José Theodoreto Souto e Dutra, conhecido como Theo Dutra, (São Paulo, 22 de setembro de 1948 — Pereira Barreto, 3 de abril de 1973), foi um jornalista, poeta e advogado brasileiro que escrevia para o jornal paulistano Folha de S.Paulo. Se destacou por suas reportagens sobre a capital paulista e seus problemas urbanos, e por isso ficou conhecido como "Repórter da Cidade". A última matéria que ele publicou pouco antes de morrer tinha o título: “Paraná bate nas comportas a 100 km/h; nasce o lago”, no qual tratava sobre a construção da barragem de Ilha Solteira e o fechamento das comportas.

Infância Theo Dutra nasceu em 22 de setembro de 1948, sendo filho de Evelyna Bloen Souto e Dutra e Renato Hoeppner Dutra. Nasceu e foi criado na cidade de São Paulo. Viveu com a família até os sete anos, quando passou a estudar no Colégio São Paulo, como aluno interno. Voltou ao convívio da família aos 12 anos, desta vez com o pai e com a madrasta, Erica Lehman Dutra, mas logo depois voltou a estudar em regime de semi-internato no Colégio São Luís, onde fez o curso ginasial, ficando até o fim do curso colegial (clássico). Tinha sempre o comportamento bom, sem malícias, apesar da idade jovem e dos problemas familiares. Gostava das matérias de Português, História e Geografia. Era reservado e pouco comunicativo, e utilizou o esporte para se sociabilizar e arranjar novos amigos.

Vida e carreira Theo Dutra tinha grande vocação para o jornalismo e amava a cidade de São Paulo. Desde o curso ginasial, ele se dedicava às questões jurídicas. Desde os 18 anos de idade passou a se dedicar inteiramente ao jornalismo, sua profissão predileta. Em janeiro de 1967, começou a fazer os cursos de Comunicação pela USP e Direito pela Faculdade do Largo São Francisco, também da USP, onde conheceu a Gildete de Souza e Dutra, com quem viriam a se casar anos mais tarde.

Mas foi mesmo no jornalismo que se tornou sua maior paixão, dedicação e realização profissional. Em julho do mesmo ano, passou a integrar o quadro de repórteres da Folha de S.Paulo. Theo fazia inúmeras reportagens, a maioria delas sobre a cidade de São Paulo, por isso ficou conhecido como “Repórter da Cidade”. Ele amava muito a capital paulista e se interessava muito pelos problemas da cidade, nos quais eram temas específicos de suas matérias. Também se dedicava a poesia, escrevendo vários poemas e canções. Assim, iniciava a sua carreira como jornalista e poeta. Além disso, falava e escrevia correntemente o francês. Por seu talento e bondade, arranjou muitos amigos na escola e no trabalho, que foi seu exemplo de coleguismo.

No dia 4 de abril de 1970, com apenas 21 anos, e quando Theo e Gildete cursavam o 4º ano do curso de Direito, ambos casaram-se na capela do Colégio Nossa Senhora do Rosário. O Padre Luiz Gonzaga Dutra, que foi professor de Theo no Colégio São Luís, foi quem celebrou o seu casamento. Em 1971, Theo Dutra concluiu o curso de Direito e Comunicação. Em 11 de junho de 1972, nasceu o seu filho, Renato Souto e Dutra.

Theo via sua carreira crescer e se consagrar. Tinha muita ambição na realização de suas matérias. Apesar de ser muito jovem, encarava sua profissão a sério, com muita responsabilidade e dedicação. Sempre encarou a vida através de seu lado bom e com entusiasmo, além de observar as coisas profundamente, pelo seu lado filosófico. Foi, por vezes, considerado como um dos líderes e porta-vozes atuantes de uma geração jovem de jornalistas brasileiros, em pleno regime militar (especialmente no período de Anos de Chumbo), entre o fim dos anos 60 e, sobretudo, início dos anos 70.

Ocupava a chefia de reportagem nos finais de semana. Foi convidado e aceitou a fazer parte do corpo de redatores do Serviço de Imprensa do Governo do Estado de São Paulo (Sigesp), em 1971. Viajou até o estado do Acre para fazer a cobertura do campus avançado da USP.

Por sempre estar preocupado com a cidade de São Paulo e seus problemas, fazendo reportagens sobre ela, Theo Dutra tinha um sonho de fundar um "Clube de Repórteres da Cidade de São Paulo" (CREC), no qual reuniria os repórteres da capital paulista especializados em matérias sobre a cidade. Ele batalhou muito para a fundação desse clube, e houve ajudas para isso, como a do GEGRAN (Grupo Executivo da Grande São Paulo), que se dispôs a realizar um encontro com o Theo. O jovem repórter, então, deu um passo para a criação do clube, realizando diversas reuniões entre os técnicos do GEGRAN e os jornalistas especializados em notícias da Capital. Até mesmo a Companhia do Metrô de São Paulo propôs ceder uma sala para sediar o clube, após sugestão e insistência do jornalista. O clube foi finalmente criado mais adiante, em outubro de 1973. Porém, Theo não esteve presente durante sua fundação, já que ocorreu após sua morte.

Ele sempre olhava pelo lado reflexivo e filosófico os problemas que atingiam São Paulo, muitos deles permanecem até os dias de hoje, como crescimento urbano desordenado, caos no trânsito e transporte público, saneamento básico, lazer, habitação, violência e administração pública, bem como suas causas e discutia possíveis soluções eficazes e realistas para elas. Sabia sempre transformar as notícias que eram naturalmente negativas sobre a vida urbana em São Paulo, em matérias de cunho crítico, mas ao mesmo tempo construtivas e didáticas, dotadas de calor humano e de uma esperança por uma cidade melhor. Ele era devoto e sempre batalhava por uma cidade mais humana e justa. Tais soluções propostas pelo jovem jornalista marcavam presença em quase todas as suas matérias.

Assim, Theo se consagrava pelo título de "Repórter da Cidade".

Segundo o portal Dicionário de Ruas da Prefeitura de São Paulo, na pesquisa e descrição sobre o jovem repórter, pois uma rua importante da cidade leva o seu nome, bem como segundo os jornais Folha de S.Paulo e Cidade de Santos, ambos na edição de 4 de abril de 1973, na ocasião de coberturas jornalísticas sobre sua trágica e prematura morte:

"Apaixonado pelos grandes problemas da cidade, Theo Dutra dedicou-se profundamente a seus estudos, a ele devendo, a imprensa paulista, alguns dos melhores trabalhos sobre a criação das áreas metropolitanas, além de análises sobre questões gerais ligadas à humanização da Capital. Igualmente versado em problemas relacionados com a infra-estrutura econômica nacional e estadual, era o jornalista talhado para a cobertura dos acontecimentos que se desenvolveram em Ilha Solteira".

Isso é em referência a icônica e derradeira reportagem do jovem Theo sobre a construção da barragem de Ilha Solteira, último trabalho em seus últimos momentos de vida e que foi capa da Folha de S.Paulo, por ironia e coincidência, no dia de sua morte, em 3 de abril de 1973. (Veja mais detalhes mais adiante, neste artigo!)

Obras e Reportagens Foram mais de 100 reportagens e coberturas assinadas exclusivamente por Theo Dutra, além daquelas realizadas com equipe especial, e publicadas na Folha de S.Paulo entre 1968 e 1973. Boa parte delas referentes aos assuntos locais da cidade de São Paulo, que eram especialidades do repórter. A seguir, apenas algumas das principais dessas matérias publicadas por Theo.

A primeira grande reportagem do jornalista publicada na Folha de S.Paulo foi a cobertura sobre a despedida da visita da Rainha Elizabeth II da Inglaterra à São Paulo, em novembro de 1968. A cobertura foi realizada através de uma equipe especial de repórteres, entre eles, estava o então estreante Theo Dutra, à época com apenas 20 anos, que havia ingressado na redação da Folha um ano antes, em 1967. A matéria da cobertura sobre a despedida da Rainha Elizabeth, bem como a descrição sobre sua vida pessoal e o dia-a-dia da visita à capital paulista, foi publicada em 9 de novembro de 1968.

Em junho de 1969, Theo Dutra publicou na seção de caderno Folha Ilustrada (da Folha de S.Paulo), uma reportagem sobre a vida e carreira da escritora e dramaturga Ivani Ribeiro, autora de várias novelas de sucesso entre os anos 60 e 90, que na época trabalhava na TV Tupi.

Também fez reportagem sobre a vida pessoal e carreira do grande autor e escritor Bráulio Pedroso, publicada pouco antes, em 31 de maio do mesmo ano, que naquele momento escrevia a novela Beto Rockfeller, estrondoso sucesso da TV Tupi exibido entre 1968 e 1969.

Em dezembro de 1969, foi lançado pela Vertente Editora o livro chamado Isto o Jornal Não Conta, uma reunião de dezenas de contos e crônicas de 17 jornalistas brasileiros. Três eram veteranos literários, como Alberto Beutten-Müller, Wladyr Nader e Lenita Miranda de Figueiredo, e 14 estreantes, como Fernando Portela, Wladir Dupont, Percival de Souza, Modesto Carone, Eduardo Castor, Miguel Jorge, José Carlos Abbate, Gilberto Mansur, Ubirassu Carneiro da Cunha, Lourenço Carlos Diaféria, Nildo Carlos Oliveira, Yvete Ko, Hamilton Trevisan e, claro, Theo Dutra, que também fez parte dessa equipe.

Theo escreveu para o livro um conto chamado Meia Hora, dedicado especialmente para sua esposa, Gildete, à época ainda noiva do jornalista, cuja chamada de capa ou subtítulo era: "Falava de dialética e de Kierkegaard para conquistar a namorada". O livro de contos tinha 112 páginas e ainda apresentava um resumo da biografia e carreira jornalística de cada um dos autores.

O trânsito caótico do dia-a-dia em São Paulo, principalmente nas principais vias e nos horários de pico, já era assunto de uma das reportagens de Theo, publicada em janeiro de 1970, enquanto os direitos de quem tem deficiência ou necessidade especial na sociedade, muitas vezes desrespeitadas por parte do governo ou da própria população, já estava em pauta em sua outra notícia, divulgada em março do mesmo ano.

O repórter realizou ainda uma matéria a respeito da criminalidade que, já naquela época, era um problema grave em São Paulo. Foi divulgada na Folha em 23 de junho de 1970. Além de relatar a prisão de um bandido em Sorocaba pela Polícia, também levantou pontos importantes, como as altas taxas de criminosos soltos nas ruas, as ações socioeducativas de ressocialização, e o fato de que pessoas entram para a marginalidade cada vez mais cedo, ainda na infância.

Theo Dutra fez parte da equipe de jornalistas da Folha de S.Paulo enviada para a cobertura do grande incêndio que atingiu o Edifício Andraus, localizado próximo ao cruzamento da Avenida São João, no centro da capital paulista, em 24 de fevereiro de 1972, que deixou 16 mortos e 330 feridos. A tragédia tinha mobilizado grande número de pessoas, principalmente os que estavam no local, além de policiais, defesa civil, bombeiros, a imprensa em geral e autoridades, como o então prefeito de São Paulo, Figueiredo Ferraz, que passou a discutir medidas de prevenção e segurança contra incêndios em edifícios.

Além do jovem Theo Dutra, estavam na equipe de cobertura do incêndio grandes nomes, como Afanásio Jazadji e Luís Carlos Ventura.

Foi responsável por várias coberturas do jornal sobre a elaboração, debate e audiência pública referente ao Plano Diretor de Desenvolvimento Integrado (PDDI) de São Paulo, entre 1971 e 1972, sendo a primeira legislação de zoneamento da cidade até então. O prefeito Figueiredo Ferraz, responsável pela lei, cedeu diversas entrevistas ao jornalista. Em 1972, a lei de zoneamento foi sancionada pelo prefeito.

Theo, inclusive, fez inúmeras reportagens abordando a construção da Linha Norte-Sul (hoje Linha 1-Azul) do Metrô de São Paulo, a primeira linha do sistema a ser construída na cidade e no Brasil. Inicialmente entre Santana, em especial na região onde fica a Avenida Cruzeiro do Sul (inaugurada em 1969 na Zona Norte), e Jabaquara, na Zona Sul. A linha metroviária foi inaugurada mais tarde, em setembro de 1974.