Letra dominical é uma letra do alfabeto que indica qual o dia ou os dias em que ocorre um Domingo ao longo de qualquer ano do Calendário juliano ou gregoriano, desde o primeiro ao último dia desse ano, e que aparece colocada ao lado de cada um dos dias do ano de um calendário eclesiástico universal.

Letra dominical tem a sua grafia influenciada da raiz latina da palavra — "dies dominicus" ou "dominica" (com c) — dia do senhor, o domingo —, mas, como na língua portuguesa o dia correspondente se diz e escreve — "domingo" (com g) —, também se pode dizer e escrever letra domingal ou letra domingual, como vemos nas instruções do calendário inicial do Livro de Horas chamado de Dom Manuel ou no chamado Códice de Bastião Lopes.Códice Bastião Lopes. Lisboa: Imprensa nacional — Casa da Moeda, 1987.

História Como o conceito de Domingo só se torna vulgar para um calendário anual por influência da religião cristã, também só a partir daí podemos em rigor falar do uso de letras dominicais.

Constantino, depois de assinar o Édito de Milão acordado dom Licínio, governador do oriente, no ano de 313, admitindo a tolerância religiosa de diferentes cultos, procurava conciliar laços que unissem o império. No ano 321, uniformiza e generaliza a estrutura semanal de 7 dias (tradição judaico-cristã) e o dia de descanso fica sob o símbolo do Sol — o Dia do Sol — Dias Solis, o que também apelava a tradições do Sol Invicto e do Mitraismo. A associação dos astros que presidem a cada dia da semana ainda se revela nos nomes dos dias da semana em diferentes línguas, principalmente ocidentais, à exceção de algumas, como a portuguesa.

Os cristãos escolheram o Domingo como o dia da celebração comunitária da fé e que afirmava uma alteração do dia de descanso em vez do sábado, na divisão dos dias da semana de origem judaica, grupos de sete dias, que se repetem indefinidamente para a frente e para trás. E assim substituem o nome de Dia do Sol por Domingo. É esta tradição litúrgica que se revela nos nomes dos dias da semana na língua portuguesa.

O monge cita Dionísio (ou Dinis), o Mínimo (c. 470 — c. 544), que escreve, em Roma, por volta do ano 530 d.C., que estudou uma forma de cálculo do dia de Páscoa, ao mesmo tempo que estabelece uma correspondência entre os anos da era romana e os anos desde o nascimento de Cristo, e, mais tarde, com o monge inglês Beda, o Venerável, em particular na sua História Eclesiástica do Povo Inglês, concluída por volta do ano 731, influenciaram a datação habitual dos anos pela Era de Cristo ou Anno Domini (ou simplesmente A.D.), e o uso da das letras dominicais e do número áureo, nos calendários eclesiásticos, ao lado do calendário romano, para o cálculo ou computação dos dias da semana e das festas móveis da liturgia cristã.

A partir da Alta Idade Média, as letras dominicais tornaram-se uma das marcas características dos calendários cristãos e ajudam a identificar os dias transpostos da semana de origem judaica para os calendários cristãos, que passaram a utilizar no império romano o calendário juliano, resultante da reforma de Júlio César.

Quantas e quais são as letras dominicais? Como as letras dominicais estão associadas a semanas de 7 dias, também as letras dominicais são sempre e apenas sete; e habitualmente usam-se as sete primeiras letras do alfabeto latino: A, B, C, D, E, F e G. Em muitos calendários dos missais e livros de horas medievais mais antigos, as letras dominicais eram escritas geralmente em letras minúsculas, mas a primeira — A — aparece também muitas vezes escrita em maiúscula.

Como estamos a referir-nos a dias e anos, também podemos distinguir as letras dominicais dos dias e as letras dominicais do ano.

As letras dominicais dos dias do ano são fixas, uma para cada dia do ano, e sempre a mesma. thumb|Letras dominicais do dia As letras dominicais do ano não são fixas porque o número de 365 dias do ano não é múltiplo de 7. Estas variam de ano para ano, de uma forma também regular, recuando na sequência das Letras dominicais: 1 letra em cada ano comum, 2 quando um ano é bissexto. O ano comum de 1982 tem como letra dominical a C; o ano comum de 1983 a B; o ano bissexto de 1984 as Letras dominicais A e G; o ano comum de 1985 a F; o ano comum de 1986 a E; e o ano comum de 1987 a D.

A letra que indica os Domingos de um ano organiza a sequência das outras Letras dominicais que vão indicar os outros dias da semana em qualquer dia de um Ano Comum ou Bissexto. Se a letra dominical de uma é B, todos os dias do ano com letra B serão domingos, os dias com letra C serão segunda-feira, os dias com letra D serão terça-feira, etc..

A combinação das sequências possíveis das Letras Dominicais de acordo com as regras dos Anos Comuns e Bissextos permite organizar tabelas ou listas dos anos em 28 linhas, onde se encontram todas as combinações dos 7 dias da semana e do ciclo de 4 anos do calendário juliano (3 anos comuns seguidos de 1 ano bissexto) - 7 x 4 = 28. Esse ciclo de 28 anos era também designado ciclo solar ou dionisíaco por comparação com o ciclo lunar. Essa combinação das letras dominicais era constante antes da reforma gregoriana e iniciava-se num ano bissexto com as letras dominicais GF (ano 1 desse ciclo). Depois da reforma gregoriana, esse ciclo foi interrompido e só é válido para conjuntos de 28 anos que não incluam os anos centenários não divisíveis por 400 (os anos 1700, 1800 e 1900). O próprio ano da reforma, 1582, implicou mudança da letra dominical que foi G até ao dia 4 de outubro e passou a C no dia seguinte, 15 de outubro, com o salto de 10 dias.

Para que servem as letras dominicais? Em primeiro lugar, as Letras dominicais servem para saber em que dia ocorriam os domingos, e, claro, todos os outros dias da semana de qualquer ano. Em segundo lugar, a combinação dos Números Áureos com as Letras dominicais permite organizar tabelas de cálculo das festas móveis do Ano litúrgico para qualquer ano, para simplificar o cômputo das Festa móveis do Calendário litúrgico cristão desde a Septuagésima até à Páscoa, e da Páscoa até ao Pentecostes, ao Corpo de Cristo, e mesmo o número de semanas até aos domingos do Advento.

Combinando três instrumentos já conhecidos — o calendário anual, às vezes já com as festas fixas para cada dia, a letra dominical e o número áureo — temos então um modelo simples de calendário universal e perpétuo que encontramos nos missais das igrejas e mosteiros, desde a Idade Média no século XIII.

Era no Advento, antes de terminar o ano civil, que se começava a anunciar as datas das festas litúrgicas móveis do ano seguinte.

Os mesmos cálculos do calendário eclesiástico anual passaram a ser usados pelos tabeliães ou notários para a datação de documentos, escrituras e registos públicos, como um testamento pessoal ou um Foral do Rei.

Exemplo de datação de um documento por uma festa móvel do calendário litúrgico: "Na era de 1188 [da Era de César], no dia seguinte à Páscoa". O ano de 1188 na Era de César corresponde ao ano 1150 da Era de Cristo e teve como letra dominical A e Número áureo 11. A Páscoa ocorreu a 16 de Abril. Portanto, o documento está datado de 17 de abril.Documento do Cartório de São Bento d'Ave Maria do Porto, citado por João Pedro Ribeiro no Tomo II das Dissertações chronologicas e criticas sobre a historia (...), editado em 1811, online na BNP https://purl.pt/12115

Exemplo de datação de um documento por uma data fixa do calendário: Em 15 de Agosto de 1250, no dia da Assunção da Bendita Virgem, D. Afonso III, encontrando-se em Évora, doou carta de foral à vila de Torres Vedras.http://www.arquivo-tvedras.pt/ficheiros/historia-torres-vedras-pdfs/12%20A%20Fundacao%20do%20Concelho%20de%20Torres%20Vedras.pdf (tradução do original em latim) " Feita esta carta em Évora no mês de Agosto, no dia da Assunção da Virgem Bem-Aventurada. Eu Afonso, rei de Portugal e conde de Bolonha, que esta carta mandei fazer com minhas próprias mãos autenticar, corroboro e confirmo com a aposição do meu selo. Era de mil duzentos e oitenta e oito".

Inúmeros missais manuscritos em Portugal integram, nas suas primeiras folhas, calendários romanos acrescentados com as letras dominicais, como por exemplo os mais antigos missais do Mosteiro de Alcobaça, conservados na Biblioteca Nacional de Portugal, em Lisboa.

Por que mudam as letras dominicais de um ano para o seguinte, ou em relação ao anterior? Porque os dias que são domingos num ano, por exemplo, de 1985, não serão os mesmos dias no ano anterior nem no ano seguinte. E por quê? Porque com a reforma do calendário juliano, proclamado por Júlio César, que se aconselhou com o matemático e astrónomo Sosígenes de Alexandria, determinava que o calendário oficial passaria a ser organizado de forma a concordar com mais rigor com o movimento anual do Sol, que foi calculado como tendo em média 365 dias e 1/4 de dia (ou 6 horas), para simplificar, pois Sogígenes também já sabia que não eram exatamente 6 horas. As 6 horas a mais de cada ano seriam então reunidas num determinado ano, sempre de 4 em 4 anos, formando mais um dia inteiro (1/4 x 4 = 1) — e esse seria o ano bissexto, com 366 dias.

Os calendários anuais passariam a ser calculados em sequências ou ciclos de 4 anos — três anos seguidos de 365 dias e um quarto ano de 366 dias -. Há, portanto, no calendário juliano e no gregoriano, anos comuns de 365 dias e anos bissextos de 366 dias.

Como mudam as letras dominicais de um ano para o seguinte, ou em relação ao anterior? Ora, o número 365 quando dividido por 7 dá um resultado de 52 e um resto de 1; e o número 366, quando dividido por 7, dá um resultado de 52 e um resto de 2. Um ano comum de 365 dias equivale a um conjunto de 52 semanas e mais um dia; e um ano bissexto de 366 dias equivale a 52 semanas e mais 2 dias.

Assim, o primeiro dia do ano seguinte a um ano comum avançará um dia da semana em relação ao primeiro dia do ano anterior. Quando um ano é bissexto, o primeiro dia do ano seguinte avançará dois dias da semana em relação ao primeiro dia do ano anterior.

Por exemplo: 1976 foi um ano bissexto e teve início a um quinta-feira; e as letras dominicais desse ano foram DC. O ano de 1977, que se lhe seguiu, é um ano comum e teve início a um sábado; e a sua letra dominical é B. O ano de 1978 é igualmente um ano comum e teve início a um domingo; e a sua letra dominical foi A. O ano de 1979 é igualmente um ano comum e teve início a uma segunda-feira; e a sua letra dominical foi G. 1980 foi um ano bissexto e teve início a um terça-feira; e as letras dominicais desse ano foram FE. O ano de 1981, que se lhe seguiu, é um ano comum e teve início a uma quinta-feira; e a sua letra dominical é D. O ano de 1982 é igualmente um ano comum e teve início a uma sexta-feira; e a sua letra dominical foi C. O ano de 1983 é igualmente um ano comum e teve início a um sábado; e a sua letra dominical foi B. 1984 foi um ano bissexto e teve início a um domingo; e as letras dominicais desse ano foram AG. O ano de 1985, que se lhe seguiu, é um ano comum e teve início a uma terça-feira; e a sua letra dominical é F. O ano de 1986 é igualmente um ano comum e teve início a uma quarta-feira; e a sua letra dominical foi E. O ano de 1987 é igualmente um ano comum e teve início a uma quinta-feira; e a sua letra dominical foi D.

Assim, regra geral, os dias que serão domingo num ano qualquer correspondem ao atraso de um dia em relação aos dias do ano anterior comum ou ao atraso de dois dias quando o ano anterior foi bissexto. Por exemplo, o primeiro domingo de 1985 foi o dia 6 de janeiro, e no próximo ano, 1986, será o dia 5 de janeiro. O dia a mais, além das 52 semanas, faz recuar um dia da semana, entre um ano comum e o seguinte. Nos anos bissextos, o recuo será de dois dias da semana — de 1984 para 1985. Eis um exemplo que serve tanto para o calendário gregoriano como para o juliano: