Inuctune, inuíte polar, groenlandês(português brasileiro) do norte ou gronelandês(português europeu) do norte ( , , ), é a língua de aproximadamente 770 indígenas inuítes que moram na cidade de Qaanaaq e em assentamentos próximos, no noroeste da Groênlandia, no círculo polar ártico, sendo o menor dialeto groenlandês em termo de falantes. O inuctune pertence ao ramo esquimó — e especificamente, inuíte —, da família esquimó-aleuta (ou escaleutas), que se subdivide em inuíte e iupíque, e está situada dialetologicamente entre o groenlandês e o inuctitute canadense, inuvialuctune, ou inuinactune. A língua atualmente está em risco de extinção.

O groenlandês do norte é um dos três dialetos inuítes da Groenlândia, e é falado em um contexto diglóssico, junto com o kalaallisut (groenlandês ocidental), e o kalaattisit (tunumiisut, ou groenlandês oriental), e é o mais distinto do groenlandês padrão. Todos os seus falantes também estão familiarizados com o groenlandês (kalaallisut) padrão por meio da mídia, ou instituições como escolas e igrejas, assim, são bilíngues, e o dinamarquês é compreendido e falado pela maioria; além disso, o inglês também é falado, porém por um número menor de pessoas.

O léxico do dialeto está se tornando mais "groenlandizado" devido à influência do groenlandês ocidental como língua da educação e da mídia. Grande parte do vocabulário usado pelos falantes mais velhos da língua pode não ser compreendido pelos falantes mais jovens. A fala também pode se diferenciar de acordo com a idade do falante, havendo diferenças entre a maneira como aqueles abaixo de 50 anos e aqueles mais velhos, ou originalmente da região, falam inuctune. Lexicamente, a variedade do dialeto falada pelos inughuit mais jovens se aproxima ainda mais do groenlandês padrão. A língua não possui uma forma de escrita própria e, portanto, seus falantes acreditam que sua cultura é oral e deve permanecer assim.

Inuíte polar é uma língua altamente polissintética, aglutinativa, ergativa-absolutiva — o que significa que a marcação de caso para o sujeito de um verbo intransitivo é a mesma que para o objeto de uma oração transitiva —, e usa morfologia derivacional e morfologia concatenativa, o que permite a formação de palavras muitas longas, com o sentido do que seria uma frase inteira em outro idioma, como o português. O número dual ainda existe na língua. Além disso, o inuctune não possui gênero gramatical e as terminações flexionais verbais podem indicar modo, transitividade, pessoa (1ª, 2ª, 3ª e 4ª pessoas, onde a quarta pessoa denota um sujeito em terceira pessoa de um verbo subordinado ou o possuidor de um substantivo que é correferente com o sujeito em terceira pessoa da oração principal) e número (singular, plural, dual como em Inuctitute).

Etimologia esquerda|miniaturadaimagem|270x270px|Menino inughuaq, 1897. O povo do noroeste da Groenlândia se autodenominam de inughuit (ou inughuaq, no singular) e são um sub-grupo dos inuítes. O gentílico significa "o povo grande ou importante". O nome inuktun (“inuctune”) é um endônimo para sua língua e deriva da raiz inuk, que significa "pessoa" ou "inuíte", combinada com a forma equativa tun, semelhante a construções similares em outras línguas inuíte que denotam "a língua dos inuítes". Não há indicações de um uso histórico desse termo, e parece ter surgido apenas durante o século XX, como forma de diferenciarem-se de outros grupos. No groenlandês padrão, o termo dado ao dialeto, avanersuarmiutut, significa "a língua do povo do grande norte".

Alguns inughuit, porém, podem chamar o dialeto de maanaamitun, “língua do aqui”, ou ainda qaanaamitun, “a língua de Qaanaaq”, devido a concentração de falantes no assentamento.

História

A língua foi inicialmente descrita pelos exploradores Knut Rasmussen e Peter Freuchen que viajaram para o norte da Groenlândia no início do século XX e estabeleceram um posto em Dundas, próximo a Pituffik, em 1910. Além disso, foi a última língua a entrar na Groenlândia, a partir do Canadá, e pode ter chegado na região apenas no século XVIII.

Em geral, embora mais conservador em relação a outros dialetos da Groenlândia, o inuctune desenvolveu características fonológicas próprias e idiossincráticas, distanciando-se mais do proto-inuíte e de seus dialetos vizinhos contemporâneos, ao mesmo tempo que substituiu parte de seu léxico por palavras importadas do groenlandês ocidental. Embora as diferenças gramaticais em relação ao groenlandês ocidental sejam pequenas, o inuctune preservou a categoria de número dual, praticamente perdida em outras regiões da Groenlândia.

História da documentação

O inuctune já foi documentado por vários pesquisadores nos séculos XX e XXI. O vocabulário comparativo de Birket-Smith (1928) inclui transcrições linguisticamente precisas do inuíte polar baseadas em trabalho de campo. O trabalho de campo de Holtved em 1935-1937 e 1946-1947 resultou em um corpus rico com 178 textos ditados e gravados, principalmente narrativas, publicados com transcrições foneticamente precisas e um volume de traduções livres. Um breve artigo sobre características linguísticas do inuctune foi publicado por Holtved em 1952. Documentação posterior inclui um substancial dicionário temático e esboço gramatical de Fortescue (1991), um estudo fonético de Jacobsen (1991) e notas linguísticas e etnolinguísticas de Leonard (2015).

Distribuição miniaturadaimagem|Hiorapaluk, Groenlândia Além da cidade de Qaanaaq, a língua também é falada em Savissivik (Haviggivik, na língua local), Muriuhaq, Qeqertat (Qiqitat), Qikiqtarhuaq e Siorapaluk (Hiorapaluk), locais que recebem nomes em inuctune.

Linguisticamente, na fonologia e léxico, estão mais próximos dos povos da ilha de Baffin, falantes da língua qikiqtaaluk uannangani, do que o oeste, ou sul, groenlandês. A raridade das formas indicativas e o uso de formas participiais na oração principal da língua distinguem nitidamente o inuctune do kalaallisut, em vez disso, aproximando-o ainda mais de alguns dialetos canadenses como o inuctitute do norte de Baffin. Sua fonologia é tão suficientemente distinta de outros dialetos que não é compreendida em outras regiões da Groenlândia.

O esquimó polar está intimamente relacionado a dialetos ocidentais como o esquimó do cobre (kitlinermiut, falado no noroeste da região de Nunavut, no Canadá), mas com uma mistura mais recente do dialeto da ilha de Baffin do Norte após a chegada de um xamã canadense (Qi'ddaq) à região. O esquimó polar tem sua própria posição no contínuo dialetal inuíte, distinta também do groenlandês ocidental. No entanto, o inuíte da ilha de Baffin é o dialeto do leste canadense com o qual os inuítes estão mais familiarizados, dado o contato ao longo dos últimos cem anos.

O inuctune é uma língua ágrafa, ou seja, não possui ortografia própria, e não é ensinado em escolas e, portanto, está mudando mais rapidamente do que língua escrita padrão do sul; entretanto, a maior parte dos habitantes de Qaanaaq e seus arredores usa o dialeto em sua comunicação diária. Apesar disso, diferentes formas de se escrever a língua foram desenvolvidas por linguistas que a estudaram; e que diferem-se do groenlandês padrão em diversas formas em relação a sua grafia.

Línguas relacionadas Línguas esquimós Línguas inuítes: Inupiaque (Inupiaq): no norte e noroeste do Alasca (Estados Unidos) e noroeste do Canadá; Inuinactune (Inuinnaqtun) e Inuvialuctune (Inuvialuktun): no Ártico Ocidental do Canadá: Territórios do Noroeste (Nunatsiaq) e Nunavut; Inuctitute (Inuktitut): no Ártico Oriental do Canadá (províncias de Terra Nova e Labrador, Quebeque, Manitoba e em Nunavut e Territórios do Noroeste); Groenlandês (Kalaallisut): no oeste da Groenlândia; Inuctune (Inuktun): no norte da Groenlândia.

Línguas iúpiques: Sirenik: extinto, classificação incerta: possivelmente um terceiro ramo das línguas esquimós; Naucano (Naukan): na península de Chukotka, (Rússia) Língua iúpique siberiano central (Yuit): na península de Chukotka e ilha de São Lourenço; Língua iúpique do Alasca Central (Yupʼik): no centro do Alasca Alutiiq: na península do Alasca.

Línguas aleúte Oeste: no leste do Alasca (Atkan, Attuan, Unangan, Béring); Leste: nas ilhas Aleutas (Estados Unidos e Rússia) e no extremo leste da Sibéria (Rússia).

Comparação com o groenlandês ocidental

Pronúncia Inuctune Groenlandês ocidental a , aa , ai aa , ai au aa , g gg gg gh ss gl ll h , s i , i e ii , ii ee j k , k kp / pp kt / tt l l ll ll m n ng ngm / mm ngn / nn p q , q qp rp qt , rt , r rl rl rm rm rn rn rng rh rs rv rf s ss t , t , ts u , u o uu , uu oo v v vv ff

+Comparação léxica do inuctune com o groenlandêsInuctune (Norte)Groenlandês (Oeste)Portuguêsnivirhiaqniviarsiaraqmenina, mulher não casadaataataataatapaiirniqerneqfilho homeminukinukpessoauangauangaeuihhitillitvocêhumisumiondeaukaaksangueihiisiolhoaghakassakmãoarvikarfeqbaleiatuktututturenaqughukqussukcisnehiqiniqseqineqsolulluriaqulloriaqestrelaatauhiqataasequm

Ortografia Uma maneira de escrever a língua fora desenvolvida pelo linguista Michael Fortescue — ainda que não proponha seu sistema de escrita como ortografia local e que seu critério para a criação do sistema tenha sido adequação fonológica. Posteriormente, outra ortografia foi proposta pelo linguista Stephen Pax Leonard em seu artigo Some Ethnolinguistic Notes on Polar Eskimo. O comitê linguístico local de Qaanaaq também não conseguiu chegou a um consenso final quanto a uma ortografia padrão para o seu dialeto inuctune, embora concordem que a "nova" ortografia desenvolvida, baseada no groenlandês ocidental (kalaallisut), não é totalmente adequada.

A ortografia do inuctune é realizada a partir do alfabeto latino, e utiliza 19 letras, sendo elas: a, d, e, g, h, i, j, k, l, m, n, o, p, q, r, s, t, u, v. As letra f e b só são usadas em palavras empretadas. As letras j, d, r apenas são usadas como letra inicial em palavras emprestadas de outra língua, como em jannuaari, dissimpari, raatiu.

Não existe uma tradição escrita estabelecida para o inuctune, que mantêm uma tradição oral. Assim, a língua não é padronizada e, portanto, há muita discordância em relação à sua ortografia. Uma palavra como hior’ddo, "por exemplo", pode ser escrita como hior’ddu, hiorllo, hiordu ou de várias outras maneiras, dependendo da ortografia preferida.

Dessa forma, há diferenças na maneira de escrita de alguns grafemas, como o /ll/, correspondente em groenlandês, é escrito como /dd/ por Leonard e como /ll/ por Fortescue. Outras diferenças entre as ortografias propostas por Leonard para Fortescue são, respectivamente, /gg/ -> /gh/, /rr/ -> /rh/, e /tsi/ -> /ti/.

Fonologia

O idioma está, foneticamente, muito distante do que uma transcrição puramente fonêmica sugeriria, e a palavra falada frequentemente não é pronunciada como se poderia tentar escrevê-la. A fonologia do inuctune é caracterizada pela palatalização e velarização/uvularização generalizadas; há também um uso disseminado de grupos consonantais oclusivos/plosivas glotais que correspondem à geminada surda farinjalizada no groenlandês ocidental. A língua também se caracteriza por uma articulação pouco precisa, ou relaxada, de consoantes e vogais, e possui um inventário fonêmico reduzido, portanto, existem muitos homônimos ou quase-homônimos.

A língua se difere do groenlandês padrão quanto sua fonologia como, por exemplo, com a substituição do grafema /s/ para o /h/, com um som usualmente pronunciado como um fricativo palatal, como no alemão ch AFI: [ç]. O dialeto também permite mais combinações consonantais que o groenlandês e apresenta pequenas diferenças gramaticais e léxicas.