Funk ostentação é um estilo musical brasileiro, criado no ano de 2008, na cidade de São Paulo. Desenvolveu-se primeiramente na Região Metropolitana de São Paulo e na Baixada Santista, antes de alcançar proporções nacionais a partir de 2011.
Os temas centrais abordados nas músicas referem-se ao consumo e a propriamente dita ostentação, onde grande parte dos representantes procura cantar sobre carros, motocicletas, bebidas e outros objetos de valor, além de fazerem frequentemente citações a mulheres e ao modo de como alcançaram um maior poderio de bens materiais, exaltando a ambição de sair da favela e conquistar os objetivos. O gênero foi criado como uma alternativa à lírica abordada pelo ritmo carioca, que citava essencialmente conteúdos relacionados com a criminalidade e com uma vida de sofrimento.
A primeira canção do estilo foi gravada pelos MCs Backdi e Bio G3 em setembro de 2008, intitulada "Bonde da Juju", fazendo menção clara para a ostentação. Após a realização de diversos festivais do gênero no estado, vários cantores foram sendo descobertos, enquanto outros acabaram se readaptando ao funk ostentação, que alcançou a primeira exibição nacional com o lançamento do videoclipe "Megane", do cantor MC Boy do Charmes, em meados de 2011. Quando tornou-se de senso comum que o funk ostentação seria melhor representado no formato audiovisual, o cinegrafista KondZilla inovou ao ser o primeiro a produzir conteúdos visuais, que foram recebidos com ampla aprovação pelos fãs. Para exemplificar isto, três videoclipes do ritmo estiveram entre os dez mais vistos nos anos de 2012 e 2013.
A consolidação do funk ostentação como um dos gêneros mais conhecidos do país aconteceu com o trágico falecimento de Daniel Pellegrine, conhecido no meio artístico como MC Daleste, o qual foi alvejado por dois tiros de arma de fogo enquanto realizava um show em Campinas, em julho de 2013. Ele era um dos principais representantes do estilo no momento de sua morte, a qual foi noticiada nacional e até internacionalmente, tornando-o um dos nomes mais pesquisado no Google no Brasil naquele ano. A exposição do caso na mídia fez com que outros artistas do funk concedessem entrevistas aos canais de televisão com depoimentos sobre a carreira e o fato acontecido.
Com o surgimento de um grupo econômico conhecido como nova classe média, o funk ostentação passou a obter estrita relação com os membros do mesmo, que após conseguirem uma elevação na situação financeira, buscam seguir os passos dos artistas, tornando este o gênero mais escutado pelos que se encontram neste patamar. Atualmente, os principais representantes do ritmo e que acumulam maior número de visualizações em suas canções e videoclipes são MC Guimê, MC Lon, MC Gui e Pocah.
O funk ostentação esteve muito popular de 2011 até 2014; porém, com os impactos da crise econômica de 2014 no país, o subgênero entrou em declínio e acabou sendo substituído por outros dois subgêneros do funk, o funk chavoso e o funk ousadia.
Influências e tema Durante muitos anos, cultivou-se uma grande rivalidade entre os estados de São Paulo e Rio de Janeiro no que tange aos estilos musicais predominantes em cada região. O Rio de Janeiro, por exemplo, criou o ritmo funk carioca, que possui em sua essência temas como a vida nas favelas e a exaltação da mulher - esta última, através do funk melody, e ao "proibidão", que canta sobre criminalidade e possui conteúdos de apelo sexual; no entanto, tal estilo não era aceito em São Paulo, pois era julgado pela maioria como alienante - apesar de uma crítica social se encontrar presente. Em contrapartida, os paulistas apresentavam um discurso contundente espelhado nos rappers norte-americanos da chamada velha escola do hip hop, preocupando-se em expor os problemas do governo em batidas pesadas e agressivas, as quais não foram bem-recebidas no estado vizinho por serem vistas como "chatas e antidiversão". Esta divisão explica a existência de poucos cantores de funk em São Paulo, bem como poucos rappers no Rio de Janeiro. Com o funk ostentação, essa divisão entre os estados acabou ficando bem menor, visto que ambos encontraram um "meio-termo" em seus ideais.
Não há um tema único tratado nas canções de funk ostentação, porém, como o próprio nome já diz, a maioria dos artistas faz uma menção a ostentar, ou seja, vangloriar-se com alta pompa sobre algo. Entre os assuntos mais utilizados pelos artistas estão os bens materiais - como carros, motocicletas, casas, apartamentos, roupas, acessórios e bebidas - mulheres e a ascensão social, ocasionada por uma ideia de ambição e superação. Apesar de ostentação ser antônimo para termos como humildade e simplicidade, os cantores citam frequentemente em suas canções tais atributos, para demonstrar que com perseverança conseguiram alcançar os seus objetivos. Um dos principais exemplos disso é o ex-pedreiro MC Boy do Charmes, autor do primeiro videoclipe de funk ostentação, que utiliza versos de superação em quase a totalidade de suas músicas. Para MC Bio G3, precursor do estilo, a ostentação não se resume em exibir-se: "Mas nosso objetivo não é esbanjar, e sim mostrar que, mesmo vindo de baixo, a gente conseguiu chegar aqui e qualquer um pode chegar também".
Após o crescimento da popularidade do gênero paulista, a opinião dividiu-se entre os especializados no assunto. DJ Marlboro, um dos principais representantes da história do funk carioca, considerou em uma entrevista à Folha de S.Paulo que "o Rio não abriu o olho e agora São Paulo está dominando". O pesquisador e autor do livro "101 Funks que você tem que ouvir antes de morrer", Julio Ludemir, afirmou que teme que com a onda da ostentação, o funk desapareça da favela, como aconteceu com o samba, quando afirma: "o funk está se firmando no mercado formal, mas é asfixiado na favela, o que atrapalha sua renovação".
O funk e o rap, em especial o rap brasileiro, sempre tiveram uma ligação próxima no ponto em que ambos abordavam a cultura da favela de forma humilde, e que era contra o consumo exagerado de bens. No entanto, este "boom" que o funk ostentação provocou na música modificou também o cenário do rap no país e causou inúmeras polêmicas. Os críticos mais conservadores, adeptos do hip hop alternativo e do gangsta rap, comumente proferem frases como "adeus rap nacional", e "o rap nacional foi morto". A posição de que os dois ritmos se opõem no que tange ao conteúdo lírico é defendida por rappers como MV Bill e Carlos Eduardo Taddeo, ex-Facção Central.
Considerado como o maior rapper da história brasileira, Mano Brown foi alvo de diversas críticas ao participar de um videoclipe de Pablo do Capão, seu conterrâneo do Capão Redondo, onde não participou de nenhum verso. Membro do mesmo grupo, os Racionais MC's, o cantor Ice Blue também esteve no meio de uma polêmica ao participar junto com Sandrão, do RZO, no clipe "Estilo Gangster" do também rapper Túlio Dek, em uma clara demonstração de influência da ostentação. Após ser alvo de graves acusações sobre o fato, Blue tentou esclarecer: "Os moleques se organizaram e perceberam que o funk ostentação dá dinheiro, é o que abriu a porta, é o que vende o sonho. Caras com dois, três anos de funk já conquistaram coisas que cara com quinze anos de rap não conquistou. Tem cara do funk com oito, nove casas, comprou casa para a mãe. Os caras do rap não conquistaram nem sua própria casa com o rap. E a gente tem que continuar chancelando isso?" Apesar do surgimento ser o mesmo, o cenário do rap brasileiro difere muito do visto nos Estados Unidos, e este é o que mais se aproxima com o funk ostentação. Cantores como 50 Cent, Snoop Dogg, Puff Daddy e Nelly são exemplos de rappers que utilizam objetos de ouro e portam veículos de luxo, servindo assim de inspiração para os cantores da ostentação.
História Surgimento e crescimento O funk carioca nunca foi um dos estilos musicais mais populares no estado de São Paulo, sendo que em meados da década de 1990, cerca de cinco DJs executavam canções do gênero em festas e bailes. DJ Baphafinha, um dos pioneiros na profissão em São Paulo, afirmou que o funk chegou na Baixada Santista no ano de 1995, através de Lourival Fagundes, dono da gravadora Footloose. Sem fazer nenhuma menção à ostentação, os MCs Jorginho e Daniel compuseram a primeira música de funk paulista, chamada "Fubanga Macumbeira", que em tom humorado fazia menção à mulheres. Desde tal momento até 2008, o funk do estado de São Paulo procurou abordar temas como a criminalidade e o erotismo, mantendo a sonoridade e a temática muito similares ao do funk carioca, tendo como destaque nomes como MC Dinho da Neném, MCs Renatinho & Alemão, e MC Duda do Marapé.
O surgimento do funk ostentação se deu no ano de 2008, e é unanimidade entre os cantores do meio que o precursor foi o MC Bio G3, que também trabalha como empresário e produtor. Bio G3, juntamente com seu parceiro Backdi, gravaram a canção "Bonde da Juju", a qual apresenta em seu refrão: "Quem não é, não se mete / Porra / Nóis só porta Oakley / É o bonde da Juliet / Tá de Juliet, Romeo 2 e Double Shox / 18 K no pescoço, de Ecko e Nike Shox". Morador da Cidade Tiradentes, ele havia começado a sua carreira musical no rap, por volta de 2006, mas preferiu inverter seu caminho e deu início a um novo gênero musical. Ao começar a citar o nome de várias marcas, ele admite que sofreu represálias das mesmas, que não queriam ter seu nome associado à músicas de classe C. As primeiras músicas veiculadas utilizavam bases de rap e começavam a ser veiculadas em locais abertos e em participações de shows de artistas de outros gêneros.
280px|direita|thumb|MC Dedé (à esquerda), cantor de funk e vencedor do III Festival de Funk de São Paulo. Bio G3 se tornou conhecido pelo seu esforço em trazer o funk da ostentação ao público da periferia; para isso, contou com a ajuda do vice-prefeito da Cidade Tiradentes, Renato Barreiros, para a criação do "Festival de Funk do Estado de São Paulo". A cada ano, o festival recebia um número maior de artistas e espectadores, chegando a receber quase 90 cantores e mais de 30.000 pessoas acompanhando as atrações. MC Guimê, MC Nego Blue e MC Dedé são alguns exemplos de cantores que tiveram suas carreiras impulsionadas pelo festival; Dedé chegou a vencer uma edição da competição.
Um dos principais artefatos utilizados pelo funk ostentação para a divulgação das músicas foi a realização de videoclipes com objetos que justificassem a ostentação, como carros, motocicletas, roupas, perfumes e acessórios. O primeiro produtor a alcançar reconhecimento nacional foi Konrad Dantas, conhecido pelo nome artístico KondZilla. Ademais, o primeiro videoclipe de funk ostentação foi veiculado em julho de 2011, com a música "Megane" do MC Boy do Charmes, que alcançou três milhões de visualizações no primeiro mês. KondZilla havia utilizado o dinheiro que recebeu da morte de sua mãe para comprar uma câmera profissional Canon 5D e resolveu estudar marketing e cinema, sendo que ao passar dos anos tornou-se o produtor mais respeitado do funk ostentação - junto com o carioca Tom Rodrigues - e expandiu seu trabalho para outros gêneros musicais, fazendo parcerias com artistas como Cláudia Leitte e Charlie Brown Jr.