Avenida José Joaquim Seabra (ou Avenida J. J. Seabra) é um logradouro público de Salvador, capital do estado brasileiro da Bahia. Localizada na área central da cidade, o entorno da avenida é conhecido como Baixa dos Sapateiros e carrega importância histórica pelos cinemas (Jandaia, Tupy e Pax), pelo comércio varejista, pelo prédio do Corpo de Bombeiros (1.º GBM), pelo Terminal da Barroquinha e Estação Aquidabã, pelo Solar do Gravatá (sede do Centro Cultural Casa de Angola na Bahia) e pelos mercados de Santa Bárbara e São Miguel. O desenho da avenida liga o Largo da Barroquinha ao Largo do Aquidabã, onde estão instalados os terminais de ônibus, e avança até o Largo das Sete Portas, onde se conecta com a Rua Djalma Dutra e Rua Cônego Pereira.

Marcado pelo comércio de rua, diversificado e barato, constituiu-se como polo comercial de Salvador, fruto da expansão do comércio da Cidade Baixa. Contudo, o fluxo da avenida e a intensidade da atividade comercial caíram com a inauguração da Estação de Transbordo da Lapa na década de 1980 (na borda da então região central da cidade), assim como com os grandes centros de compras (shopping centers), com o crescimento do comércio dos bairros (com suas lojas e galerias comerciais), com a cobrança por estacionamento de carros de passeio, com a falta de articulação entre comerciantes da área e com a sensação de falta de segurança pública. A trajetória de declínio se reforçou com a extinção de linhas de ônibus que trafegavam na avenida com a pandemia de COVID-19 na Bahia, cujos impactos econômicos afetaram o comércio varejista de rua e dos grandes centros de compras e a região da Baixa dos Sapateiros não passou incólume.

O urbanismo soteropolitano tem a característica marcante da concepção das avenidas de vale, estabelecida pelo engenheiro Mário Leal Ferreira em 1949 para adaptar o relevo à modernização do desenvolvimento urbano planejado para Salvador, muito embora a J. J. Seabra tenha sido a primeira avenida de vale da cidade. Ela tem origem na Rua da Lama, designação para o trecho entre Taboão e Barroquinha no início do século XIX, até ser renomeada para Rua da Vala, nome que alude ao Rio das Tripas, posteriormente tamponado de forma total em dutos no subsolo integrados à rede de saneamento básico. Depois ganhou o nome Rua J. J. Seabra ou Rua Dr. Seabra, em homenagem a José Joaquim Seabra, ministro da Viação e Obras Públicas (1910-1912) e presidente da Bahia em duas gestões (1912-1916 e 1920-1924). Porém, o apelido "Baixa dos Sapateiros" manteve o referencial geográfico (o relevo baixo do vale hidrográfico) e adicionou a profissão comum naquele logradouro, o sapateiro. A presença desses profissionais era vista tanto pelas casas de couro, onde artesãos de calçados compravam seus materiais, quanto pelos estabelecimentos comerciais mantidos pelos próprios, e se estendia da parte baixa da Ladeira do Taboão à Rua da Vala, passando pela atual Rua Padre Agostinho Gomes.

Está a altitude de 57 metros.

História miniatura|esquerda|Carta de Salvador em 1551 destacou em verde a área do Rio das Tripas

A avenida corresponde ao vale do Rio das Tripas, afluente do Rio Camarajipe e local de despejo de dejetos dos matadouros e açougues. O cartógrafo português João Teixeira Albernaz localizou a região, em uma carta de 1612, como área de pântano e hortas ao norte da cidade muralhada. No período de domínio holandês sobre a cidade (1624-1625), após a Captura da Bahia, houve a construção do Dique Holandês de Salvador entre os pontos que correspondem à Igreja de Santana e ao Terminal da Barroquinha, represando o rio das Tripas.

No século XVIII foi construída a Igreja de Nossa Senhora de Guadalupe, que era uma "igreja dos pardos" situada em área pantanosa e que deu nome ao Largo de Guadalupe, posteriormente Praça dos Veteranos. O caráter pantanoso dificultava a circulação entre as duas primeiras cumeadas das Cidade Alta (o Centro Histórico e a Saúde/Palma/Desterro). A estrada que acompanhava o rio das Tripas ganhou o nome de Rua da Vala no século XIX, por conta de obras de drenagem e contenção de transbordamentos fluviais. Por volta da década de 1830, começou a ser urbanizada. Em 1858, o governo provincial da Bahia demoliu a capela e instalou em seu lugar o chafariz do Sistema do Queimado. Em 1862 houve o completo aterramento do rio e, em 1865, a via constituiu-se na primeira grande avenida de vale. Esse período de obras se prolongou devido a surtos de febre amarela, de doenças endêmicas (febre tifoide e varíola) e de febres intermitentes (malária, catarral, tuberculose e sarampo) que acometiam também aos trabalhadores livres e escravizados da obra.

miniatura|Cine Jandaia e Mercado Santa Bárbara miniatura|Lojas na avenida, em 2008

Já se verificava a importância da avenida por proporcionar a ligação das localidades mais antigas com as novas e periféricas naquele período do século XIX (Rio Vermelho e entorno do Dique do Tororó). Logo, no início do século XX, o Largo da Barroquinha funcionava como terminal de bondes elétricos, que percorriam a Rua da Vala e rumo a outras partes da cidade atendidas pela Companhia de Trilhos Centrais. E também foi inaugurada a primeira sala de cinema da Bahia, o Cine-Teatro Jandaia, em 1910, apelidado de "Palácio das Maravilhas". Em 1915, ocorreu a inauguração do . Ambas as salas atraíam pessoas das classes média e alta durante as décadas de 1920 e 1930, muito embora a rua fosse marcada também pelo tráfego urbano para os "bairros populares" e pelo "comércio popular".

O asfaltamento da via foi realizado em 1959, quando também houve a remoção dos trilhos de bonde.

A concepção de ocupação dos fundos de vales hidroviários da cidade data de 1949 e foi executada nas décadas de 1960 e 1970, contudo foi precedida pela construção da Avenida J. J. Seabra ainda no século XIX. Nesse contexto do planejamento urbano governamental ligado ao Escritório do Planejamento Urbanístico da Cidade do Salvador (EPUCS), o Plano Diretor de Transportes Urbanos (PDTU-1982) projetou um sistema de corredores de transporte de massa, incluindo uma conexão entre a Barroquinha e a Rótula do Abacaxi passando pela Baixa dos Sapateiros. Além disso, executou-se a estratégia governamental de descentralização do terminal da Praça da Sé a partir de terminais periféricos menores. Assim, a Estação de Transbordo do Aquidabã foi inaugurada em 1979, enquanto que o Terminal da Barroquinha e a Estação de Transbordo da Lapa (ETL) foram inaugurados em 1982. Contudo, com projeto do arquiteto João Filgueiras Lima (Lelé), a Prefeitura Municipal de Salvador reposicionou a função projetada para a Estação da Lapa, conferindo grande centralidade ao novo equipamento. Decorreram disso profundas repercussões no Centro de Salvador, como também na Baixa dos Sapateiros.

Ver também Lista de avenidas de Salvador Rio das Tripas Economia de Salvador

Bibliografia

Ligações externas

J J Seabra