Alandalus (), também chamado de Al-Ândalus e Al-Andalus, foi o conjunto de territórios da Península Ibérica que estiveram sob domínio político islâmico entre os séculos VIII e XV, com extensão geográfica variável ao longo do tempo. O termo passou a ser utilizado após a conquista omíada iniciada em 711 e permaneceu em uso mesmo durante os períodos de fragmentação política, sempre em referência às regiões governadas por muçulmanos.
Politicamente, Alandalus conheceu diversas formas de organização estatal. Inicialmente integrado ao Califado Omíada como um emirado, tornou-se posteriormente o Califado de Córdova (929–1031). Após sua dissolução, fragmentou-se em múltiplos reinos de taifas, sendo depois incorporado sucessivamente ao Império Almorávida e ao Califado Almóada. Na sua fase final, sobreviveu como o Reino Nacérida de Granada, conquistado em 1492 pelos Reis Católicos.
Alandalus foi o único território da Europa continental plenamente integrado aos circuitos culturais, científicos e econômicos da chamada Idade de ouro islâmica, destacando-se como um importante centro de produção intelectual, urbana e artística no Mediterrâneo ocidental medieval.
A porção ocidental de Alandalus era conhecida como Garbe Alandalus (“ocidente de Alandalus”) e abrangia grande parte do atual território de Portugal. Em termos gerais, essa região ocupou uma posição periférica em relação aos principais centros políticos e culturais andalusinos, como Córdova e Granada, embora tenha desenvolvido dinâmicas regionais próprias.
Etimologia thumb|Dinar omíada bilíngue (716–717), com a inscrição Alandalus miniaturadaimagem|Grafia árabe da palavra Alandalus, com sinais diacríticos de vocalização
A origem do topônimo Alandalus permanece objeto de debate historiográfico. O mais antigo testemunho material conhecido do termo data de 716–717, em um dinar bilíngue cunhado durante o governo omíada na Península Ibérica, no qual a designação latina Espânia (Span(ia)) corresponde ao termo árabe Alandalus. A moeda encontra-se atualmente no Museu Arqueológico Nacional de Madrid.
Apesar da documentação numismática precoce, as fontes árabes medievais não oferecem uma explicação explícita para a origem do nome, o que levou à formulação de diversas hipóteses modernas, nenhuma das quais alcançou consenso definitivo.
Hipótese vândala Uma das interpretações mais antigas foi proposta no século XIX por Reinhardt Dozy, segundo a qual Alandalus derivaria de Vandalícia, nome que, segundo o autor, teria sido atribuído à Bética romana após o assentamento dos Vândalos na região entre 409 e 429. Essa hipótese foi posteriormente aceita por alguns estudiosos, como Évariste Lévi-Provençal. Contudo, não existem evidências documentais contemporâneas que comprovem o uso do termo Vandalicia para designar a Bética, razão pela qual essa interpretação é hoje amplamente rejeitada pela historiografia especializada.
Hipótese visigoda Outra explicação foi formulada por Heinz Halm, que propôs que Alandalus seria uma arabização indireta de conceitos jurídicos e territoriais visigodos. Segundo essa interpretação, o termo derivaria de Gothica sors, expressão latina associada à divisão fundiária do Reino Visigótico, cuja forma equivalente na língua gótica seria landa-hlauts (“lote de terra”), posteriormente adaptada ao árabe. Embora linguisticamente engenhosa, essa hipótese também não encontrou confirmação documental suficiente e permanece controversa.
Hipótese atlântica Uma interpretação alternativa foi sugerida por Joaquín Vallvé Bermejo, que relacionou o termo Alandalus à tradição clássica da Atlântida, descrita por Platão. Segundo essa leitura, a expressão árabe Jazirate Alandalus (“ilha de Alandalus”), presente em algumas fontes medievais, refletiria uma tradução ou adaptação da noção de “ilha do Atlântico”. Essa hipótese, no entanto, é considerada especulativa e carece de aceitação entre os especialistas contemporâneos.
De modo geral, a historiografia recente tende a considerar a etimologia de Alandalus como incerta, ressaltando a ausência de provas textuais conclusivas para qualquer uma das teorias propostas.
História política Distinguem-se os seguintes períodos na história política do Alandalus: Período da conquista territorial e dos governadores, durante o qual o Alandalus dependia do Califado Omíada ; Emirado de Córdova ; Califado de Córdova ; Primeiro período de reinos de taifas ; Império Almorávida ; Segundo período de reinos de taifas ; Califado Almóada ; Terceiro período de reinos de taifas ; Reino Nacérida de Granada .
O Domínio Omíada
Desde os finais do que os árabes atacavam as costas do sul da Península Ibérica.
O conde D. Julião, governador visigodo de Ceuta, convida os muçulmanos a desembarcar na Península, como forma de retaliação pelo facto da sua filha ter sido raptada pelo rei visigótico Rodrigo . Em julho de 710 o conde proporciona quatro barcas para que os muçulmanos desembarquem em Tarifa, num acto que serviria para a exploração do terreno.
Em abril ou maio de 711, Tárique, um antigo escravo que se tinha tornado lugar-tenente do governador da Ifríquia (uma província do Califado Omíada, que corresponde à Tunísia), Muça ibne Noçáir, atravessa o estreito que separa a África da Península Ibérica, e que a partir de então receberia o seu nome (Gibraltar, de Jabal al Tariq, "a montanha de Tárique"), com um exército constituído por árabes e berberes.
Esta invasão resultou não só das ambições islâmicas, mas também da resposta a um apelo lançado por uma das facções visigodas, a dos partidários de , que eram opositores do rei visigótico Rodrigo.
Em julho do mesmo ano, o exército islâmico trava uma batalha decisiva com as tropas do rei Rodrigo num local tradicionalmente identificado pela historiografia como o rio Guadalete (Batalha de Guadalete), mas que alguns investigadores consideram ter ocorrido junto ao rio Barbate, e que saldaria na vitória das forças muçulmanas. O rei Rodrigo desapareceu em combate;Watt, W. M. (2013) p.11 uma tradição cristã afirma que ele teria sido sepultado em Viseu. Tárique continuaria o seu avanço e conquistaria Toledo, capital do Reino visigótico, onde passa o Inverno de 711. Por esta altura, o governador da Ifríquia chega à Península e censura Tárique pelo acto da conquista. O califa omíada nada sabia sobre esta invasão.
A chegada dos árabes e dos berberes foi saudada pelos judeus, que tinham sido perseguidos nas últimas décadas do Reino visigótico. As determinações de sucessivos concílios da Igreja peninsular tinham contribuído para a discriminação deste segmento populacional: o III Concílio de Toledo determinou o baptismo forçado de crianças filhas de casamentos entre judeus e cristãos; o XVI proibiu os judeus de praticarem o comércio com cristãos, o que provocou a ruína de muitas famílias, e o XVII condenou-os à escravatura sob o pretexto de conspirarem, junto com os judeus do norte de África, para a queda do Reino visigótico. Muitos judeus abriram as portas das cidades para facilitarem o avanço das tropas islâmicas e ofereceram-se como guardas das cidades ao serviço dos novos senhores.
A conquista islâmica da Península seria efectuada num período de cinco anos por Tárique, Muça e Abdalazize (filho de Muça). O território que corresponde ao que é hoje Portugal foi atingido pela expedição de Abdalazize entre 714 e 716. Em 718 ocorreu a Batalha de Covadonga, durante a qual um grupo de cristãos refugiados nas Astúrias, liderados por Pelágio, derrotou os muçulmanos, o que os forçou a se retirarem da região cantábrica. As forças islâmicas levam a cabo várias expedições contra a Gália, mas são detidos em 732 em Poitiers pelo rei Carlos Martel. Até 756 o Alandalus teve vinte governadores dependentes de Damasco, tendo em Sevilha, e mais tarde em Córdova, a sua capital.
Emirado de Córdova
A queda dos Omíadas em Damasco e a tomada do poder pelos Abássidas em 750 teriam repercussões políticas no Alandalus. O único sobrevivente do massacre da família omíada, o príncipe , chega à Península em 756 e instala-se em Córdova, onde toma o título de emir, declarando-se independente do califado dos Abássidas, dando início a uma dinastia que governa o Alandalus até 1031.
Abderramão I teve que lidar com as ambições territoriais do franco Carlos Magno, cujo exército, ao deixar a Península em 778, acabaria por sofrer um ataque dos bascos na região dos Pirenéus, episódio imortalizado e La chanson de Roland.
O emirado de Córdova seria um importante centro cultural, que manteve relações diplomáticas com os reinos cristãos, até mesmo com o Império Bizantino.
O emirado teve que conviver desde o início com revoltas internas das tribos árabes e berberes, bem como dos moçárabes. Uma dessas revoltas ocorreu no território ocidental, onde o chefe da tribo dos Yahsubis revolta-se contra o poder do emir, declarando-se a favor dos Abássidas de Bagdade. As revoltas contra o poder central de Córdova atingem o seu auge no último quartel do .
Califado de Córdova
esquerda|miniaturadaimagem|O Califado de Córdova cerca do ano 1000 Em 929 o emir Abderramão III declarou-se califa, título que lhe conferia independência não só política, mas também religiosa em relação aos Abássidas.Vallvé, J. (1992) p.11 Esta sua acção foi motivada pelo aparecimento dos fatímidas no Norte de África, que eram seguidores do Islão Xiita, assumindo-se Abderramão como guardião da ortodoxia sunita. Abderramão pacificou o sul e o levante peninsular, onde tinham surgido vários movimentos independentistas. O seu sucessor, , governou durante um período de paz.
O terceiro califa de Córdova, , foi eclipsado durante a sua menoridade por Maomé ibne Abi Amir, mais conhecido pelo seu nome das crónicas cristãs - Almançor -, que ocupava o cargo de hájibe ou prefeito do palácio. Almançor (governou entre 978 e 1002) concentra o poder efectivo nas suas mãos, tendo dirigido campanhas periódicas contra os cristãos; em 997 chega mesmo a destruir o santuário de Santiago de Compostela. Para além disso, estabeleceu o domínio do Alandalus na parte ocidental do Magrebe, através do vice-reino de Córdova.
Quando Almançor faleceu, a liderança do estado passou para o seu filho, Abedal Maleque , que foi por sua vez sucedido pelo seu irmão Abderramão Sanchuelo, assim conhecido por ser neto do rei de Navarra Sancho Garcês II. Este consegue que Hixame II o nomeie herdeiro em detrimento dos príncipes omíadas. O acto gera descontentamento e em Córdova estala uma revolta contra Sanchuelo.Vallvé, J. (1992) p.12
O califado corresponde ao período de esplendor da civilização islâmica na Península Ibérica.
O período das primeiras taifas
thumb|A Aljafería, palácio do reino taifa de Saragoça
Embora a desagregação final do califado de Córdova se tenha verificado em 1031, desde 1009 a situação política caracterizava-se pela instabilidade.Molíns, M. J. V. (1992) p.13 Finda a hegemonia da família do primeiro-ministro Almançor, começa a anarquia, provocada pela ambição de vários protagonistas e dá-se a decomposição do califado. O Alandalus acabará retalhado em inúmeras unidades políticas, os reinos de taifas (do árabe al-ta´ifa, "partido" ou "bandeira"). Os reinos de taifas eram unidades políticas que partilhavam uma afinidade de origem étnica. Muitos deles tiveram uma existência efémera.
Os berberes estabeleceram reinos no centro e sul da Península e os eslavos na costa leste.Molíns, M. J. V. (1992) pp.13-14 As taifas com maior extensão territorial eram as que faziam fronteira com os reinos cristãos (as de Badajoz, Toledo e Saragoça), encontrando-se as mais pequenas no sul.
Aproveitando esta desordem, os cristãos apressaram o movimento da Reconquista; as rivalidades entre a taifa de Badajoz e a de Sevilha vão permitir a conquistar Coimbra em 1064.
Período almorávida