thumb|right|230px|Oficiais de armas britânicos, em traje de gala, desfilando durante a coroação do rei Carlos III. Um oficial de armas é uma pessoa, nomeada por um monarca, por um governo ou ocasionalmente por um particular, para desempenhar as funções de autoridade heráldica. Tradicionalmente, os oficiais de armas dividem-se em três categorias: reis de armas, arautos e passavantes. O tabardo - uma espécie de cota de armas usada como sobreveste - constitui o traje característico dos oficiais de armas.
Em geral, os oficiais de armas desempenham as seguintes atribuições: Autoridade sobre os assuntos heráldicos, incluindo a concessão, ordenamento e regulação do uso de brasões de armas; Autoridade sobre assuntos conexos à heráldica, incluindo os que dizem respeito a vexilologia, emblemática, falerística e uniformologia; Organização e participação em cerimoniais de Estado; Conservação e a interpretação de registos heráldicos e genealógicos.SLATER, Stephen, The Illustrated Book of Heraldry, Londres: Hermes House, 2005
Historicamente, os oficiais de armas desempenharam também as seguintes funções: Organizadores de torneios; Árbitros em batalhas; Enviados e diplomatas em nome dos seus senhores.MATTOS, Armando de, Manual de Heráldica Portuguesa, Porto: Editores Fernando Machado & Cia. Lda., 1941
Origem e história A tradição indica que os arautos existiam já na Grécia antiga - onde eram conhecidos como κήρυκες [kếrukes] - e na Roma antiga - onde eram conhecido como fetiales. Não existem contudo evidências que liguem os antigo arautos gregos e romanos aos oficiais de armas que surgirão na idade média. Esta ligação parece haver sido sugerida, no século XV, pelos próprios arautos de então, a fim de provarem a antiguidade e a nobreza do seu ofício, numa altura em que o mesmo estava a ser posto em causa. Na realidade, os oficiais de armas terão aparecido no século XII, quando do surgimento da heráldica, estando intimamente ligados ao desenvolvimento desta.NEUBECKER, Ottfried, HARMIGNIES, Roger (adaptação francesa), "La langue do blason", Le grand livre de l'héraldique, Paris: Bordas, 1988DE TROYES, Chrétiens, Le chevalier de la charrette, Paris: Éd. Roques, 1958
thumb|right|300px|Anúncio e distribuição de insígnias aos árbitros de um torneio, pelo rei de armas do Ducado da Bretanha, acompanhado de dois passavantes (identificáveis pelo uso do tabardo atravessado). Estampa do Livre des tournois, século XV. Os oficiais de armas provieram inicialmente de saltimbancos e menestréis que se especializaram em torneios, justas e passos de armas, neles assumindo a responsabilidade de anunciar, apresentar e comentar os cavaleiros participantes. Esta responsabilidade, obrigava-os a ser capazes de identificar expeditamente um determinado cavaleiro. Como esta identificação era feita normalmente através da observação dos emblemas heráldicos ostentados pelos cavaleiros, isto fez com que acabassem por ter de desenvolver um conhecimento profundo de heráldica.
A necessidade do conhecimento dos diversos brasões de armas fez com que muitos oficiais de armas começassem a registar - por escrito e através de imagens - as armas que fossem observando nas viagens que faziam ou nos torneios a que assistiam, dando origem a armoriais, que são ainda hoje a base do conhecimento da heráldica medieval. Os oficiais de armas foram também encarregues de elaborar os armoriais oficiais, nos quais eram registadas as armas concedidas pelos seus empregadores.
Originalmente, os oficiais de armas não estavam ligados a um monarca ou senhor em particular, levando uma vida errática e contribuindo assim para espalhar a fama de cavaleiros notáveis pelas diversas terras por onde passavam. No século XIV, alguns grandes senhores - especialmente aqueles que tinham prerrogativas de concessão de armas aos seus vassalos - começaram a contratar oficiais de armas para o seu serviço particular. Para além da necessidade de alguém que tratasse dos respetivos assuntos heráldicos, ter oficiais de armas ao seu serviço era visto como um símbolo de poder e o seu envio a outras terras - nas quais relatavam os feitos de armas do seu senhor - funcionava como um meio de propaganda. Continuaram contudo a existir oficiais de armas independentes, que não estavam portanto ao serviço de nenhum empregador específico.
Inicialmente, a organização dos oficiais de armas refletia a estrutura territorial dos torneios. Esta compreendia marcas, subdivididas em províncias de torneios, estando os oficiais de armas distribuídos pelas mesmas. Em paralelo, os oficiais de armas começaram também a organizar-se hierarquicamente, em diversas categorias. O acesso à profissão começou a fazer-se pela categoria de passavante, análoga à de aprendiz nas corporações de ofícios mecânicos e à de escudeiro na cavalaria. Após o período de aprendizagem - que poderia levar diversos anos - o passavante era elevado à categoria de arauto, análoga à de oficial mecânico ou à de cavaleiro. De entre os arautos, os mais experientes assumiram a função de chefia dos restantes, os quais começaram a ser referidos como "reis dos arautos de armas", expressão posteriormente abreviada para "reis de armas".
Como traje profissional, os oficiais de armas vestiam um tabardo que tradicionalmente era usado direito pelos reis de armas e arautos, mas usado atravessado pelos passavantes. Os tabardos eram ornamentados com as armas do empregador do oficial de armas. No caso dos oficiais de armas independentes, os respetivos tabardos eram ornamentados com escudetes diversos.
A investidura de um oficial de armas realizava-se segundo um ritual análogo ao do batismo cristão. O candidato começava por apresentar-se ao seu senhor, colocando-se de joelhos perante ele e fazendo então o seu juramento. Em seguida, o seu senhor lançava-lhe água sob a cabeça - retirada de uma copa trazida pelo copeiro-mor - e batizava-o com o nome que passaria a usar no exercício do cargo. Feito isto, no caso de um passavante o mesmo era vestido com o respetivo tabardo atravessado e, no caso de um arauto, o tabardo atravessado com que se apresentava como ainda passavante, era-lhe colocado direito.
Tradicionalmente, os oficiais de armas eram batizados com designações poéticas e simbólicas relacionadas sobretudo com a sua jurisdição territorial (nomes de estados, províncias, cidades e outras terras) ou com elementos da heráldica associada a essa jurisdição (emblemas, motes, ordens de cavalaria e peças dos escudos).
Com o passar do tempo, os monarcas que dispunham de vários oficiais de armas ao seu serviço começaram a organizá-los em corporações. A primeira a surgir foi o Colégio de Armas (), criado pelo Rei de França em 1407. Entre outras, seguiram-se posteriormente a criação do Colégio de Armas de Inglaterra () em 1484 e a da Corporação dos Reis de Armas de Portugal em 1512.
A partir do final do século XVII - e coincidindo com o início de um período em que se observa uma decadência da ciência heráldica - os oficiais de armas da maioria dos países começam a perder gradualmente as suas prerrogativas de autoridade heráldica, limitando-se ao exercício de funções meramente cerimoniais. A nomeação para oficial de armas, que antes recaía geralmente em pessoas de elevada erudição, passa assim a recair frequentemente em pessoas com poucos ou nenhuns conhecimentos de heráldica. O ofício permanente de oficial de armas é inclusivamente extinto em diversos estados, só sendo nomeados pontualmente oficiais de armas para participarem como figurantes em solenidades oficiais. Existiram contudo algumas exceções a este cenário, como foram os casos dos oficiais de armas britânicos, que mantiveram até à atualidade a sua função de autoridade heráldica.
Traje
thumb|right|270px|Tabardo e bastão do arauto Vesdre, oficial de armas do Ducado de Limburgo, século XV. O tabardo constitui o tradicional traje cerimonial dos oficiais de armas. Consiste numa sobreveste - constituída por dois panos longos (frontal e traseiro) e dois panos curtos (laterais) - geralmente ricamente bordada com as armas do monarca, estado ou outra entidade ao serviço da qual está o seu portador. O tabardo era assim virtualmente idêntico à cota de armas que seria usada pelo empregador do oficial de armas, mas este distinguia-se daquele por não carregar espada, adaga ou qualquer outra arma ofensiva. Sob o tabardo, o oficial de armas podia contudo usar armas defensivas como cota de malha ou armadura, bem como capacete, a fim de se proteger quando acompanhava o seu senhor no campo de batalha. Os oficiais de armas independentes usavam tabardos decorados com uma série de pequenos escudetes de diversas armas.
Tradicionalmente, os reis de armas e os arautos usavam o tabardo na sua posição normal, mas os passavantes usavam-no atravessado ou seja com os panos longos cobrindo os braços e os panos curtos cobrindo o peito e as costas. Do ritual de promoção de um passavante a arauto fazia parte o ato de lhe colocar o tabardo na posição direita. Esta tradição foi contudo descontinuada no século XVII, tendo os passavantes passado também a usar o tabardo na posição normal.
Em situações em que não era necessário o uso do tabardo, o distintivo dos oficiais de armas consistia num pequeno brasão das armas do seu senhor, usado ao peito. Tradicionalmente, os reis de armas e arautos usavam o brasão do lado direito do peito, mas os passavantes usavam-no do lado esquerdo.
Em alguns países, o traje cerimonial dos oficiais de armas incluía ainda o uso de algumas insígnias específicas como colares armoriados, coroas, bastões e cetros.
O uso de tabardo pelos oficiais de armas mantêm-se nos países em que eles continuam a ter funções cerimoniais.
Atuais oficiais de armas em diversos países África do Sul O arauto de Estado (, ) é o principal oficial de armas da República da África do Sul. Exercendo a direção da Repartição de Heráldica (Buro vir Heraldiek, Bureau of Heraldry) do Serviço dos Registros e Arquivos Nacionais da África do Sul, que constitui a autoridade heráldica do país. Estabelecido em 1963, o ofício de arauto do Estado passou a ser oficiosamente referido como "arauto nacional" desde 2004, ainda que a sua designação oficial nunca tenha sido alterada.Sítio dos Arquivos Nacionais da África do Sul
Canadá O Canadá é um dos poucos países da Commonwealth que dispõe da sua própria autoridade heráldica, independente do Colégio das Armas da Coroa Britânica. A Autoridade Heráldica do Canadá tem o arauto de armas do Canadá (, ), como principal oficial de armas, o qual é coadjuvado pelos arautos Athabaska, Assiniboine, Coppermine, Fraser, Miramichi e Seguenay. Para além dos arautos ordinários, são ocasionalmente nomeados arautos extraordinários, como ofícios honoríficos."The Officers and Heralds of Arms and their Armorial Bearings", Governor General of Canada, 2019
Espanha 200px|thumb|right|Coroa heráldica usada pelos reis de armas espanhóis nos respetivos brasões. O Estado Espanhol mantem formalmente um cargo de oficial de armas designado "cronista rei de armas" (), na dependência do respetivo Ministério da Justiça. O cargo não se encontra contudo preenchido desde 2005, altura em que morreu o seu último titular, o heraldista Vicente de Cadenas y Vicent. O cargo surgiu no século XVI, resultando da fusão dos antigos ofícios de cronista real e de rei de armas, ambos de origem medieval. Os oficiais de armas da Coroa Espanhola foram então organizados num Corpo de Cronistas Reis de Armas (Cuerpo de Cronistas Reyes de Armas), compostos por quatro oficiais e dois supranumerários, chefiados por um decano. O Corpo foi extinto em 1931, mas o cargo de cronista rei de armas acabaria por ser restaurado em 1947, sendo as suas responsabilidades reguladas em 1951."Spanish Heralds" no sítio heraldry.freeservers.com