão Jean-Gabriel Marchand; 2ª Divisão de Infantaria, sob o comando do General de Divisão Julien Auguste Joseph Mermet; 3ª Divisão de Infantaria, sob o comando do General de Divisão Louis Henri Loison; Brigada de Cavalaria, sob o comando do General de Brigada Auguste Étienne Marie Lamotte.

VIII CE, sob o comando do General Jean-Andoche Junot, encontrava-se na região de Torres Novas, dispunha de um efectivo de 11.160 homens e era constituído por: 1ª Divisão de Infantaria, sob o comando do General de Divisão Bertrand Clausel; 2ª Divisão de Infantaria, sob o comando do General de Divisão Jean-Baptiste Solignac; Brigada de Cavalaria;

IX CE, sob comando do General Jean-Baptiste Drouet, tinha um efectivo de 17.889 homens. Este CE era um conjunto de vinte e quatro batalhões recém criados, pertencentes a regimentos que já tinham outros batalhões a actuar na Península Ibérica. Quando se dirigiu para Portugal, Drouet tinha como objectivo entregar estes batalhões aos regimentos a que pertenciam e que se encontravam nos CE de Reynier, Ney e Junot. Onze batalhões pertenciam a regimentos do exército de Soult, na Andaluzia. Estes batalhões encontravam-se organizados em duas divisões provisórias, com base em regiões diferentes: 1ª Divisão de Infantaria, sob o comando do General de Divisão Michel Marie Claparède, encontrava-se na região da Guarda; 2ª Divisão de Infantaria, sob o comando do General de Divisão Nicolas François Conroux, encontrava-se na região de Leiria; Brigada de Cavalaria, sob o comando do General de Brigada François Louis Fournier Sarlovèze.

Reserva de Cavalaria, sob o comando do General de Divisão Louis-Pierre de Montbrun, com um efectivo 2.869 sabres. thumb|direita|250px|Wellington, comandante do exército anglo-luso durante a Guerra Peninsular.

Os Aliados A força que Wellington utilizou para a perseguição do exército francês tinha um efectivo de 46.330 homens dos quais 14.250 eram portugueses. Wellington dispunha de mais homens mas estava já em fase de formação o corpo de tropas muitas vezes referido como Exército da Estremadura. Assim, as unidades de manobra presentes eramOMAN, A History of the Peninsular War, p. 134.:

1ª Divisão, com um efectivo de 8.100 homens (todos britânicos), sob o comando do Tenente-General Sir Brent Spencer; 3ª Divisão, com um efectivo de 6.050 homens (4.500 britânicos, 1.550 portugueses), sob o comando do Major-General Sir Thomas Picton; 4ª Divisão, com um efectivo de 6.900 homens (4.800 britânicos, 2.100 portugueses), sob o comando do Tenente-General Sir Galbraith Lowry Cole; 5ª Divisão, com um efectivo de 5.600 homens (3.800 britânicos, 1.800 portugueses), sob o comando do Major-General Dunlop;OMAN, Wellington's Army, pp. 355 e 356. 6ª Divisão, com um afectivo de 6.150 homens (3.850 britânicos, 2.300 portugueses), sob o comando do Major-General Alexander Campbell; Divisão Ligeira, com um efectivo de 4.300 homens (3.400 britânicos, 900 portugueses), sob o comando do Major-General Sir William Erskine; 1ª Brigada Independente Portuguesa, com um efectivo de 2.100 homens (todos portugueses), sob o comando do Brigadeiro Dennis Pack; 5ª Brigada Independente Portuguesa, com um efectivo de 2.500 homens (todos portugueses), sob o comando do Coronel Charles Ashworth; Corpo de cavalaria com um efectivo total de 2.930 sabres (2.430 britânicos, 500 portugueses); thumb|esquerda|400px|Percurso da retirada do "L'Armée de Portugal" em 1811. A retirada