thumb|350px|O Templo de Salt Lake, uma das mais icônicas edificações MórmonPor arquitetura Mórmon entende-se a escola arquitetônica desenvolvida pelos Mórmons, a denominação popular dos integrantes da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias. Seu estilo típico e original é encontrado especificamente na arquitetura de templos, e entre suas características distintivas estão o ecletismo, a funcionalidade, a monumentalidade e a austeridade. É uma escola ainda pouco estudada, mas já criou polêmica, é prolífica e deixou uma série de exemplares que se tornaram ícones da paisagem urbana de suas regiões.

Contexto

A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias é uma religião fundada nos Estados Unidos no século XIX por Joseph Smith Jr. Embora professem a crença em Jesus Cristo como seu Salvador, sua relação com o Cristianismo é incerta, defendendo vários dogmas não encontrados em outras denominações cristãs, tais como a distinção essencial entre as pessoas da Santíssima Trindade, a negação do conceito do pecado original e a possibilidade do homem se tornar um deus após a morte. Segundo Laurel Andrew, estas crenças pouco convencionais formaram na origem uma sociedade agressivamente independente, com valores próprios e índole protestante, milenarista e revivalista, embora nos dias de hoje estes valores estejam em grande parte identificados com os da sociedade norteamericana contemporânea.Andrew, Laurel B. The early temples of the Mormons: the architecture of the Millennial Kingdom in the American West. State University of New York Press, 1978, pp. 4-12Williams, Peter W. Houses of God: Region, Religion, and Architecture in the United States. University of Illinois Press, 2000, p. 233

Outra de suas crenças é a de que o Jardim do Éden se localizava na América do Norte, onde hoje é a cidade de Independence, no estado de Missouri, Estados Unidos. Nascendo em uma época em que os Estados Unidos estavam sendo agitados pela doutrina do Destino Manifesto, a qual pregava que o país era destinado a ser uma liderança mundial, a religião Mórmon encontrou um contexto facilitador para florescer uma mística de que o continente americano era um novo Éden, ainda não contaminado pelos vícios da civilização do ocidente e um lugar onde o homem poderia conquistar progresso material e um renascimento espiritual. Desta forma, não foi mera casualidade o fato de os Mórmons desejarem construir uma Nova Jerusalém nas vizinhanças do local onde Adão presumidamente teria vivido após sua expulsão do Éden, a fim de reunir novamente os descendentes dispersos do povo eleito, os Santos dos Últimos Dias. Na década de 1830 o fundador da religião, Joseph Smith, havia reunido os primeiros Mórmons na cidade Kirtland, onde foi erguido o primeiro templo entre 1833 e 1836, como o primeiro passo no restabelecimento do Paraíso Terrestre.

Origens thumb|O Templo de Nauvoo, um dos mais antigos templos Mórmon

A concepção do templo Mórmon deriva em linhas gerais do Templo de Salomão citado na Bíblia, e a denominação de "templo", antes do que "igreja", é enfatizada tanto para vinculá-lo ao exemplo salomônico quanto para diferenciar sua função dos locais de culto de outras religiões. Para os Mórmons um templo não é um mero local de encontro e culto, mas tem um caráter especialmente sagrado, destinado à realização de cerimônias secretas vedadas para os não-membros e mesmo para os membros que não estejam plenamente qualificados, segundo seus critérios. O ritual do templo é, entretanto, indispensável para o recebimento de certas bênçãos necessárias para a conquista da beatitude pós-morte. Estes ritos especiais são complementados por serviços regulares semanais realizados em capelas de bairro, construções muito mais simples.

Embora tendo nascido como uma religião democrática organizada em uma sociedade fechada e comunista, logo desenvolveu uma estrutura hierárquica rígida, encabeçada pela figura do Presidente da Igreja, considerado invariavelmente um profeta iluminado pela inspiração divina. A arquitetura dos templos Mórmons é um reflexo dessa hierarquia. Tradicionalmente os templos não nasciam do povo, mas do líder da Igreja, que escolhia o local, estabelecia o projeto básico e organizava a construção. Oficialmente a forma que o edifício assumia era fruto direto de uma revelação sobrenatural. Ao povo cabia contribuir com trabalho e ajuda material.

Mesmo assim, havia um interesse por parte da Igreja em manter seus arquitetos bem informados. Prova-o a missão com que o Presidente Brigham Young incumbiu o arquiteto Truman Angell em 1856, para que viajasse pelo mundo observando os estilos arquitetônicos dos vários povos e períodos históricos. Isso em parte explica o ecletismo do estilo arquitetônico Mórmon, e outra parte se deve ao conceito de "revelação continuada" aceito por eles. Ainda enquanto estava em construção o primeiro templo ainda em uso, o de St. George, vários líderes da Igreja anunciavam que o projeto dos templos futuros deveria atender a demandas ainda por aparecer. Em torno de 1879, quando foi estabelecida a distinção funcional entre templos, tabernáculos e capelas, Orson Pratt insistia que "o Senhor não está limitado a um único projeto para os templos, mas construirá de uma grande variedade de formas... e não revelará tudo de uma só vez... enquanto o propósito geral dos templos é o mesmo para todas as épocas, a adequação desses edifícios é determinada pelas necessidades da dispensação a que eles pertencem".Cowan, Richard O. Temples to Dot the Earth. Cedar Fort, 2011, pp. 70-82

Nos dias atuais a forma de construção permanece essencialmente a mesma, ainda que as especificações arquiteturais já não sejam dadas através de revelação. O Presidente, contudo, alega receber uma revelação de que um novo templo é necessário. Os Mórmons mantêm em Salt Lake City, onde está a sede de sua Igreja, um escritório de arquitetura onde são desenvolvidos os projetos. As construções ainda são financiadas voluntariamente pela congregação, além do dízimo o qual os membros são incentivados a doar.

Estilo de Utah thumb|left|A Casa de Investidura thumb|left|O Templo de Manti

A evolução estilística da arquitetura Mórmon pode ser dividida em duas fases nitidamente diferenciadas. A primeira transcorreu ao longo do século XIX, quando se formou o chamado Estilo de Utah, e a segunda, no século XX, mais diversificada. O Estilo de Utah é descrito como uma original e eclética mistura de elementos principalmente românicos e góticos, com alguma influência da arquitetura maçônica, oriental, bizantina, barroca e neoclássica, criando edifícios austeros, monumentais e massivos, com um aspecto de fortaleza, numa tentativa, segundo Andrew, de explicitar visivelmente os conceitos fundamentais de sua religião.Smith, G. E. Kidder. Source Book of American Architecture: 500 Notable Buildings from the 10th Century to the Present. Princeton Architectural Press, 2000, p. 237

Os dois primeiros templos, o Templo de Kirtland e o de Templo de Nauvoo, foram projetados pelo fundador Joseph Smith e colaboradores. O de Kirtland exibe uma estrutura simples, semelhante à arquitetura neogótica Protestante norteamericana, o chamado Gótico da Planície, mas o de Nauvoo já tem uma monumentalidade e um aspecto monolitico que se tornaram marcas registradas da arquitetura Mórmon em sua primeira fase.Ferguson, Franklin. "Architecture". In: Ludlow, Daniel H. (ed). Encyclopedia of Mormonism. Macmillan Publishing Company, 1992, pp. 53-55

Inicialmente os templos possuíam uma estrutura basicamente em dois pisos. O térreo era dividido em diversas salas para funções especiais em níveis sucessivamente superiores, separadas por degraus. Depois de receber instruções preliminares, o membro passaria sucessivamente pelas salas do jardim, do mundo e da terra. No segundo piso estavam as salas do céu e do selamento, e no subsolo funcionava o batistério. Este padrão foi inaugurado no projeto da pequena Casa de Investidura, consagrada em 1855, sendo ampliado e detalhado pelo arquiteto Angell sob supervisão direta do Presidente Young, produzindo os templos de Manti, Logan e Salt Lake City, que, entretanto, expandiram o conceito arquitetural da Casa de Investidura adicionando novas salas para novos usos.Cowan, pp. 82-84 thumb|Maquete da estrutura do Templo de Salt Lake thumb|Imagem histórica do interior do Templo de Salt Lake, mostrando a Sala Celestial

O edifício mais representativo desta fase é o célebre Templo de Salt Lake, a culminação do Estilo de Utah e o protótipo para todos os outros templos construídos até o início do século XX. Foi o sexto templo a ser construído pela Igreja, levando quarenta anos para ser finalizado. Comum a outros templos é o rico simbolismo que apresenta em suas fachadas, ilustrativo da jornada do homem da mortalidade à imortalidade. Destacam-se as três torres a leste, representando a primeira Presidência da Igreja e o Sacerdócio de Melquisedec, com seus doze pináculos representativos dos doze apóstolos. A oeste, outras três torres, representando o Bispado Presidente e o Sacerdócio de Aarão, com seus doze pináculos representando o Alto Conselho. Sobre uma das torres há uma grande estátua do anjo Moroni, uma figura central na religião Mórmon; ele toca uma trombeta anunciando a Segunda vinda de Cristo. O aspecto de fortaleza se explica pelo desejo de enfatizar a separação dos Mórmons do mundo profano e a proteção para o culto sagrado que se desenvolve no interior. Diversas pedras decoradas com relevos se distribuem pela fachada. Na base de cada contraforte há uma Pedra da Terra, que representam o escabelo de Deus. Acima delas são colocadas Pedras da Lua, cujas fases variáveis indicam o progresso humano do nascimento à ressurreição. Sobre estas, estão as Pedras do Sol, ilustrando as glórias do reino celestial. Existem ainda Pedras das Nuvens, lembrando a Nuvem de Glória divina citada no Antigo Testamento como aparecendo no Santo dos Santos do Templo de Salomão, e as Pedras das Estrelas, que se referem às luzes do firmamento e aos filhos de Deus, chamados de Estrelas da Manhã. Nas torres centrais há imagens de duas mãos dadas, simbolizando o companheirismo dos Mórmons e o pacto firmado entre eles e Deus. No topo das torres centrais existe também uma imagem de um olho, símbolo da onisciência divina.Salt Lake Temple. LDS Church TemplesCowan, pp 107-109

Contrastando com a austeridade externa, interiormente o Templo de Salt Lake foi mais ricamente decorado, com vários espaços ornamentados com pinturas murais e mobiliário de luxo. Mesmo durante suas fases iniciais, quando havia escassez de recursos, vários Mórmons foram enviados como "missionários da arte" à Academia Julian de Paris para serem adestrados em técnicas artísticas, para que em seu retorno decorassem os interiores dos templos. Alguns desses artistas se tornaram os principais professores de arte em Utah no início do século XX. A prática da decoração interna mais rica continuaria ao longo do século XX; muitos dos interiores deste período são elegantes e sofisticados.Arrington, Leonard J. e Bitton, Davis. The Mormon experience: a history of the Latter-Day Saints. University of Illinois Press, 1992, p. 256

Século XX e atualidade thumb|O Templo de Cardston thumb|O Templo de Washington D.C thumb|Templo de San Diego