(Devanágari: ) é uma das mais importantes e fundamentais doutrinas do jainismo. Refere-se aos princípios do pluralismo e da multiplicidade de pontos de vista, em que a verdade e a realidade são entendidos de forma diferente consoante a perspectiva, e que nenhum ponto de vista consegue abranger toda a verdade.

Os jainistas contrapõem todas as tentativas de proclamar a verdade absoluta com adhgajanyāyah, o qual pode ser compreendido com a seguinte parábola dos "cegos e do elefante". Nesta história, cada cego sentia uma parte distinta do elefante (tronco, perna, orelha, etc.). Todos os cegos afirmavam compreender e explicar a verdadeira aparência do elefante, mas só o conseguiam fazer de forma parcial devido às suas perspectivas limitadas. Este princípio pode ser explicado de forma mais formal pela observação dos objectos. Os objectos são infinitos quanto às suas qualidades e formas de existência e, sendo assim, a percepção limitada do ser humano não consegue compreender todos os seus aspectos e formas. De acordo com os Jainistas, apenas os Kevalis — seres omniniscientes, que sabem tudo — conseguem compreender todos os aspectos e formas dos objectos; todos os outros seres apenas são capazes de perceber parcialmente o conhecimento. Assim, nenhum ponto de vista humano pode reclamar para si a verdade absoluta.

A origem da anekāntavāda remonta aos ensinamentos de Mahavira (599–527 a.C.), o 24º Jainista . Os conceitos dialéticos de syādvāda "pontos de vista condicionados" e nayavāda "pontos de vista parciais" nascem da anekāntavāda, enriquecendo-a com uma expressão e estruras lógicas mais detalhadas. O conceito Sânscrito significa, literalmente, "doutrina de não-exclusividade ou múltiplos pontos de vista (an- "negação/ausência", eka- "um", vada- "ponto de vista")". An-ekānta "incerteza, não exclusividade" é o oposto de (+) "exclusividade, incondicionalidade, necessidade" (ou também "doutrina monoteística").

A Anekāntavāda encoraja os seus seguidores a ter em conta as perspectivas e opiniões dos seus opositores. Os proponentes da anekāntavāda aplicam este princípio à religião e à filosofia, nunca se esquecendo que qualquer religião ou filosofia — até o próprio jainismo - que esteja muito presa de forma dogmática aos seus próprios princípios, está a cometer um erro em relação ao seu ponto de vista limitado. O princípio da anekāntavāda também levou Mohandas Karamchand Gandhi a adoptar os princípios de tolerância religiosa, e satyagraha.

Visão filosófica

A origem etimológica do termo anekāntavāda vem da combinação de duas palavras sanscritas: anekānta ("multiplicidade" ou "variedade") e vāda ("escola de pensamento").Grimes, John (1996) p. 34 A palavra anekānta, por sua vez, é uma combinação do prefixo de negação an, eka ("um"), e anta ("atributo"). Deste modo, anekānta significa "not of solitary attribute". A doutrina jainista tem por base uma forte ênfase em ratnatraya (as três pedras preciosas do jainismo: visão, conhecimento e conduta), ou seja, razão e lógica.Duli Chandra Jain (ed.) (1997) p. 21 De acordo com os jainistas, o princípio principal deve ser sempre lógico e nenhum princípio pode ser desprovido de lógica e razão. Assim, os textos jainistas são caracterizados por uma exortação sobre todos os assuntos, sejam eles construtivos ou obstrutivos, inferenciais ou analíticos, instrutivos ou destrutivos.Hughes, Marilynn (2005) p. 590

Doutrinas jainistas da relatividade

A Anekāntavāda é uma das três doutrinas do jainismo sobre a relatividade utilizada na lógica e na razão. As outras duas são:

syādvāda — teoria da predicação condicionada; nayavāda — teoria dos pontos de vista parciais.Griffin, David Ray (2005) p. 145

Estes conceitos filosóficos jainistas tiveram uma influência significativa na antiga filosofia indiana, em particular nas áreas do cepticismo e da relatividade.McEvilley, Thomas (2002) p. 335

Syādvāda A Syādvāda é a teoria da predicação condicionada, a qual dá valor a anekānta recomendando que o epíteto Syād seja colocado no início de cada frase ou expressão.Chatterjea, Tara (2001) pp. 77–87 Syādvāda não é apenas uma extensão da ontologia de anekānta, mas um sistema separado de lógica capaz de manter por si próprio. A raiz etimológica sânscrita do termo syād é "talvez" ou "possivelmente", mas no contexto de syādvāda, quer dizer "de alguma forma" ou "de uma perspectiva". Como a realidade é complexa, não existe uma única proposição que expresse, de uma forma completa, a realidade. Assim, o termo "syāt" deve ser colocado sempre antes de cada proposição dando-lhe um ponto de vista condicional e, desse modo, retirando qualquer dogmatismo na frase.Koller, John M. (July, 2000) pp. 400–7 Como o termo assegura que cada frase ou afirmação é expressa de sete proposições ou pontos de vista condicionais e relativos diferentes, syādvāda é conhecido como saptibhaṅgīnāya ou teoria das sete predicações condicionadas. Estas sete proposições, também conhecidas como saptabhangi, são:Grimes, John (1996) p. 312

syād-asti — em alguns aspectos, é; syād-nāsti — em alguns aspectos, não é; syād-asti-nāsti — em alguns aspectos, é e não é; — em alguns aspectos, é, e é indescritível; — em alguns aspectos, não é, e é indescritível; — em alguns aspectos, é, não é, e é indescritível; — em alguns aspectos é indescritível;

Cada uma destas sete proposições faz uma análise da natureza complexa e multifacetada da realidade de um determinado, ou relativo, ponto de vista, no tempo, espaço, substância e forma. Ignorar a complexidade da realidade é cometer a falácia do dogmatismo.

Nayavāda Nayavāda é teoria dos pontos de vista ou perspectivas parciais. O termo Nayavāda é uma combinação de duas palavras em sânscrito — naya ("ponto de vista parcial") e vāda ("escola de pensamento").Grimes, John (1996) p. 202–03 É utilizada para alcançar uma dada inferência de um determinado ponto de vista. Um objeto é constituído infinitos aspectos, mas quando ele é descrito, na prática apenas se referem aos mais relevantes e ignoram-se os irrelevantes. Esta prática não nega a existência dos outros atributos, qualidades, formas e outras perspectivas; apenas serão irrelevantes de um determinado ponto de vista. Alguns autores, como Natubhai Shah, explicam o conceito de nayavāda com o exemplo de um atomóvel:Shah, Natubhai (1998) p. 80 quando alguém se refere a um "BMW azul", apenas está a considerar a cor e o fabricante. Contudo, aquela afirmação, "BMW azul", não quer dizer que o automóvel não tenha outros atributos como o motor, cilindros, velocidade, preço, entre outros. Esta perspectiva em particular é designada por naya ou ponto de vista parcial. Esta filosofia crítica, nayavāda, defende que todas as discussões filosóficas nascem da confusão de vários pontos de vista, e as perspectivas adaptadas são, embora sem a devida tomada de consciência, "o resultado de objetivos que se tentam alcançar".McEvilley, Thomas (2002) pp. 335–37 Operando dentro dos limites da linguagem e apercebendo-se da natureza complexa da realidade, Mahavira utilizou a linguagem dos nayas. Naya, sendo uma expressão parcial da verdade, permite compreender a realidade parte por parte.

Sincretismo de realidades mutáveis e imutáveis

A época de Mahāvīra e de Buda foi um período de discussões intelectuais, em particular sobre a natureza da realidade e do eu. O pensamento upanixade postulou a realidade imutável e absoluta de Brâman e Ātman e defendeu a ideia de que a mudança é uma mera ilusão.Dasgupta S.N. (1932) p. 2 A teoria avançada pelos budistas negava a realidade da permanência do fenómeno condicionado, aceitando apenas a interdependência e a não-permanência.Humphreys, Christmas (1969) p. 47 De acordo com o esquema conceptual vedāntin (upanixadíco), os budistas estavam errados ao negarem a permanência e o absolutismo; e, de acordo com o esquema conceptual budista, os vedāntinos estavam equivocados ao negarem a realidade da não-permanência. As duas posições eram contraditórias e mutuamente exclusivas dos seus pontos de vista.Koller, John (2004) p. 97 Os jainistas conseguiram integrar as duas posições intransigentes com a anekāntavāda. De uma perspectiva a um nível mais alto e inclusivo, tornado possível pela ontologia e pela epistemologia da anekāntavāda e da syādvāda, os jainistas não veem aqueles pontos de vista como contraditórios ou mutuamente exclusivos; em vez disso, são vistos como ekantika ou apenas parcialmente verdadeiros.Sethia, Tara (2004) p. 97 O alargado espaço de visão dos jainistas consegue abarcar ambas as perspectivas Vedānta as quais, de acordo com o janinísmo, "reconhecem a substância mas não o processo", e com o budismo, o qual "reconhece o processo mas não a substância". Por outro lado, o jainismo dá atenção, de igual forma, à substância (dravya) e ao processo (paryaya).Burch, George (1964) pp. 68–93

As respostas de Mahāvīra a várias perguntas feitas pelos seus discípulos, e registadas no cânone jainista Vyakhyaprajnapti, demonstra o reconhecimento de que existem muitos e complexos aspectos da verdade e realidade, e que uma abordagem mutuamente exclusiva não pode ser levada a cabo para explicar tal realidade:

Foram feitas milhares de perguntas, e as respostas de Mahāvīra apontam para uma realidade complexa e multifacetada, com cada resposta a ser dada de um determinado ponto de vista.Charitrapragya, Samani (2004) pp. 75–84 De acordo com o jainismo, até uma Tīrthankara, que possui, e compreende, um conhecimento infinito, não consegue expressar a realidade de forma completa por causa dos limites da linguagem, a qual é uma criação humana.

Este sincretismo filosófico de paradoxo da mudança através da anekānta, tem sido reconhecido por estudiosos modernos como Arvind Sharma, que escreveu:Sharma, Arvind (2001) Preface xii

No entanto, anekāntavāda não é somente acerca de sincretismo ou compromisso entre ideias concorrentes, mas também sobre a descoberta dos elementos escondidos da verdade partilhada entre aquelas ideias.Rankin, Aidan (2006) p. 186 A Anekāntavāda não é negar a verdade; na realidade, a verdade é reconhecida como o objectivo espiritual principal. Para o comum do cidadão, é um objectivo ilusório mas, no entanto, ele é obrigado a esforçar-se para o obter.Rankin, Aidan (2006) p. 176 Anekāntavāda não significa comprometer ou colocar de lado os valores ou princípios de cada um.Charitrapragya, Samani (2004) p. 83 Pelo contrário, permite compreender e ser tolerante com pontos de vista diferentes, conflituosos, mantendo, ao mesmo tempo, a validade das nossas próprias perspectivas, opiniões. Por isso, John Koller designa a anekāntavāda como "respeito epistemológico dos pontos de vista dos outros".Koller, John (2004) p. 89 Assim, a Anekāntavāda não evitou que os pensadores jainistas defendessem a validade e a verdade da sua própria doutrina ao mesmo tempo que respeitavam, e compreendiam, as doutrinas rivais. Anne Vallely salienta que o respeito epistemológico pelas opiniões dos outros foi posto em prática quando ela foi convidada por Ācārya Tulsi, o líder da ordem Terāpanthī, para ensinar aos sadhvis os princípios do Cristianismo. Comentando sobre a sua adesão à ahiṃsā e à anekāntavāda, referiu:Vallely, Anne (2004) pp. 112