A história oral é o trabalho de pesquisa que faz uso de fontes orais, coletadas por meio de entrevista oral gravada, em diferentes modalidades.
Em primeiro lugar, a emergência da história do século XX com um novo estatuto, definido por alguns como a História do tempo presente, portanto portadora da singularidade de conviver com testemunhos vivos que sob certo aspecto condicionam o trabalho do historiador, coloca obrigatoriamente em foco os depoimentos orais. Além disso, as próprias transformações das sociedades modernas e as consequentes mudanças no conteúdo dos arquivos, que cada vez mais passam a dispor de registros sonoros, impulsionam a tendência a uma revisão do papel das fontes escritas e orais. Para o suprimento de lacunas documentais, os depoimentos orais revelaram-se de grande valia.
A coleta de depoimentos pessoais mediante a utilização de um gravador iniciou-se na década de 1940 com o jornalista Allan Nevins, desenvolvedor de um programa de entrevistas voltado para a recuperação de informações acerca da atuação dos grupos dominantes norte-americanos. Esse programa veio a constituir o Columbia Oral History Office, organismo que serviu de modelo para outros centros criados nos anos 50 em bibliotecas e arquivos no Texas, Berkeley e Los Angeles. Esse primeiro ciclo de expansão do que se chamou de história oral privilegiou o estudo das elites e se atribuiu a tarefa de preencher as lacunas do registro escrito através da formação de arquivos com fitas transcritas. A partir dos anos 1950, com a invenção e difusão do gravador a fita na Europa, América do Norte e América Central por historiadores, antropólogos, cientistas políticos, sociólogos, pedagogos, teóricos da literatura, psicólogos e outros profissionais que adquirem relatos orais como fontes para a compreensão do passado, ao lado de outros documentos, como fotografias e documentos escritos, a história oral cresce.
A plena expansão desse processo constituiu um verdadeiro boom, e teve lugar apenas na segunda metade dos anos 60, prolongando-se ao longo da década de 1970, especialmente nos EUA. As lutas pelos direitos civis, travadas pelas minorias de negros, mulheres, imigrantes, etc., seriam agora as principais responsáveis pela afirmação da história oral, que procurava dar voz aos excluídos, recuperar as trajetórias dos grupos dominados, tirar do esquecimento o que a história oficial sufocara durante tanto tempo. A história oral se afirmava, assim, como instrumento de construção de identidade de grupos e de transformação social — uma história oral militante.
A publicação da obra de Paul Thompson, The voice of the past, em 1978, radicalizou a ideia de que a história oral tem por função devolver a história do povo, promover a democratização da história em si mesma. Nesse aspecto, a História oral deveria se afirmar como uma contra-história, operando uma inversão radical nos métodos e objetos consagrados. Deveria ser uma história militante e politicamente engajada.
Enquanto nos Estados Unidos e na Inglaterra houve uma aceitação mais ampla das fontes orais na prática histórica, na França o domínio da abordagem estrutural e quantitativa da Escola dos Annales limitou a penetração da história oral, mantendo o foco no registro escrito como fonte principal para a pesquisa histórica.
O uso da história oral pode ser compreendido como uma metodologia, uma técnica, e uma disciplina. Porém, independente de como é utilizada, é essencial que se faça uma pesquisa e o levantamento de dados, a elaboração de roteiros e entrevistas antes de se fazer o trabalho de campo. 300px|thumb|O decorrer de uma entrevista com o uso de um gravador.
Os três diferentes entendimentos da história oral Existem diferentes posturas a respeito da história oral. Apesar de ser numerosa a quantidade de pesquisadores que a considerem uma metodologia, ela também é entendida como uma técnica e uma disciplina. A discussão de um status que a defina é uma questão muito comum no campo de estudo que desvenda as possibilidades de utilização.FERREIRA, Marieta de Moraes; AMADO, Janaína. Usos & abusos da história oral. FGV Editora, 1996. pp. xi
História oral como metodologia Os pesquisadores que interpretam a história oral como metodologia entendem que ela é uma ponte entre a teoria e a prática, que estabelece e ordena procedimentos de trabalho, como os tipos de entrevista e suas implicações para a pesquisa, as possibilidades de transcrição das fitas gravadas, as maneiras de lidar com os entrevistados.FERREIRA, Marieta de Moraes; AMADO, Janaína, op. cit., p. xvi.
Com isso, cria-se uma nova definição de se fazer história, através do contato direto da fonte histórica, é possível por meios metodológicos definidos como depoimento oral (que busca através do depoimento do entrevistado, elucidar a problemática de interesse), história da vida (que consiste em ouvir a própria história do entrevistado, para que se possa absorver em algum dado momento, as informações necessárias para desenvolver seu estudo) e, relato de vida (que nada mais é que desenvolver o mesmo processo do método da história oral, porém, tendo um objeto específico a ser considerado durante seu relato).LANG, Alice B. S. G. Desafios da Pesquisa em Ciências Sociais. História oral: procedimentos e possibilidades. São Paulo, 2011.
História oral como técnica Os que a entendem como técnica geralmente preocupam-se com as experiências com gravações, transcrições de entrevistas, tipos de aparelhagem de som e formas de transcrição de fitas, modelos de organização de acervos, etcFERREIRA, Marieta de Moraes; AMADO, Janaína, op. cit., p. xii.. A história oral dentro desse contexto é um conjunto de procedimentos técnicos para a utilização do gravador em pesquisa e para conservação de fitas de gravação, sendo um produto do cruzamento da tecnologia do século XX com a curiosidade humana.ROGER, William. Notes on history. International Journal of Oral History, 7(1):23-8, Feb. 1986.
História oral como disciplina Os que a consideram uma disciplina acreditam que ela iniciou técnicas de pesquisa, procedimentos metodológicos singulares e um conjunto próprio de conceitos.FERREIRA, Marieta de Moraes; AMADO, Janaína, op. cit., p. xiii. Esses pesquisadores não dissociam a história oral como teoriaMIKKA, Ian. What on Earth is oral history? In: ELLIOT, James K. (ed.). New Trails in history. Sydney, Australian Press, 1988. pp. 124-136.. Na verdade, reconhecem que ela é uma área de estudos com objetivo próprio e capacidade de gerar soluções teóricas para questões surgidas na prática.FERREIRA, Marieta de Moraes; AMADO, Janaína, op. cit. p. xvi.
A problemática da fonte oral A Story-teller reciting from the "Arabian Nights." (1911) - TIMEA|400px|thumb|A oralidade é algo comum em todas as Eras e sociedades do mundo.
A história oral se mostra inovadora ao dar atenção especial a pessoas que são consideradas excluídas da história, como por exemplo, o proletariado, as mulheres e os idosos,THOMPSON, Paul. A Voz do Passado: história oral. Rio de Janeiro: Paz e Terra 1992. p. 44. à história do cotidiano e vida privada, à história local e enraizada, além de possuir abordagens que priorizam uma história próxima e comum a qualquer pessoa, que foca as diferentes maneiras de ver e sentir, numa perspectiva da micro-história.FRANÇOIS, Etiene. A fecundidade da história oral. Les Cahiers de l'IHTP. Paris (4):33-43, junho 1987, Entretanto, a credibilidade das fontes orais é regularmente questionada.CRUIKSHANK, Julie. Oral tradition and oral history: reviewing some issues. Canadian Historical Review, setembro de 1994, p. 407.
A confusão entre história e memória e entre o que é ser historiador e history maker se põe dentro do quadro de questionamento. History maker é a denominação atribuída aos autores que escrevem sobre o passado sem fazer uso das regras estabelecidas pela comunidade acadêmica, ou que recolhem depoimentos orais carregando a crença em que o relato individual expressa em si mesmo a história. Enfim, generaliza-se uma confusão entre história-objeto e história-conhecimento, entre história vivida e história como uma operação intelectual. Nos últimos tempos tem sido crescente a demanda do grande público pela história vivida e a valorização das obras dos history makers. Essa produção tem sido vista como mais atraente por apresentar uma narrativa de leitura mais agradável e de mais fácil compreensão. Estabelece-se assim uma competição entre duas formas de acesso ao passado e reatualiza-se a disputa entre amadores e profissionais. A história oral, um instrumento privilegiado para recuperar memórias e resgatar experiências de histórias vividas, tem sido amplamente utilizada por esses setores e alçada à condição de uma disciplina. Nesse caso a coleta de depoimentos e sua publicação transformam-se em um fim e si mesmo e não devem ser submetidos à análise crítica da investigação histórica.
Através da oralidade é possível a transmissão de conhecimentos da memória humanaHAVELOCK, Eric. A equação oralidade-cultura escrita: Uma formula para a mente moderna. In: OLSON, David R; TORRANCE, Nancy. Cultura escrita e oralidade. Editora Ática, 1995, p. 17.. Antes do surgimento da escrita, era comum que as pessoas passassem umas as outras seus conhecimentos oralmente, porque a memória auditiva e visual eram seus recursos era o armazenamento e transmissão da sabedoria.MACHADO, Vanda. Tradição oral e vida africana e afro-brasileira. In: SOUZA, Florentina; LIMA, Maria Nazaré.Literatura Afro-brasileira. Salvador: Centro de Estudos Afro-Orientais, p. 80.
A linha historiográfica que explora as relações entre memória e história rompe com uma visão determinista que limita a liberdade dos homens, coloca em evidência a construção dos atores de sua própria identidade e reequaciona as relações entre passado e presente ao reconhecer claramente que o passado é construído segundo as necessidades do presente. Ainda que baseada nas fontes escritas, possibilita uma maior abertura, capaz de neutralizar, em parte e indiretamente, as tradicionais críticas feitas ao uso das fontes orais, consideradas subjetivas e distorcidas.
Apesar de seu uso crescente, a sua credibilidade enquanto fonte é questionada por parte de alguns acadêmicos porque o entrevistado pode ter uma falha de memória, pode criar uma trajetória artificial, se auto-celebrar, fantasiar, omitir ou mesmo mentir.GRELE, Ronald J. Pode-se confiar em alguém com mais de 30 anos? Uma crítica construtiva à história oral. In: Usos & abusos da história oral. FGV Editora, 1996, p. 268. Mesmo diante dessa "não confiabilidade da memória",VOLDMAN, Danièle. Definições e usos. In: Usos & abusos da história oral. FGV Editora, 1996, p. 40. conseguiu-se estabelecer uma metodologia bem estruturada para a produção de dados a partir dos relatos orais.VOLDMAN, Danièle. op. cit., p. 37.
O que poderia ser percebido como um problema acaba se transformando em um recurso, uma vez que o próprio entrevistador, no ato de produção da narrativa histórica, não deixa de produzir uma versão do que entendeu ter acontecido<ref>VOLDMAN, Danièle. op. cit', p. 38.</ref>. Mesmo quando o pesquisador tem a certeza de que o entrevistado está mentindo conscientementeFRANÇOIS, Etienne. op. cit, p. 9., cabe a ele, entrevistador, tentar entender as razões da "mentira", ou seja, quais os motivos que estão levando a pessoa a mentir, podendo ser aplicado o mesmo no caso da ilusão biográfica, quando o indivíduo faz uma produção artificial de si mesmo.