miniaturadaimagem|Shahnaaz Mason e sua filha concentradas em um projeto no evento de Tell Me a Story Atenção compartilhada é o foco de duas pessoas num mesmo objeto. Ela é alcançada quando um indivíduo alerta outro a respeito de um objeto através do olhar, do apontamento ou outra indicação verbal, ou não verbal. Um indivíduo olha para outro indivíduo, aponta para um objeto e depois volta a olhar para o indivíduo.

Scaife e Bruner, em 1975, foram os primeiros pesquisadores a apresentar uma descrição da habilidade das crianças de seguir o olhar, eles descobriram que a maioria das crianças entre 8 e 10 meses seguiam a linha do olhar e que todas as crianças entre 11 e 14 meses faziam isso. Esta pesquisa mostrou ser possível um adulto trazer a atenção de uma criança para certos objetos do ambiente utilizando somente o seu olhar.Moore, C.; Dunham, P (1995). Joint Attention: Its Origins and Role in Development. Lawrence Erlbaum Associates. ISBN 0-8058-1437-X.

Pesquisas posteriores demonstraram que duas habilidades importantes na atenção compartilhada são seguir o olhar e reconhecer intenção. A habilidade de compartilhar o olhar com outro indivíduo é uma importante habilidade no estabelecimento de referência. A habilidade de identificar intenção é importante na capacidade da criança aprender uma linguagem e dirigir a atenção dos outros. A atenção compartilhada é importante para diversos aspectos do desenvolvimento da linguagem, incluindo compreensão, produção e aprendizagem de palavras. Episódios de atenção compartilhada fornecem informação à criança sobre o seu ambiente, permitindo aos indivíduos estabelecer referência para a língua falada e as palavras aprendidas. O desenvolvimento sócio-emocional e a habilidade de participar num relacionamento normal também são influenciados pela habilidade de compartilhar a atenção. A capacidade de desenvolver a atenção compartilhada pode ser prejudicada por problemas de surdez, cegueira e problemas no desenvolvimento tais como autismo. Animais tais como os grandes primatas, orangotangos, chimpazés, cachorros e cavalos também apresentam alguns elementos da atenção compartilhada.

Marcos do Desenvolvimento As primeiras transformações e reações observadas em bebês que dão início ao desenvolvimento das capacidades associadas à atenção compartilhada ocorrem geralmente entre os 9 e os 15 meses de vida. Posterior ao trabalho inicial de Scaife e Bruner (1975), estudos empíricos analisaram a resposta de grupos de crianças de diferentes idades na tarefa de seguimento do olhar (gaze following) e constaram resultados de quando a conexão visual com o adulto é estabelecida, verificando se o comportamento não é simplesmente apenas uma imitação de movimento corporal.

Durante o estudo realizado por Brooks e Meltzoff (2005), eles demonstraram que bebês de 9 meses seguem sempre o movimento da cabeça de um adulto, não importando se este está com os olhos abertos ou fechados. Os pesquisadores concluíram que o adulto exerce um papel de “orientador corporal” nesse estágio: a direção da cabeça indica um local de interesse, mas o estado dos olhos (se o adulto pode ou não ver) ainda não é levado em consideração.

São nos dois meses seguintes, no décimo e no décimo primeiro mês, que ocorre o maior salto qualitativo da capacidade do infante. Bebês desses grupos de idade seguiram mais o olhar do adulto quando seus olhos estão abertos do que quando estão fechados, ou seja, um comportamento distinto a depender do estado do olho. Esse novo comportamento indica que os infantes entendem os olhos agora como órgãos perceptuais responsáveis por uma conexão visual entre o agente e o objeto. Essa mudança é interpretada como a emergência de uma compreensão incipiente de que o olhar estabelece uma relação psicológica com o mundo externo.

Antes desse importante marco, o seguimento do olhar pode ser moldado por mecanismos de condicionamento. Corkum e Moore (1998) mostraram que, a partir dos 8-9 meses, bebês que ainda não seguiam o olhar espontaneamente podem aprender essa resposta por meio de técnicas de reforço. No estudo promovido, quando o bebê olha na direção indicada pelo adulto, um brinquedo interessante é ativado como forma de recompensa.

Entretanto, os mesmos autores verificaram que tentativas de fazer com que bebês olhassem para o lado contrário do adulto resultaram em falha. Ao em vez disso, mesmo sem reforço, muitos bebês intuitivamente começam a seguir o olhar naturalmente. Isso revela que há uma predisposição biológica para orientar a atenção na direção indicada pelo outro, e não na contrária.

Logo, o desenvolvimento da atenção compartilhada acontece sobretudo no primeiro ano de vida da criança (9-15 meses). Em um primeiro momento, relatado com bebês de 8 e 9 meses, o seguimento do olhar pode ser aprendido por meio de técnicas de reforço, mas ainda é frágil e dependente do contexto. Posteriormente (10-11 meses), ocorre uma reorganização perceptiva na qual o bebê passa a compreender o adulto como um agente visualmente conectado ao ambiente, diferenciando olhos abertos e fechados. Essa transição do seguimento da cabeça para o seguimento do olhar genuíno constitui um dos marcos fundamentais da cognição social, servindo de alicerce para processos complexos, como a linguagem.

Mecanismos Neurocognitivos A atenção compartilhada (AC) é definida como a capacidade do ser humano de coordenar a atenção visual com um parceiro social em relação a um terceiro objeto ou evento. É muitas vezes considerada um marco importante no desenvolvimento cognitivo humano, essa habilidade aparece antes da linguagem e serve como base para a aprendizagem, o desenvolvimento linguístico e as competências sociais ao longo da vida de um ser humano.

Os comportamentos de atenção compartilhada na infância são divididos em duas categorias principais:

Responder à Atenção Compartilhada (RJA): Refere-se à habilidade de um bebê, por exemplo, de seguir a direção do olhar e os gestos de outras pessoas mais velhas para compartilhar um ponto de referência comum. Funciona como uma resposta automática à percepção de que o olhar do outro indivíduo sinaliza informações importantes no ambiente. Iniciar Atenção Compartilhada (IJA): Envolve o uso espontâneo de gestos e contato visual pelo bebê para direcionar a atenção de outros para objetos, eventos ou para si mesmo. Sua função primordial é “mostrar” ou buscar o compartilhamento de interesses e experiências prazerosas.

O desenvolvimento da atenção compartilhada é regulado pela integração de dois sistemas corticais distintos, mas interagentes:

Sistema de Atenção Posterior: Este sistema apoia o desenvolvimento da RJA e amadurece nos primeiros meses de vida. É um sistema relativamente involuntário que prioriza a orientação para estímulos biologicamente significativos. As principais áreas cerebrais envolvidas incluem os córtex parietal e temporal superior (incluindo o sulco temporal superior – STS), que processam a orientação da cabeça e do olhar alheio, além das relações espaciais.

Sistema de Atenção Anterior: Responsável pela IJA, este sistema controla a alocação volitiva e deliberada da atenção, sendo guiado por mecanismos de recompensa e autoavaliação. Envolve uma rede neural que inclui o córtex pré-frontal, o córtex orbital frontal, o cíngulo anterior e os campos oculares frontais (áreas de Brodmann 8 e 9), que permitem o controle intencional do movimento ocular.

Modelo de Processamento Paralelo e Distribuído (PDPM) Teorias contemporâneas sugerem que a atenção compartilhada não é apenas um produto da cognição social, mas um motor para o seu desenvolvimento. O Modelo de Processamento Paralelo e Distribuído propõe que, durante a Atenção Compartilhada, o bebê processa simultaneamente três fontes de informação:

Informações autorreferenciadas (suas próprias ações e estado interno). Informações sobre a atenção e o comportamento do outro. Informações sobre o objeto ou evento compartilhado.

O processamento autorreferenciado inclui a propriocepção (senso de posição e movimento ocular) e a interocepção (sensibilidade a estados fisiológicos, como excitação e emoção). A integração dessas informações através da rede cortical anterior-posterior permite que o bebê saiba diferenciar sua própria agência da agência dos outros.

Com essas práticas repetidas durante o primeiro ano de vida, as operações abertas de coordenação visual (olhar e apontar) são fortalecidas e internalizadas. Essa internalização transforma a capacidade de coordenar a atenção visual a objetos externos na capacidade de coordenar a atenção mental a representações internas e símbolos. Assim, a atenção compartilhada evolui para uma função social prática que sustenta o pensamento simbólico e a capacidade de representar de forma mental os estados de atenção de si mesmo e dos outros no seu ambiente.

Impacto na Linguagem e na Teoria da Mente O desenvolvimento da cognição social inicia-se com marcos de atenção compartilhada, nos quais os infantes demonstram uma transição entre serem “guiados pela postura” para serem "seguidores de olhares", conforme evidenciado pelo estudo de Brooks e Meltzoff (2005), que observou que bebês de 10 a 11 meses, diferentemente dos de 9 meses, só seguem o movimento da cabeça de um adulto se os olhos dele estiverem abertos, compreendendo a necessidade de uma conexão visual real com o objeto.

Além disso, situações experimentais mostram que bebês de 10 a 11 meses que realizam o ato de vocalizar enquanto seguem o olhar do adulto tendem a apresentar um vocabulário significativamente maior aos 18 meses, consolidando esses comportamentos como pilares essenciais para a aquisição da linguagem e a compreensão da intencionalidade alheia. Além das situações experimentais mencionadas, o estudo da transição entre a atenção compartilhada e a Teoria da Mente (ToM) revela detalhes fundamentais sobre como o bebê começa a interpretar o outro como um agente intencional e como isso impacta sua vida futura.

Em que o aprofundamento sobre o desenvolvimento da cognição social demonstra que a atenção compartilhada funciona como um alicerce crítico para a Teoria da Mente, permitindo que a criança passe a interpretar os outros como agentes dotados de intenções. De acordo com as fontes, essa trajetória inicia-se com uma mudança fina entre os 9 e 11 meses, período em que bebês de 9 meses seguem o movimento da cabeça do adulto independentemente de os olhos estarem abertos ou fechados, enquanto bebês de 10 e 11 meses já distinguem o status perceptual dos olhos, demonstrando entender que o olhar é o elo necessário para a "conexão visual" com o mundo externo.

Essa percepção da intencionalidade é reforçada por atos de vocalização simultânea ao olhar aos 11 meses, interpretados como esforços protodeclarativos que buscam o compartilhamento psicológico e que predizem um vocabulário de compreensão significativamente maior aos 18 meses de idade. Crucialmente, a pesquisa longitudinal de Abreu, Cardoso-Martins e Barbosa comprova que a habilidade de responder à atenção compartilhada (RAC) aos 9 meses, como seguir o olhar ou o gesto de apontar do examinado, prediz o desempenho em tarefas de crença-falsa (como a de Sally e Ann) aos 4 anos de idade, mesmo quando se isola o efeito da inteligência não-verbal.

Esses achados sugerem que, ao contrário de explicações baseadas em aprendizagem condicionada, o comportamento de seguir o olhar desde o primeiro ano de vida já reflete uma compreensão implícita de que as pessoas são agentes intencionais e seres psicológicos com estados mentais próprios.

Manifestações Atípicas da Atenção Compartilhada no Espectro Autista