thumb|260px|Irlandeses-americanos A imigração irlandesa nos Estados Unidos foi intensa. De acordo com dados do censo americano, 33,1 milhões de americanos disseram ter ascendência irlandesa, 10,4% da população dos Estados Unidos. Este número é sete vezes maior que a população da Irlanda, que conta com somente 4,6 milhões de habitantes. É também a segunda maior ancestralidade apontada pelos americanos, perdendo apenas para a alemã. Outros 3,5 milhões (1% dos americanos) disseram descender de Scotch-Irish ("escoceses-irlandeses").Ancestry in the United States Porém, esses dados devem ser analisados com cautela, pois são baseados na autodeclaração dos entrevistados, o que pode não refletir a realidade demográfica.
Os irlandeses imigraram para os Estados Unidos desde os tempos coloniais. No século XVII, chegaram poucos irlandeses, a maioria católicos e muitos foram trabalhar como servos. Por sua vez, no século XVIII, chegaram dezenas de milhares de irlandeses às Treze Colônias, a maioria deles, protestantes de Úlster, no norte da Irlanda, sendo predominantemente presbiterianos, mas também anglicanos e quakers. Esses protestantes foram morar principalmente na região dos Apalaches, e seus descendentes são geralmente conhecidos como Scotch-Irish.
Porém, foi no século XIX que a imigração irlandesa para os Estados Unidos atingiu seu auge, principalmente em decorrência da grande fome de 1845–1849 na Irlanda. Grande parte da população irlandesa dependia de batata para se alimentar, o que resultou numa tragédia quando o phytophthora infestans contaminou as plantações de batata do país. Cerca de um milhão de irlandeses morreram de fome, e cerca de dois milhões imigraram para sobreviver. Essa imigração foi predominantemente composta por católicos.
Os irlandeses e seus descendentes estão espalhados por todo o território norte-americano e têm participação ativa na sociedade local. Vinte e sete presidentes dos Estados Unidos tinham alguma ascendência irlandesa, de Andrew Jackson até o presidente Joe Biden.
A imigração durante o período colonial
Metade dos imigrantes irlandeses nos Estados Unidos colonial (1607–1775) veio da província irlandesa de Úlster, enquanto a outra metade veio das outras três províncias (Leinster, Munster e Connacht). Durante o século XVII, a imigração da Irlanda para as Treze Colônias foi pequena. De acordo com o Dictionary of American History, de 50.000 a 100.000 irlandeses, mais de 75 por cento deles eram católicos, vindo para a América no século XVII, enquanto outros mais de 100.000 católicos irlandeses chegaram no século XVIII. Irlandeses que trabalhavam sob o sistema de servidão formavam o grupo mais comum, e, na década de 1740, nove em cada dez servos eram irlandeses.Kutler, S. (2003). Irish Americans, pp. 423–426. alt=Map showing subregions of Appalachia.|thumb|252x252px|A região dos Apalaches, onde os imigrantes irlandeses mais concentraram-se, durante o período colonial No século XVIII, a emigração da Irlanda para as Treze Colônias deixou de ser predominantemente católica para ser principalmente protestante e, permaneceria assim, com exceção da década de 1790, até meados da década de 1830, com os presbiterianos constituindo a maioria absoluta, até 1835. Esses irlandeses descendiam principalmente de pastores e administradores coloniais escoceses e ingleses, que, no século anterior, haviam imigrado para o norte da Irlanda, com incentivo do governo britânico.Philip Robinson, The Plantation of Ulster, St. Martin's Press, 1984, pp. 52–55 De 1717 a 1775, embora as estimativas acadêmicas variem, estima-se que 250.000 irlandeses emigraram para as Treze Colônias. Nos Estados Unidos, seus descendentes ficariam conhecidos como "Scotch-Irish" ou "Scots-Irish" ("escoceses-irlandeses"). Esse termo, porém, é problemático, porquanto parte do pressuposto de que esses irlandeses eram descendentes de colonos escoceses que migraram para o norte da Irlanda e, após algumas gerações, para os Estados Unidos; contudo sabe-se que muitos desses irlandeses eram descendentes de colonos ingleses e galeses, e não somente de escoceses. Embora os presbiterianos, predominantemente de origem escocesa, formaram o maior elemento dentro da emigração de Úlster para a América colonial, os anglicanos e os quakers de origem inglesa também participaram. Estima-se que 30% dos que deixaram Úlster para a América colonial eram protestantes, mas não presbiterianos.The Scotch-Irish & the Eighteenth-Century Irish Diaspora
Os Scotch-Irish estabeleceram-se no interior dos Apalaches meridionais e nas Carolinas. Como eles chegaram tardiamente, as zonas costeiras das Treze Colônias já estavam ocupadas ou eram muito caras, de modo que eles rapidamente partiram para o interior mais montanhoso, onde a terra poderia ser obtida com menos custos. O início da vida na fronteira foi desafiador, mas a pobreza e as privações já eram familiares para eles. Os Scotch-Irish estavam frequentemente em conflito com as tribos indígenas que viviam do outro lado da fronteira. Foram eles que travaram a maior parte dos combates contra indígenas na fronteira americana, de New Hampshire às Carolinas.Leyburn 1962, p. 228Ray Allen Billington, Westward Expansion (1972) pp 90-109; Toby Joyce, "'The Only Good Indian Is a Dead Indian': Sheridan, Irish-America and the Indians", History Ireland 2005 13(6): 26-29 Os Scotch-Irish tendiam a trabalhar como fazendeiros independentes, mas não como latifundiários ou senhores de escravos. De fato, as poucas áreas anti-escravagistas do Sul incluíam as áreas onde os Scotch-Irish estavam concentrados. A família de Abraham Lincoln veio dessa região.Thomas Sowell. Ethnic America: A History. Editora : Basic Books; Revised ed. edição (21 março 1983). pág. 24.
Os Scotch-Irish tornaram-se o principal grupo cultural nessas áreas, e seus descendentes estavam na vanguarda do movimento para o oeste, atravessando da Virgínia para o Tennessee e o Kentucky, e daí para Arkansas, Missouri e Texas. No século XIX, misturaram-se com colonos ingleses e alemães e acabaram por perder a sua identificação com a Irlanda. Tornaram-se "americanos". Seus descendentes tiveram uma grande influência sobre a cultura dos Estados Unidos, por meio de contribuições como a música country que, depois, se tornaria popular em todo o país.Scholarly estimates vary, but here are a few: "more than a quarter-million", Fischer, David Hackett, Albion's Seed: Four British Folkways in America Oxford University Press, USA (March 14, 1989), pg. 606; "200,000", Rouse, Parke Jr., The Great Wagon Road, Dietz Press, 2004, pg. 32; "...250,000 people left for America between 1717 and 1800...20,000 were Anglo-Irish, 20,000 were Gaelic Irish, and the remainder Ulster-Scots or Scotch-Irish...", Blethen, H.T. & Wood, C.W., From Ulster to Carolina, North Carolina Division of Archives and History, 2005, pg. 22; "more than 100,000", Griffin, Patrick, The People with No Name, Princeton University Press, 2001, pg 1; "200,000", Leyburn, James G., The Scotch-Irish: A Social History, University of North Carolina Press, 1962, pg. 180; "225,000", Hansen, Marcus L., The Atlantic Migration, 1607–1860, Cambridge, Mass, 1940, pg. 41; "250,000", Dunaway, Wayland F. The Scotch-Irish of Colonial Pennsylvania, Genealogical Publishing Co (1944), pg. 41; "300,000", Barck, O.T. & Lefler, H.T., Colonial America, New York (1958), pg. 285.James Webb, Born Fighting, Broadway Books (2004), pgs 253-264.
Do ponto de vista econômico, a colonização dos Scotch-Irish foi mal sucedida, quando comparados, por exemplo, com os alemães que se fixaram na mesma região. Os alemães prosperaram, enquanto que os Scotch-Irish produziram um dos bolsões de pobreza mais duradouros entre os americanos brancos. Tanto os Scotch-Irish quanto os alemães dedicavam-se principalmente à agricultura familiar. Em geral, os Scotch-Irish chegaram antes dos alemães, portanto puderam escolher as melhores terras; mas, mesmo assim, as comunidades Scotch-Irish ficaram para trás economicamente. Em uma geração, os alemães alcançaram um sucesso econômico impressionante, muitas vezes passando para a classe média, enquanto os Scotch-Irish ficaram para trás na pobreza, e muitos dos seus descendentes permanecem assim até hoje. O termo pejorativo "hillbilly" tem sido frequentemente aplicado a seus descendentes.
A imigração em massa do século XIX Imigração irlandesa nos Estados Unidos (1820–1975) Período Número deimigrantes Período Número deimigrantes 1820–1830 54,338 1911–1920 146,181 1831–1840 207,381 1921–1930 220,591 1841–1850780,719 1931–1940 13,167 1851–1860914,119 1941–1950 26,967 1861–1870 435,778 1951–196057,332 1871–1880 436,871 1961–1970 37,461 1881–1890 655,482 1971–1975 6,559 1891–1900 388,416 1901–1910 399,065 Total : 4,720,427
A situação dramática na Irlanda
No final do século XV, os britânicos controlavam apenas algumas cidades muradas e costeiras da Irlanda; contudo, com o avançar dos anos, acabaram por conquistar toda a ilha. O domínio britânico sobre a Irlanda foi muito severo com a população irlandesa. Muitos proprietários de terra católicos tiveram suas terras confiscadas e transferidas para colonos ingleses e escoceses de religião protestante. Em 1641, os irlandeses católicos eram proprietários de 75% das terras na Irlanda, porém, em 1665, essa porcentagem caiu para 20% e, em 1790, para apenas 14%. Sob o comando de Oliver Cromwell, os britânicos instituíram as Leis penais, que tentaram erradicar a religião católica na Irlanda e impedir que os irlandeses progredissem economicamente e politicamente. As atividades da Igreja Católica foram severamente limitadas e os católicos foram obrigados, por lei, a pagar dízimo para a construção de igrejas protestantes. Apenas a educação protestante era permitida e os católicos foram proibidos de votar, de ocupar cargos públicos e de casar com protestantes. Embora essas leis não tenham sido aplicadas integralmente, elas tinham como objetivo forçar os irlandeses a se converterem ao protestantismo e manter os católicos excluídos.Thomas Sowell. The Economics and Politics of Race: An International Perspective. Blackstone Pub (20 novembro 2012) direita|thumb|200px|Memorial às vítimas da fome, em Dublin.
No século XIX, a situação dos camponeses irlandeses era dramática. Enquanto a expectativa de vida de um escravo nos Estados Unidos era de 36 anos, a de um camponês irlandês, na mesma época, era de apenas 19 anos. Os camponeses irlandeses praticamente só comiam batata e, ocasionalmente, peixe; a carne era uma raridade. De acordo com um relato da época, os irlandeses mais afortunados comiam batata três vezes ao dia; outros, menos afortunados, duas; aqueles em situação de indigência apenas uma; há alguns ainda mais destituídos, que ficam um ou mesmo dois dias sem qualquer alimentação. Os camponeses moravam em cabanas feitas de barro, com telhados de palha, geralmente sem ventilação. A pobreza dos irlandeses não tinha paralelo no mundo, e era uma pobreza que contrastava com a riqueza dos senhores de terras de ascendência inglesa ou escocesa. Uma classe média entre os senhores de terras e o campesinato era praticamente inexistente.