O navajo (diné bizaad), às vezes grafado navaho, é uma língua indígena americana falada nos Estados Unidos e México por 150 mil índios navajos. Pertence ao grupo das línguas atabascas da família na-dené.

História 250px|thumb|Navajos na Segunda Guerra Mundial. miniaturadaimagem|250px|Exemplos de escrita navajo em letreiros. No sentido horário, da parte superior esquerda: Edifício de Serviços para Estudantes, Diné College; exposição de puma, Navajo Nation Zoo; centro comercial perto de Navajo, Novo México; aviso de estacionamento reservado, Window Rock Durante a Segunda Grande Guerra (1939-1945), um código baseado em navajo foi utilizado para envio de mensagens seguras de rádio pela marinha estadunidense. Tal fato foi descrito no filme estadunidense de 2002 Windtalkers.

O navajo é a língua mais falada atualmente entre as populações indígenas nativas da América do Norte, com mais de 100 000 falantes nativos. É falado em larga escala pelos navajos de todas as faixas etárias, sendo que cerca de metade da população navaja fala esse idioma nos seus lares no seu dia a dia. Muitos dos pais ainda o ensinam como o primeira língua para seus filhos. Por isso, os navajos formam uma das pouquíssimas nações indígenas que usam a língua nativa na comunicação diária. No entanto, é uma língua em declínio, em especial nas áreas urbanas fora das reservas, onde, cada vez mais, os jovens vêm adotando a língua inglesa. Mesmo nas reservas, censos indicam que, entre 1980 e 1990, os navajos da 5 a 17 anos que falam somente inglês cresceram de 12% para 28%, tendo chegado a 43% no ano 2000. Hoje em dia, é possível estudar um mestrado no navajo na universidade técnico navajo (Navajo Technical University). Além de havaiano, o navajo é um das únicas línguas indígenas em que se pode estudar na educação no nível da pós-graduação.

Alfabeto A transliteração do idioma navajo para o alfabeto latino iniciou-se em 1849 por James H. Simpson no seu Diário de Reconhecimento Militar.

Diversos missionários, a partir do início do século XX, passaram a produzir textos, gramáticas e dicionários de navajo, com diferentes versões. Em 1930, a Comissão de Assuntos Indígenas e a de Educação Indígena decidiram sobre a necessidade de desenvolver-se um alfabeto navajo padrão. Foram encarregados John Harrington, Robert Young, William Morgan e Oliver LaFarge, que concluíram os trabalhos em 1939. Os primeiros livros em navajo para crianças, um jornal mensal e um dicionário foram publicados. Esse alfabeto, porém, não se tornou popular entre os navajos em função de políticas de redução de verbas para as reservas, o que prejudicou sua aceitação para uso educacional.

Esse alfabeto latino para língua navajo não apresenta a vogal "u" nem as consoantes "f", "p", "q", "r", e "v". O "d" e o "t" podem apresentar o diacrítico horn (lit. "chifre", um apóstrofo: "dʼ" e "tʼ"), e o "l" pode ser barrado ("ł"). O "c" surge apenas no dígrafo "ch"; demais consoantes podem vir sozinhas ou seguidas de "h" (no casos do "s", "g" e "z"), havendo ainda as combinações "dl" e "kw". O "t" pode vir como "tl", "ts", e "tł", havendo ainda esses 2 últimos com "horn" ("tsʼ", e "tłʼ"). As vogais podem vir isoladas, marcadas com ogonek (cedilha virada à frente), ou nos ditongos "ao", "ei", "oi" e nos tritongos "aai", "aoo", "eii", "oii".

Fonologia Vogais As quatro vogais navajo: a, e, i e o podem ser "curtas", "longas" ou "nazalisadas". A nasalização é representada pelo ogonek (ex. "ą") e o prolongamento pela repetição (ex. "aa"). Apresentam quatro tons: "alto" áá, "Baixo" aa, "crescente" aá, "decrescente" áa'.

Consoantes Na tabela abaixo, é dada a pronúncia padrão conforme o alfabético fonético internacional:

Bilabial Alveolar Palatal Velar Glotal Central Lateral Plena Labial Plosiva Plena b d g ʼ Aspirada t k kw Ejetiva tʼ kʼ Fricativa Plena dz dl j Aspirada ts tł ch Ejetiva tsʼ tłʼ chʼ Continuativa Muda/Fraca s ł sh h hw h Forte z l zh gh ghw Nasal m n Aproximante y w

Notas:

Ao contrário do "L" barrado, o "L" simples, forte, é foneticamente aproximante. O navajo é pobre em consoantes labiais, como em geral são as línguas nativas do Noroeste dos Estados Unidos. A letra "H" apresenta dois sons diferentes. É [x] quando inicial na raiz da palavra, e [h] quando ou final na palavra/raiz. Quando, porém, o som [x] é precedido por "s", escreve-se "x" e não "h", de modo a não se confundir com "sh". A consoante "GH" é escrita "Y" antes de "i" e de "e", ficando palatizada como "w" antes de "o" (é labializada); é escrita "GH" antes do "A". A glotal "?" nunca aparece no início de palavras.

Sílabas As sílabas das palavras "raiz" (substantivos, verbos) têm a formação CV(V)(C), sendo VV uma vogal longa; há sempre uma consoante e uma vogal no mínimo.

A maior parte dos prefixos tem a estrutura CV. Há exceções como os classificadores verbais tais como -ł-, -l-, -d- que aparecem imediatamente antes da raiz de verbo formada por uma única consoante C . Há outros poucos prefixos na forma CVV (vogal longa) e alguns mais complexos como CVCCV;.

Para alguns, como Harry Hoijer, os prefixos verbais são todos CV. Para outros, como McDonough, os prefixos são sempre simplesmente C, com uma vogal (geralmente i) inserida apenas com objetivos fonéticos.

Todos verbos são dissilábicos. Alguns podem ter um prefixo consonantal aberto e simples, um prefixo faltando uma conexão ou até não ter prefixo antes da raiz. Nesses casos, para complementar essa regra de dissílabos, um prefixo sem significado é adicionado à raiz. Esse prefixo prosódico é chamado peg element ou "vogal pepet" conforme Edward Sapir;

Processos Fonêmicos As consoantes dorsais g, k, k, h, e gh tem variações fonéticas contextuais que dependem das vogais que as cercam. Se tornam palatais quando antes de vogais frontais i e e; são velares antes de vogais posteriores a e o e labializadas diante da vogal arredondada o.

Para gh, tanto a palatização como a labialização são representadas na ortografia respectivamente por y e w. Para as demais consoantes não há representações de variantes fonéticas.

As consoantes fortes z, l, zh, gh no início das raízes se alternam com suas respectivas consoantes mudas (fracas) s, ł, sh, h, As fracas ocorrem quando precedidas por consoantes também fracas como s, sh, h ł

As consoantes fortes aparecem entre vogais ou entre consoante forte e vogal. Desse modo, em geral, navajo não apresenta contrastes entre continuantes fracas ou fortes.

Porém, em certos substantivos-raiz, a consoante continuante inicial enfraquece quando for intervocálica. O s fraco inicial numa raiz se alterna com a inicial forte y. As raízes com alternância s~y derivam-se dos *x* ou *y* do proto-atabascano. As raízes com alternância s~z vem do *z* proto-atabascano;

O navajo apresenta harmonia consonantal sibilante coronal. Tem sibilantes alveolares nos prefixos se assimilando às sibilanrtes pós-alveolares nas raízes e também pós-alveolares sibilantes no prefixo se assimilando a alveolares sibilantes na raiz.

Gramática O navajo é tipologicamente uma língua aglutinante, polissintética, com marcadores no núcleo, porém muitos de seus afixos combinam com as raízes mais como uma língua fusiva. A ordem das palavras na sentença é SOV. As palavras atabascanas são modificadas principalmente por prefixos, o que é raro entre línguas SOV, onde o normal é o uso de sufixos.

Navajo é uma língua de muitos verbos, os quais preponderam em relação aos substantivos. Além das funções verbo e substantivo há também o pronome, o clítico de várias funções, demonstrativo, numeral, posposição, advérbio e conjunção; Harry Hoijer agrupou os itens acima na classe em "partículas". Não há nada em navajo que se assemelhe ao adjetivo, cuja função é feita por verbos.

Substantivos Conceitos expressos por substantivos em outros idiomas em navajo aparecem como verbos. A maior parte dos substantivos não varia em número, nem em caso. Sentenças substantivas quase não são necessárias, em função das muitas informações contidas nos verbos.

São dois os principais tipos de substantivos em navajo: Os simples e os derivados de verbos (chamados "deverbais"). Os simples são modificáveis por prefixos possessivos. Exs: béézh "faca", bibeezh "faca dela"; hééł "pacote", shiyéél "meu pacote".

Substantivos deverbais são verbos ou sentenças verbais que são "substantivados" por enclíticos ou convertidos em substantivos via "derivação" (verbos usados sintaticamente como substantivos sem adição de partículas de substantivação); Exemplo, a palavra que significa relógio se deriva de um verbo que indica "mover-se lentamente em círculos" ao qual se adiciona um "i". Outro exemplo: hataałii "cantor" (vem de hataał "ele canta" + =ii; substantivos deverbais incluem palavras como "porta de saída" que vem do verbo "algo que faz um trajeto horizontal", ou mesmo hoozdo nome dado a Phoenix, Arizona: "Um lugar que é quente" . Os deverbais podem ser bem longos e complexos, como as longas palavras para tanque de guerra ou trator caterpillar que vem ambas de "carro que se arrasta", ou "canhão" que vem de "faz grande explosão"; mesmo a expressão "dentro de alguma coisa" vem de "eles sentam", todos com os devidos substantivadores";

Verbos O principal elemento do navajo é o verbo, o qual é bastante complexo, sendo composto de uma raiz simples à qual se juntam prefixos inflexionais ou derivacionais. Cada verbo deve apresentar ao menos um prefixo. Os prefixos são juntados à raiz do verbo numa ordem específica.

O verbo navajo se apresenta dividido em dois componentes. Seu núcleo se compõe de uma raiz e um sufixo muitas vezes "fundido" nessa raiz. A raiz com um prefixo classificador (às vezes com outro tipo de prefixo temático) forma o chamado "tema" do verbo. Os prefixos temáticos são de natureza não produtiva, tem funções derivacionais, não tendo muitas vezes um significado claramente definido. Um prefixo temático, como o arcaico yá-, que só se usa na raiz do verbo "falar", o torna "ele está falando";. Isso é um tema que se combina com um prefixo derivacional, formando verbo base. Por fim vêm os prefixos inflexionais (chamados por Young & Morgan de "paradigmáticos") se fixam à base, formando um verbo dito nompleto em navajo; A maior quantidade de prefixos possíveis para um verbo é oito.

Tabela de verbos Os prefixos presentes num verbo navajo seguem um sequência especifica mais ou menos rígida. Usa-se uma tabela de "espaços a preencher" que define essa morfologia. Ver a seguir a primeira e mais tradicional proposta de uma tabela elaborada por Young & Morgan (1987), Edward Sapir e Harry Hoijer. Além dessa tabela outras com mesmos objetivos foram desenvolvidas por outros especialistas em línguas atabascanas;

Os verbos raramente apresentam prefixos para todas as posições da tabela. Cada verbo se compõe da raiz e um grupo de prefixos que se dividem em grupo de prefixos conjuntos e grupo de prefixos disjuntos. Os disjuntos se posicionam no extremo externo esquerdo do verbo. Os conjuntos ficam mais próximos da raiz, após os disjuntos. Esses dois tipos de prefixos se distinguem entre si por seu comportamento fonético.

{| class="wikitable" frame=void style="vertical-align:top; text-align:center; white-space:nowrap;" |- | Prefixos disjuntos| Prefixos conjuntos| Raiz|}

O complexo de prefixos pode ser subdividido em onze posições, algumas das quais são ainda subdivididas em outras posições;

Os prefixos geralmente ficam em sua posições específicas fixas a tabela a seguir. Porém, há casos de mudança de sequência pelo processo de metátese como, por exemplo, no caso de um 3i (pronome objeto) ficar geralmente antes de di-, como em adisbąąs "Esou começando a dirigir um veículo com rodas" [< ʼa- + di- + sh- + ł + -bąąs].

Prefixos Disjuntos Prefixos Conjuntos Raiz 0 1a 1b 2 3 4 5 6 7 8 9 10 Pós-posiçãoobjeto "Pós-posiçãonula" Adverbial-Temático Iterativo Plural Objeto direto Referencial Adverbial-Temático Modo-aspecto Sujeito Classificador Raíz

Inflexão pronominal