O Convento de São Francisco, igualmente denominado de Convento Franciscano de Nossa Senhora da Esperança, Convento de Nossa Senhora da Esperança, e Convento dos Capuchos, é uma antiga casa monástica franciscana, situada na cidade de Portimão, na região do Algarve, em Portugal.

O convento foi construído no século XVI, tendo perdido as suas funções religiosas no século XIX, quando foi vendido a particulares. Foi reutilizado como depósito de cortiça e armazém ligado à indústria conserveira, e depois deixado ao abandono, tendo chegado a um avançado estado de degradação.

Apesar de ter uma aparência geralmente sóbria, apresenta alguns elementos de grande interesse artístico, como o claustro maneirista, e o portal manuelino da sala do capítulo. Foi classificado como Imóvel de Interesse Público em 1993.

No século XXI os proprietários e a autarquia de Portimão avançaram com várias propostas para a reabilitação e reconversão do monumento numa unidade hoteleira ou num estabelecimento de ensino, mas sem sucesso.

Descrição O convento situa-se na margem ocidental do Rio Arade, junto da foz daquele curso de água, e do porto, numa zona nobre de Portimão. É considerado um dos principais monumentos da cidade devido à sua história e situação geográfica, sendo uma das primeiras vistas que os visitantes têm de Portimão quando chegam por via marítima, como os passageiros dos navios de cruzeiro. Nas imediações do convento situa-se o Museu Municipal de Portimão. Pinho Leal, na sua obra Portugal Antigo e Moderno: Diccionario, editada em 1876, refere que o convento estava situado num local «formoso», mesmo junto ao rio, com as àguas a atingirem os muros da cerca durante as enchentes. Relata igualmente que o local em frente do convento era normalmente utilizado pelas embarcações para fundearem, antes da foz do rio ter sido bloqueada pelas areias.

Os edifícios do convento situam-se num terreno de grandes dimensões delimitado por uma cerca, sendo a área intra-muros moderna superior à original. O complexo é formado essencialmente por um conjunto de edifícios interligados de dois pisos, que inclui uma igreja, um claustro, várias salas capitulares, os dormitórios para os frades, e um refeitório. A igreja é o elemento mais antigo no convento, e apresenta uma estrutura simples e modesta, estando organizada numa só nave, com uma capela-mor de planta rectangular, que foi reformada durante o período maneirista, e um nártex de forma quadrangular. O coro da igreja está situado sobre o nártex, numa composição semelhante à da igreja do Convento de Nossa Senhora do Desterro, em Monchique. Destaca-se o portal de entrada, que é considerado como o principal elemento decorativo em todo o complexo. Em contraste, o portal do nártex é muito mais sóbrio, com arco de volta perfeita e moldura e cantaria. Também é de especial interesse um brasão circular, em pedra de jaspe, com as armas de Simão Correia, rodeado por um cordão vegetalista entrançado, estilisticamente integrado no manuelino tardio, que originalmente se encontrava no convento e foi transportado para o Museu de Portimão. Segundo Pinho Leal, este brasão tinha estado colocado «sobre as portas d'esta igreja». Refere igualmente que também existia um escudo de armas no arco da capela-mor, de D. Baltazar de Melo da Cunha e da sua esposa, D. Beatriz de Almada. Pinho Leal referiu igualmente que a igreja da Senhora da Esperança era alvo de grande devoção por parte dos habitantes da vila, «principalmente dos navegantes e pescadores». O templo possuía um alpendre, onde foi sepultado o frade Antonio de Silves, cuja campa indicava que tinha falecido devido à sua caridade, uma vez que tinha apanhado a peste enquanto tratava das pessoas atingidas por aquela doença.

O claustro, no estilo maneirista, apresenta dois andares de alturas desiguais, possuindo o superior cerca do dobro da altura do inferior. As alas do claustro são cobertas por abóbadas com cruzaria de ogivas, e dão acesso à quadra central através de catorze arcos de volta perfeita, suportados por pilares de planta quadrangular com impostas salientes. Originalmente todas as dependências no interior do convento tinham acesso ao claustro, espelhando a sua função como centro da vida comunitária no complexo. Estas dependências são diferentes entre si, apresentando os vários estilos típicos da época quinhentista, diversidade que pode ser explicada pelos vários períodos de construção do convento, destacando-se o portal da sala capitular, com arco contracurvado com motivos decorativos manuelinos. Na obra Levantamento arqueológico-bibliográfico do Algarve, os autores Mário e Rosa Varela Gomes documentaram a reutilização de duas colunas romanas no interior do convento.GOMES e GOMES, 1988:90

História Antecedentes e convento original O local onde se ergue o convento foi ocupado pelo menos desde a época romana, tendo sido encontrados vestígios de estruturas e outros materiais deste período na área da cerca. Pinho Leal refere que na Quinta de São Francisco, em frente da cerca do convento, foram encontradas sepulturas do período romano, que continham vestígios ostelógicos, moedas, um pequeno machado, e fragmentos de cerâmica, um destes com a marca de cunhagem Juniorum.LEAL, 1876:267-268

O primeiro impulso para a instalação de um convento no local deu-se em 1530, quando Simão Correia, capitão de Azamor e um das principais figuras do século XVI no Algarve, ofereceu um conjunto de vários edifícios junto ao rio à confraria dos Frades Observantes da Província de Portugal. Pinho Leal descreveu esta propriedade como «umas casas e quinta [...] que tinha junto ao rio, e que eram um pouco do sitio onde se construiu o mosteiro». Segundo Pinho Leal, Simão Correia tinha casado com D. Joana de Faria, da alta nobreza, motivo pelo qual o rei D. Manuel o distinguiu com a posição de aio da sua filha, D. Beatriz de Portugal. Assim, Simão Correia acompanhou-a até ao Sabóia após o seu casamento com D. Carlos III, tendo sido apenas no seu regresso a território nacional, em 1530, que doou as casas aos religiosos. Este complexo incluía uma uma pequena capela dedicada a Nossa Senhora da Esperança, que Simão Correia tinha construído como agradecimento pela intervenção divina durante a sua carreira militar. Os frades ocuparam o convento desde 1530 até 1533, ano em que a Província do Algarve se separou da de Portugal, tendo ficado entregue aos membros da nova Província.

Por ordem do rei D. João III, em 1541 os frades capuchos da Província da Piedade abandonaram o Convento de São Francisco, em Faro, que passou a ser ocupado pelos Franciscanos Observantes da Província de Portugal, e estabeleceram-se no convento de Portimão. Pinho Leal argumentou que esta transição de Faro para Portimão teve origens em desavenças entre aquela comunidade e o monarca: «Tinham os religiosos da Piedade, um mosteiro na cidade de Fáro, então habitado por frades de exemplar virtude. D. João III, quiz que elles se encarregassem da direcção de um convento de freiras da sua ordem, que havia na mesma cidade. Os frades não quizeram acceitar o governo de mulheres, com receio de que, com o tempo, se viesse a relaxar a sua regra, ou houvesse algum escândalo; e por mais que o rei e sua mulher, a rainha D. Catharina, instassem com os frades, elles oppozeram uma tenaz resistência. Para se livrarem de novas instancias, offereceram ao rei o seu mosteiro, para o dar aos padres observantes da província do Algarve, e para que estes tomassem a seu cargo a direcção do mosteiro das freiras; mas largando aos capuchos um mosteiro que andavam a construir em Portimão. O rei acceitou a proposta, e, no anno de 1541, havida a licença do geral da ordem, se passaram os capuchos para esta villa, a tomar posse do seu novo mosteiro».LEAL, 1876:265-266 Este processo de transferência foi duramente criticado por Nuno Rodrigues Barreto, que tinha impulsionado a construção do convento de Faro, tendo por este motivo exigido a instalação de um novo edifício monástico em Loulé, cujas obras também financiou.

Construção do convento definitivo Assim, em 1541 Simão Correia fundou um novo convento no local das antigas instalações da Província da Piedade, que foram quase totalmente demolidas para a construção de um novo edifício, mais adequado à regra dos frades capuchos, tendo o único elemento sobrevivente do complexo original sido a igreja. Simão Correia foi depois sepultado, em conjunto com o irmão, na primeira casa do capítulo do convento. Segundo Pinho Leal, a capela-mor original da igreja era de reduzidas dimensões, tendo sido reconstruída por ordem do fidalgo D. Baltazar de Melo da Cunha ou D. Belchior de Mello Cunha, e pela sua esposa, D. Beatriz de Almada, de forma a ficar «mais ampla e com grande perfeição». Foram ambos sepultados na capela-mor, com uma pedra tumular a indicar que D. Beatriz tinha falecido em 1585, já após a morte do marido. D. Beatriz deixou no seu testamento que mais ninguém poderia ser enterrado na sepultura, a não ser um sobrinho seu ou os seus descendentes, ou alguma pessoa que fosse considerada suficientemente notável. Pediu igualmente aos seus herdeiros que todos os anos fornecessem os materiais que fossem necessários à fábrica da capela-mor, e azeite, vinho e hóstias para as missas que fossem ali feitas. Esta obrigação foi dada a um morgado criado por D. Beatriz, «e que depois possuiu Gaspar Sarria, pessoa principal d'esta villa». Uma vez que tanto os fundadores como os patrocinadores do convento faleceram sem deixar descendentes, o patronato foi depois entregue aos Condes de Vila Nova de Portimão, «que foram sempre protectores sollicitos do mosteiro».

A construção do complexo prolongou-se pelo menos até à transição para o século XVII, como se pode verificar pela diversidade das formas e estilos presentes nas várias dependências do convento, correspondentes aos vários estilos em voga durante as obras. Por exemplo, o portal da sala capitular possui elementos decorativos que a identificam como parte da primeira fase de construção do edifício, enquanto que o portal do nártex foi instalado na Década de 1570, e as alas do claustro e o refeitório terão sido construídos na viragem para o século XVII.

Declínio e encerramento O convento chegou a ser um dos mais importantes centros espirituais do Algarve, mas entrou numa fase de profundo declínio após o século XVIII. Foi muito danificado pelos sismos de 27 de Dezembro de 1722,PEREIRA, 1915:115 e de 1 de Novembro de 1755, tendo este último provocado a derrocada da abóbada da igreja e de algumas dependências, levando a uma relocalização temporária da comunidade para a Igreja do Corpo Santo.

Na Carta geral que comprehende os planos das principaes barras da costa de Portugal aqual se refere a carta reduzida da mesma costa, elaborada por Marino Miguel Franzini em 1811, regista-se a presença de uma bateria junto ao Convento de São Francisco, então conhecido como Convento dos Capuchos. Em 1834, o convento foi abandonado na sequência da extinção das ordens religiosas, tendo sido posteriormente vendido em hasta pública, pelo valor de 4000$000, a José Maria Eugénio de Almeida. Segundo a Chorographia Moderna do Reino de Portugal, editada em 1876, a proprietária do antigo convento era D. Maria das Dores, viúva de José Maria Eugénio de Almeida. Também pertenceu ao par do reino Carlos Maria Eugénio de Almeida. O complexo foi reutilizado em diversas funções, agravando o seu processo de degradação. Em 24 de Abril de 1884, o antigo convento foi devastado por um incêndio, sendo nessa altura a igreja utilizada como depósito para cortiça.

Século XX