O problema difícil (ou "duro") da consciência (hard problem of counsciousness) é o de explicar como e porque é que os sujeitos têm qualia, consciência fenomenal ou experiências subjetivasHarnad, Stevan (1995) "Why and How We Are Not Zombies. Journal of Consciousness Studies 1:164-167 (sendo que todas as alternativas expressam o mesmo conceito).
As qualia são as qualidades subjetivas dos estados mentais conscientes (p.e, a amarelidão da cor amarela, a sensação térmica de frio, a agudeza do som agudo, a amargura do sabor amargo, a sensação da perceção da profundidade)
A consciência fenomenal é o ser algo assim como um sujeito , segundo Nagel. Todo e qualquer sistema é fenomenalmente consciente se, e só se, existe algo que é como sê-lo. Todo e qualquer estado mental é fenomenalmente consciente se, e só se, existe algo que é como experiencia-lo.
As experiências subjetivas, segundo Chalmers, podem ser: imagens mentais (p.e, as imagens visuais relembradas), o fluxo de consciência (p.e, a reflexão e a decisão), experiências corporais (p.e, a dor e o orgasmo), emocionais (p.e, a alegria e a raiva), visuais (p.e, a cor e a profundidade) ou outras sensoriais (p.e, o som e o sabor), entre outras.
Estas experiências subjetivas são, segundo o filósofo, dados para análise pela ciência da consciência. Assim, discutivelmente, se as ignoramos, então ignoramos os dados.
Introdução
A palestra de Chalmers
Os limites da ciência da consciência Numa manhã de primavera de 1994, em Tucson, Arizona, o jovem filósofo australiano David Chalmers participava num congresso dedicado à neurociência da consciência. As duas palestras que precederam a de Chalmers foram ininteligíveis e aborrecidas. Nas palavras de Stuart A. Hameroff, responsável pelo evento, os oradores 《não faziam ideia do que estavam a dizer. Olhei à minha volta e as pessoas estavam a dormir ou impacientes. Depois chegou a terceira palestra, de Chalmers, um jovem de 27 anos, com uma cabeleira e o aspeto de alguém que se perdera na estrada a caminho de um concerto dos Metallica.》.
O cérebro, começou Chalmers, coloca todo o tipo de problemas à ciência. Como aprendemos, guardamos memórias e percebemos as coisas? Como é que sabemos retirar as mãos da água quente e ouvimos o nosso nome no meio de uma sala barulhenta? Em última análise, estes são problemas fáceis: com dinheiro e tempo suficiente, os cientistas conseguiriam resolvê-los. Havia apenas um problema realmente difícil, que era o problema da consciência. Porque razão os animais com cérebros complexos são dotados de consciência? Porque razão não são apenas robots, capazes de armazenar informação, responder a ruídos e cheiros, mas sem vida interior? Um simples díodo deteta a luz sem ter consciência de o fazer, enquanto nos seres humanos essa distinção implica necessariamente consciência. De que modo um tecido cinzento-rosado, húmido e com cerca de 1400 gramas, encerrado no crânio, dá origem a algo tão misterioso como a experiência de ser alguém e habitar um corpo?
Chalmers dividiu a questão da consciência em dois problemas de dificuldade contrastante, um acessível ou "suave" (soft, no original) e outro difícil ou "duro" (hard). O primeiro consistia em explicar de que forma o cérebro calcula e armazena a informação, o segundo de que forma a consciência emerge de fenómenos desenvolvidos no cérebro. O problema difícil não é outro senão deslindar a natureza da consciência, que não parece poder identificar-se com algo físico, porque é, por definição, privada e, como tal, inabordável do ponto de vista científico. Chalmers escreveria: 《O problema realmente difícil da consciência é o problema da experiência. Quando pensamos e percebemos, há processamento da informação, mas há também um aspeto subjetivo.》 E prossegue citando o texto seminal de Nagel cujo excerto se apresenta em cima: 《Como [Nagel] salientou em 1974, existe algo que é o ser algo assim como organismo consciente.》.
É importante perceber que não se contesta que a consciência é condicionada por factos físicos subjacentes. Simplesmente, questiona-se que uma descrição baseada em factos físicos e, por conseguinte, objetivos e universais, capte todos os aspetos da consciência. Nestas circunstâncias, a ciência não pode aplicar o método.
O argumento do quarto de Mary Outra forma de ver em que consiste o problema é através de uma experiência mental, nomeadamente um caso hipotético sem qualquer ligação à realidade. Imaginemos um cientista do futuro, especialista em física da cor, que sempre viveu numa sala a preto e branco. Embora este cientista, chamemos-lhe Maria, tenha uma visão normal das cores, o seu confinamento impediu-a de experimentar qualquer sensação de cor. Na sua sala a preto e branco, Maria estudou a ciência da cor através de manuais, da televisão e de outros meios a preto e branco.
Nestas condições, aprendeu a teoria da cor, a física da cor e a biologia do sistema visual do cérebro. Mas nunca viu uma cor na sua vida. Suponhamos que Maria sai um dia da sua sala e alguém lhe oferece um tomate maduro. O que imaginamos que vai acontecer? A maioria das pessoas intui que Maria vai aprender algo com essa experiência visual e exclamará algo do género: "Ah, agora já sei o que é a cor vermelha!". Enquanto estava na sala, Maria conhecia todos os factos físicos sobre a cor, incluindo o vermelho. Quando sai da sala, conhece algo sobre a cor vermelha que antes não sabia: em que consiste ver a cor vermelha. Por conseguinte, há pelo menos um aspeto da cor que não está incluído na lista de factos físicos sobre a cor, uma vez que Maria conhecia-os a todos. A experiência subjetiva da cor, o seu quale, não pode ser objeto de descrição segundo os termos da física.
O problema difícil da consciência
Formulações do problema difícil miniaturadaimagem|162x162px|O problema difícil, ao invés do problema fácil, têm em linha de conta a consciência fenomenal. Assim se formulou o problema difícil: Porque é que o processamento físico dá origem a qualquer vida interior? Como é que certos organismos se sujeitam à experiência? Porque é que existe conscientização da informação sensorial? Porque é que existe qualia? Porque é que há uma componente subjetiva da experiência? Porque é que não somos zombies filosóficos? Porque é que o sentimento que acompanha a consciência da informação sensorial existe?, como formulada por Chalmers no livro The Conscious Mind (1996) e na publicação "Facing Up to the Problem of Consciousness" (The Journal of Consciousness Studies, 1995).
Relação com os problemas fáceis O filósofo David ChalmersThe Place of Mind, ed . Brian Cooney, que nomeou o problema, contrasta-o com os problemas fáceis (easy problems of counsciousness), que incidem sobre as funções comportamentais ou cognitivas, tais como a discriminação percetiva«A discriminação percetiva é a capacidade do cérebro de perceber informações com precisão em uma situação complexa, fluida e confusa e, ainda mais importante, diferenciar com precisão entre os tipos de informações confusas.» (https://thesnipermind.com/perceptual-discrimination-and-the-science-behind-what-we-think-we-see.html, tradução nossa), a integração da informação«A integração da informação (II) é a fusão de informações de fontes heterogêneas com diferentes representações conceituais, contextuais e tipográficas. É usada em mineração de dados e consolidação de dados de recursos não estruturados ou semiestruturados. Normalmente, a integração de informações refere-se a representações textuais de conhecimento, mas às vezes é aplicada a conteúdo de mídia avançada. A fusão de informações, que é um termo relacionado, envolve a combinação de informações em um novo conjunto de informações para reduzir a redundância e a incerteza.» (https://www.engati.com/glossary/information-integration, tradução nossa), o controlo comportamental«Na psicologia, o controle comportamental refere-se à capacidade de um indivíduo ou grupo de influenciar, gerenciar ou orientar suas próprias atividades ou as de outras pessoas.» (Psychology Dictionary, tradução nossa) e a reportabilidade verbal «Relatos verbais são “descrições verbais gerais dos sujeitos de seus processos cognitivos e experiências”.» (Ericsson & Simon, 1993, p. xiii, tradução nossa).. Estes são fáceis, pois têm uma explicação funcional. Basta encontrar o mecanismo neuronal ou computacional que executa a função relevante, isto é, propor explicações, complexas ou mesmo desconhecidas, inteiramente consistentes com a conceção materialista moderna dos fenómenos naturais.
Segundo ele, o problema da experiência subjetiva «persistirá, mesmo quando o desempenho de todas as funções relevantes for explicado»."Facing Up to the Problem of Consciousness", David Chalmers, Journal of Consciousness Studies 2 (3), 1995, pp. 200–219. Para o problema difícil, explicar funções comportamentais deixa em aberto as seguintes questões:
Porque é que há experiência? Porque é que tudo não é processado às escuras, sem a consciência?
Parece haver uma lacuna explanatória entre os processos físicos e a experiência subjetiva. miniaturadaimagem|Robert Fludd (1574-1637), médico e rosacruciano inglês. Human mental abilities classified in terms of God and the universe. Gravura colorida do Utriusque Cosmi, tratado do séc. XVII.
Relação com o problema mente-corpo O problema mente-corpo é o de explicar como é que a mente e o corpo se relacionam. Este é mais geral do que o problema difícil da consciência, pois procura explicar a relação mente-corpo no geral, implicando, assim, qualquer quadro teórico que aborde o tópico. Assim, não deve ser visto como um problema único, mas como uma problemática relacionada com visões da mente distintas.
Se o monismo é verdadeiro, então é o de explicar como a experiência consciente não pode ser outra coisa senão a atividade cerebral (ou seja, é o problema difícil da consciência).
Se o dualismo é verdadeiro, então é o de explicar como os fenómenos mentais não-físicos se relacionam ou interagem com os fenómenos físicos, tais como os processos cerebrais (isto é, é o problema da interação).
Contudo, não obstante como a conceituemos, a mente parece estar envolta em mistério. Alguns conceitos relacionados, como "intencionalidade" e "qualia", dificultam a sua definição.
A problemática possui um histórico repleto de tentativas de a solucionar. Com efeito, embora Descartes tenha identificado o problema mente-corpo com o significado popularizado no Ocidente, a questão já vinha sendo abordada por filósofos anteriores a Aristóteles e na filosofia do avicenismo (da qual surgiu o paradoxo do homem suspenso no espaço de Avicena).
Abordagens ao problema difícil
Abordagens filosóficas A existência do problema difícil é controversa, sendo disputada por alguns filósofos, como Daniel Dennett Dennett, Daniel. "Commentary on Chalmers: Facing Backwards on the Problem of Consciousness".. Segundo estes, a solução está no papel dos processos físicos no surgimento da consciência, que os faria gerar as qualidades subjetivas de experiência."Facing Up to the Problem of Consciousness", David Chalmers, Journal of Consciousness Studies 2 (3), 1995, pp. 200–219.
Devem-se responder a algumas questões pendentes para se obter um entendimento completo da consciência. Uma delas seria: Será que ela pode ser totalmente descrita em termos físicos (através de, nomeadamente, a agregação de processos neurais no cérebro)? Caso não possa, então requer uma explicação de conceitos não físicos. Segundo os que defendem que ela é não-física, resta saber o que, para além da teoria física, é preciso para explicá-la.
Dentre as abordagens existentes, destacam-se dois tipos:
- a da irredutibilidade da consciência (nomeadamente, o dualismo, o pampsiquismo e o idealismo);
- a da redutibilidade da consciência (nomeadamente, o funcionalismo, o materialismo biológico e o materialismo quântico).
Abordagens científicas