thumb|upright=1.5|Distribuição mundial de riqueza e população no ano 2000
A distribuição de riqueza ou desigualdade de riqueza refere-se à forma como o patrimônio total acumulado em uma economia ou sociedade é repartido entre seus indivíduos, famílias ou grupos sociais. Trata-se de uma medida do estoque de bens e ativos detidos, diferentemente da distribuição de renda, que foca no fluxo de rendimentos gerados em um períodoSandroni, Paulo; Biava, Adriano; Lacerda, Antônio Corrêa de; Maia, Carlos Donizeti M., eds. (1999). Novíssimo dicionário de economia 1. ed ed. São Paulo: Ed. Best SellerMedeiros, Marcelo (2012). Medidas de desigualdade e pobreza 1a edição ed. Brasília, DF: Editora UnBMedeiros, Marcelo (2023). Os ricos e os pobres: o Brasil e a desigualdade. São Paulo, SP: Companhia das Letras.
Definição de Riqueza
Ver também: Riqueza
Conceitualmente, riqueza é o valor de todos os bens (patrimônio) que um agente econômico (indivíduo, família, empresa, país, etc.) possui e que podem gerar renda ou benefícios. Ela é comumente expressa como o patrimônio líquido, resultado da equação:
Riqueza = Ativo – Passivo
A riqueza pode manifestar-se em diversas formas, como dinheiro, imóveis, ações financeiras, ouro e obras de arteHEILBRONER, Robert L. Wealth. In: MACMILLAN PUBLISHERS LTD (Org.). The New Palgrave Dictionary of Economics. London: Palgrave Macmillan UK, 2018..
É crucial distinguir a riqueza da renda, pois, embora relacionadas, representam elementos distintos. Enquanto a renda constitui um fluxo de entrada de valor econômico — proveniente de salários, lucros, aluguéis ou outras fontes de remuneração de fatores de produção — a riqueza é o estoque acumulado desses itens de valor econômico. Essa distinção é fundamental ao analisar as disparidades econômicas, visto que a distribuição da riqueza e a da renda apresentam características e níveis de desigualdade diferentes. Conforme apontado pela Global Wealth Report 2023 do Credit Suisse/UBS, a distribuição mundial da riqueza é muito mais desigual do que a de renda.
A análise da distribuição de riqueza é essencial para comparar as condições econômicas entre os membros de uma sociedade e para compreender as estruturas de desigualdade social, influenciando diretamente o debate e a formulação de políticas públicas voltadas para a equidade e o bem-estar coletivo.
A definição das Nações Unidas de riqueza inclusiva é uma medida monetária que inclui a soma dos recursos naturais, humanos e físicos.
Distribuições estatísticas
Ver também: Medidas de desigualdade
A distribuição de riqueza em uma sociedade é tipicamente caracterizada por uma assimetria acentuada, com uma concentração significativa do patrimônio total nas mãos de uma pequena parcela da populaçãoPIKETTY, Thomas. O Capital no Século XXI. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2014. . Para analisar e quantificar essa desigualdade, são utilizadas diversas ferramentas estatísticas, que podem ser classificadas em representações gráficas e medidas numéricasJesus, Josimar Gonçalves de (18 de outubro de 2021). Distribuição de Renda: Medidas de Desigualdade, Pobreza, Concentração, Segregação e Polarização. Col: Acadêmica. Rodolfo Hoffmann, Diego Camargo Botassio 2 ed. São Paulo, SP: Edusp. A combinação dessas representações gráficas, medidas numéricas e modelos matemáticos permite uma análise abrangente e multifacetada da complexa dinâmica da distribuição de riqueza em diversas escalas e contextos. No geral, elas são utilizadas em conjunto por analistas, já que permitem ver aspectos diferentes das desigualdades .
Representações Gráficas As representações gráficas oferecem uma visualização intuitiva da distribuição da riqueza e da magnitude da desigualdade, permitindo uma compreensão imediata das disparidades:
Curva de Lorenz
A Curva de Lorenz é a ferramenta gráfica mais amplamente utilizada para analisar a desigualdade relativa na distribuição de riqueza. Ela mapeia a proporção acumulada da riqueza detida por cada proporção acumulada da população, ordenada do mais pobre ao mais rico.
Em um gráfico da Curva de Lorenz, o eixo horizontal representa a porcentagem acumulada da população, e o eixo vertical, a porcentagem acumulada da riqueza. Uma linha diagonal reta de 45 graus (a "linha de perfeita igualdade") representa uma distribuição onde cada percentual da população detém o mesmo percentual da riqueza (por exemplo, 20% da população detém 20% da riqueza). Em distribuições de riqueza reais, a Curva de Lorenz se curva abaixo dessa linha de perfeita igualdade, e a distância entre a curva e a linha de igualdade indica o grau de desigualdade. Quanto maior a curvatura, maior a desigualdade.
Parada de Pen e Curvas de Quantis A Parada de Pen, uma metáfora proposta pelo economista Jan Pen, ilustra a desigualdade de forma clara: se a riqueza de cada pessoa fosse sua altura, e elas desfilassem em ordem crescente de patrimônio, veríamos "uma grande massa de anões e uma pequena elite de gigantes". Esta analogia ressalta as diferenças absolutas na distribuição. A representação gráfica mais formal associada a essa ideia são as Curvas de Quantis, que plotam os valores de riqueza correspondentes a cada percentil (ou decil, quintil) da população. Em uma distribuição de riqueza, essa curva geralmente mostra um crescimento muito lento para a maioria da população, com uma inclinação abrupta nos quantis superiores, evidenciando a concentração no topo.
Medidas Numéricas Para quantificar a desigualdade de riqueza de forma sintética, são empregados diversos índices numéricos:
Coeficiente de Gini: Derivado da Curva de Lorenz, o Coeficiente de Gini é o indicador de desigualdade mais conhecido mundialmente. Ele varia de 0 a 1, onde 0 representa perfeita igualdade (toda a riqueza é igualmente distribuída) e 1 representa perfeita desigualdade (uma única pessoa detém toda a riqueza). O Gini mede a desigualdade relativa. Para a riqueza, os valores de Gini costumam ser substancialmente mais altos do que para a renda, refletindo a maior concentração do patrimônio. Participação na Riqueza (ou Renda): Essas medidas focam na proporção da riqueza total que é detida por segmentos específicos da população, especialmente os extremos da distribuição. É comum analisar a fatia da riqueza controlada pelo 1% mais rico, pelos 10% mais ricos, ou a parcela detida pelos 50% mais pobres. Essas métricas são particularmente reveladoras para a distribuição de riqueza, onde a concentração no topo é uma característica proeminenteSOUZA, Pedro H. G. Ferreira de. Os ricos no Brasil: o que sabemos, o que não sabemos e o que deveríamos saber. BIB - Revista Brasileira de Informação Bibliográfica em Ciências Sociais, n. 85, p. 5–26, 1 fev. 2018. . Razão de Palma: A Razão de Palma é um índice que compara a participação dos 10% mais ricos na riqueza nacional com a participação dos 40% mais pobres. Este índice busca focar na disparidade entre os extremos da distribuição, mas acaba perdendo variações na classe média.
Modelos Matemáticos A natureza da distribuição de riqueza, com sua cauda superior longa e pesada (ou seja, um pequeno número de indivíduos com riqueza extremamente alta), frequentemente é modelada por distribuições estatísticas específicas, como a Distribuição de Pareto.
A distribuição de Pareto é um modelo matemático que descreve a forma como um pequeno número de entidades detém a maior parte de um recurso, enquanto um grande número detém uma pequena parte. É frequentemente utilizada para modelar a distribuição de riqueza, especialmente nos estratos superiores, onde um pequeno grupo de indivíduos concentra uma vasta quantidade de ativos. O princípio de Pareto, ou regra 80/20, é uma simplificação que sugere que aproximadamente 80% dos efeitos vêm de 20% das causas, uma observação comum em distribuições de riqueza.
Cenário Global e Regional da Desigualdade de Riqueza A distribuição de riqueza global apresenta um quadro de extrema concentração, com o patrimônio mundial cada vez mais acumulado nas mãos de uma pequena parcela da população. Esse cenário tem se intensificado, especialmente após crises globais, como a pandemia de COVID-19, que exacerbou as desigualdades existentes CHANCEL, Lucas et al. World Inequality Report 2022. Paris, França: World Inequality Lab, 2022. Disponível em: <https://wir2022.wid.world/www-site/uploads/2022/03/0098-21_WIL_RIM_EXECUTIVE_SUMMARY.pdf>.LÜDIN, Stephanie. Global Wealth Report 2023 - Leading perspectives to navigate the future: Global Wealth Report. [S.l.]: Credit Suisse Research Institute (CSRI), 15 jun. 2023. Disponível em: <https://www.ubs.com/global/pt/wealthmanagement/latamaccess/wealth-planning/articles/global-wealth-report-2023.html>..
Concentração de Riqueza Global
A ideia de que a prosperidade dos mais ricos naturalmente se traduziria em mais riqueza para todos tem sido desafiada pelos dados recentes, que indicam um fosso crescente entre as camadas mais ricas e as mais pobres da sociedade. Diferentes análises mostram que o 1% mais rico da população mundial detém uma parcela desproporcional da riqueza, sejam elas estudos científicos BAULUZ, L. et al. Estimation of Global Wealth Aggregates in WID.world. Paris, França: World Inequality Lab, 2023. Disponível em: <https://prod.wid.world/www-site/uploads/2023/12/WorldInequalityLab_TechnicalNote_2023_10_Estimation-of-global-wealth-aggregates_Technote_Final.pdf>.BOURGUIGNON, François. The Globalization of Inequality. Tradução: Thomas Scott-Railton. Princeton Oxford: Princeton University Press, 2015. , relatórios de bancosERA DABLA-NORRIS et al. Causes and Consequences of Income Inequality: A Global Perspective: IMF Staff Discussions on Note. [S.l.]: International Monetary Fund, jun. 2015. Disponível em: <https://www.imf.org/external/pubs/ft/sdn/2015/sdn1513.pdf>., de instituições de governo GOBETTI, Sérgio Wulff; ORAIR, Rodrigo Octávio. PROGRESSIVIDADE TRIBUTÁRIA: A AGENDA NEGLIGENCIADA: Texto para Discussão. Brasília - DF, Brasil: IPEA, 2016. Disponível em: <http://www.ipea.gov.br/portal/images/stories/PDFs/TDs/td_2190.pdf>.CONCEIÇÃO, Pedro. Relatório sobre o Desenvolvimento Humano 2023/2024. New York: Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, 2024. Disponível em: <https://www.undp.org/pt/angola/publications/relatorio-do-desenvolvimento-humano-rdh-2023-2024>. ou organizações não governamentaisOXFAM. Do lucro privado ao poder público - Financiando o Desenvolvimento, Não a Oligarquia. [S.l.]: OXFAM, 26 jun. 2025. Disponível em: <https://www.oxfam.org.br/wp-content/uploads/2025/06/DO-LUCRO-PRIVADO-AO-PODER-PUBLICO.pdf>..
Um relatório da Oxfam de junho de 2025 aponta que "Desde 2015, o 1% mais rico acumulou pelo menos 33,9 trilhões de dólares em riqueza em termos reais... Agora, essas pessoas detêm mais riqueza do que os 95% mais pobres do mundo, juntos". Em termos de acumulação por bilionários, "Só os bilionários (cerca de 3 mil pessoas... ) ganharam 6,5 trilhões de dólares desde 2015, mais do que o suficiente para cobrir todo o déficit anual de financiamento dos ODS e erradicar a pobreza global anual mais de quatro vezes."
Em 2022, o Relatório Mundial da Desigualdade do Credit Suisse/UBS apontou na mesma direção: "os 10% mais ricos detêm 76% da riqueza e 52% da renda, enquanto metade da população mundial fica com apenas 2% da riqueza e 8,5% da renda." (p.5)
Para se ter uma ideia da escala da riqueza necessária para pertencer aos diferentes estratos globais, ao final de 2022, os requisitos mínimos eram (p.4):
US$ 8.654 em ativos líquidos para estar entre a metade mais rica dos cidadãos mundiais. US$ 137.333 para pertencer aos 10% mais ricos. US$ 1.081.342 para participar do 1% mais rico.
O modelo da Pirâmide da Riqueza, apresentado no relatório do Credit Suisse/UBS, ilustra essa estrutura global, onde uma grande base de detentores de baixa riqueza sustenta os níveis mais elevados, ocupados por cada vez menos adultos . Detalhadamente: