Marcelo Xavier (Ipanema, 19 de maio de 1949) é um artista plástico autodidata brasileiro. Filho de Herondina Moreira Xavier (professora de música) e Ruy Xavier Pinto (dentista em Ipanema), reside atualmente em Belo Horizonte.

Tem 21 livros publicados. Vários receberam premiações,MARCELO XAVIER "(Obras do autor)" dentre elas estão o Prêmio Jabuti, em 2001, para "Festas", na categoria Ilustrações e de melhor ilustrador, em 1994, para "Asa de Papel".

Trajetória

Artista plástico, escritor, cenógrafo, figurinista, autor de livros infantis.

Marcelo Xavier nasceu em Ipanema, interior de Minas Gerais, em 1949. Viveu por lá até os cinco anos, quando se mudou para Vitória. Passou toda a infância no Espírito Santo e em 1961 veio para Belo Horizonte, onde mora até hoje. É formado em Publicidade pela PUC Minas e artista plástico autodidata. Já fez muitas coisas na vida. Ilustrou livros, criou e realizou inúmeros projetos gráficos, produziu e dirigiu programas para a televisão, trabalhou em publicidade, com cenografias, figurinos e adereços para espetáculos de teatro, música, dança e carnaval.

O trabalho com ilustração tridimensional, que desenvolve desde 1986, é uma síntese de tudo isso: personagens e objetos de cena são moldados em massa plástica, montados em pequenos cenários e fotografados.

Com o livro "Truques Coloridos", só com imagens feitas com massinha de modelar, estreou como autor para crianças. Entre suas obras estão "O dia a dia de Dadá", "Tem de tudo nesta rua", "Asa de papel", "TOT", "Se criança governasse o mundo", que se tornaram bastante conhecidas do público e receberam importantes premiações como: Prêmio Jabuti da Câmara Brasileira do Livro (1994, 2001, 2005); Prêmio APCA - Associação Paulista dos Críticos de Arte (1990, 1993); Prêmio da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (1987, 1990, 1993, 1998, 2001); Prêmio da Associação Brasileira de Escritores (1997). São, ao todo, 21 livros, sendo 16 infantis. Alguns publicados em inglês e espanhol. Um deles ("Se criança governasse o mundo") já está disponível em versão eletrônica. Tanta produção coloca Marcelo Xavier como o autor de maior vendagem do selo Formato, da Editora SaraivaInformações da editora repassadas ao autor.

A aproximação com o público infantil acabou promovendo um intenso envolvimento do autor com a Arte Educação, sobretudo nas oficinas de modelagem para crianças e professores realizadas por todo o país. Nelas, Marcelo busca mostrar os caminhos encantados e extremamente simples da modelagem com massinha. Os participantes são estimulados, pela observação das ilustrações tridimensionais dos livros, a se entregarem a um exercício de criação individual, fazendo um boneco de massinha a partir das orientações do autor.

“Os livros são um encontro que o autor marca com o leitor, esperando que ele compareça. Se o encontro acontece, pode nascer uma forte ligação entre eles. Marquei meu primeiro livro encontro com as crianças em 1987. Ele se chamava 'O dia a dia de Dadá' e era um livro de imagens, sem texto. Os pequenos leitores compareceram e a tal 'forte ligação' aconteceu. Outros livros vieram, sempre com ilustrações tridimensionais, feitas com massa de modelar e fotografadas. A modelagem é uma paixão antiga. Na minha infância, eu usava barro para fazer bonecos. Depois que secavam ao sol, eram pintados com aquarela. A partir dos encontros com as crianças de várias partes do país, em oficinas de modelagem, posso garantir que elas sabem das coisas e das não-coisas. Crianças pensam com o coração, e têm soluções incríveis para todos os problemas. Por isso, e por puro amor, eu voto nelas!”XAVIER, M. Se criança governasse o mundo. São Paulo: Formato Editorial, 2009.

Na introdução do livro "Festas", a segunda parte da coleção "Folclore do Mestre André" - que ainda conta com "Mitos" e "Crendices e Superstições" - MX conta um pouco de sua infância e explica a influência que essa fase teve em sua obra:

“Todo janeiro, a fazenda dos meus avós, no interior de Minas, ficava estufada de primos e tios. Nada de compromissos, nada de horários. Férias! Você conhece bem o sabor dessa palavra, não é mesmo? Os dias começavam com uma bela mesa de café, e depois era só brincar, brincar e brincar. À noite, eram as rodinhas aconchegantes em volta de um tio – e tome histórias de assombração. Assim era dia após dia, sempre deliciosamente iguais.

Numa certa tarde, de sol muito quente, brincávamos de jogar pião no terreiro quando, de repente, uma batida forte de tambores veio vindo da estrada de terra que chegava na fazenda. Interrompemos imediatamente a brincadeira, levantamos as orelhas e espichamos os olhos na direção daquele som estranho. Na curva da estrada surgiu, então, uma figura mascarada vestindo uma roupa larga e estampada, cheia de fitas coloridas. A coisa rodopiava e dava saltos, sacudindo uns chocalhos amarrados na cintura, nos pulsos e nas canelas. Pra mim aquilo era o demônio que vinha cobrar nossos pecados. Eu tremia dos pés à cabeça.

A dança agitada daquela figura levantava uma poeira amarela que a luz do sol transformava em efeito especial. No meio da poeira, logo atrás do mascarado, vinham os músicos tocando viola, violões, tambores e pandeiros. Acima de tudo, uma bandeira vermelha presa a um mastro fazia aquela nuvem de poeira e gente parecer um barco maluco se arrastando pela estrada.

Chegaram até junto da sede da fazenda, tocaram, cantaram com uma voz aguda feito ponta de agulha, tomaram café com queijo, broa de fubá, biscoitos, e se foram. Meu coração não parou de pular um minuto.

Um tio me disse que aquilo era folclore.

Passei anos com medo de folclore.

Muito tempo depois, soube que havia assistido, naquelas féria, à passagem de uma autêntica Folia de Reis – uma das mais belas manifestações do folclore brasileiro.

Quando aceitei o desafio de fazer essa coleção me lembrei, imediatamente, daquela tarde na fazenda. A imagem daquele palhaço mascarado saltando e chacoalhando no meio da poeira, que tanto me apavorou, hoje é uma das minhas mais belas lembranças.

Com este trabalho, quero que você também conheça coisas fantásticas como a Folia de Reis e muitas outras maravilhas do nosso folclore.

Acho importante você saber que o folclore não é apenas uma coisa do passado, da tradição. Ele é vivo, e está presente no seu dia a dia, muito mais do que você imagina. Está na sua moeda da sorte, nos apelidos da sua turma de colégio, nas gírias, nas suas superstições, em algumas coisas que você come, em gestos, jogos, brincadeiras ou festas que você frequenta. Por isso é tão importante conhecer o folclore. Ele está ligado à nossa vida de um jeito muito forte.

Outra coisa que me empolgou nesse projeto foi o fato de poder mostrar imagens de nosso folclore por meio da técnica de modelagem que venho desenvolvendo há tempos. Fazer de massinha todas aquelas figuras e objetos do folclore seria fantástico. Trazer pra perto da minha – da sua – mão, de uma certa aquela forma, aquela maravilhosa Folia de Reis...

Portanto, se você encontrar, no lugar onde trabalho, uma pequena caixa, não abra. Podem pular lá de dentro o Saci, o Curupira, capetinhas e outras figuras muito estranhas que vão aprontar com você. Ou foliões e festeiros das nossas festas tão populares...”.XAVIER, M. Festas. São Paulo: Formato Editorial, 2000

A professora Silvia Fiúza, da Faculdade de Engenharia e Arquitetura da Universidade Fumec/BH, escreveu um artigo sobre a obra de Marcelo Xavier para a FEA reVISTA de agosto de 2015FIÚZA, S. A magia da literatura infato-juvenil na obra de Marcelo Xavier. FEA reVISTA, Universidade FUMEC/FEA, Belo Horizonte. n.14, ago/2015.. Nele, a professora se utiliza do trabalho da pesquisadora Nelly Novaes Coelho, da USP, para analisar a obra de MX. Destacando a importância de se resgatarem os contos, as fábulas e as narrativas fantásticas, apontados como energia vital para a atualidade - época em que está em curso uma mudança da percepção do homem em relação a si e ao mundo - Fiúza diz que "A função pedagógica recreativa e recriativa dos livros infantis, estudada e proposta por Nelly Coelho, é viva no conteúdo literário infantiljuvenil oferecido por Marcelo Xavier, cujo encantamento do universo fabuloso e mítico estimula a visão crítica da realidade, da cultura e de valores sociais e morais no leitor. A forma mágica e prazerosa, função humanizadora da obra do autor, é um recurso de estímulo à leitura e à reflexão. Seus livros dirigidos às crianças podem e devem ser lidos por adultos".

E justamente para os adultos, Marcelo Xavier lançou, em 2008, o livro de desenhos e textos "Caderno de Desenhos". Em 2011 foi a vez do livro de poesias "Tempo Todo", pela editora Asa de Papel.

No posfácio do "Caderno de Desenhos", Marcelo fala mais um pouquinho sobre sua trajetória:

“Vamos entrar nesta história com o filme pela metade. Já se foi a infância em Vitória, as férias na cidade natal, Ipanema, em Minas e a adolescência em Belo Horizonte. O ponto agora é o final dos anos 70. Divido um ateliê com o amigo Mário Vale. Começamos uma conversa sobre arte, na saída da faculdade, que nunca teve fim.

Nessa época, os ateliês mais alternativos, na zona Sul de BH, se escondiam nos barracões de fundo de casas. Eram os porões de nossas inconfidências. Lá fora, as botas da ditadura ameaçavam pisar nossos pescoços e suas tesouras, cortar nossas asas. Dos portõezinhos pra dentro, a gaiola se abria e voávamos. Visitávamos a arte de todos os tempos, investigávamos a estética e criávamos. Eram cenários, figurinos e adereços para espetáculos de teatro, música, dança e carnaval. Peças gráficas, programação visual e ambientações.

Por volta de 1972, nos juntávamos a um bando de 'criadores', numa casa do bairro da Floresta, contratados para fazer o parto da TV Educativa de Minas. Após dois anos de gestação, ela foi abortada. Em 1981, fomos convidados por Tutti Maravilha, para produzir e dirigir seu programa, 'Bazar Maravilha', na TV Alterosa. Era um programa de generalidades, em que pudemos experimentar estéticas de vídeo absolutamente novas, nos cortes, nas edições e nas abordagens. Ainda não existia o videoclip. Mais uma vez, a vanguarda não resistiu à força descomunal da retaguarda e o programa foi tirado do ar.

Apesar dos reveses, na minha cabeça, as imagens continuavam em movimento. Passei a fazer roteiros para vídeos, textos para teatro e animações.

Num belo dia de 1986, uma bola de massinha caiu do céu e me atingiu em cheio. Misturei-me a ela e saímos rolando pelo mundo das histórias infantis, das ilustrações tridimensionais e exposições. Essa bola cresceu e, hoje, rola pelo Brasil em oficinas de modelagem e, fora do país, nas traduções de alguns títulos em inglês, espanhol e japonês.

A cidade me fascina. A possibilidade de intervir em seu corpo é instigante. 'Pacatos monstros urbanos' e 'Aviso aos navegantes' foram duas destas intervenções, realizadas em isopor. Sempre tive uma queda pro matérias insólitas, que se encontram fora das muralhas da nobreza. Lápis de cor, papel, massa de modelar, isopor, caneta Bic, spray. Gosto de sua disponibilidade, de seu despojamento, de sua despretensão. Procuro tê-los por perto como lição de simplicidade e como lembrança de que a permanência eterna, seja do que for, é uma ilusão”.XAVIER, M. Caderno de Desenhos. Belo Horizonte, 2009

Foi colunista do jornal Hoje em Dia de junho de 2012 a junho de 2014. Escrevia às terças-feiras, dirigindo um olhar inusitado sobre a cidade e seus moradores. Entre as 104 crônicas produzidas, 31 foram selecionadas para o livro "A Cara da Rua", lançado em 2013.