A Semana santa em Braga é considerada a principal atracção turística da cidade. Nessa semana realizam-se todo um conjunto de manifestações culturais e religiosas como exposições, concertos, procissões e outras. Durante toda essa semana os altares das Igrejas, cada um invocando uma cena da Paixão de Cristo, encontram-se decorados com flores e velas.

De todas as que se realizam em Portugal, a Semana Santa de Braga é a mais imponente e a mais divulgada, atraindo muitos turistas à cidade. Os visitantes procuram essencialmente as grandes procissões nocturnas que se caracterizam pelas centenas de figurantes. Nela se conjugam harmoniosamente elementos da liturgia e da religiosidade popular, bem como antigas tradições e inovação. Desde 23 de novembro de 2011, está oficialmente “Declarada de Interesse para o Turismo”.Uma descrição sumária da Semana Santa de Braga na actualidade pode ver-se no livro de divulgação turística, com medidas de 28,5 cm x 28,5 cm, ilustrado com numerosas fotografias a cores e com texto de Luís COSTA em português e inglês, Braga – Solenidades da Semana Santa, Editora Elo, Mafra, 2002. Um livro de aspecto agradável e em si mesmo útil, embora com algumas pequenas inexactidões. Uma edição reduzida, mas também ilustrada, com título idêntico e patrocinada pela Santa Casa da Misericórdia de Braga, foi realizada no mesmo ano pela mesma Editora, no âmbito da colecção «Festas e Romarias de Portugal». Informação também resumida e nem sempre totalmente fiável pode encontrar-se no vol. III do livro Festas e Tradições Portuguesas, 8 vols., Círculo de Leitores, Lisboa, 2000-2005.

Origem histórica Muito provavelmente a Semana Santa de Braga teve a sua origem histórica em finais do Como outras, pressupõe a paz dada à Igreja pelo imperador Constantino, em 313, e as determinações do Primeiro Concílio de Niceia sobre a celebração da Páscoa. O primeiro grande testemunho da celebração da Semana Santa em Jerusalém e do provável início da sua imitação em múltiplos outros lugares do mundo cristão é o livro de viagens Peregrinatio ad Loca Sancta ou Itinerarium ad Loca Sancta (Peregrinação / Itinerário aos Lugares Santos) ou ainda, simplesmente, Itinerarium Egeriae (Itinerário de Egéria)São conhecidas duas edições bilingues (texto latino e português), relativamente recentes, deste texto: 1. José CARDOSO (Introdução e versão anotada), Egéria – Peregrinações aos Lugares Santos do Médio Oriente, Edições APPACDM, Braga, 1999; 2. Alexandra B. MARIANO e Aires A. NASCIMENTO, Egéria. Viagem do Ocidente à Terra Santa, Edições Colibri, Lisboa, 1998. Exclusivamente em português pode ver-se a edição brasileira de Maria da Glória NOVAK (trad,, introd. e notas) e Frei Alberto BECKHAEUSER (comentário), Peregrinação de Etéria. Liturgia e catequese em Jerusalém no século IV, Vozes, Petrópolis, 1977; editado de novo em 2004 pela mesma editora. escrito por uma tal Etéria ou EgériaA maior parte das informações que temos sobre ela provêm de uma carta escrita no século VII por um monge da Galécia, Valério de Bierzo. Sobre a referência deste monge a Egéria veja-se: Roger COLLINS, (1995), Early medieval Spain: unity in diversity, 400-1000, p. 85; “Valerio of Bierzo" in New Catholic Encyclopedia (Enciclopédia on-line) (2003).. Curiosamente, esta peregrina era uma mulher da Galécia, provavelmente mesmo da Bracara Augusta (hoje cidade de Braga), que fez a sua própria peregrinação à terra Santa entre 381 e 384. Terá sido este escrito, onde se descrevem pormenorizadamente as celebrações então feitas em Jerusalém, que inspirou celebrações semelhantes em outras partes do mundoCf. ed. cit. de José CARDOSO, pp. 207-227.. Braga, por razões óbvias, pode bem ter estado entre as primeiras e ter sido mesmo um centro de irradiaçãoA hipótese de ter irradiado a partir da Hispânia é, em alguma medida, sustentada pelo facto de a Roma dos Papas só a ter adoptado depois de esta estar em uso na mesma Hispânia, na Gália e na Germânia. Cf. «Semana Santa», in Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, Editora Enciclopédia, Lisboa, s/d [1953?], vol. 28, p. 200.. Não se conhece a sua evolução histórica ao longo da Idade Média. Mas é provável que as suas configurações desde os princípios da Idade Moderna, de que se vão conhecendo documentos, tenham por detrás de si uma tradição já milenar.

Promoção e organização A Semana Santa de Braga é promovida pelo Cabido da Catedral, em parceria com as Irmandades da Misericórdia e de Santa Cruz, com a Câmara Municipal de Braga, a Entidade de Turismo Porto e Norte de Portugal e a Associação Comercial de Braga. É organizada por uma Comissão constituída por representantes destas instituições e por algumas pessoas a título pessoal. Tem a colaboração da Paróquia e da Junta de Freguesia de S. Victor.

Preparação espiritual e cultural A preparação espiritual no decurso da Quaresma inclui a Missa e a imposição das Cinzas na Sé Catedral, a abertura e a permanência do Lausperene quaresmal nas igrejas da cidade de Braga, conferências quaresmais pelo Arcebispo Primaz, três vias-sacras e três conferências quaresmais na Igreja de Santa Cruz, uma procissão de penitência ao Bom Jesus do Monte e uma celebração penitencial na Sé com ocorrência de confissões. A esta preparação espiritual acresce a ambientação cultural, com uma série de concertos de música religiosa, várias exposições temáticas e algum espectáculo sobre motivos da Paixão ou da Páscoa.

A Semana Santa dia-a-dia

Sábado antes de Ramos Cortejo dos Guiões. Procissão de Trasladação do andor do Senhor dos Passos, da Igreja de Santa Cruz para a Igreja de S. Paulo. Via-Sacra popular, percorrendo os “calvários”.

Domingo de Ramos Manhã: Bênção e procissão dos Ramos (Igreja de S. Paulo). Manhã: Missa Solene do Domingo de Ramos (Catedral). Tarde: Procissão dos Passos.

Segunda-feira Concerto coral-sinfónico na Igreja de Santa Cruz.

Terça-feira Concerto coral-sinfónico na Catedral.

Quarta-feira Noite: Cortejo bíblico “Vós sereis o Meu povo” (“Procissão de Nossa Senhora da burrinha”).

Quinta-feira Manhã: Missa Crismal e bênção dos Santos Óleos (Catedral). Tarde: Lava-pés e Missa da Instituição da Eucaristia. Noite: Procissão do Senhor “Ecce Homo”.

Sexta-feira Manhã: Ofício de Laudes e Celebração penitencial (Catedral). Tarde: Comemoração da Morte do Senhor (Catedral) e Procissão Teofórica (Catedral). Noite: Procissão do Enterro do Senhor.

Sábado Manhã: Ofício de Laudes e Celebração penitencial (Catedral). Noite: Solene Vigília Pascal (Catedral) e Procissão da Ressurreição (Catedral).

Domingo Manhã: Missa solene do Domingo de Páscoa (Catedral). Durante o dia: Visita Pascal.

Procissões e Via-Sacra Cortejo de Guiões dos Passos Realizado pela primeira vez em 2013, este cortejo é organizado pela Irmandade de São Vicente de Braga e respectiva comunidade paroquial, e reúne os Guiões dos Passos que se realizam no concelho de Braga durante a Quaresma, concretamente das freguesias de Cabreiros, Celeirós, Crespos, Figueiredo, Real e ainda da Irmandade de Santa Cruz de Braga. Na tarde do sábado que antecede os Ramos, os Guiões saem processionalmente da Igreja de São Vicente em direcção à Sé Catedral, em cujos claustros ficarão depois expostos até ao Domingo de Pascoela. Antes da partida, é feita a reprodução da tradicional "Puxada do Guião".

Trasladação do Senhor dos Passos É um cortejo simples em que a imagem do Senhor dos Passos é transferida da Igreja de Santa Cruz para a de S. Paulo, de onde, no dia seguinte, sairá na Procissão dos Passos. Terminada esta procissão, segue-se a Via-Sacra popular, percorrendo oito “estações” ou “calvários” espalhados pela Cidade. Entre as estações o povo entoa um cântico popular muito antigo, conhecido por “cântico dos martírios”.

Procissão dos Ramos Procissão litúrgica, em que a multidão de participantes se integra ativamente, com palmas e ramos de oliveira previamente benzidos, entoando cânticos de hossana a Jesus Cristo, a lembrar a sua entrada triunfal em Jerusalém. Contém alguns elementos litúrgicos específicos, conservados pelo Rito Bracarense.

Procissão dos Passos Organizada pela Irmandade de Santa Cruz, percorre as ruas da Cidade de modo a passar por todos os “calvários”, onde estão representados os principais “passos” do caminho doloroso de Cristo. Na sua textura, oferece aos espectadores, em quadros alegóricos e encenação dramática, o mesmo que na Missa de Ramos foi lido no evangelho da Paixão. Nela desfilam as figuras que intervieram no julgamento, condenação e morte de Jesus: soldados, algozes e inimigos; mas também Cireneus amigos, Madalenas arrependidas e piedosas mulheres. O próprio Jesus, o “Senhor dos Passos”, levando a cruz às costas, atravessa as ruas da Cidade, como outrora percorreu as de Jerusalém. Junto à igreja de Santa Cruz, tem lugar o Sermão do Encontro e, no decurso deste, os ouvintes assistem ao comovente encontro de Jesus com sua Mãe Dolorosa, a “Senhora das Dores”.

Cortejo bíblico “Vós sereis o meu povo” (“Procissão de Nossa Senhora da burrinha”) Organizado, desde 1998, pela Paróquia e pela Junta de Freguesia de S. Victor, este eloquente cortejo apresenta a pré-história do Mistério Pascal de Jesus que a Igreja celebra nos dias seguintes. Desde o chamamento de Abraão, passando pela era dos Patriarcas, pela escravidão no Egipto e gesta libertadora de Moisés (prefiguração de Cristo), até à infância de Jesus, incluindo a sua fuga para aquele país nos braços de Maria montada numa burrinha e acompanhada por José, desfilam, em sucessão cronológica e em verdadeira catequese viva, profetas, reis, figuras eminentes, símbolos e quadros bíblicos do Antigo Testamento. No essencial, assim é figurada a Aliança de Deus com o seu povo ― “Vós sereis o meu povo” ― e prefigurada a Nova Aliança que será selada com o sangue de Cristo.Este cortejo bíblico, em que se insere o quadro da fuga de Maria, com o Menino Jesus e S. José, para o Egito, é de iniciativa e instituição recente (1998), tendo substituído uma procissão que integrou o programa da Semana Santa entre 1968 e princípios dos anos 70 do século passado, na tarde do Sábado Santo. Chamou-se-lhe de Procissão Nossa Senhora das Angústias, porque era esta a imagem, pertença da Igreja de S. Victor, que ia no lugar central; e Procissão da burrinha, em razão do animal que a transportava. Foi pensada sobretudo com a intenção de oferecer algo de chamativo aos turistas, naquela tarde de Sábado, vazia de outros actos religiosos. Mas teve pouco sucesso, pelo que foi suspensa desde 1974. A atual configuração foi inspirada e, nos seus traços essenciais, desenhada pelo então pároco de S. Victor, Padre Joaquim Morais da Costa. Ao contrário da versão anterior, tem tido um enorme sucesso em atração de público. Informação um pouco mais detalhada sobre esta procissão pode ver-se no livro de Eduardo Pires de OLIVEIRA, A Freguesia de São Victor – Braga, Edição da Junta de Freguesia de S. Victor, Braga, 2001, pp. 198-200.

Procissão do Senhor “Ecce Homo” ou dos fogaréus Organizada desde tempos antigos pela Irmandade da Misericórdia, esta procissão, em noite de Quinta-feira Santa ou das “endoenças”, evoca o julgamento de Jesus, ao mesmo tempo que celebra a misericórdia por Ele ensinada. Abre o cortejo o exótico grupo dos farricocos com as suas matracas e fogaréus. A imagem do Senhor “Ecce Homo” (ou “Senhor da cana verde”) representa o Cristo que se declarara rei e que o Pilatos pôs a ridículo pondo-lhe na mão um simulacro de ceptro (uma cana verde) e apresentando-o à multidão com as palavras “Eis aí o Homem!”. Além de muitas figuras alegóricas da Última Ceia e do julgamento de Jesus, desde 2004 incorporam-se na procissão alegorias das catorze obras de misericórdia, bem como figuras históricas ligadas à fundação e à história das Misericórdias, especialmente à de Braga. Desde há alguns anos incorporam-se também várias Irmandades da Misericórdia de diversos pontos do País.

Procissão Teofórica do Enterro