Os eslavos meridionais ou eslavos do sul são o ramo etnográfico meridional dos povos eslavos, constituído por grupos étnicos relacionados entre si que falam línguas eslavas meridionais e que são nativos da península dos Balcãs, da Planície da Panónia e dos Alpes orientais. O número de eslavos meridionais ascende a aproximadamente 40 milhões e incluem os búlgaros, sérvios, croatas, eslavo-macedónios, eslovenos, bósnios, montenegrinos e outros grupos étnicos de menor dimensão.
Constituem a maior parte da população dos países da Europa Central e Meridional da Bulgária, Bósnia e Herzegovina, Croácia, Eslovénia, Macedónia, Montenegro, Sérvia. Os seus territórios estão separados do resto das nações eslavas desde o pelos estados não eslavos da Áustria, Hungria e Roménia, o que deu origem a diferenças na progressão histórica relativamente aos eslavos orientais e eslavos ocidentais.
História Primeiros registos Pouco se sabe acerca dos eslavos antas do . A sua história anterior só pode ser deduzida de forma hipotética através de estudos arqueológicos e linguísticos. Muito do que se da sua história depois do é das obras dos historiadores bizantinos.
Na sua obra De Bellis, Procópio de Cesareia descreve os eslavos como anormalmente altos e fortes, com tez bronzeada e cabelo arruivado e com hábitos rudes e primitivos. Viviam em cabanas, usualmente distantes umas das outras e mudavam frequente de local de residência. Não eram governados por um líder único, mas durante muito tempo viveram em "democracia" (ou anarquia). João de Éfeso apresenta os eslavos na sua obra História Eclesiástica como extremamente violentos. Provavelmente acreditavam em vários deuses, mas Procópio sugere que adoravam um deus, provavelmente supremo, ou seja, possivelmente eram henoteístas. Esse deus tem sido frequentemente identificado como Perunú, o criador do relâmpago. Os eslavos iam para a batalha a pé, carregando diretamente sobre o inimigo, armados de lanças e pequenos escudos, e não usavam armadura.
Essa informação é complementada pelo Estratégico de Maurício, o manual de guerra atribuído ao imperador bizantino Maurício , onde os eslavos são descritos como numerosos mas desorganizados e sem líderes, resistentes às privações e não se deixando escravizar ou conquistar. Construíam as suas habitações em florestas, junto a rios e zonas húmidas. O historiador bizantino Jordanes () escreveu que os eslavos «têm a sua terra natal no Danúbio, não longe da margem norte». Há relatos subsequentes acerca de estados eslavos primitivos e da interação dos eslavos com os gregos no Sobre a Administração Imperial de , das compilações dos Milagres de São Demétrio, na História de Teofilato Simocata (início do ) e nos ("Anais do reino Franco", séculos VIII e IX).
Migrações e local de origem
Antes dos haplogrupos terem sido identificados por testes genéticos, os estudiosos tendiam a localizar o Urheimat eslavo nos marismas de Pinsk (ou Pripet), na Ucrânia, ou alternativamente entre os rios Bug e Dniepre. Fontes do referem que os eslavos viviam a norte do Danúbio. Supostamente, a partir desse século espalharam-se em todas as direções. Os Balcãs foi uma das regiões que se encontrou na rota de expansão dos eslavos. Atualmente sabe-se que os haplogrupos eslavos se expandiram para leste e não para oeste, mas a questão de qual é a terra natal original dos eslavos mantém-se em aberto.
No que concerne aos eslavos mencionados pelos cronistas bizantinos do , Florin Curta afirma que a sua "terra natal" era a norte do Danúbio e não nas zonas fronteiriças entre a Ucrânia e a Bielorrússia. Ele esclarece que a forma itinerante de agricultura (desconheciam a rotação de culturas) "pode ter encorajado a mobilidade numa escala micro regional". A cultura material do Danúbio sugere que houve uma evolução das sociedade eslava entre o início do e o . À medida que os bizantinos reforçaram as defesas no Danúbio em meados do , o produto das pilhagens dos eslavos diminuíram. Como reação a este isolamento económico e ameaças externas (por exemplo, dos ávaros e dos bizantinos), ocorreu uma mobilização militar. Sítios arqueológicos do final do mostram que os assentamentos que primitivamente não passavam de grupos de lugarejos, começaram a evoluir para comunidades maiores com áreas diferenciadas (por exemplo áreas específicas para festas públicas e áreas "industriais" para artífices). À mediada que as elites ganharam proeminência, incorporaram "um interesse e responsabilidade coletiva" pelo grupo. "Se essa identidade de grupo pode ser chamada etnicidade, e se essa etnicidade pode ser chamada eslava, então ela formou-se certamente na sombra dos fortes de Justiniano, não nos pântanos de Pripet.
Os bizantinos agrupavam genericamente as numerosas tribos eslavas em dois grupos: os esclavenos e os antes. Aparentemente os esclavenos viviam ao longo do médio Danúbio, enquanto que os antes estavam no baixo Danúbio, na Cítia Menor. Alguns académicos, como o búlgaro Zlatarsky, sugerem que o primeiro grupo se fixou nos Balcãs ocidentais, tornando-se os precursores do grupo linguístico que se tornaria o sérvio, enquanto ramos dos antes se fixaram nas regiões orientais (em termos aproximados), tornando-se os antepassados dos búlgaros. Do Danúbio começaram a fazer raides no Império Bizantino a partir da década de 520, com frequência anual. Espalhavam a destruição, pilhando e roubando gado, fazendo prisioneiros e conquistando fortalezas. Era frequente que os bizantinos estivessem pressionados pela defesa das suas ricas províncias asiáticas dos árabes, persas e turcos, o que tinha como consequência que até pequenos grupos desorganizados de eslavos eram capazes de causar muitos distúrbios, apesar de não conseguir capturar as cidades maiores e mais fortificadas.
A fixação em larga escala dos eslavos nos Balcãs iniciou-se no final da década de 570 e início da década seguinte. Menandro Protetor, um historiador bizantino do final do , refere a chegada de eslavos à Trácia e Ilíria, — provavelmente com algum exagero — que tomavam cidades e se fixavam. Estes movimentos de população em larga escala estão associados à chegada dos ávaros, um grupo nómada túrquicos que tinha perdido uma guerra contras outros nómadas mais a leste e se fixaram na Bacia Cárpata subjugando muitas das tribos eslavas mais pequenas. O movimento foi facilitado pelo facto do Império Bizantino estar então enredado numa série de guerras com a Pérsia e por isso não ter podido enviar tropas para os Balcãs. Por volta da década de 580, à medida que as comunidades eslavas no Danúbio ficaram maiores e mais organizadas, e os ávaros exerciam a sua influência, os raides tornaram-se maiores e resultaram em que os eslavos estabelecessem assentamentos permanentes. Muitos estudiosos consideram o período de 581-584 como o início da colonização eslava em larga escala nos Balcãs. Sensivelmente nessa altura, a crónica conhecida como os Milagres de São Demétrio fala em fixação em larga escala de eslavos na área em volta de Salonica, embora os eslavos nunca tenham chegado a tomar a cidade.
Em 591, os bizantinos terminaram a guerra com os persas e foi feita uma tentativa séria de repor a fronteira norte do império pelo imperador Maurício, um experiente estratega. Embora tivesse bastante sucesso, Maurício não logrou eliminar completamente os ávaros e acabou por ser deposto e assassinado em 602, em parte devido à sua recusa em pagar resgate por um número elevado de reféns que por isso foram chacinados pelos ávaros. A guerra com os persas reacendeu-se pouco tempo depois e a fronteira setentrional colapsaria novamente.
Os ávaros chegaram à Europa no final da década de 550. Embora a sua identidade não fossem durar muito tempo, os ávaros tiveram um grande impacto nos acontecimentos dos Balcãs. Estabeleceram-se na planície cárpata, a ocidente dos principais assentamentos eslavos. Esmagaram o reino germânico dos gépidas e empurraram os lombardos para a Itália, dividindo os Balcãs ocidentais. Firmaram a sua autoridade sobre muitos eslavos, os quais estavam divididos em numerosas tribos pequenas. Muitos eslavos foram deslocados para a base ávara na bacia cárpata e foram convencidos a tornar-se uma força muito eficaz de infantaria. Outras tribos eslavas continuaram a fazer assaltos de forma independente, por vezes aliando-se e coordenando os ataques com os ávaros. Houve ainda outros eslavos que se infiltraram nos territórios do Império Bizantino fugindo dos ávaros.
Os ávaros e os seus aliados eslavos focaram-se sobretudo nos Balcãs ocidentais, enquanto as tribos eslavas que continuaram independentes predominaram no oriente. Após o cerco fracassado a Constantinopla em 626, a reputação dos ávaros diminuiu, e a confederação foi perturbada por guerras civis entre os ávaros e os seus clientes búlgaros e eslavos. A sua área de influência passou a restringir-se à bacia cárpata. As evidências arqueológica mostram que houve mistura das culturas eslava, ávara e gépida, sugerindo que os últimos ávaros eram uma amálgama de diferentes povos. Finalmente, cerca de 810, o canato ávaro desmoronou-se depois de sucessivas derrotas frente aos francos, búlgaros e eslavos, e deixou de se ouvir falar dos ávaros — os que restaram foram absorvidos pelos eslavos e búlgaros.
Os sérvios são uma das tribos mencionadas entre as tribos eslavas já presentes nos Balcãs. Sabe-se muito pouco acerca das suas origens. Segundo o Sobre a Administração Imperial, o imperador Heráclio convidou-os para serem federados para combaterem os ávaros. Os sérvios migraram da sua pátria original no sul da Polónia entre 615 e No entanto, exceto por aquele documento (frequentemente disputado), não há provas específicas da sua migração. Alguns sugerem que chegaram aos Balcãs com o resto dos migrantes eslavos, tornando-se depois mais proeminentes que as restantes tribos, emergindo como uma espécie de clã reinante entre as tribos eslavas vizinhas.
Cerca de 700, os eslavos estavam estabelecidos na maior parte dos Balcãs, desde a Áustria até ao Peloponeso, e do Adriático até ao Mar Negro, à excepção das áreas costeiras de algumas regiões montanhosas da Grécia peninsular. O padrão de ocupação estava longe de ser uniforme, com maior concentração ao longo das principais rotas, como o . Um número bastante menor de eslavos parece ter-se fixado noutras zonas da Grécia onde houve presença eslava, o mesmo acontecendo com regiões montanhosas remotas como a Bósnia e o Montenegro.
Os vestígios arqueológicos da penetração eslava nos Balcãs são escassos, principalmente para o período anterior ao . Esta situação tem levado os estudiosos a lançar dúvidas sobre a precisão das fontes históricas, que frequentemente descrevem uma ocupação eslava em larga escala por todos os Balcãs, incluindo a Grécia meridional.
Interação com a população dos Balcãs Antes do advento do domínio romano, viveram nos Balcãs diversas populações autóctones desde tempos muito recuados. Nos territórios a sul da chamada linha Jireček viviam os gregos. A norte dessa linha viviam os ilírios na parte ocidental (Ilíria, os trácios na Trácia (modernas Bulgária e Macedónia oriental), e os dácios na Mésia Superior (norte da Bulgária e nordeste da Sérvia) e na Dácia. Esses povos viviam em sociedades que geralmente desconheciam quaisquer tipos de filiação etno-política para além das tribais. Ao longo da Antiguidade clássica, essas tribos foram por vezes subjugadas, conquistadas e influenciadas por celtas, gregos e romanos. No entanto, a influência deste últimos limitou-se a cidades, inicialmente concentradas ao longo da costa da Dalmácia, espalhando-se depois a umas poucas cidades dispersas no interior dos Balcãs, particularmente ao longo do rio Danúbio (Sirmio, Belgrado e Niš). Cidadãos romanos de diversas partes do Império Romano fixaram-se nessas cidades e nas zonas rurais adjacentes. Os territórios rurais do interior continuou a ser populado por povos indígenas que provavelmente mantiveram o seu carácter tribalista.