At Long Last Love (Amor, Eterno Amor, no Brasil; At Long Last Love, em Portugal) é um filme escrito, produzido e dirigido por Peter Bogdanovich e estrelado por Burt Reynolds e Cybill Shepherd, num elenco que incluía também Madeline Kahn, Duilio Del Prete, John Hillerman, Eileen Brennan e Mildred Natwick. Lançado em 1 de março de 1975, o musical foi um fracasso entre o público (recuperando apenas um quarto do dinheiro nele investido) e entre os críticos.

Utilizando dezesseis canções de Cole Porter, muitas das quais não haviam sido ouvidas por anos, especialmente em suas versões completas com letras adicionais que eram raramente usadas, o filme de época conta a história de dois casais que vivem os dilemas dos amores correspondidos e não-correspondidos na Nova Iorque da década de 1930. Foi uma tentativa do diretor, Peter Bogdanovich, de fazer uma homenagem aos musicais de Hollywood da mesma época retratada.

Lançado em uma época em que os musicais hollywoodianos não conseguiam muito retorno, At Long Last Love não foi exceção, mas ficou particularmente marcado por tentar reinventar a própria produção padrão de um musical, fazendo com que os atores cantassem as músicas ao vivo, no lugar de apenas dublarem faixas pré-gravadas em um estúdio de gravação. Devido ao seu fracasso, o diretor chegou a publicar uma carta aberta aos leitores de diversos jornais e revistas dos Estados Unidos, numa tentativa de se "desculpar" com o público. Além disso, o filme não teve um lançamento em home video em larga escala por quase quarenta anos, sendo lançado apenas em Blu-ray em 2013, numa "versão definitiva do diretor" que restaurava sequências deixadas de lado quando o filme foi originalmente lançado.

Entre as principais críticas negativas estavam a de John Simon, da revista Esquire, que chamou At Long Last Love de "o pior musical desta — ou de qualquer outra — década" e do crítico brasileiro Luiz Carlos Merten, da coluna "Sem Categoria" do jornal O Estado de S. Paulo, que o chamou de "o musical mais antimusical do cinema". Por outro lado, Roger Ebert defendeu o filme, chamando-o de "uma peça de entretenimento [...] impecavelmente estilosa". Na história de Hollywood, o filme ficou, no entanto, marcado como uma péssima produção, sendo citado em diversas listas de piores filmes já produzidos.

Enredo

Quatro membros da sociedade norte-americana dos anos 1930 inesperadamente se encontram: a herdeira recém-destituída Brooke Carter conhece o playboy pobre e imigrante Johnny Spanish numa corrida de cavalos, enquanto o playboy milionário e entediado Michael Oliver Pritchard III quase atropela a estrela de musicais Kitty O'Kelly com seu carro. Nos bastidores do show de Kitty, ela se encontra com Brooke, uma velha amiga com a qual havia estudado no colegial, e os quatro passam a passear pela cidade, acompanhados da criada de Brooke, Elizabeth, e de Rodney James, o mordomo de Michael, por quem Elizabeth se apaixona. Os quatro amigos trocam de parceiros durante uma festa, na qual Brooke e Michael têm conversas íntimas do lado de fora e são vistos por Kitty e Johnny, que decidem deixar ambos enciumados ao começar um romance falso. Posteriormente, eles acabam se apaixonando genuinamente, enquanto o mesmo acontece a Brooke e Michael e, eventualmente, a Elizabeth e Rodney. Depois de brigaram por isso, Michael e Johnny decidem fazer as pazes quase que imediatamente, enquanto Brooke e Kitty fazem o mesmo. Os dois casais começam, então, a sair novamente, mas continuam a trocar de parceiros.

Elenco 200px|direita|thumb|Burt Reynolds estrelou o filme, no papel do playboy Michael Pritchard.

Burt Reynolds como Michael Oliver Pritchard III Cybill Shepherd como Brooke Carter Madeline Kahn como Kitty O'Kelly Duilio Del Prete como Johnny Spanish Eileen Brennan como Elizabeth John Hillerman como Rodney James Mildred Natwick como Mabel Pritchard

Seção adaptada a partir do perfil do Allmovie.

Produção Desenvolvimento thumb|200px|esquerda|O cineasta Peter Bogdanovich exerceu tripla função no filme: atuou como diretor, produtor e roteirista.|alt=|O cineasta Peter Bogdanovich exerceu tripla função no filme: atuou como diretor, produtor e roteirista.

A ideia inicial que geraria o filme surgiu quando Peter Bogdanovich recebeu um livro com canções de Cole Porter da sua então namorada, Cybill Shepherd. Segundo o diretor, a obscura balada "I Loved Him (But He Didn't Love Me)" foi a canção que despertou a ideia de uma comédia musical sobre um quarteto que vivia os dilemas de amores correspondidos e não-correspondidos. Ele inspirou-se, ainda, nos musicais dos anos 1930 de Ernst Lubitsch. Em entrevista a Peter Biskind, Bogdanovich afirmou ainda que o filme era uma versão fantasiosa do seu próprio divórcio, na qual "todos terminavam virando bons amigos". A primeira cena escrita foi um diálogo entre duas das principais personagens, Brooke Carter e sua amiga, Kitty O'Kelly, que se encerrava com a canção. Esta cena acabaria sendo a penúltima numa das versões do filme. "Em outras palavras, eu praticamente escrevi o fim antes de qualquer outra coisa", declarou o cineasta. A passagem — uma das favoritas do diretor — acabaria por ser eliminada no corte final feito antes do lançamento do filme.

At Long Last Love foi o primeiro filme de Bogdanovich após a debacle da The Directors Company causada pelo fracasso de Daisy Miller no ano anterior. Apoiado pela sua agente Sue Mengers, o diretor recebeu seiscentos mil dólares da 20th Century Fox para roteirizar, produzir e dirigir o filme, além de 25% de participação nas bilheterias.Biskind, 2009, p. 288. O roteiro foi escrito em um tempo em que os musicais, assim como os filmes de faroeste, eram vistos pelos novos diretores da Nova Hollywood, oriundos da televisão ou de cursos superiores de cinema, como meros alvos de estudo e crítica, ao mesmo tempo em que eram geralmente tratados de forma satírica ou mesmo irônica. Foi uma das poucas tentativas de fazer um musical num sentido mais estrito por parte dos diretores do movimento, ao lado de Finian's Rainbow (1967), estrelado por Fred Astaire e realizado por Francis Ford Coppola, e New York, New York (1977), do cineasta ítalo-americano Martin Scorsese. Os musicais eram, à época, com as notáveis exceções dos trabalhos de Bob Fosse e de Grease, "fossos de dinheiro". Para o colunista Nick Pinkerton da The L Magazine, no entanto, mais do que um filme sem retorno, um musical havia se tornado a "forma preferida de hari-kiri" dos diretores da Nova Hollywood.

Seleção do elenco thumb|200px|direita|Duilio Del Prete foi um dos últimos nomes escalados para o filme.|alt=Duilio Del Prete já havia trabalhado com o diretor no seu último filme, Daisy Miller.

Bogdanovich originalmente anunciou que o elenco seria composto por Cybill Shepherd, Madeline Kahn, Ryan O'Neal e ele mesmo. Cybill, inclusive, já havia gravado um álbum com canções de Cole Porter intitulado Cybill Does It... To Cole Porter, com a produção do próprio Bogdanovich, que não tinha nenhuma experiência prévia com direção e produção musical. Posteriormente, Bogdanovich desistiu de interpretar o playboy Michael Pritchard e preferiu procurar um ator conhecido para o papel, que foi então oferecido a Elliott Gould, que o recusou. Ryan O'Neal, que já havia trabalhado com o diretor em What's Up, Doc? (1972) e Paper Moon (1973), precisou deixar o filme devido aos atrasos de Barry Lyndon, a produção de Stanley Kubrick que ele estrelou no mesmo ano em que At Long Last Love foi lançado.

Entre os atores principais que se confirmaram na produção, apenas Burt Reynolds ainda não havia trabalhado em algum filme anterior do diretor. Shepherd e Eileen Brennan já tinham participado de The Last Picture Show e Daisy Miller. Kahn havia estreado no cinema em What's Up, Doc? e participado na sequência de Paper Moon, num papel que lhe rendeu uma indicação ao Oscar de melhor atriz coadjuvante (vencido pela sua companheira de elenco, Tatum O'Neal). John Hillerman, por sua vez, atuou em pequenos papéis em The Last Picture Show e What's Up, Doc?, enquanto Mildred Natwick e Duilio Del Prete tinham participado de Daisy Miller como a Sra. Costello e o Sr. Giovanelli, respectivamente.

John Hillerman era o único ator, dentro do elenco principal, sem grande experiência com o canto. Assim como Cybill (que declarou cantar desde os nove anos de idade, quando era integrante de um coral), Reynolds já havia gravado um álbum completo antes de ingressar no elenco de At Long Last Love: Ask Me What I Am foi lançado em 1973 e recebeu críticas negativas. Madeline Kahn e Eileen Brennan já tinham experiência como cantoras por suas atuações em musicais da Broadway como Leonard Sillman's New Faces of 1968 e Hello, Dolly!. Mildred Natwick, por outro lado, também já havia atuado em diversas peças no teatro desde a primeira metade da década de 1930, mas só estreou como cantora em 70, Girls, 70 em 1971, aos 62 anos. Duilio Del Prete, por sua vez, era um conhecido cantor-compositor na Itália, que já havia lançado discos nos anos 60 e cantado, inclusive, em Daisy Miller, filme no qual também tocou piano em uma performance de "When You and I Were Young, Maggie", ao lado da protagonista da película, Cybill Shepherd. Indagado a respeito das habilidades de canto e dança dos dois protagonistas, Bogdanovich afirmou ao The Hollywood Reporter que "ambos conseguiam carregar uma canção ao mesmo tempo que atuavam", e comparou o método utilizado ao que foi usado por Les misérables em 2012.

Filmagens O estúdio inventou um pequeno ponto eletrônico que cabia dentro dos ouvidos dos atores. Enquanto eles o usavam, podiam ouvir o instrumental das canções gerados por um teclado conectado a uma câmera. Na sequência, a orquestra entrava em ação, da mesma forma que se fazia nos primeiros anos do cinema falado, por volta de 1929 e 1930. Em decorrência disto, durante as filmagens, o produtor associado Frank Marshall foi preso em Pasadena, porque alguns moradores da cidade conseguiram captar o sinal de áudio que os atores recebiam em seus pontos e o acusaram de operar uma rádio clandestina.

Resistindo à tentação de filmar outro filme em preto e branco, Bogdanovich buscou um visual de "preto e branco em cores". László Kovács, que já havia trabalhado em outros filmes do cineasta, como Targets, What's Up, Doc? e Paper Moon foi o diretor de fotografia do filme (que ele considerou a sua "obra-prima"). Outros membros da equipe técnica incluíam John Robert Lloyd como diretor de arte, Bobbie Mannix como figurinista, Jerry Wunderlinch como cenógrafo e Gene Allen como designer de produção. Albert Lantieri e Rita Abrams foram os encarregados de ajudar os atores na preparação das coreografias dos números musicais.

Edição

At Long Last Love foi alvo de muitas edições e cortes antes e depois de seu lançamento. Verna Fields, que já havia trabalhado com Bogdanovich em What's Up, Doc?, seria a editora original do filme, mas precisou declinar do convite para trabalhar em Jaws.Biskind, 2009, p. 277. Doug Robertson, então, tornou-se o editor oficial da obra, enquanto Peter Bogdanovich retinha direitos ao corte final. Numa das primeiras prévias, Bogdanovich estava acompanhado da sua agente, Sue Mengers. Segundo Mengers, "a plateia estava em silêncio, [mas] todo mundo ficava dizendo para ele como tudo tinha ido bem". Peter respondia: "Pois é, vocês ouviram as risadas?", até que Sue o cortou: "Peter, o público não estava rindo".Biskind, 2009, p. 288.Biskind, 2009, p. 289.