thumb|direita|300px|São Marcos.Afresco no Mosteiro de Tibães, em Portugal. O Evangelho Secreto de Marcos é um suposto apócrifo do Novo Testamento, conhecido exclusivamente através da carta de Mar Saba, que descreve uma versão expandida do canônico Evangelho de Marcos com alguns episódios esclarecidos e escrito para uma elite já educada.
Em 1973, Morton Smith (29 de maio de 1915 - 11 de julho de 1991), professor de História Antiga na Universidade de Colúmbia, alegou ter encontrado uma carta anteriormente desconhecida de Clemente de Alexandria no Mosteiro de Mar Saba, na Cisjordânia, transcrita nas páginas finas de uma edição impressa do século XVII das obras de Inácio de Antioquia. O manuscrito original foi posteriormente transferido para outro mosteiro e acredita-se que tenha se perdido. Toda a pesquisa posterior se baseia em fotos e cópias, inclusive as feitas pelo próprio Smith.
O anúncio da descoberta da carta causou sensação na época, mas logo vieram as acusações de falsificação e erro de interpretação. Estudos posteriores, inclusive uma análise grafológica das fotografias de alta qualidade do documento, publicados pela primeira vez em 2000, revelaram mais evidências de uma possível falsificação, levando acadêmicos como Craig A. Evans e Emanuel Tov a concluíram tratar-se de uma fraude, com Smith como principal suspeito. Porém, ao mesmo tempo que um crescente número de acadêmicos se convenceram da fraude, muitos outros continuaram a defender a carta de Mar Saba como genuína. O debate continua sobre a sua autenticidade e a do evangelho "secreto" que ela descreve.
Descoberta esquerda|250px|thumb|Mosteiro de Mar Saba. Morton Smith Em 1973, Morton Smith publicou um livro sobre uma carta anteriormente desconhecida de Clemente de Alexandria.Morton Smith, Clement of Alexandria and a Secret Gospel of Mark (Harvard University Press) 1973 Ele afirmou que, enquanto catalogava documentos no antigo mosteiro grego ortodoxo de Mar Saba, no verão de 1958, ele descobriu o texto escrito à mão nas páginas finais da edição impressa de 1646 de Isaac Vossius das obras de Inácio de Antioquia. Ele tratava de uma carta de Clemente a um tal Teodoro, a quem ele avisava sobre um Evangelho de Marcos que teria sido falsificado pela seita gnóstica dos carpocracianos. Clemente, segundo o texto, concedia que o evangelho era uma versão "mais espiritual" de Marcos e o cita. Esta carta passou então a ser conhecida como "Carta de Mar saba". No livro, Smith publicou uma coleção de fotos em preto-e-branco que ele mesmo fez sobre o texto. Ele publicou também um segundo livro, para um público mais amplo em 1974.Morton Smith, The Secret Gospel: The Discovery and Interpretation of the Secret Gospel According to Mark, London Victor Gollancz Ltd. 1974 ISBN 0-575-01801-1.
História subsequente Por muitos anos acreditou-se que apenas Smith teria visto o manuscrito. Porém, vinte e cinco anos depois, Guy G. Stroumsa relatou que, em 1976, ele, juntamente com os falecidos professores da Universidade Hebraica de Jerusalém David Flusser e Shlomo Pines, o arquimandrita Meliton e um monge de Mar Saba mudaram o manuscrito do lugar onde Smith o havia deixado. Stroumsa publicou seu relato ao saber que ele era o último acadêmico ocidental a ter visto a carta. Ele, Meliton e os outros acadêmicos determinaram, na época da mudança, que o manuscrito estaria mais seguro em Jerusalém do que em Mar Saba. Eles então o levaram com ele e Meliton o depositou na biblioteca do patriarcado. O grupo procurou formas de testar a tinta utilizada, mas a única entidade na área capaz de realizar o teste era a polícia de Jerusalém e Meliton não queria deixar o manuscrito sob a guarda deles. Por isso, nada foi feito.
Pesquisas posteriores descobriram mais informações sobre o manuscrito. Em 1977, o bibliotecário e sacerdote Kallistos Dourvas removeu as duas páginas contendo o texto da carta para fotografá-las e recatalogá-las. A recatalogação jamais ocorreu e Kallistos posteriormente contou a Charles W. Hedrick e Nikolaus Olympiou que as páginas foram então mantidas separadas juntamente com o livro até pelo menos 1990, quando ele se aposentou. Algum tempo depois disso, as páginas foram novamente realocadas e as diversas tentativas de localizá-las desde então fracassaram. Olympiou sugere que pessoas na Biblioteca Patriarcal podem estar escondendo-as por causa do uso sensacionalista que Morton Smith teria feito delas. O padre Kallistos entregou suas fotos coloridas do manuscrito a Hedrick e Olympiou, que as publicaram no livro The Other R em 2000.
Até 2012, o paradeiro do manuscrito permanece desconhecido e as únicas provas de sua existência são os dois conjuntos de fotografias, o de Smith, em preto-e-branco, e o do padre Kallistos, colorido. A tinta e as fibras do manuscrito jamais foram testadas.Ehrman, Lost Christianities, 2005, pp. 83–84.
Conteúdo da Carta de Mar Sabba
Na carta de Mar Sabba, o Evangelho Secreto de Marcos é descrito como uma segunda versão, "mais espiritual", do Evangelho de Marcos, composto pelo próprio evangelista. Seu objetivo seria supostamente encorajar a sabedoria (gnosis) entre os cristãos mais avançados e seria utilizado na liturgia de Alexandria.Thiessen and Merz, The Historical Jesus: A Comprehensive Guide, 1998, p. 46.
Fragmentos A carta inclui dois trechos do Evangelho Secreto. O primeiro deveria ser inserido, segundo Clemente, entre os versículos 34 e 35 do capítulo 10 de Marcos: .
O segundo trecho é bem curto e deveria ser inserido, de acordo com Clemente, em :
Comentário de Clemente Ainda que Clemente tenha endossado estas duas passagens como genuínas, ele rejeitou como uma corrupção carpocraciana as palavras "corpo nu".
Logo após o segundo trecho - quando Clemente passa a explicar as passagens - a carta termina abruptamente. Porém, imediatamente antes, Clemente diz: "Mas as muitas outras coisas sobre as quais você escreveu tanto parecem como são falsificações".
Análises direita| thumb| 300px|Carta de Clemente a Teodoro Análise de Morton Smith Com base em uma análise linguística, Smith defendia que a carta poderia de fato ser uma genuína descoberta de uma carta inédita de Clemente e que as duas citações remontariam à versão original de Marcos, em aramaico, que também servira de fonte não só para o Marcos canônico, mas também para o Evangelho de João. Ele também acreditava que Jesus teria batizado o jovem ressuscitado num possível ato homossexual. Finalmente, Smith também defendia o ponto de vista de que o Jesus histórico seria um magus possuído pelo Espírito Santo e que o libertinismo de Jesus teria sido posteriormente reprimido por Tiago, seu irmão, e por Paulo de Tarso.Wilhelm Schneemelcher, New Testament Apocrypha: Gospels and related writings, Tubingen, 1990
Acolhida Logo de início já havia sugestões de que, ainda que o manuscrito de Mar Saba fosse de fato antigo e genuíno, ele poderia conter material falsificado antigo ou medieval e baseado nos textos canônicos. Também havia dúvidas se a carta seria de Clemente de Alexandria ou não, embora diferenças de conteúdo em relação aos demais escritos de Clemente já tivessem sido percebidas. O texto não contém, por exemplo, nenhum dos erros típicos da tradição manuscrita.Wilhelm Schneemelcher, New Testament Apocrypha: Gospels and related writings, Tubingen, 1990 Charles Murgia (1975) concordou com as alegações de Quesnell de que a carta seria uma falsificação moderna e acrescentou novos argumentos.Charles E. Murgia, “Secret Mark: Real or Fake?” in Longer Mark: Forgery, Interpolation
Décadas de 70 e 80 F. F. Bruce (1974) via a história de um jovem de Betânia como se baseando, de forma desajeitada, na história de Lázaro do Evangelho de João. Assim, ele vê o Evangelho Secreto como um derivado e nega que ele possa ter sido a fonte da história de Lázaro ou evangelho paralelo independente.Bruce, "The 'Secret' Gospel of Mark," 1974. Raymond E. Brown (1974) conclui que o autor do Evangelho Secreto se baseou no Evangelho de João, senão numa cópia escrita, pelo menos de memória.Brown, Raymond. "The Relation of ‘The Secret Gospel of Mark’ to the Fourth Gospel.” CBQ 36 ((1974) 466-85 Skehan (1974) apoiava este ponto de vista, afirmando que era "inquestionável" a dependência do texto de João. Skehan. CHR 60 452 Robert M. Grant (1974) encontrou no Evangelho Secreto elementos dos quatro evangelhos canônicos Grant, Robert. “Morton Smith’s Two Books,” ATR 56 (1974) 58-64 e chegou à conclusão de que ele foi escrito após o século I. Helmut Merkel (1974) também concluiu que o Evangelho Secreto é dependente dos quatro canônicos após ter analisado as principais frases em grego.Merkel, Helmut. “Auf den Spuren des Urmarkus?” ZTK 71 (1974) 123-44
Frans Neirynck (1979) defendia que o Evangelho Secreto pressupunha a existência dos quatro canônicos. Neirynck,Frans. “La fuite du jeune homme in Mc 14, 51-52,” ETL 55 (1979) 43-66 O autor dele parece ter juntado os vários trechos dos evangelhos sinóticos onde a palavra grega neaniskos ("jovem") foi utilizada (; ; ; ). Ele também aponta outras similaridades.
Ron Cameron (1982) e Helmut Koester (1990) defenderam que o Evangelho Secreto precedia o Marcos canônico e que este era, na realidade, uma abreviação daquele.Secret Mark at earlychristianwritings.com, including citations from Helmut Koester, Ancient Christian Gospels (Harrisburg, PA: Trinity Press 1990), pp. 293-303, and Ron Cameron, ed., The Other Gospels: Non-Canonical Gospel Texts, Philadelphia, PA: The Westminster Press 1982, pp. 67-71 Isto explicaria a descontinuidade na narrativa indicada mais acima. John Dominic Crossan (1985) apoiou o ponto de vista de Koester: "Eu considero que o Marcos canônico é uma revisão deliberada do Marcos secreto".D. Crossan, Four Other Gospels: Shadows on the Contours of Canon, Minneapolis, 1985, p. 108
Quando o historiador sueco Per Beskow estava preparando a sua edição em inglês de Strange Tales about Jesus (1983) e lançou dúvidas sobre o Evangelho Secreto, Morton Smith respondeu ameaçando processar a editora que lançaria o livro na língua inglesa, a Fortress Press, da Filadélfia, em "um milhão de dólares", o que fez com que a editora fizesse uma emenda no parágrafo contestado.Per Beskow CHAPTER 28 Modern Mystifications of Jesus in The Blackwell Companion to Jesus p460 ed. Delbert Burkett
Década de 90, após a morte de Smith em 1991 N. T. Wright (1996) escreveu que a maioria dos acadêmicos que aceitavam o texto como genuíno viam o Evangelho Secreto como uma adaptação gnóstica muito posterior do Marcos canônico.Wright, Jesus and the Victory of God, 1996, p. 49.
Além disso, Peter Kirby especulou que, se a carta for genuína, Clemente pode ter se enganado em sua visão de que o Marcos secreto seria uma versão mais longa do Marcos canônico escrita especificamente para a elite espiritual. Ao invés disso, propôs o Marcos secreto seria, na verdade, a versão original do Marcos canônico. Se este cenário for verdadeiro, os trechos que Clemente alega serem adições seriam, na verdade, partes do original editadas pelos escribas (possivelmente por causa da percepção de homoerotismo). Uma vez que o único conhecimento que temos sobre esse Marcos secreto deriva da Carta de Mar Saba, é atualmente impossível saber se a visão de Clemente era acurada ou se o Marcos secreto era de fato a versão original do Marcos canônico.
Falsificação? thumb|esquerda|350px|Jesus e o jovem rico.Gravura na Bíblia de Bowyer. Acredita-se que o primeiro acadêmico a sugerir, numa publicação, que o Evangelho Secreto seria uma falsificação moderna e possivelmente implicando Smith foi Quentim Quesnell num artigo de sua autoria de 1975Quesnell, Quentin. The Mar Saba Clementine: A Question of Evidence, Catholic Biblical Quarterly 37 (1975): 48–67. Contudo, Quesnell posteriormente negou ter feito acusações pessoais a Smith.