Axé Obá Ibô () é uma família religiosa afro-brasileira do Axé Ibomina Malê, associada ao culto de Obatalá, senhor dos ibôs, cuja dinastia se formou a partir da diáspora dos reinos governados pelos obás — os ibominas. Essa família religiosa constitui uma verdadeira árvore sagrada, enraizada na tradição ancestral trazida e plantada em solo brasileiro por descendentes africanos ibominas e malês (muçurumins).Em sua raiz religiosa, o Axé Obá Ibo tem a influência malê do culto mussurumi dos Alufás.
Dedicada a Obatalá e fundamentada nos cultos aos Antepassados, aos Orixás e a Ifá, essa confraria tem como matriarca a sacerdotisa Marcolina da Cidade de Palha, referência maior de sua linhagem espiritual. Atualmente, a sede do Axé Obá Ibô Ibomina Malê é o Templo do Senhor do Alvorecer, onde se preservam e se transmitem os fundamentos religiosos dessa tradição.
Palavra Axé A palavra axé, de origem iorubana (àṣẹ), possui múltiplos significados. Entre os mais correntes estão as ideias de força realizadora, confirmação ou assentimento — frequentemente traduzidas como “amém” ou “assim seja”FONSECA JR., 1983, p 25..
No contexto religioso afro-brasileiro, o termo passou também a designar o corpo espiritual e institucional de uma comunidade religiosa, estruturada sob a autoridade ritual de um patriarca ou de uma matriarca.
Axé no Brasil No Brasil, o termo axé adquiriu sentidos específicos que diferem parcialmente de seus usos africanos entre os povos de língua iorubá da região correspondente à atual Nigéria. Entre nós, a palavra passou a designar instituições religiosas vinculadas a determinadas tradições étnicas e linhagens espirituais.
Com o tempo, consolidou-se a ideia de que os axés mais conhecidos — sobretudo os fundados na Bahia — representariam a forma mais legítima de continuidade da religiosidade africana iorubana. Essa interpretação, entretanto, reduziu a diversidade histórica das tradições afro-brasileiras.
Assim, difundiu-se a noção de que aqueles que não pertencem a um axé amplamente reconhecido estariam desligados de uma linhagem legítima de iniciação. Tal entendimento não corresponde à realidade histórica. A adoção do termo axé como designação institucional constitui uma prática especificamente brasileira, surgida em Salvador. Diversas comunidades religiosas optaram por preservar seus conhecimentos e tradições sem se submeter a essas estruturas formais, mantendo, ainda assim, suas linhagens e fundamentos espirituais.PENNA, Uma confraria dos ibominas no Brasil. 2011, p. 20
Axé Obá Ibô Ibomina Malê O Axé Obá Ibô Ibomina Malê é uma instituição religiosa fundada como igreja de devoção a Obatalá, tendo como base doutrinária os cultos aos Antepassados, aos Orixás e a Ifá no Brasil. Sua tradição está vinculada ao chamado candomblé muçurumim, associado às linhagens religiosas dos alufás e dos adifás.
Embora existam analogias com outros grupos afro-brasileiros — visíveis nos cânticos sagrados, nos ritmos musicais, nas narrativas de Ifá, nos cerimoniais públicos e no uso de uma base linguística iorubana —, as doutrinas, liturgias, normas e ritos dessa família religiosa estão fundamentados nos conhecimentos trazidos e preservados pelos descendentes ibominas e malês em território brasileiro.
O Axé Obá Ibô Ibomina Malê constitui, assim, uma rama afro-brasileira autônoma, que não depende da chancela de outros grupos religiosos — sejam do Brasil, da América ou da África — para a realização de seus cultos. Sem negar a importância dos estudos e das pesquisas, o ensinamento oral da tradição ancestral, transmitido de sacerdote a sacerdote ao longo das gerações, permanece como o fundamento principal dessa família religiosa.
O Axé Obá Ibô não mantém vínculo religioso com templos de matriz iorubana existentes no Brasil que não reconheçam como matriarca espiritual a venerável sacerdotisa Marcolina de Oxum.Documentário Axé Obá Ibo: uma ordem ibomina
Embora o nome do Axé tenha sido registrado na década de 1980, quase todo seu patrimônio religioso e cultural vem sendo transmitido de forma contínua desde o tempo de Mãe Marcolina até os dias atuais.
Tronco Étnico Religioso do Axé Ibomina Malê Marcolina da Cidade da Palha; Procópio d'Ogum; Arnaldo Babaribô; Laudelino de Xangô; Obá Alaiê Famankindê (Antônio dos Santos Penna). Obanífúnmil'ayo Famudá (Bàbáalààse)
Origem do nome da Instituição Religiosa A ideia de registrar o nome Axé Obá Ibô surgiu a partir do encontro entre Laudelino de Xangô e seu descendente religioso Antônio Penna de Obatalá, ocorrido em fevereiro de 1986, na ilha de Paquetá, no Rio de Janeiro. Na ocasião, Antônio Penna estava acompanhado de sua esposa, de sua sogra, de seus três filhos e de Iyalessô Vilma de Oyá. Durante essa reunião, Laudelino Loxemoju solicitou que Obá Alaiyê (Antônio Penna) assumisse interinamente a direção do Axé Obá Igbô.
O templo Ilê de Xangô Ogodô, situado em São João de Meriti (RJ), não possuía então qualquer forma de registro ou documentação. Seguindo uma tradição estritamente oral, Laudelino afirmava pertencer ao Axé de Baribô — referência ao sacerdote Arnaldo Babaribô — ou ao Axé do Baixão, em referência a seu avô de santo, Procópio d'Ogum. Segundo Laudelino Loxemoju, para alguém tornar-se sacerdote bastava seguir os ensinamentos transmitidos por sua família de santo.
Desse encontro resultou o consenso de que o nome a ser oficialmente registrado — capaz de vincular toda a família religiosa — deveria constituir uma homenagem ao ancestral Obatalá, uma vez que tanto o adifá Arnaldo Babaribô quanto Obá Alaiyê eram reconhecidos como descendentes dessa divindade. Assim foi adotado o nome Axé Obá Ibô, escolhido também pela necessidade de constar nos estatutos um nome institucional, à semelhança do que já ocorria com diversos axés no Brasil.
A partir desse momento, Laudelino Loxemoju foi reconhecido como sacerdote-mor (aboré-nlá / oluwadifá) do Axé Obá Ibô, sendo Obá Alaiyê designado seu sucessor. Entretanto, como o Ilê de Xangô Ogodô encontrava-se fechado, o templo dirigido por Antônio Penna de Obatalá, localizado no bairro Vila Centenário, em Duque de Caxias (RJ), passou a funcionar como sede do Axé.
Nesse contexto, em 28 de fevereiro de 1986, data registrada, teve início a formalização documental do Axé Obá Ibô. Em 1988 faleceu o sacerdote Laudelino de Xangô, deixando Antônio Penna na posição de sumo sacerdote do Axé. Por motivos particulares, o templo permaneceu inativo por dois anos, sendo reaberto em 1990.
O conhecimento sistemático acerca da descendência da família ibomina começou a consolidar-se a partir da década de 1990, quando Antônio Penna de Obatalá iniciou pesquisas sobre sua linhagem religiosa. Por ocasião do lançamento de seu primeiro livro, Merindilogun Kauri, o adifá Famakindê Obá Alaiyê (Antônio Penna de Obatalá) conseguiu reconstituir sua árvore sacerdotal, que remonta ao adifá Arnaldo Babaribô, à sacerdotisa nigeriana ibomina Marcolina de Oxum e a seu companheiro malê — um adifá da família de Obatalá. Essa descoberta reforçou o sentido da homenagem ao eborá Obatalá, reconhecido como patriarca do povo ibô (ibomina).
Segundo os relatos preservados e as pesquisas realizadas, Laudelino Loxemoju, Arnaldo Babaribô, Procópio d’Ogum e Mãe Marcolina de Oxum não demonstravam preocupação com a filiação formal a um Axé comum, nem com a submissão a diretrizes de confrarias étnicas externas. Eram iniciados e consagrados na religiosidade familiar transmitida de geração em geração. Assim se fazia naquele tempo: a religiosidade era transmitida de geração em geração, e o sangue e o solo de origem constituíam os vínculos mais sagrados e respeitados.PENNA, Antonio dos Santos. Histórias de Ifá, o livro sagrado. 2011, p. 31
Em dezembro de 2000, com a transferência da sede do Axé para a região da Chácara Rio-Petrópolis, a razão social do Axé Obá Ibô passou a ser Templo do Senhor do Alvorecer. Desde então, essa denominação identifica a primeira igreja do Axé Obá Ibô, templo-sede do culto aos Antepassados, aos Orixás e a Ifá.
O adifá Obá Alaiyê Famakindê Opaokô exerce a função de aboré-unlá (sumo sacerdote) do Axé Obá Ibô Ibomina Malê, tendo Obanífúnmil'ayo Famudá Opaokô como bàbáalààse, seu sucessor.
Registro Em 28 de fevereiro de 1986, foi registrado pela primeira vez em cartório e publicado em diário oficial o nome Àṣẹ Obá Ìgbó, data que marca a formalização da instituição religiosa sob a liderança de Antônio Penna de Obatalá. Nesse momento foi constituída oficialmente a casa matriz — a igreja-sede do Àṣẹ Obá Ìgbó — estabelecendo-se juridicamente a comunidade religiosa e espiritual que desde então se mantém em atividade.
No ano de 2000, a documentação institucional passou a adotar a denominação Templo do Senhor do Alvorecer, inscrita no CNPJ (MF) nº 00.183.514/0001-20. Trata-se de um templo religioso dedicado a Obatalá, reunindo uma comunidade de praticantes da Religião dos Orixás vinculados pela mesma tradição espiritual e orientados por uma liderança religiosa comum.
O Àṣẹ Obá Ìgbó constitui-se como uma instituição cultural e espiritual sem fins lucrativos, formada por seus membros fundadores e por aqueles que venham a ser admitidos ao longo do tempo. Unidos pela mesma herança ritual, seus integrantes representam o mundo sagrado em suas relações com o mundo profano, traduzindo essas referências comuns em práticas compartilhadas, conforme estabelecido em seu Estatuto Social, registrado e arquivado no Cartório do 2º Ofício da Comarca de Duque de Caxias.Fls 214 do Livro A4 sob o nº 4.070, com sua última alteração estatutária registrada sob o nº 014146, em 08 de dezembro de 2000.
Calendário anual de Festividades Adurás (rezas) de Obatalá: toda primeira sexta-feira do mês. Homenagem ao patriarca Obatalá: Ritual do Cortejo de Awolejê e do Pilão. Homenagem aos Egunguns (Elewê, Igunnokô e Olokotun) e Antepassados do Axé Obá Ibô Ibomina Malê .
Familiares do Axé Obá Ibo Ibomina Malê
Templos do Axé Ibomina Malê Ilê Ogunjá* (reativado recentemente). Ilê de Oxalufã (inativo) Ilê Xangô Ogodô (inativo) Templo do Senhor do Alvorecer - sede do Axé Obá Ibo Ibomina Malê.
Bibliografia FONSECA JR., Eduardo. Dicionário Yorubá (nagô) Português. Rio de Janeiro: Sociedade Yorubana, 1983. PENNA, Antonio dos Santos. Histórias de Ifá, o livro sagrado. Rio de Janeiro: Antonio dos Santos Penna, 2011. PENNA, Antonio dos Santos. Mérìndilogun Kawrí - Os Dezesseis Búzios. Rio de Janeiro: A. Santos Penna, 2008 PENNA, Fábio Rodrigo. Uma confraria dos igbominas no Brasil. Rio de Janeiro. F. R. Penna, 2011. Base textual desse artigo.
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