Tikashi Fukushima (Soma, 19 de janeiro de 1920 – São Paulo, 14 de outubro de 2001) foi um pintor e gravador nipo-brasileiro. Considerado um dos abstracionistas mais importantes do Brasil, Fukushima também produziu ao longo de sua carreira várias obras no campo do figurativismo. O artista recebeu inúmeras críticas positivas de inúmeros e importantes críticos de arte por suas produções tanto abstracionistas quanto figurativistas. Fukushima pertence à geração dos imigrantes pré-guerra, composta por imigrantes comuns que após várias mudanças em suas vidas despertaram para as artes plásticas, sendo que seu mestre foi Tadashi Kaminagai, quem Fukushima vê como mentor, mas que possuía estilo diferente de pintura da qual posteriormente desenvolveu. Suas obras foram apresentadas em exposições nacionais e internacionais.

Fukushima participou de grupos artísticos, como a Seibi-kai e o Grupo Guanabara, tendo o contato com inúmeros pintores, inclusive muitos de origem japonesa. O artista foi homenageado com muitos títulos e prêmios e muitas de suas obras foram adquiridas por importantes coleções no Brasil e de outros países. Ademais, foi membro da Comissão de Artes da Fundação Brasil-Japão de Artes Plásticas, presidente da Comissão de Artes Plásticas da Sociedade Brasileira de Cultura Japonesa e presidente do Museu de Arte Nipo-Brasileiro. Vale destacar que recebeu a condecoração denominada a Ordem do Tesouro da Felicidade Sagrada, em 1997.

Biografia Primeiros anos Na juventude, Fukushima trabalhou na lavoura e em um armazém. Terminou o curso ginasial e mudou-se para Yokohama, próximo a Tóquio, onde durante dois anos foi desenhista numa fábrica de aviões. A partir de relatos de seu tio que já esteve no Brasil, decide mudar de país, em 24 de fevereiro de 1940, a bordo do navio Brasil Maru. Assim, desembarcou no porto de Santos e foi para o interior de São Paulo, primeiramente para Pompeia e depois para Lins, onde então conheceu Manabu Mabe. Mabe era quatro anos mais novo que Tikashi e ambos estavam decididos a serem pintores; Mabe trabalhava na lavoura e pintava quando chovia.

Tikashi começou a trabalhar em armazém e nas horas livres se dedicava a desenhar, onde fazia cópias a partir de fotografias, sendo que essa atividade lhe dava uma renda extra. Em 1945, morando em São Paulo e trabalhando em uma oficina, foi apresentado pelo seu chefe para um conhecido pintor, Tadashi Kaminagai, que naquele momento estava precisando de um auxiliar em uma oficina de molduras no Rio de Janeiro. Assim, Fukushima aceitou trabalhar para Kaminagai e, em 1946, mudou-se para Santa Teresa, Rio de Janeiro.

Fukushima reconhecia Kaminagai como seu mestre, passava horas ouvindo as histórias de Kaminagai, de como ele fazia para sobreviver em Paris e expunha nos salões na década de 1930. Também iam pescar juntos e levavam horas para chegar a um lugar considerado por eles como especial, e esse lugar encantou Fukushima e o inspirou a fazer sua primeira pintura no Brasil, no Rio de Janeiro no ano de 1946, que foi intitulada Paisagem. Como não tinha dinheiro para comprar uma tela utilizada usualmente pelos outros artistas, aliás, não tinha dinheiro nem para duas refeições diárias, ele improvisou uma tela usando um retalho de uma calça de algodão. Pintou o quadro nas cores vermelha, amarela, azul, branco e preta, utilizando os dedos, e o contorno foi feito com o único pincel que possuía, finalizando a obra com o tamanho de 27 cm x 35,5 cm. Em 1996 deu um depoimento para a jornalista Kuniko Kobayashi do jornal São Paulo-Shimbun, a quem disse: "Aquele momento foi a sublimação. E consolidou a minha trajetória como artista plástico". Antes da primeira pintura feita pelo artista em 1946, Tikashi fazia desenhos utilizando grafite sobre papel. Segundo seu filho, Takashi, "Ao chegar ao Brasil, ele não tinha realizado até então nenhuma atividade artística".

Nessa época teve contato com vários artistas, tais como Milton Dacosta, Inimá, Quirino Campofiorito, Van Rogger e Di Cavalcanti, e começou a frequentar a Escola Nacional de Belas Artes, em 1942, onde assistia aulas como ouvinte. Nessa época aprimorou suas técnicas de "dessin", que consiste em desenhar as linhas e contornos de objetos e figuras humanas, onde fez vários estudos de nus. Em 1947 participou do 52° Salão Nacional de Belas Artes, no ano seguinte participou novamente, quando ganhou uma menção honrosa, e recebeu um comentário do artista, professor e crítico Tomás Santa Rosa Júnior, do jornal A Manhã no suplemento de Letras e Artes, onde ele diz: "Excelentes artistas, são sem dúvida esses japoneses. Se não espantam pela genialidade, nunca decepcionam. Essa 'paisagem' de Fukushima, é um documento de bom gosto, de acerto de composição, de boa cor, trabalhado com apuro plástico apreciável". Fukushima continuou participando do Salão Nacional de Belas Artes até o ano de 1964.

Em 1949, voltou para São Paulo e casou-se com Ai Saito, onde montou uma oficina de molduras, no Largo Guanabara, localizado no bairro do Paraíso. Posteriormente esse local passou a ser ponto de encontro dos artistas que, em 1950, formaram o Grupo Guanabara. Nessa época integrou o Seibi-kai, que estava se reerguendo, pois a entidade havia sido fundada em 1935, mas durante o tempo da Segunda Guerra Mundial ela havia sido fechada, assim como aconteceu com escolas e associações onde os imigrantes se reuniam. A venda das obras de Fukushima, como a de muitos outros artistas, ajudou a levantar recursos, de modo a se garantir a continuidade dos salões da Seibi-kai, que tinham periodicidade anual.Vida e Arte dos Japoneses no Brasil. p.70 A mulher de Fukushima, Ai, foi retratada em inúmeros desenhos e pinturas e acompanhava o artista nas reuniões e viagens. Como Tikashi não falava bem o português e Ai sim, ela fez um papel importante sendo um canal de comunicação de seu marido com os brasileiros. Segundo sua filha, Elly, quando Fukushima não era reconhecido como pintor, Ai era quem sustentava a casa, fazendo roupas.

Fukushima era moldureiro numa oficina no Largo Guanabara, onde se reuniam inúmeros artistas. Mais tarde o Grupo dos 15 teve um desdobramento que se chamou Grupo Guanabara, ao qual Fukushima deu continuidade nas atividades, onde houve um contato entre artistas e críticos do meio local. O Grupo Guanabara foi formado em torno de Tikashi Fukushima e chegou a contar com 34 integrantes, entre eles artistas que participam do Seibi-kai e do Grupo dos 15.

Década de 50 A pintura de Tikashi Fukushima na década de 50 é "profundamente marcada pela gestualidade, ritmo e espiritualidade no fazer artístico".Vida e Arte dos Japoneses no Brasil. p.40 Em 1950, nasceu seu filho Takashi Fukushima, que se tornou pintor, gravador, desenhista e cenógrafo. O primeiro contato que Takashi teve com as artes foi passado por Tikashi em sua casa.Vida e Arte dos Japoneses no Brasil. p.78 No mesmo ano realizou uma exposição individual no Club Linense, em São Paulo, participou do Salão Paulista de Belas Artes, juntamente com outros artistas do Seibi-kai ajudou a organizar o 1° Salão Seibi, onde ganhou a medalha de prata. O artista sabia da importância da realização dessa exposição, pois percebeu que a completa reestruturação do movimento e o aparecimento de novos valores só seriam alavancados com a realização de uma exposição com a premiação de obras de artistas japoneses e nipo-brasileiros, além de que a Seibi-kai tinha como objetivo básico incentivar o crescimento das artes plásticas entre os japoneses através de sessões mensais de discussões, comentários e críticas, de intercâmbio com os artistas do Brasil e do Japão, além da realização de exposições. No mesmo ano cooperou também na organização da primeira exposição do grupo Guanabara, na Galeria Domus, sobre essa exposição o escritor e crítico de arte Ibiapaba Martins escreveu no Correio Paulistano que a "exposição que não pode ser perdida pelos que apreciam pintura é a que se encontra da Galeria Domus".

Nos tempos do Grupo Guanabara, Fukushima e os membros do grupo saíam para fazer registros das igrejas, casas, fábricas e ruas de vários bairros de São Paulo. Segundo Arcangelo Ianelli, "Fukushima estava sempre bem-humorado, feliz. Mal falava o português, mas entedia tudo. Ria muito. Gostava de pintar a cidade, os mesmo lugares... Duas, três vezes... Reunia os pintores em seu ateliê. Sua esposa Ai o acompanhava. Era sua tradutora." No entanto, Tikashi, não retratava a cidade exatamente como ela era, fazia modificações e chegou a dizer: "Eu não via muita graça em retratar a realidade como uma fotografia, gostava de desconstruir, simplificar e desmontar as formas". Segundo seu filho, essa forma de pintar sem se preocupar em retratar as paisagens como elas eram de fato, "eram os passos para a despedida do figurativismo". thumb|280px|"Morro do Jaraguá", óleo sobre madeira, 1953, 30 x 40 cm Em 1951, participou da I Bienal Internacional de São Paulo com a obra n° 81 "Paisagem". A partir desse momento sente uma influência para com suas obras e a Bienal passou a ser estimulante para Fukushima.Vida e Arte dos Japoneses no Brasil. p.60 Recebeu medalha de bronze no Salão Nacional de Arte Moderna, Rio de Janeiro. No mesmo ano, foi realizada a segunda exposição do grupo Guanabara no Instituto de Arquitetos do Brasil, em São Paulo. No ano seguinte, recebeu a medalha de bronze no 17° Salão Paulista de Belas Artes e a medalha de prata no 1° Salão do Grupo Seibi de Artistas Plásticos, no Clube Sakura. Em 1953, participou dos dois Salões Nacionais, o Paulista e o do Rio, e também é realizada a terceira exposição do Grupo Guanabara, na Galeria Fukushima. No entanto, na II Bienal de São Paulo, são aceitos só dois artistas nipo-brasileiros, Tadashi Kaminagai e Manabu Mabe. Fukushima não classificado percebeu que deveria estar mais atento para com as mudanças em relação ao Movimento Concreto e as novas tendências do abstrato.

Em 1954, foi premiado no 19º Salão Paulista de Belas Artes e expôs no Salão Preto e Branco. No mesmo ano nasce sua filha, Elly. No ano seguinte, sua obra foi exposta na 3ª Bienal Internacional de Arte de São Paulo e no 4° Salão Paulista de Arte Moderna. Em 1956, teve seus trabalhos expostos no 5º Salão Nacional de Arte Moderna, no Rio de Janeiro, no 6º Salão Baiano de Belas Artes, em Salvador, e no 20º Salão Paulista de Belas Artes, onde recebeu a medalha de prata. No ano seguinte, 1957, participou do 6° Salão Nacional de Arte Moderna, no Salão Santista de Belas Artes, onde recebeu a medalha de prata, e do 21º Salão Paulista de Belas Artes, onde recebeu o 1° Prêmio Prefeito de São Paulo.