thumb|Os meninos de Scottsboro com Samuel Leibowitz em 1932.|259x259px

Os Scottsboro Boys foi o nome dado a um grupo de nove adolescentes negros acusados injustamente de estupro no estado do Alabama em 1931.

Em 25 de março de 1931, várias pessoas viajavam em um trem de carga entre Chattanooga e Memphis, Tennessee. Um grupo de rapazes brancos desceu do trem e relatou ao xerife da região que haviam sido atacados por um grupo de jovens negros. O xerife parou o trem e o revistou, prendendo os jovens negros e encontrando duas mulheres brancas, que acusavam o grupo de estupro. O caso foi ouvido pela primeira vez em Scottsboro, Alabama, em três julgamentos apressados, nos quais os réus receberam uma defesa insatisfatória. Todos os envolvidos, exceto um adolescente de doze anos de idade, Roy Wright, foram condenados por estupro e sentenciados à morte, o que era comum no Alabama para homens negros condenados por estuprar mulheres brancas. Todavia, com a ajuda do Partido Comunista dos Estados Unidos da América, houve recurso das decisões. A Suprema Corte do Estado do Alabama confirmou sete das oito condenações, e concedeu a Eugene Williams, com treze anos de idade, um novo julgamento. O então Presidente da Corte, John C. Anderson, discordou da decisão, afirmando que os réus foram privados de um júri imparcial, de um julgamento justo, de uma sentença justa e de defesa efetiva.

O caso acabou por ser devolvido à primeira instância, e o juiz responsável permitiu uma mudança de local, transferindo os novos julgamentos para Decatur, Alabama. James Edwin Horton foi nomeado como juiz no caso. Durante os novos julgamentos, uma das supostas vítimas admitiu ter inventado a história do estupro e afirmou que nenhum dos meninos de Scottsboro havia tocado em qualquer das mulheres brancas. O júri condenou os réus, mas o juiz anulou a decisão e concedeu um novo julgamento. Depois de uma nova série de julgamentos, o veredicto foi o mesmo: culpados. Os casos foram, enfim, julgados três vezes. Pela terceira vez, um júri, agora com um negro entre os participantes, proferiu um veredicto de condenação.

Por fim, as acusações de quatro dos nove envolvidos foram retiradas. Aos demais, as sentenças variaram entre 75 anos e a pena capital. Um deles foi baleado na prisão por um guarda. Dois deles escaparam, foram acusados ​​de outros crimes e mandados de volta para a prisão. Clarence Norris, o réu mais velho e o único condenado à morte, escapou da liberdade condicional e viveu escondido a partir de 1946. Ele foi perdoado pelo Governador George Wallace em 1976, após ter sido encontrado pela polícia, e escreveu um livro sobre suas experiências. Foi o último dos réus sobreviventes, tendo morrido em 1989.

Prisões e acusações

Em 25 de março de 1931, na ferrovia do sul entre Chattanooga e Memphis, Tennessee, nove negros estavam fazendo "hoboing" (termo estadunidense, que se refere a pessoas que mudam constantemente de local para encontrar trabalho temporário) em um trem junto de vários homens brancos e duas mulheres.Aretha (2008), p. 10

Uma briga começou entre os negros e os brancos perto do túnel de Lookout Mountain, e os rapazes brancos foram jogados para fora do trem. A locomotiva foi parada em Paint Rock, Alabama, onde uma ordem foi emitida para "capturar cada negro dentro do trem".Douglas O. Linder, "Without Fear or Favor: Judge James Edwin Horton and the Trial of the 'Scottsville Boys' ", Vol. 68 UMKC Law Review 549, 550 O grupo de negros envolvidos na briga acabaram sendo presos.Acker (2007), pp. 2–3

thumb|left|Ruby Bates & Victoria Price em 1931

Os rapazes presos eram Olen Montgomery (17 anos), Clarence Norris (19 anos), Haywood Patterson (18 anos), Ozie Powell (16 anos), Willie Roberson (16 anos), Charlie Weems (16 anos), Eugene Williams (13 anos), e os irmãos Andy (19 anos) e Roy Wright (12 anos).

A acusação veio de Ruby Bates e Victoria Price, que afirmaramLinder, p. 550 terem sido estupradas pelos meninos negros, sendo examinadas por um médico depois. Uma foto amplamente divulgada exibe as duas mulheres logo após as prisões, em 1931.

Linchamento

No lado sul dos Estados Unidos, um homem negro corria o risco de linchamento simplesmente por olhar para uma mulher branca,Aretha (2008), p. 9 e logo as notícias do estupro e da prisão se espalharam pelas redondezas. Em poucas horas uma multidão se reuniu na frente da cadeia de Scottsboro exigindo que os jovens fossem entregues para linchamento.Aretha (2008), pp. 16–17

Segundo consta, o xerife Matt Wann teria ficado na frente da prisão e se dirigido à multidão. Ele teria dito que mataria a primeira pessoa que entrasse pela porta da cadeia. Ele então tirou seu cinto e entregou sua arma a um dos seus auxiliares. Ele atravessou entre a multidão, que se afastou para deixá-lo passar, não sendo tocado por ninguém. Em seguida atravessou a rua até o tribunal da cidade e telefonou para o governador Benjamin M. Miller,PBS.org. American Experience Scottsboro: An American Tragedy que então chamou a guarda nacional para proteger a cadeiaJames Goodman, Stories of Scottsboro, p. 6 antes de levar os réus para Gadsden, Alabama para serem indiciados e aguardarem um julgamento. Embora o estupro fosse potencialmente um crime de pena capital, os réus não foram autorizados a consultar um advogado. A maioria era analfabeta.

Julgamentos de Scottsboro

Os prisioneiros foram levados ao tribunal por 118 guardas armados com metralhadoras. Era dia de feira em Scottsboro, e os agricultores estavam na cidade para vender produtos e comprar suprimentos. Uma multidão logo se formou na frente do tribunal.Aretha (2008), p. 30Acker (2007), p. 18 Como a Suprema Corte descreveu mais tarde esta situação, "os procedimentos...ocorreram em uma atmosfera tensa e hostil com um público inquieto".Powell v. Alabama, p. 51

Advogados de defesa

O ritmo das acusações fora extremamente rápida, com um júri totalmente branco. O juiz e o procurador queriam acelerar os nove julgamentos para evitar uma onda de violência, sendo o primeiro acusado julgado em poucos dias. O juiz ordenou ao serviço público do Alabama uma assessoria jurídica para os réus, mas o único advogado que se ofereceu foi Milo Moody, de 69 anos de idade, que não havia defendido um caso em décadas. O juiz convenceu Stephen Roddy, um advogado imobiliário de Chattanooga, para ajudá-lo. Roddy admitiu que não havia tido tempo para se preparar e não estava familiarizado com a lei do Alabama, mas acabou por concordar em ajudar Moody.James Goodman, Stories of Scottsboro, p. 41 Ele concordou: "Eu vou em frente e farei tudo o que puder".Acker (2007), p. 20

Em contrapartida da prática utilizada, Roddy apresentou tanto o testemunho de seus clientes como o das meninas junto. Devido a inquietação da multidão, Roddy pediu ao tribunal que o local dos julgamentos fosse mudado.Patterson v. State,1932, 141 So. 195, 196Acker (2007), p. 31

Os advogados não tiveram tempo para conduzir uma investigação e nem para pesquisar as leis e preparar o caso.Powell v. State, 1932, 141 So. 201, 206. Weems et al. v. State, 1932, 141 So. 215 Houve três julgamentos, e os réus que eram adolescentes, foram julgados como adultos.Acker (2007), pp. 20–21

Julgamento de Norris e Weems

Clarence Norris e Charlie Weems foram julgados primeiro. Durante o depoimento de acusação, Victoria Price afirmou que ela e Ruby Bates testemunharam a luta, que um dos meninos negros tinha uma arma, e que todos eles estupraram-na ameaçando com uma faca. Durante o interrogatório de Roddy, Price animou seu testemunho com piadas que faziam todo o tribunal rir.

thumb|left|upright|Clarence Norris

thumb|left|upright|Charlie Weems

Dr. Bridges testemunhou que seu exame de Victoria Price não encontrou nenhuma laceração vaginal.Weems et al. v. State, 1932, 141 So. 215, 217-218 A promotoria terminou com o depoimento de três homens que afirmaram que os negros lutaram com o grupo de brancos, colocando-os para fora do trem, ficando com as duas mulheres no vagão. A promotoria terminou sem ouvir nenhum dos jovens brancos como testemunha.Acker (2007), pp. 23–24

Durante o testemunho de defesa de Charles Weems, foi afirmado por ele que não havia participado da luta, que Patterson tinha uma arma, e que ele não havia visto as mulheres brancas até o trem ser parado em Paint Rock. Clarence Norris surpreendeu o tribunal ao acusar os outros negros envolvidos. Ele negou ter participado na luta ou até mesmo de estar no mesmo vagão onde a luta ocorreu, alegando que ele viu os outros negros estuprando as mulheres do vagão seguinte.Acker (2007), pp. 24–25 A defesa não teve nenhuma testemunha adicional. Durante o encerramento, a acusação afirmou ao júri "se vocês não derem a sentença de morte a esses homens, a cadeira elétrica deveria ser abolida".Acker (2007), p. 25 A defesa não fez nenhum argumento final, nem mesmo contra a pena de morte. O Tribunal iniciou o caso seguinte, enquanto o júri ainda estava a deliberar o primeiro. O júri decidiu após duas horas de debate, condenando Weems e Norris a pena de morte.Acker (2007), p. 26

Julgamento de Patterson

O julgamento de Haywood Patterson ocorreu enquanto os casos de Norris e Weems ainda estavam sendo decididos pelo júri. Quando o júri retornou com o veredicto do primeiro julgamento, o júri do segundo julgamento foi retirado da sala do tribunal. Quando os veredictos de culpados foram anunciados, os presentes dentro da sala do tribunal começaram a comemorar, assim como fez a multidão lá fora. Uma banda, que estava nas redondezas para tocar num show da Ford Motor Company, tocou Hail, Hail the Gang's All Here e There'll be a Hot Time in the Old Town Tonight.Patterson v. State, 1932, 141 So. 195, 198 A celebração foi tão alta que podia ser ouvida pelo júri dentro do tribunal.Acker (2007), p. 38 O Segundo julgamento continuou.

Durante o testemunho do segundo julgamento da acusação, Victoria Price voltou a contar sua história, afirmando categoricamente que Patterson a estuprou. Ela também acusou Patterson de atirar em um dos jovens brancos. Prince também afirmou que "Eu não tive relações sexuais com qualquer outro homem branco além do meu marido. Eu quero que vocês saibam disso". Dr. Bridges repetiu o seu testemunho do primeiro julgamento. Outras testemunhas afirmaram que "os negros" haviam saído da mesma gôndola que Price e Bates, e um fazendeiro afirmou ter visto mulheres brancas [sobre o trem] com os jovens negros.Acker (2007), p. 27

Patterson defendeu seus atos, atestando mais uma vez que ele tinha visto Price e Bates na gôndola do trem, mas não tinha nada a ver para com elas. No interrogatório ele testemunhou que tinha visto "nada além de três negros violentarem aquela garota ", mas então mudou sua história, alegando que ele ainda não tinha visto "qualquer mulher branca " até que o trem "chegou em Paint Rock".Goodman, p. 13 O irmão mais novo de Wright declarou que Patterson não estava envolvido com as meninas, mas que nove rapazes negros tiveram relações sexuais com as meninas. Em interrogatório, Roy Wright declarou que Patterson "não estava envolvido com as meninas, mas que, "O seu grande, e alto companheiro negro estava com a pistola. Ele não está aqui". Ele alegou também ter estado em cima do vagão, e que Clarence Norris tinha uma faca.Patterson v. State, 1932, 141 So. 195, 198-199

Os co-réus Andy Wright, Eugene Williams, e Ozie Powell todos testemunharam que eles não viram nenhuma mulher no trem. Olen Montgomery declarou que ele estava sentado sozinho no trem e nem sabia do que estava ocorrendo.Aretha (2008), p. 39 O júri rapidamente condenou Patterson e o sentenciou a morte por eletrocussão.

Julgamentos de Powell, Roberson, Williams, Montgomery e Andy Wright Um novo julgamento começou a poucos minutos após o caso anterior. Mais uma vez o júri teve que ser enviado para fora da sala enquanto veredicto do julgamento anterior era lido.Aretha (2008), p. 38