miniatura|upright|Estátuas de Ramessés II no templo de Abul-Simbel, Antigo Egito O culto de personalidade, ou culto à personalidade, é uma estratégia de propaganda política baseada na exaltação das virtudes - reais e/ou supostas - do governante, bem como da divulgação positiva de sua figura. Cultos de personalidade são frequentemente encontrados em ditaduras, embora também existam em democracias. Historicamente, ela foi desenvolvida por meio de técnicas como a manipulação da mídia de massa, a disseminação de propaganda, a encenação de espetáculos, a manipulação das artes, a instilação do patriotismo e manifestações e comícios organizados pelo governo. Um culto à personalidade é semelhante à apoteose, exceto que é estabelecido por meio do uso de técnicas modernas de engenharia social; geralmente, é estabelecido pelo Estado ou pelo partido em Estados de partido único e Estados de partido dominante. Cultos à personalidade frequentemente acompanham os líderes de governos totalitários ou autoritários. Também podem ser observados em algumas monarquias, teocracias, democracias falidas e até mesmo em democracias liberais.
Pode também assumir o aspecto de um culto à masculinidade artificial, característico de certas lideranças políticas.
Origem da expressão esquerda|miniaturadaimagem|200x200px|Uma celebração do aniversário de 70 anos de Stalin na República Popular da China (1949). O termo "culto à personalidade" foi utilizado pela primeira vez em 1956 por Nikita Khrushchov no Discurso secreto para denunciar Josef Stalin, apesar desta ideia aparecer sem este nome desde a Revolução Francesa quando os líderes políticos deixaram de ser vistos como representantes de terceiros para serem vistos como representantes de si mesmos.Anthony H. Birch, The Concepts and Theories of Modern Democracy, (London: Routledge, 1993) p. 58. Em inglês, o termo "culto à personalidade" provavelmente surgiu por volta de 1800-1850, juntamente com as versões francesa e alemã do termo. Inicialmente, não tinha conotações políticas, mas estava intimamente relacionado ao "culto ao gênio" romântico. O primeiro uso político conhecido da expressão apareceu em uma carta de Karl Marx ao político alemão Wilhelm Blos, datada de 10 de novembro de 1877:
Contexto thumb|upright|Augusto de Prima Porta, século I d.C. Ao longo da história humana, monarcas e outros chefes de Estado foram frequentemente tratados com enorme reverência e também eram considerados dotados de qualidades sobre-humanas. Através do princípio do direito divino dos reis, notadamente na Europa medieval, dizia-se que os governantes ocupavam cargos pela vontade de Deus ou pela vontade dos deuses. O Egito Antigo, o Japão Imperial, os incas, os astecas, o Tibete, o Sião (atual Tailândia) e o Império Romano são especialmente notáveis por sua redefinição de monarcas como "reis-deuses". Além disso, o culto imperial da Roma Antiga identificava os imperadores e alguns membros de suas famílias com a autoridade divinamente sancionada (auctoritas) do Estado Romano.
A disseminação de ideias democráticas e seculares na Europa e na América do Norte nos séculos XVIII e XIX tornou cada vez mais difícil para os monarcas preservarem essa aura, embora Napoleão III e a Rainha Vitória apreciassem sua perpetuação em seus retratos carte-de-visite que proliferaram, circularam e foram colecionados no século XIX.
O desenvolvimento subsequente dos meios de comunicação de massa, como o rádio, permitiu que líderes políticos projetassem uma imagem positiva de si mesmos para as massas como nunca antes. Foi a partir dessas circunstâncias, no século XX, que surgiram os cultos de personalidade mais notórios. Frequentemente, esses cultos são uma forma de religião política.
O advento da internet e da World Wide Web no século XXI renovou o fenômeno do culto à personalidade. A desinformação via plataformas de mídia social e o ciclo de notícias 24 horas por dia permitiram a ampla disseminação e aceitação de informações e propaganda enganosas. Como resultado, os cultos à personalidade cresceram e permaneceram populares em muitos lugares, correspondendo a um aumento acentuado de governos autoritários em todo o mundo.
Estados e sistemas com cultos de personalidade miniatura|Benito Mussolini e Adolf Hitler em 28 de setembro de 1938. miniatura|Estátua de Kim Il-sung em Pyongyang, Coreia do Norte. Regimes totalitários que praticaram culto à personalidade de seus líderes incluem Stalin, Hitler,Crime e ideologia: do Terceiro Reich ao assassinato de Moisés Franco, Mussolini, Mao, Ceauşescu, Kim Il-Sung, Kim Jong-IlNicholas John Cull; David Holbrook Culbert; David Welch. Propaganda and mass persuasion, a historical encyclopedia, 1500 to the present. Santa Barbara, California, ABC-CLIO, 2003. e Rafael Leónidas Trujillo.
Na União Soviética retratos de Stalin eram sempre colocados ao lado de outros símbolos comunistas, por exemplo, na parada esportiva anual de Moscou, retratos enormes de Stalin e outros líderes soviéticos eram usados.Colour of War (As Cores da Guerra). Documentário com vídeos em cores sobre a Segunda Guerra Mundial. Apresentado pela TV Escola. 2009 Stalin era chamado de Vozhd (), e deveria ser admirado pelo povo. A natureza precisa deste culto, ou mesmo se era incentivado por Stalin, é objeto de controvérsia.
Na Alemanha nazista houve um fortíssimo culto à personalidade de Hitler, a saudação de Hitler que consistia em levantar-se o braço e dizer Heil Hitler (em português Salve Hitler) era comum, especialmente por oficiais do exército, que a usavam como continência. Muitas vezes ao atender ao telefone em vez de dizer de Alô, dizia-se Heil Hitler. Hitler era considerado o "übermensch" (super-homem) e chamado de Führer (Líder).Ascensão e queda do Terceiro Reich - Triunfo e Consolidação 1933-1939. Volume I. William L. Shirer. Tradução de Pedro Pomar. Agir Editora Ldta., 2008.
Argentina
Brasil
China Na República Popular da China ocorreu um forte culto ao Presidente Mao Tsé-Tung que permanece até a atualidade. Dizia-se "Viva o Presidente Mao", em 1949 o retrato de Mao foi exposto na entrada da Cidade Proibida, na Praça da Paz Celestial e permanece lá até a atualidade. As Citações do Presidente Mao Tsé-Tung, um livro que expunha as ideias de Mao, o "Maoísmo",Mao: A história desconhecida. Jon Halliday e Jung Chang. Tradução de Pedro Maio Soares. Editora Companhia Das Letras. era uma exigência não oficial para todo cidadão chinês conhecê-lo e possuí-lo, especialmente durante a Revolução Cultural, tornando-se o segundo livro mais vendido na história, atrás apenas da Bíblia, teve aproximadamente 900 milhões de cópias impressas.
Coreia do Norte O jornalista Bradley Martin documentou os cultos à personalidade dos líderes da Coreia do Norte, Kim Il-sung (chamado de "Eterno (ou Antigo, ou ainda Grande) Líder" e "Grande (ou Querido ou ainda Caro) Líder" Kim Jong-il.Bradley K. Martin. Under the Loving Care of the Fatherly Leader: North Korea and the Kim Dynasty. Quando visitou a Coreia do Norte em 1979, observou que diversos aspectos culturais, tal como a música, arte e escultura glorificavam o "Grande Líder" Kim Il-sung, culto à personalidade este que foi estendido para o seu filho, o "Querido Líder" Kim Jong-il. Kim Il-Sung negou que que ele tinha criado um culto em torno de si próprio. Um pesquisa confirmou que na Coreia do Norte nas escolas os alunos aprenderam a agradecer a Kim Il-sung por todas as bênçãos que possuem, de uma forma quase religiosa.
El Salvador
Espanha
Na Espanha ocorreu um forte culto ao ditador Francisco Franco; um exemplo de propaganda usada para criar um culto à personalidade de Franco, foram os panfletos com o rosto do ditador, distribuídos para os cidadãos em toda a Espanha. Franco também inventou seu próprio folclore, na forma de poemas, hinos e canções que foram impostas à população civil.Miriam Basilio, "Genealogies for a New State: Painting and Propaganda in Franco's Spain, 1936-1940," Discourse (Detroit, MI) 1522-5321 Fall 2002, v24 i3, p67(29)
Estados Unidos
Vários presidentes na história estadunidense foram mencionados por vários historiadores como sendo apoiados pelos efeitos de um culto à personalidade, entre eles George Washington, Thomas Jefferson, Andrew Jackson, Theodore Roosevelt, Franklin D. Roosevelt, Ronald Reagan e Donald Trump. Conrad Black, que escreveu várias biografias de presidentes americanos, argumentou que o "campeão supremo do culto à personalidade americana" foi "merecidamente" Abraham Lincoln. O culto à personalidade de John F. Kennedy surgiu em grande parte após seu assassinato, embora a aparência dele e de sua esposa Jackie Kennedy tenha contribuído para a aura de "Camelot" que cercava sua administração.
Outro político americano a quem foi atribuído um culto à personalidade é Huey Long, o governador populista da Louisiana de 1928 a 1932, que continuou a controlar a política do estado como senador dos Estados Unidos até ser assassinado em 1935. O Movimento LaRouche foi considerado um culto à personalidade baseado em Lyndon LaRouche.
Portugal
Venezuela
Superestrelas comerciais Alguns executivos comerciais seniores, seguindo os passos de campeões da livre iniciativa como Henry Ford ou Thomas J. Watson, também se tornaram "superestrelas onipotentes" e objetos de cultos de personalidade, incluindo Elon Musk e Jeff Bezos.
Ver também
Carisma político Clã político Complexo de deus Culto imperial Liderança carismática Panem et circenses Personalismo (política) Populismo Religião na Coreia do Norte Teoria do grande homem
Bibliografia
Ligações externas
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