O Partido Comunista do Brasil – Ala Vermelha (PCdoB-AV ou simplesmente Ala), foi uma organização de esquerda, de orientação marxista, atuante no Brasil entre os anos 1960 e 1980.
Contexto: o PCdoB na conjuntura do golpe de 1964 Muitas das organizações de esquerda no Brasil foram acometidas de surpresa pelo golpe civil-militar desencadeado em abril de 1964, o qual deu início a um longo período de ditadura militar (1964-1985) no país. Nesse contexto, o Partido Comunista do Brasil (PCdoB), aturdido como os demais grupos de esquerda, lança em agosto de 1964 um documento intitulado O golpe de 1964 e seus ensinamentos.PCdoB, 1966 Nele procura apresentar uma primeira leitura dos acontecimentos, explicitando a necessidade da luta armada como alternativa de derrubada do regime.Sales, 2007, p. 89
Essa opção não era estranha ao PCdoB que, apesar de pequeno, notabilizava-se no quadro da esquerda brasileira na época por admitir a necessidade do enfrentamento armado como condição à revolução socialista no Brasil desde praticamente o seu surgimento meados de 1962. Prova disso é que partido havia enviado um primeiro grupo para treinamento político-militar à República Popular da China (experiência socialista na qual o PCdoB se referenciava, liderada por Mao Tsé-Tung) às vésperas do golpe, em 29 de março de 1964.Gorender, 1999, p. 117 Apesar dessa importante definição, o documento de agosto de 1964 falhava em definir uma linha política para o período; tarefa que foi atribuída à 6ª Conferência Nacional do partido.
Sob o clima de relativa indefinição e expectativa suscitadas pelo golpe de 1964, o PCdoB realiza sua 6ª Conferência em junho de 1966. Uma conferência cuja numeração, vale ressaltar, expressava a perspectiva de continuidade histórica com as conferências do Partido Comunista Brasileiro (PCB), já que o PCdoB não se considerava uma cisão daquele partido, formada em 1962, mas o produto de sua reorganização, reivindicando a data de fundação daquele (1922) como a de sua própria fundação.Gorender, 1999, p. Naquela Conferência, o partido aprova uma resolução política intitulada União dos brasileiros para livrar o país da ditadura e da ameaça neocolonialista.
No documento, o golpe é caracterizado como resposta da direita atribuída aos interesses reacionários e antinacionais opostos à tendência anti-imperialista e anti-latifundiária do governo João Goulart. Ignorando sua orientação anterior a 1964, quando era ferozmente hostil às possibilidades de reforma sob aquele governo, propondo a sua derrubada, o PCdoB passa a defende-las sob o governo Castelo Branco. Inspirado na linha do Partido Comunista da China (PCC) à época da guerra antijaponesa, mas procurando aproveitar espaços de atuação legal e nos movimentos de massa, que de fato ainda existiam, propõe a formação de um governo democrático a partir da união de todas as forças patrióticas e da convocação de uma Assembleia Constituinte livremente eleita, como alternativa de luta contra a ditadura - proposta possui um inequívoco acento eleitoral.Gorender, 1999, p. 118
Em termos de uso da violência, o documento enfatizava a necessidade da luta armada por meio de uma guerra popular prolongada desencadeada a partir do campo - o que fez o partido reduzir sensivelmente suas atividades nas áreas urbanas, referenciado mais uma vez na experiência do PCC. Mas essa opção só aparentemente resolvia o problema da definição estratégica para o momento. Isto porque, a passagem da tática centrada nas eleições democrático-burguesas ao seu polo oposto, a luta revolucionária por meio da guerra popular prolongada, se dava sem maiores mediações – o que foi caracterizado posteriormente por historiadores como um “dualismo tático-estratégico”.Sales, 2007, p. 89-90Gorender, p. 118
Origem: expulsão do PCdoB (1966-1967)
A formação do PCdoB-AV, também conhecido como Ala Vermelha, ou simplesmente Ala, remonta a uma série de divergências que se exacerbaram no curso de realização daquela 6ª Conferência do PCdoB, realizada em junho de 1966.Projeto Brasil Nunca Mais, 1988, p. 65 O documento ali apresentado e posteriormente aprovado (União dos brasileiros para livrar o país da ditadura e da ameaça neocolonialista), foi alvo de críticas por parte de um grupo articulado em torno de militantes egressos de estágios e treinamentos político-militares na China.Reis Filho e Sá, 2006, p. 147
Tais críticas encontraram eco em parcela das bases estudantis do PCdoB nos estados do Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Espírito Santo, Minas Gerais, Ceará, Bahia e, sobretudo, São Paulo e Brasília.Sales, 2007, p. 90Gorender, 1999, p. 120Ridenti, 2007, p. 126 E junto a alguns contatos operários e militantes vinculados às Ligas Camponesas. Em termos sucintos, essa crítica apontava o documento apresentado à conferência como expressão de um oportunismo político manifesto em propostas genéricas de luta contra a ditadura por vias institucionais. Em resumo, segundo as críticas, o documento subestimava e abstraia a necessidade de materialização da luta armada.Harnecker, 1994, p. 142Silva, , p. 131
Os métodos adotados pela direção do PCdoB na condução do debate foram também alvo de crítica, caracterizados como autoritários e tributários da cultura política existente no Partido Comunista Brasileiro (PCB), e cuja negação havia motivado a própria formação do PCdoB em 1962. Essa postura se manifestou claramente ao fim da Conferência. O grupo de oposição reivindicou a continuidade e o aprofundamento do debate, esperando fazê-lo nas próprias fileiras do PCdoB. As críticas, todavia, acabaram estigmatizadas pela direção partido e foram rechaçadas como aventureirismo pequeno-burguês. Com base nessas acusações, o grupo de oposição acabou expulso.Silva, , p. 131-132
Pegos de surpresa, os setores críticos à direção do PCdoB, que não possuíam afinidade ideológica suficiente para constituir um grupo político inteiramente novo, deram continuidade aos debates e à elaboração do texto que preparavam para a Conferência do partido. Intitulado Crítica ao oportunismo e ao subjetivismo da União dos brasileiros para livrar o país da ditadura e da ameaça neocolonialistaPCdoB-AV, 1967, e concluído em 1967, o documento acabou se firmando como a referência que conformou ideologicamente o coletivo, sistematizado aquele que era o principal elemento de divergência do ponto de vista político e não de método, e que conferia unidade aos dissidentes: a demora atribuída ao PCdoB na implantação da luta armada. Isso era reflexo de um descompasso entre a dissidência e a direção do partido, visto que os preparativos para a implantação da Guerrilha do Araguaia já haviam sido iniciados. Ocorre que a movimentação, realizada clandestinamente sob orientação da Comissão Executiva do PCdoB, não era de total conhecimento nem mesmo no Comitê Central.Gorender, 1990, p. 119-120
Articulada inicialmente em torno dessas posições, nascia o PCdoB-AV que, apesar das divergências, mantinha-se fiel à matriz na qual se referenciava o PCdoB, o maoísmo, cuja influência se fazia sentir na ênfase ao papel das massas na estratégia revolucionária, na reafirmação de uma aliança operário-camponesa com participação de setores da pequena burguesia nacional como estratégia para construção socialismo, e na prioridade à luta no campo. O grupo mantém a sigla PCdoB, à qual acrescenta a expressão ‘’Ala Vermelha’’ - uma contraposição ao primeiro PCdoB, que seria a Ala Branca. Repetia-se assim a preocupação com a continuidade histórica, combinada à pretensão de se ganhar a maioria da militância para novamente "reorganizar" o partido – como já havia tentado o PCdoB em relação ao PCB em 1962. Por essa razão, os dissidentes que constituíram a Ala nunca deixaram de considera-la uma organização de caráter provisório.
No mesmo contexto ocorre a dissidência no PCdoB que daria origem ao Partido Comunista Revolucionário (PCR). A fusão entre os dois grupos, todavia, acabou impedida, sobretudo, pelas condições adversas de debate e organização política que imperavam no período da ditadura.Silva, , p. 133
Opção pela luta Armada (1967-1971) O documento de crítica às resoluções da 6a Conferência do PCdoB, concluído em 1967, resume as posições políticas a partir das quais a Ala Vermelha se lançou à luta armada. No que se refere aos seus parâmetros ideológicos mais gerais, a Ala pouco se diferenciava do PCdoB. Ambos partiam de uma leitura na qual o Brasil vivia uma contradição principal entre o neocolonialismo e seus apoiadores internos de um lado, e a maioria da população de outro. A essa análise correspondia uma estratégia de conformação de uma frente ampla que incluía o proletariado, o campesinato, a pequena-burguesia, o semi-proletariado e um setor “não integrado” da burguesia, como condição para a revolução socialista.
Na definição do objetivo imediato dessa frente, todavia, a Ala se diferenciava do PCdoB: no lugar da restauração de um regime de liberdades democráticas como o existente no período anterior ao golpe, almejava a instituição de um "democracia regime democrático sob hegemonia do proletariado", ao qual caberia realizar "transformações na estrutura da sociedade" – objetivo que era caracterizado como uma "etapa de democracia popular" da revolução brasileiraSales, 2007, p. 90-91. Na tática estabelecida no documento da Ala, entretanto, é que se encontra as maiores divergências com o PCdoB: não apenas luta armada é definida como a principal forma de luta contra a ditadura - a qual todas as demais deveriam se subordinar -, mas sua implantação e desenvolvimento, do ponto de vista da Ala, deveria combinar a guerra popular prolongada com elementos do foquismo. Essa combinação particular de elementos singulariza a Ala Vermelha no espectro ideológico da esquerda brasileira naquele momento.Sales, 2007, p. 91
Além de estabelecer a luta armada como eixo estratégico da luta contra a ditadura, a Ala reflete mais detidamente sobre as formas que esta luta poderia assumir, bem como as possibilidades concretas da sua implantação e desenvolvimento. Segundo as formulações do grupo, a luta armada poderia assumir o caráter de guerra insurrecional ou de guerra popular prolongada. A primeira teria como base as áreas urbanas e se realizaria por meio de um processo de acúmulo de forças até que o seu poder fosse superior ao do inimigo. Seriam condição para isso um exército inimigo sem coesão interna e o armamento do proletariado. A segunda, definida como mais adequada à realidade brasileira, era a da guerra popular prolongada, e sua principal característica seria o envolvimento de todo o povo numa enfrentamento armado de grande escala. Considerando a debilidade das forças revolucionárias, esta alternativa se desenvolveria a partir do ataque ao inimigo onde ela mais vulnerável, no campo, até que fosse possível enfrenta-lo diretamente.
Além disso, Ala Vermelha considerava que a guerra popular prolongada poderia ser desencadeada a partir de quatro cenários distintos: no auge do movimento de massas, como resultado de um levante armado camponês, a partir de uma cisão no exército inimigo, ou a partir da formação de um foco revolucionário. A partir de uma leitura da realidade brasileira, a Ala apostava na última alternativa. Em função disso, avaliava que a implantação de um foco guerrilheiro passava pela formação deu um contingente de combatentes com moradores locais com base num trabalho de agitação política; a partir da implantação clandestina da guerrilha com a construção posterior de apoio popular; ou a formação do foco a partir de quadros políticos de organizações revolucionárias.
Tais basicamente, foram os parâmetros que nortearam o engajamento da Ala Vermelha na luta armada. Desde as primeiras ações em 1968, até o processo de autocrítica, iniciado ainda em 1969 e aprofundado em 1971.
Retorno aos movimentos de massa (1971-1981)